Textos sobre Curiosidade

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Textos de curiosidade escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Lucidez sem Ignor√Ęncia nem Sobranceria

Possivelmente n√£o √© sem raz√£o que atribu√≠mos √† ingenuidade e ignor√Ęncia a facilidade de crer e de se deixar persuadir: pois parece-me haver aprendido outrora que a cren√ßa era como uma impress√£o que se fazia na nossa alma; e, na medida em que esta se encontrava mais mole e com menor resist√™ncia, era mais f√°cil imprimir-lhe algo. Assim como, necessariamente, os pesos que nele colocamos fazem pender o prato da balan√ßa, assim a evid√™ncia arrasta a mente (C√≠cero). Quanto mais vazia e sem contrapeso est√° a alma, mais facilmente ela cede sob a carga da primeira persuas√£o. Eis porque as crian√ßas, o vulgo, (…) e os doentes est√£o mais sujeitos a ser conduzidos pelas orelhas (ou seja, pelo que ouvem). Mas tamb√©m, por outro lado, √© uma tola presun√ß√£o ir desdenhando e condenando como falso o que n√£o nos parece veross√≠mil; esse √© um v√≠cio habitual nos que pensam ter algum discernimento al√©m do comum. Outrora eu agia assim, e, se ouvia falar de esp√≠ritos que retornam, ou do progn√≥stico das coisas futuras, de encantamentos, de feiti√ßarias, ou contarem alguma outra hist√≥ria que eu n√£o conseguisse compreender, vinha-me compaix√£o pelo pobre povo logrado por essas loucuras. Mas actualmente acho que eu pr√≥prio era no m√≠nimo igualmente digno de pena;

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A Imaginação é a Base do Homem

De tal modo a imagina√ß√£o √© a base do homem ‚ÄĒ Joana de novo ‚ÄĒ que todo o mundo que ele tem constru√≠do encontra sua justificativa na beleza da cria√ß√£o e n√£o na sua utilidade, n√£o em ser o resultado de um plano de fins adequados √†s necessidades. Por isso √© que vemos multiplicarem-se os rem√©dios destinados a unir o homem √†s ideias e institui√ß√Ķes existentes ‚ÄĒ a educa√ß√£o, por exemplo, t√£o dif√≠cil ‚ÄĒ e vemo-lo continuar sempre fora do mundo que ele construiu. O homem levanta casas para olhar e n√£o para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspira√ß√£o. O determinismo n√£o √© um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir a formiga at√© seu formigueiro, misturar √°gua com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se √© pequeno e quando se √© grande. √Č erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo ‚ÄĒ o plano orientado para um dado fim real ‚ÄĒ seria a compreens√£o, a estabilidade, a felicidade, a maior vit√≥ria de adapta√ß√£o que o homem conseguisse. No entanto fazer as coisas ¬ępara qu√™¬Ľ parece-me, perante a realidade,

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Ser Marginal

Ser marginal. N√£o ser fora-da-lei por desprezo da norma comum. Por amoralidade, miserabilismo, ou abjec√ß√£o. Ser apenas do lado da vida em que n√£o passa muita gente, se √© quase an√≥nimo, fora do alvo que √© visado pela notoriedade, curiosidade p√ļblica, grande reputa√ß√£o. Ser em humildade, na discri√ß√£o de n√≥s, na curta dimens√£o de n√≥s. N√£o √© por comodismo, orgulhosa mod√©stia, ressentimento. N√£o por nada disso ou outras coisas disso, mas s√≥ para nos n√£o perdermos de n√≥s, n√£o nos esbanjarmos na invas√£o da dissipa√ß√£o alheia. N√£o por nada disso mas s√≥ pela economia do pouco que nos pertence e mal d√° para abastecer uma vida. Ser marginal – s√™ marginal. Afecta a ti pr√≥prio o espa√ßo que √© para ti e para ti te foi dado. Na intimidade de ti, na reserva de ti, na pobreza de ti. O mais que viesse e te invadisse o teu espa√ßo, que √© que te dava? A amplia√ß√£o do teu rumor na amplifica√ß√£o alheia dele, seria alheio e n√£o teu. A tua voz √© breve, n√£o a amplies ao que n√£o √©. E o teu pensar, o teu sentir, o teu ser. N√£o os sejas mais do que √©s. E ent√£o verdadeiramente ser√°s.

