Passagens sobre Bibliotecas

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Frases sobre bibliotecas, poemas sobre bibliotecas e outras passagens sobre bibliotecas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Esta Prosa Travada

P√Ķe-se a gente a ler estes Gides, estes Munthes, estes Malraux. E √© sempre a mesma sensa√ß√£o de plenitude. Sempre a mesma sensa√ß√£o de que, depois daquilo, n√£o vale a pena escrever uma palavra, de mais a mais nesta l√≠ngua de que o diabo ainda se serve para falar √† av√≥… Mas depois vem a revolta. Esta impotente revolta de todo o verdadeiro escritor portugu√™s que come√ßou por nascer atr√°s duma fraga e acaba por gastar a vida em Paio Pires, amanuense de secretaria. Metessem no bra√ßo dum Gide uma manga de alpaca, e eu queria ver… Ent√£o um homem nasce em Paris ou numa terra lavada da Su√©cia, tanto faz, mestres logo √† beira do ber√ßo, todas as civiliza√ß√Ķes na biblioteca do pai, uma vida inteira pelo mundo al√©m, e aqueles neur√≥nios, e aqueles sentidos n√£o h√£o-de reagir?! O mais bronco ser humano, quando fala com um Wilde, ouviu pelo menos falar o autor do De Profundis. Evidentemente √© preciso mais alguma coisa do que ir √† China e ter certa experi√™ncia para escrever A Condi√ß√£o Humana. Mas, sem um homem andar de avi√£o, como h√°-de um homem ganhar perspectivas de p√°ssaro e falar de po√ßos de ar?!
…E a gente n√£o tem outro rem√©dio sen√£o gastar as horas a fabricar esta prosa travada,

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A Minha Biblioteca é o Meu Harém

Olho para as centenas de livros no meu gabinete e apercebo-me que n√£o toquei na maior parte deles depois de os ter lido ou dado uma vista de olhos pela primeira vez. Mas nem sequer considero a hip√≥tese de me desfazer deles – ent√£o, e se eu quiser abrir este ou aquele um dia destes? Gastei o meu √ļltimo dinheiro tanto a adquirir novos livros como em prostitutas. Comprar livros novos √© um prazer muito diferente do prazer de ler: examinar, cheirar, folhear um livro novo √© a pr√≥pria felicidade.
Os livros dão-me confiança pela sua disponibilidade, de que posso sempre aproveitar-me se quiser. O mesmo acontece com as mulheres Рpreciso de muitas delas e têm de se abrir à minha fente como os livros. Na verdade, para mim, os livros e as mulheres são semelhantes de muitas formas. Abrir as páginas de um livro é o mesmo que afastar as pernas de uma mulher Рo conhecimento revela-se à nossa vista.
Todos os livros t√™m um odor pr√≥prio: quando abrimos um livro e cheiramos, cheiramos a tinta, e √© diferente em cada livro. Rasgar as p√°ginas de um livro √© um prazer inenarr√°vel. Mesmo um livro est√ļpido me d√° prazer quando o abro pela primeira vez.

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Fui um Leitor Apaixonado

Eu fui um leitor apaixonado. N√£o havia livros em minha casa, mas costumava ler bastante nas biblioteca p√ļblicas, especialmente √† noite. Lia indiscriminadamente. Lembro-me de ler a tradu√ß√£o do ¬ęPara√≠so Perdido¬Ľ quando tinha 16 anos. N√£o havia ningu√©m que me dissesse o que experimentar a seguir. Por isso tive uma educa√ß√£o liter√°ria an√°rquica cheia de lacunas, mas com o tempo consegui organizar uma esp√©cie de vis√£o coerente da literatura, acima de tudo da literatura francesa.

Leia, Ouça, Veja, mas sobretudo, Pense

Se grandes inven√ß√Ķes ou descobertas, como o fogo, a roda ou a alavanca, se fizeram antes que o homem fosse, historicamente, capaz de escrever, tamb√©m se p√Ķe como fora de d√ļvida que mais rapidamente se avan√ßou quando foi poss√≠vel fixar intelig√™ncia em escrita, quando o saber se p√īde transmitir com maior fidelidade do que oralmente, quando biblioteca, em qualquer forma, foi testamento do passado e base de arranque para o futuro. A livro se veio juntar arquivo, para o que mais ligeiro se afigurava; e fora de bibliotecas ou arquivos ficaram os milh√Ķes de p√°ginas de discorrer ou emo√ß√£o humana que mais ligeiras pareceram ainda, ou menos duradouras. Escrevendo ou lendo nos unimos para al√©m do tempo e do espa√ßo, e os limitados bra√ßos se p√Ķem a abra√ßar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a n√≥s. Leia.
Milh√Ķes de homens, por√©m, no mundo actual est√£o incapacitados de escrever e de ler, muito menos porque faltam m√©todos e meios do que incitamento que os levante acima do seu t√£o dif√≠cil quotidiano e vontade de quem mais pode de que seus reais irm√£os mais dependam de si pr√≥prios do que de exteriores e quase sempre enganadoras salva√ß√Ķes. Mais se comunica falando do que de qualquer outra forma;

