Textos sobre Estéril

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Textos de estéril escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Inteligência e o Sentido Moral

A intelig√™ncia √© quase in√ļtil para aqueles que s√≥ a possuem a ela. O intelectual puro √© um ser incompleto, infeliz, pois √© incapaz de atingir aquilo que compreende. A capacidade de apreender as rela√ß√Ķes das coisas s√≥ √© fecunda quando associada a outras actividades, como o sentido moral, o sentido afectivo, a vontade, o racioc√≠nio, a imagina√ß√£o e uma certa for√ßa org√Ęnica. S√≥ √© utiliz√°vel √† custa de esfor√ßo.
Os detentores da ciência preparam-se longamente realizando um duro trabalho. Submetem-se a uma espécie de ascetismo. Sem o exercício da vontade, a inteligência mantém-se dispersa e estéril. Uma vez disciplinada, torna-se capaz de perseguir a verdade. Mas só a atinge plenamente se for ajudada pelo sentido moral. Os grandes cientistas têm sempre uma profunda honestidade intelectual. Seguem a realidade para onde quer que ela os conduza. Nunca procuram substituí-la pelos seus próprios desejos, nem ocultá-la quando se torna opressiva. O homem que quiser contemplar a verdade deve manter a calma dentro de si mesmo. O seu espírito deve ser como a água serena de um lago. As actividades afectivas, contudo, são indispensáveis ao progresso da inteligência. Mas devem reduzir-se a essa paixão que Pasteur chamava deus inteiror, o entusiasmo.

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A Actualidade em Poesia

Uma coisa é poesia actual, outra coisa é actualidade em poesia. A actualidade em poesia compreende um tempo específico, que não só não é o tempo subordinado ao espaço no qual o poeta se move, como até entra em conflito com este.
Fazer poesia actual n√£o √© escrever versos destinados a terem √™xito na actualidade representada pelo p√ļblico e pela critica, porque esta √© o atraso de um tempo de que o poeta √© o avan√ßo. Suspeito √© o poeta sempre que agradavelmente afei√ßoa os seus versos a uma comum sensibilidade liter√°ria. N√£o estou fazendo o elogio da poesia obscura ou ambiciosamente original. O gosto liter√°rio de uma √©poca pode ser precisamente a obscuridade e a originalidade. √Č o que acontece com a nossa. E neste caso originalidade como recurso √© poeticamente est√©ril, porque n√£o fascina mas apenas satisfaz. Nada menos original do que a acomodat√≠cia originalidade da poesia dos nossos dias e tamb√©m nada menos actual por isso mesmo. Quer um exemplo? A √ļltima poesia feita com excresc√™ncias do Surrealismo execrado pelos seus parasitas. Nalguns casos √© uma sufocada montagem de imagens achadas no cesto dos pap√©is do Surrealismo. Proclama-se uma renova√ß√£o morfol√≥gica investindo de maior poder a palavra,

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O Inferno de Ser Eu

Ficarei o Inferno de ser Eu, a Limita√ß√£o Absoluta, Expuls√£o-Ser do Universo long√≠nquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero v√°cuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado do pr√≥prio mist√©rio, da pr√≥pria Vida. Habitarei eternamente o deserto morto de mim, erro abstracto da cria√ß√£o que me deixou atr√°s. Arder√° em mim eternamente, inutilmente, a √Ęnsia (est√©ril) do regresso a ser.
N√£o poderei sentir porque n√£o terei mat√©ria com que sinta, n√£o poderei respirar alegria, ou √≥dio, ou horror, porque n√£o tenho nem a faculdade com que o sinta, consci√™ncia abstracta no inferno do n√£o conter nada, n√£o-Conte√ļdo Absoluto, [Sufoca√ß√£o] absoluta e eterna! Oco de Deus, sem universo, (…).

Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

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A Tranquilidade do Assumir da Nossa Condição

Temos pelos nobres e para as pessoas de destaque um c√≠ume est√©ril, ou um √≥dio impotente que n√£o nos vinga de seu esplendor e eleva√ß√£o, e s√≥ faz acrescentar √† nossa pr√≥pria mis√©ria o peso insuport√°vel da felicidade alheia: que fazer contra uma doen√ßa de alma t√£o inveterada e contagiosa? Contentemo-nos com pouco e com menos ainda, se poss√≠vel; saibam perder na ocasi√£o; a receita √© infal√≠vel, e concordo em experiment√°-la: evito com isso ser empurrado na porta pela multid√£o de clientes ou cortes√£os que a casa de um ministro despeja diversas vezes por dia; penar na sala de audi√™ncia, pedir tremendo ou balbuciando uma coisa justa; suportar a gravidade do ministro, o seu riso amargo, e o seu laconismo. Ent√£o n√£o o odeio mais, e n√£o o invejo mais; ele n√£o me faz nenhuma s√ļplica, eu n√£o lhe fa√ßo nenhuma; somos iguais, a n√£o ser no facto dele n√£o estar tranquilo, e eu estar.
(…) Deve-se silenciar sobre os poderosos; h√° quase sempre adula√ß√£o ao dizer bem deles; h√° perigo em dizer mal enquanto vivem, e cobardia quando j√° morreram.

O Livro Não Influencia a Acção

Tu e eu somos o que somos e seremos o que formos. Quanto a ser-se envenenado por um livro, n√£o existe tal coisa. A Arte n√£o tem qualquer influ√™ncia sobre a ac√ß√£o. Aniquila o desejo de agir. √Č soberbamente est√©ril. Os livros a que o mundo chama imorais s√£o os livros que mostram ao mundo o seu opr√≥bio, nada mais.

O Sentido da Vida como Capacidade de Criar

Se a vida tem mesmo algum sentido, √© s√≥ pela consci√™ncia de termos capacidade de trabalhar. O trabalho do escritor, do compositor, do artista independe da idade, das condi√ß√Ķes sociais… O criador espiritual √© o √ļnico homem que leva para a velhice o sentido da vida, a possibilidade de criar. J√° o cientista, se n√£o tem laborat√≥rio e c√°tedra, fica est√©ril.

A Divinização do Utilitário

O grande conflito de hoje, no dom√≠nio socioecon√≥mico, por exemplo, e contra a previs√£o de um Marx, n√£o √© o que op√Ķe o Capital e o Trabalho, mas o que comanda a m√°quina e o que a serve (Fran√ßois Perroux). Mas o efeito mais vis√≠vel, porque mais extenso, da sua compacta presen√ßa, √© o que degrada os sonhos ao tang√≠vel e utilit√°rio que define a vituperada ¬ęsociedade de consumo¬Ľ. N√£o √© assim o √ļtil ou utili¬≠t√°rio que se condena: √© a sua diviniza√ß√£o. O que surpreende no mundo de hoje n√£o √© a sedu√ß√£o da comodidade, mas que ela esgote todas as sedu√ß√Ķes; n√£o √© o sonho de ¬ęviver bem¬Ľ, mas que s√≥ se viva bem com esse sonho. Decerto o viver bem foi sempre um sonho de quem teve por sorte o viver mal. Mas a realiza√ß√£o em massa dessa ambi√ß√£o instaura-se em plena for√ßa como modelo. E n√£o apenas por ser uma realiza√ß√£o em massa, mas porque aos ¬ęrespons√°veis¬Ľ nenhum valor se imp√Ķe para a esse imporem. O utilitarismo √© um valor negativo; mas con¬≠verte-se em positivo pela negatividade de quem poderia recus√°¬≠-lo. O que nos ¬ęirrespons√°veis¬Ľ √© uma ambi√ß√£o em positivo, √© nos ¬ęrespons√°veis¬Ľ uma aceita√ß√£o em negativo,

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A Lei Pode Ser Vista como Costume ou como Polícia

√Č uma ignor√£ncia imperdo√°vel n√£o saber que a lei √© significa√ß√£o das coisas e n√£o rito mais ou menos est√©ril por ocasi√£o destas coisas. Ao legislar sobre o amor, fa√ßo nascer determinada forma de amor. O meu amor √© desenhado pelas pr√≥prias coac√ß√Ķes que lhe imponho. A lei, portanto, tanto pode ser costume como pol√≠cia.

A abstinência torna-se estéril quando ditada pela fraqueza do corpo ou pelo vício da avareza

A abstinência torna-se estéril quando ditada pela fraqueza do corpo ou pelo vício da avareza.