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Moral para Psicólogos

N√£o cultivar uma psicologia de bisbilhoteiro! Nunca observar s√≥ por observar! Isso provoca uma √≥ptica falsa, uma perspectiva vesga, algo que resulta for√ßado e que exagera as coisas. O ter experi√™ncias, quando √© um querer-ter-experi√™ncias, ‚ÄĒ n√£o resulta bem. Na experi√™ncia n√£o √© l√≠cito olhar para si mesmo, todo o olhar se converte ent√£o num ¬ęmau-olhado¬Ľ. Um psic√≥logo nato guarda-se, por instinto, de ver por ver; o mesmo se pode dizer do pintor nato. Este n√£o trabalha jamais ¬ęsegundo a natureza¬Ľ, encomenda ao seu instinto, √† sua c√Ęmara escura o crivar e exprimir o ¬ęcaso¬Ľ, a ¬ęnatureza¬Ľ, o ¬ęvivido¬Ľ… At√© √† sua consci√™ncia chega s√≥ o universal, a conclus√£o, o resultado: n√£o conhece esse arbitr√°rio abstrair do caso individual. ‚ÄĒ Que √© que resulta quando se procede de outro modo? Quando se cultiva, por exemplo, uma psicologia de bisbilhoteiro, √† maneira dos romanciers parisienses, grandes e pequenos? Essa gente anda, por assim diz√™-lo, √† espreita da realidade, essa gente leva para casa cada noite um punhado de curiosidades… Por√©m veja-se o que acaba por sair da√≠ ‚ÄĒ um mont√£o de borr√Ķes, um mosaico no melhor dos casos, e de qualquer forma algo que √© o resultado da soma de v√°rias coisas,

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O Método é Necessário para a Procura da Verdade

Os mortais s√£o dominados por uma curiosidade t√£o cega que, muitas vezes, envenenam o esp√≠rito por caminhos desconhecidos, sem qualquer esperan√ßa razo√°vel, mas unicamente para se arriscarem a encontrar o que procuram: √© como se algu√©m, incendiado pelo desejo t√£o est√ļpido de encontrar um tesouro, vagueasse sem cessar pelas pra√ßas p√ļblicas para ver se, casualmente, encontrava algum perdido por um transeunte. (…) n√£o nego que tenham por vezes muita sorte nos seus caminhos errantes e encontrem alguma verdade; contudo, n√£o estou de acordo que sejam mais competentes, mas apenas mais afortunados. Ora, vale mais nunca pensar em procurar a verdade de alguma coisa que faz√™-lo sem m√©todo: √© cert√≠ssimo, pois, que os estudos feitos desordenadamente e as medita√ß√Ķes confusas obscurecem a luz natural e cegam os esp√≠ritos. Quem se acostuma a andar assim nas trevas enfraquece de tal modo a acuidade do olhar que, depois, n√£o pode suportar a luz do pleno dia.

√Č a experi√™ncia que o diz: vemos muitissimas vezes os que nunca se dedicaram √†s letras julgar o que se lhes depara com muito maior solidez e clareza do que aqueles que sempre frequentaram as escolas. Entendo por m√©todo regras certas e f√°ceis, que permitem a quem exactamente as observar nunca tomar por verdadeiro algo de falso,

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O Entusiasmo da Inspiração

A inspira√ß√£o n√£o √© um privil√©gio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existir√° sempre um grupo de pessoas que s√£o visitadas pela inspira√ß√£o. Ela √© composta por todos aqueles que escolheram conscientemente a sua voca√ß√£o e fazem o seu trabalho com amor e imagina√ß√£o… as dificuldades e contratempos nunca reprimem a sua curiosidade. Um enxame de novas quest√Ķes emerge de cada problema que eles resolvem. O que quer que seja a inspira√ß√£o, esta nasce de um cont√≠nuo ¬ęEu n√£o sei¬Ľ.