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Livro de minha alma aqui o tenho: √© a B√≠blia. N√£o o encerro na biblioteca, entre os de estudo, conservo-o sempre √† minha cabeceira, √† m√£o. √Č dele que tiro o p√£o para a minha fome de consolo, √© dele que tiro a luz nas trevas das minhas agonias.

No Egito, as bibliotecas eram chamadas ”Tesouro dos rem√©dios da alma”. De fato √© nelas que se cura a ignor√Ęncia, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.

Os Meios de Comunicação Têm Sempre Razão

A domina√ß√£o intelectual √© dif√≠cil se n√£o dispomos de uma tribuna medi√°tica. Em vez de perdermos longos anos a reflectir sobre o sentido da vida, as rela√ß√Ķes entre homens e mulheres, a influ√™ncia da alimenta√ß√£o transg√©nica na produ√ß√£o leiteira das vacas normandas (conhe√ßo um investigador que passou quarenta anos a estudar as t√©rmitas; admite n√£o ter conseguido desvendar-lhes o segredo que, no seu entender, existe!) ou qualquer assunto mais ou menos relacionado com o destino da Humanidade, mais vale come√ßarmos por arranjar meios de aceder √† redac√ß√£o de um jornal ou, melhor, de um canal televisivo. Com efeito, √© a import√Ęncia do meio de comunica√ß√£o em termos de audi√™ncia que determina a supremacia de uma opini√£o. Qualquer tolice cat√≥dica emitida entre as 20 e as 20:30 horas √© mais cred√≠vel que a conclus√£o amadurecida de um col√≥quio de especialistas. Porqu√™ mais cred√≠vel? Porque mais acreditada.
O p√ļblico aprecia a confirma√ß√£o de que √© verdade aquilo que sente como verdadeiro (por exemplo, que os pol√≠ticos s√£o podres ou que a Madonna √© a mulher mais sensual do mundo). Este g√©nero de opini√£o, no entanto, s√≥ passa a ser uma evid√™ncia depois de ter sido santificado por um meio de comunica√ß√£o.

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O Espírito Negativo dos Filósofos

Ficam reduzidos a uma √ļnica frase bem sucedida os nossos grandes fil√≥sofos, os nossos maiores poetas, dizia ele, √© essa a verdade, lembramo-nos muitas vezes apenas daquilo a que se chama uma tonalidade filos√≥fica e mais nada, dizia ele, pensei. Estudamos uma obra grandiosa, a obra de Kant por exemplo, e essa obra fica, com o correr do tempo, reduzida √† pequena cabe√ßa de prussiano oriental, que √© a de Kant, e a um universo inteiramente vago, feito de noite e de n√©voa, que vai dar √† mesma incapacidade de todos os outros, dizia ele, pensei, Pretendia ser um universo de grandiosidade, e dele n√£o restou mais do que um pormenor ris√≠vel, assim dizia ele, pensei, e assim acontece com tudo. Aquilo a que chamamos grandeza n√£o passa, afinal, de algo que apenas nos comove por provocar o riso e a compaix√£o. O pr√≥prio Shakespeare confrange-nos com o seu rid√≠culo se tivermos um momento de lucidez, dizia ele, pensei. J√° h√° muito que os deuses figuram nas nossas canecas de cerveja adornados apenas duma barba, dizia ele, pensei. S√≥ o imbecil √© que venera, dizia ele, pensei. O chamado homem de esp√≠rito consome-se a produzir uma obra que ele considera digna de marcar uma √©poca,

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Nenhum lugar proporciona uma prova mais evidente da vaidade das esperan√ßas humanas do que uma biblioteca p√ļblica.