A Livre Discuss√£o dos Problemas

A nossa orienta√ß√£o tem sido sempre contra o reacender de lutas pol√≠ticas, atrav√©s de cuja viol√™ncia e tr√°gicos desfechos vemos outros procurarem a sua felicidade. A pol√≠tica s√≥ em sentido deturpado se pode confundir com agita√ß√£o est√©ril, referver de √≥dios, estadear de ambi√ß√Ķes pessoais ou de grupos para a conquista e usufrui√ß√£o de altos lugares. Nada do que afirmo se op√Ķe evidentemente ‚ÄĒ v√™-se que n√£o se tem oposto ‚ÄĒ √† livre discuss√£o dos problemas. Mas quer dizer que a consci√™ncia p√ļblica se h√°-de sobretudo formar na reflex√£o de argumentos s√≥lidos, sobre o conhecimento do factos certos e bem interpretados, √† luz de posi√ß√Ķes desinteressadas: n√£o na excita√ß√£o das paix√Ķes e na adultera√ß√£o da verdade.

O Excesso de Conhecimento sem Discernimento

Herdamos conhecimentos e inven√ß√Ķes de todos os s√©culos; ficamos portanto mais ricos em bens do esp√≠rito: isso n√£o nos pode ser contestado sem injusti√ßa. Mas estar√≠amos n√≥s pr√≥prios enganados se confund√≠ssemos essa riqueza herdada e de empr√©stimo com o g√©nio que a d√°. Quantos desses conhecimentos adquiridos s√£o est√©reis para n√≥s! Estranhos no nosso esp√≠rito onde n√£o tiveram origem, acontece muitas vezes que eles confundem o nosso ju√≠zo muito mais do que o esclarecem. Arcamos sob o peso de tantas ideias, como aqueles estados que sucumbem por excesso de conquistas e em que a opul√™ncia introduz novos v√≠cios e desordens mais terr√≠veis; porque pouca gente √© capaz de fazer bom uso do esp√≠rito alheio.
(…) O efeito das opini√Ķes multiplicadas al√©m das for√ßas do esp√≠rito √© produzir contradi√ß√Ķes e abalar a certeza dos melhores princ√≠pios. Os objectos apresentados sob um n√ļmero excessivo de faces n√£o se podem organizar, nem desenvolver, nem pintar distintamente na imagina√ß√£o dos homens. Incapazes de conciliar todas as suas ideias, tomam os diversos lados de uma mesma coisa como contradi√ß√Ķes da sua natureza. V√°rios n√£o querem comparar a opini√£o dos fil√≥sofos. N√£o examinam se na oposi√ß√£o dos seus princ√≠pios, algu√©m fez pender a balan√ßa para o seu lado;

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A Leitura é a Maior das Amizades

A amizade, a amizade que diz respeito aos indiv√≠duos, √© sem d√ļvida uma coisa fr√≠vola, e a leitura √© uma amizade. Mas pelo menos √© uma amizade sincera, e o facto de ela se dirigir a um morto, a uma pessoa ausente, confere-lhe algo de desinteressado, de quase tocante. E al√©m disso uma amizade liberta de tudo quanto constitui a fealdade dos outros. Como n√£o passamos todos, n√≥s os vivos, de mortos que ainda n√£o entraram em fun√ß√Ķes, todas essas delicadezas, todos esses cumprimentos no vest√≠bulo a que chamamos defer√™ncia, gratid√£o, dedica√ß√£o e a que misturamos tantas mentiras, s√£o est√©reis e cansativas. Al√©m disso, ‚ÄĒ desde as primeiras rela√ß√Ķes de simpatia, de admira√ß√£o, de reconhecimento, as primeiras palavras que escrevemos, tecem √† nossa volta os primeiros fios de uma teia de h√°bitos, de uma verdadeira maneira de ser, da qual j√° n√£o conseguimos desembara√ßar-nos nas amizades seguintes; sem contar que durante esse tempo as palavras excessivas que pronunci√°mos ficam como letras de c√Ęmbio que temos que pagar, ou que pagaremos mais caro ainda toda a nossa vida com os remorsos de as termos deixado protestar. Na leitura, a amizade √© subitamente reduzida √† sua primeira pureza.
Com os livros,

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O Passado é Tão Importante Quanto o Presente, e Vice-Versa

Assim como não se poderão compreender coisas novas e jovens, sem se familiarizar com a tradição, assim deverá o amor às antigas permanecer estéril e falso, se nos fecharmos no espírito novo, que delas provém, segundo uma necessidade histórica.