Mensagem aos Portugueses

O que quero de todos os portugueses √© o seguinte: sejam curiosos; e que a organiza√ß√£o em sociedade possa ser de tal maneira que eles possam satisfazer essa curiosidade completamente. E n√£o para ganhar dinheiro, n√£o para fazer figura, nem para ganhar cargo, mas para ser plenamente aquilo que √©. Alguma coisa que ele sinta que o est√° desenvolvendo na mensagem √ļnica que tem que dar do mundo, de maneira que a minha mensagem para qualquer aluno de qualquer escola √©: fa√ßa favor de cuidar da sua mensagem e n√£o da minha. A minha foi, √© s√≥ para dizer ¬ęcuide da sua¬Ľ, porque essa √© que tem import√Ęncia. E a mensagem ser√° vossa na medida em que for o mais diferente poss√≠vel da minha, ou de qualquer outra. Sen√£o, para qu√™ duplicados no mundo? N√£o √© preciso. Para isso √© que inventaram os carimbos. Eu n√£o sou um carimbo de ningu√©m.

Temos de Ser Mais Humanos

Abram os olhos. Somos umas bestas. No mau sentido. Somos primitivos. Somos prim√°rios. Por nossa causa corre um oceano de sangue todos os dias. N√£o √© auscultando todos os nossos instintos ou encorajando a nossa natureza biol√≥gica a manifestar-se que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condi√ß√£o. √Č lendo Plat√£o. E construindo pontes suspensas. √Č tendo ins√≥nias. √Č desenvolvendo paran√≥ias, conceitos filos√≥ficos, poemas, desequil√≠brios neuroqu√≠micos insan√°veis, frisos de portas, birras de amor, grafismos, sistemas pol√≠ticos, receitas de bacalhau, pormenores.

√Č engra√ßado como cada √©poca se foi considerando ¬ęde charneira¬Ľ ao longo da hist√≥ria. A pretens√£o de se ser definitivo, a arrog√Ęncia de ser ¬ęo √ļltimo¬Ľ, a vaidade de se ser futuro √©, h√° mil√©nios, a mesm√≠ssima cantiga.
Temos de ser mais humanos. Reconhecer que somos as bestas que somos e arrependermo-nos disso. Temos de nos reduzir à nossa miserável insensibilidade, à pobreza dos nossos meios de entendimento e explicação, à brutalidade imperdoável dos nossos actos. O nosso pé foge-nos para o chinelo porque ainda não se acostumou a prender-se aos troncos das árvores, quanto mais habituar-se a usar sapato.

A √ļnica atitude verdadeiramente civilizada √© a fraqueza, a curiosidade, o desespero, a experi√™ncia, o amor desinteressado,

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Se Quisermos Viver a Vida de Forma Criativa

√Č raro ver-se um artista na casa dos 30 ou dos 40 anos contribuir com alguma coisa realmente extraordin√°ria. √Č claro que existem algumas pessoas com uma curiosidade inata, que s√£o eternas crian√ßas na maneira como se maravilham com a vida, mas s√£o raras.
Os nossos pensamentos constroem padr√Ķes semelhantes a dobras na nossa mente. N√≥s estamos efectivamente a esbo√ßar padr√Ķes qu√≠micos. Na maioria dos casos, as pessoas ficam presas nesses padr√Ķes, como nos sulcos de um disco, e nunca saem deles.
Se quisermos viver a vida de forma criativa, como um artista, n√£o podemos olhar muito para tr√°s. Temos de estar dispostos a agarrar naquilo que fizemos, na pessoa que fomos, e deit√°-lo fora.
Quanto mais o mundo exterior tenta impor-nos uma imagem nossa, mais dif√≠cil √© continuarmos a ser um artista, e √© por isso que muitas vezes os artistas t√™m de dizer: ¬ęAdeus. Tenho de ir. Estou a ficar maluco e vou sair daqui.¬Ľ E depois ir hibernar para qualquer lado. Talvez mais tarde, voltemos a emergir de uma maneira um pouco diferente.