Felicidade Neurótica

– N√£o te assustes, continuo a ser a mesma velha Madeline. Ouve o que encontrei hoje na biblioteca, quando estava a ler os jornais. Escuta. – Tirou um peda√ßo de papel da algibeira dos jeans. – Copiei de um jornal. Palavra por palavra. Journal of Medical Ethics. ¬ęProp√Ķe-se que a felicidade¬Ľ – levantou os olhos do papel e esclareceu: – o it√°lico na felicidade √© deles – ¬ęProp√Ķe-se que a felicidade seja classificada como perturba√ß√£o psiqui√°trica e inclu√≠da em futuras edi√ß√Ķes dos manuais de diagn√≥stico especializados sob a nova designa√ß√£o de importante perturba√ß√£o afectiva, do tipo agrad√°vel. Numa resenha da literatura relevante est√° demonstrado que a felicidade √© estatisticamente anormal, consiste num discreto aglomerado de sintomas. Est√° associada a uma ordem de anomalias cognitivas e provavelmente reflecte o funcionamento anormal do sistema nervoso central. Persiste uma poss√≠vel objec√ß√£o a esta proposta: a de que a felicidade n√£o √© avaliada negativamente. No entanto, esta objec√ß√£o √© rejeitada como sendo cientificamente irrelevante¬Ľ.

Vivermos no mundo sem tomarmos consciência do significado do mundo é como vaguear numa grande biblioteca sem tocar nos livros.

Grande e vagaroso vento da biblioteca do mar. Aqui posso descansar.

Um livro de contos √© um livro ligeiro de emo√ß√Ķes curtas: deve portanto ser leve, port√°til, f√°cil de se levar na algibeira para debaixo de uma √°rvore, e confort√°vel para se ter √† cabeceira da cama. N√£o pode ter o formato dum relat√≥rio, que, sendo destinado em definitivo a embrulhar objectos, deve ter de antem√£o o tamanho c√≥modo do papel de embrulho; nem pode ter o volume dum calhama√ßo de erudi√ß√£o hist√≥rica, impresso com o fim de ornamentar uma biblioteca.

A maior parte do tempo de um escritor é passado na leitura, para depois escrever; uma pessoa revira metade de uma biblioteca para fazer um só livro.

O Meu Primeiro Poema

T√™m-me perguntado muitas vezes quando escrevi o primeiro poema, quando nasceu a minha poesia. Tentarei record√°-lo. Muito para tr√°s, na minha inf√Ęncia, mal sabendo ainda escrever, senti uma vez uma intensa como√ß√£o e rabisquei umas quantas palavras semi-rimadas, mas estranhas para mim, diferentes da linguagem quotidiana. Passei-as a limpo num papel, dominado por uma ansiedade profunda, um sentimento at√© ent√£o desconhecido, misto de ang√ļstia e de tristeza. Era um poema dedicado √† minha m√£e, ou seja, √†quela que conheci como tal, a ang√©lica madrasta cuja sombra suave me protegeu toda a inf√Ęncia. Completamente incapaz de julgar a minha primeira produ√ß√£o, levei-a aos meus pais. Eles estavam na sala de jantar, afundados numa daquelas conversas em voz baixa que dividem mais que um rio o mundo das crian√ßas e o dos adultos. Estendi-lhes o papel com as linhas, tremente ainda da primeira visita da inspira√ß√£o. O meu pai, distraidamente, tomou-o nas m√£os, leu-o distraidamente, devolveu-mo distraidamente, dizendo-me:
‚ÄĒ Donde o copiaste?

E continuou a falar em voz baixa com a minha mãe dos seus importantes e remotos assuntos. Julgo recordar que nasceu assim o meu primeiro poema e que assim tive a primeira amostra distraída de crítica literária.

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O Intelecto Como Auxiliar da Felicidade

A filosofia tem de admitir que n√£o √© nela, mas sim na vida, que o homem deve encontrar as suas maiores satisfa√ß√Ķes; n√£o na biblioteca ou na cela mon√°stica, mas na satisfa√ß√£o dos seus instintos mais antigos. A felicidade √© inconsciente; s√≥ nos bafeja quando somos naturais; se nos detemos a analis√°-la, desaparece, porque n√£o √© natural determo-nos a analisar uma coisa. Se o intelecto contribui para a felicidade n√£o o faz como fonte prim√°ria, mas sim como meio de coordena√ß√£o, como instrumento harmonizador dos desejos. Neste sentido o intelecto pode ser um precioso auxiliar; e de contr√°rio de nada valeria realizarmos todos os nossos fins, porque os desejos cancelar-se-iam uns aos outros, dando como resultado uma triste futilidade.