A Timidez

A verdade é que vivi muitos dos meus primeiros anos, e talvez os segundos e os terceiros, como uma espécie de surdo-mudo.
Ritualmente vestido de negro desde muito novinho, tal como se vestiam os verdadeiros poetas do s√©culo passado, tinha uma vaga impress√£o de n√£o me apresentar muito mal. Mas, em vez de me aproximar das raparigas, ciente de que gaguejaria ou coraria diante delas, preferia passar de lado e afastar-me, ostentando um desinteresse que estava longe de sentir. Todas eram, para mim, um grande mist√©rio. Preferiria morrer queimado naquela fogueira secreta, afogar-me naquele po√ßo de enigm√°tica profundidade, mas n√£o me atrevia a atirar-me ao fogo ou √† √°gua. Ora, como n√£o encontrava ningu√©m que me desse um empurr√£o, passava pelas margens dessas fascina√ß√Ķes sem olhar sequer e muito menos sorrir.

Acontecia outro tanto com os adultos, gente m√≠nima, funcion√°rios de caminho-de-ferro e de correios e suas ¬ęsenhoras esposas¬Ľ, assim intituladas porque a pequena burguesia se escandaliza, intimidada, diante da palavra mulher. Eu escutava as conversas √† mesa do meu pai. Mas, no dia seguinte, se esbarrava na rua com quem tinha comido na noite anterior em minha casa, n√£o me atrevia a cumprimentar e at√© mudava de rumo para evitar o mau bocado.

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Moderar as Expectativas

Ordin√°rio desaire de tudo o que √© muito celebrado antes √© n√£o chegar depois ao excesso do que foi concebido. Nunca o verdadeiro p√īde alcan√ßar o imaginado, porque fingir perfei√ß√Ķes √© f√°cil; dif√≠cil √© consegui-las. Casa-se a imagi¬≠na√ß√£o com o desejo e concebe sempre muito mais do que as coisas s√£o. Por maiores que sejam as excel√™ncias, n√£o bastam para satisfazer o conceito, e, se o enganam com exorbitante expecta√ß√£o, √© mais r√°pido o desengano que a admira√ß√£o. A esperan√ßa √© grande falsificadora da verdade: que a cordura a corrija, fazendo que a frui√ß√£o seja superior ao desejo. Princ√≠pios de cr√©dito servem para despertar a curiosidade, n√£o para empenhar o obje¬≠cto. Melhor resulta quando a realidade excede o conceito e √© mais do que se acreditou. Essa regra faltar√° no que √© mau, pois ajuda-o a pr√≥pria exagera√ß√£o; desmente-a o aplauso, chegando a parecer toler√°vel o que se temeu ser ruim ao extremo.

Besta Célere

H√° quem lhe chame, por brincadeira, besta c√©lere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por m√©dia) desse produto cultural (agora √© tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edi√ß√Ķes. O best-seller √© um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de ¬ęmarketing¬Ľ editorial e livreiro. √Č para se vender – muito e depressa – que o best-seller √© constru√≠do com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundant√≠ssimos, nem vale a pena enumer√°-los. Conv√©m n√£o confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com ¬ętopes¬Ľ de venda. Embora seja cabe√ßa de lista, o best-seller tem, em rela√ß√£o aos livros ¬ęnormais¬Ľ, uma caracter√≠stica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campe√£o de vendas. A sua raz√£o de ser √© essa e s√≥ essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido s√©rio, que ¬ęo resto √© literatura¬Ľ.
Estou a pensar em bestas c√©leres como Love Story ou O Aeroporto. N√£o estou a pensar em ¬ętopes¬Ľ de venda como O Nome da Rosa ou Mem√≥rias de Adriano. estes √ļltimos s√£o boa, excelente literatura que, por raz√Ķes pontuais e,

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As Artes e as Ciências Nasceram dos Vícios

A astronomia nasceu da supersti√ß√£o; a ret√≥rica, da ambi√ß√£o, do √≥dio, da adula√ß√£o, da mentira; a geometria, da gan√Ęncia; a f√≠sica, da curiosidade v√£; e todas elas, mesmo a √©tica, do orgulho humano. As artes e as ci√™ncias devem portanto o seu nascimento aos nossos v√≠cios, e n√≥s dever√≠amos duvidar menos das suas vantagens se elas tivessem tido origem nas nossas virtudes. (…) Quantos perigos! Quantos caminhos equivocados na investiga√ß√£o das ci√™ncias? Por meio de quantos erros, milhares de vezes mais perigosos do que a verdade √© √ļtil, n√£o √© preciso abrir caminho a fim de alcan√ß√°-la? O problema √© patente; pois a falsidade admite um n√ļmero infinito de combina√ß√Ķes; mas a verdade possui apenas um modo de ser.

Cada Vez Nos Casamos Mais

Ao fim de 14 anos, cada vez que eu olho para a minha mulher, cada dia que acordo ao lado dela, o que mais me comove e impressiona é precisamente a novidade de vê-la, poder amá-la, ter a sorte de ser amado por ela.
Cada coisa que fazemos √© ao mesmo tempo antiqu√≠ssima ‚Äď como uma cerim√≥nia que constru√≠mos juntos s√≥ para n√≥s os dois ‚Äď e nov√≠ssima, pelo desejo e pelo entusiasmo de l√° estar, naquele lugar que ela abriu para mim e ela no lugar que s√≥ √© dela, que sou eu.

O casamento é só uma palavra: é verdade. Mas também pode ser a vontade de casarmos e ficarmos casados, todos os dias, com a mesma pessoa que amamos.
Cada vez nos casamos mais. As diferenças dela vão cabendo cada vez melhor nas minhas. Cada vez somos, a Maria João e eu, mais livres de sermos como somos, cada um de nós, e de sermos como somos, nós os dois.
Ela torna-se mais ela; eu torno-me mais eu, ela e eu com menos medo que o outro fuja por causa disso. Mas com medo √† mesma. E gan√Ęncia de viver e curiosidade em saber como √© que o d√©cimo quinto ano vai ser melhor do que este.

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Um Homem Realizado

Ao indiv√≠duo acostumado ao √≠ntimo das profundidades, o ¬ęmist√©rio¬Ľ n√£o intimida; n√£o fala dele e n√£o sabe o que seja: vive-o… A realidade em que se move n√£o comporta outra: n√£o tem uma zona inferior nem um al√©m: est√° abaixo de tudo e para al√©m de tudo. Farto de transcend√™ncia, superior √†s opera√ß√Ķes do esp√≠rito e √†s servid√Ķes que se lhe associam, repousa na sua curiosidade inexaur√≠vel… Nem a religi√£o nem a metaf√≠sica o intrigam: o que poderia sondar ele que se encontra j√° em pleno insond√°vel? Cumulado, est√°-o sem d√ļvida; mas ignora se continua a existir.
Afirmamo-nos na medida em que, por tr√°s de uma realidade dada, perseguimos uma outra e em que, para al√©m do pr√≥prio absoluto, continuamos √† procura. A teologia det√©m-se em Deus? De maneira nenhuma. Quer remontar mais alto, tal como a metaf√≠sica que, ao mesmo tempo que investiga a ess√™ncia, n√£o se digna fixar-se nela. Uma e outra temem ancorar num princ√≠pio √ļltimo; passam de segredo em segredo; incensam o inexplic√°vel e abusam dele sem pudor. O mist√©rio, que oferenda! Mas que maldi√ß√£o pensar t√™-lo atingido, imaginar que o conhecemos e que poderemos residir nele! J√° n√£o h√° que procurar: a√≠ est√° ele,

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O Desejo é Fruto de um Conhecimento Insuficiente

Não existe nada mais estranho e espinhoso do que a relação entre pessoas que só se conhecem de vista Рque diariamente, mesmo hora a hora, se encontram, se observam e que têm assim de manter, sem cumprimenros e sem palavras, a aparência de desconhecimento indiferente, devido ao rigor dos costumes ou a caprichos pessoais. Entre elas existe inquietação e curiosidade exacerbada, a histeria da necessidade insatisfeita, anormalmente recalcada, de conhecimento e comunicação e sobretudo também uma forma de consideração tensa. Pois o ser humano ama e respeita o outro ser humano enquanto não está em posição de o julgar e o desejo é produto de um conhecimento insuficiente.

A Clareza do Filósofo

Sempre acreditei que a claridade √© a gentileza do fil√≥sofo e, al√©m disso, esta nossa disciplina tem como ponto de honra, hoje mais do que nunca, estar aberta e porosa a todas as mentes, diferente das ci√™ncias especiais, que cada vez mais com maior rigor, interp√Ķem entre o tesouro das suas descobertas e a curiosidade dos profanos o drag√£o medonho da sua terminologia herm√©tica. Penso que o fil√≥sofo tem que levar at√© ao limite de si pr√≥prio o rigor met√≥dico quando investiga e persegue as suas verdades, mas que ao emiti-las e enunci√°-las deve evitar o uso c√≠nico com que alguns homens de ci√™ncia se comprazem, como H√©rcules de feira, em ostentar diante do p√ļblico os biceps do seu tecnicismo.

N√£o Deixes Que Metam o Nariz na Tua Vida

Quando falas ou simulas falar de ti pr√≥prio e amalgamas passado, presente, futuro, h√° sempre os que perguntam se o que contaste √© verdade ou n√£o. Nunca indagam se vai ser verdade. O que lhes interessa √© saber, com a curiosidade dos intriguistas, se o que se passou (ou parece ter-se passado) se passou mesmo contigo. √Č um erro de gente vulgar. Parasit√°rios ou n√£o, qualquer inven√ß√£o ou patranha, qualquer ¬ęmentir verdadeiro¬Ľ √© acepipe biogr√°fico, √© pretexto para te enfileirarem na nulidade biogr√°fica que √© a deles pr√≥prios e tecerem incansavelmente hist√≥rias a teu respeito.
Não te deixes seduzir pelo gosto da conversa. Essa pequena gente não merece a mais pequena atenção, nem tu precisas de espectadores para o salutar exercício diário de falar por falar.
(…) N√£o deixes que metam o nariz na tua vida. Caso contr√°rio, vais ficar cheio de gente, com a sua vida escassamente interessante. O tombo da vida vulgar j√° foi feito por escritores como Camilo. E tenho a impress√£o de que, no essencial, a vida vulgar continua a mesma.
Desunha-te a escrever (olha que já tens pouco tempo!), mas fá-lo com a discrição e a reserva de quem não se dá às primeiras.

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A Asfixia do Artista pela Sociedade

Eu tenho medo das ¬ęteses¬Ľ quando se apoderam de um artista jovem, sobretudo nos come√ßos da sua carreira. E sabem o que eu temo? Muito simplesmente que n√£o consiga os objectos da tese. Pensar√° um simp√°tico cr√≠tico, a quem li h√° pouco e cujo nome agora n√£o vou citar, que toda a obra art√≠stica isenta de tese pr√©via, realizada exclusivamente com um objectivo art√≠stico, e at√© de assunto inteiramente secund√°rio e n√£o correspondendo a nada de ¬ętendencioso¬Ľ possa resultar nuns proveitos para o seu objectivo ainda que √† primeira vista d√™ a impress√£o de satisfazer apenas ¬ęuma ociosa curiosidade¬Ľ? Porventura as nossas pessoas cultas ainda n√£o se deram conta do que pode passar-se no cora√ß√£o e na intelig√™ncia dos nossos escritores e artistas jovens? Que confus√£o de ideias e de sentimentos preconcebidos!

Sob a press√£o da sociedade, o jovem poeta sufoca na alma o seu natural anelo de espraiar-se em formas singulares; receia que condenem a sua ¬ęociosa curiosidade¬Ľ; reprime essas formas que lhe brotam do fundo da alma; nega-lhes vida e aten√ß√£o e arranca de dentro, entre espamos, o tema que √† sociedade agrada, que √© grato √† opini√£o liberal e social. Mas que erro t√£o horrivelmente c√Ęndido e ing√©nuo,

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A Liberdade é a Possibilidade do Isolamento

A liberdade √© a possibilidade do isolamento. √Čs livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procur√°-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade greg√°ria, ou o amor, ou a gl√≥ria, ou a curiosidade, que no sil√™ncio e na solid√£o n√£o podem ter alimento. Se te √© imposs√≠vel viver s√≥, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do esp√≠rito, todas da alma: √©s um escravo nobre, ou um servo inteligente: n√£o √©s livre.
E n√£o est√° contigo a trag√©dia, porque a trag√©dia de nasceres assim n√£o √© contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, por√©m, se a opress√£o da vida, ela pr√≥pria, te for√ßa a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a pen√ļria te for√ßa a conviveres. Essa sim, √© a tua trag√©dia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.