Nós Queimaremos o Mundo, Querida

Diz a Madame de Stael que os primeiros amores n√£o s√£o os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim √© comigo; mas, al√©m dessa, h√° uma raz√£o capital, e √© que tu n√£o te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Esp√≠rito e cora√ß√£o como o teu s√£o prendas raras; alma t√£o boa e t√£o elevada, sensibilidade t√£o melindrosa, raz√£o t√£o recta n√£o s√£o bens que a natureza espalhasse √†s m√£os cheias (…). Tu pertences ao pequeno n√ļmero de mulheres que ainda sabem amar, sentir, e pensar. Como te n√£o amaria eu? Al√©m disso tens para mim um dote que real√ßa os mais: sofreste. √Č minha ambi√ß√£o dizer √† tua grande alma desanimada: ¬ęlevanta-te, cr√™ e ama: aqui est√° uma alma que te compreende e te ama tamb√©m¬Ľ.
A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, e estou certo que saberei desempenhar este agradável encargo. Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da minha felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz?
Obrigado pela flor que mandaste; dei-lhe dois beijos como se fosse a ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume,

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A Esterilidade da Crítica

Personagem que Deus n√£o cuidou de convocar quando criou o mundo, o cr√≠tico faz quest√£o de estabelecer uma hierarquia nas obras de cria√ß√£o e nas obras do esp√≠rito humano. Assim geram-se inveja e desprezo, e o des√Ęnimo dos maiores, ante injusti√ßas; assim ficam eles √† merc√™ dos seus inferiores, os est√©reis. A √ļnica est√©tica sadia √© a que n√£o cogita de medir impress√Ķes produzidas por tipos diferentes, a que coloca no mesmo plano todos os grandes esfor√ßos intelectuais da humanidade, fundindo-os no g√©nio humano, como as cores se fundem na luz sem sobressair nenhuma.

As Boas Resolu√ß√Ķes

As boas resolu√ß√Ķes s√£o sempre tentativas de interferir com as leis cient√≠ficas. Prov√™m da pura vaidade. O seu resultado √© absolutamente nulo. Proporcionam-nos, uma vez por outra, uma dessas voluptuosas emo√ß√Ķes est√©reis que produzem um certo encanto nos fracos. √Č tudo o que podemos dizer em sua defesa. N√£o passam de cheques que os homens sacam sobre um banco onde n√£o t√™m conta aberta.

O Cansaço da Literatura

Entre os sinais que me avisam de que a juventude terminou, o principal é aperceber-me de que a literatura já não me interessa verdadeiramente. Quero dizer que já não abro os livros com aquela viva e ansiosa esperança de coisas espirituais que, apesar de tudo, outrora sentia. Leio e quereria ler cada vez mais, mas já não recebo as várias experiências com entusiasmo, já não as fundo num sereno tumulto pré-poético. A mesma coisa acontece-me ao passear por Turim; já não sinto a cidade como um incentivo sentimental e simbólico para a criação. Já está feito, dá-me vontade de responder de cada vez.
Tomadas em justa conta as minhas v√°rias equimoses, obsess√Ķes, fadigas e terrenos est√©reis, resulta claro que j√° n√£o sinto a vida como uma descoberta e, muito menos, ent√£o, como poesia – mas, antes, como um frio material para especula√ß√Ķes, an√°lises e deveres. Aqui encalha, agora, a minha vida: a pol√≠tica, a pr√°tica, tudo coisas que se aprendem nos livros, mas os livros n√£o alimentam como o faz, pelo contr√°rio, a esperan√ßa de cria√ß√£o.
Ora, quando novo, procurava um sistema ético: descoberta a posição do impassível explorador, vivia-a e desfrutava-a sob a forma de criação. Agora,

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A Obra Nunca Está Concluída

Considera-se, muitas vezes, a obra de um criador como uma sequ√™ncia de testemunhos isolados. Confunde-se ent√£o artista e literato. Um pensamento profundo est√° em perp√©tua forma√ß√£o, esgota a experi√™ncia de uma vida e nela se modela. Do mesmo modo, a cria√ß√£o √ļnica de um homem fortifica-se nos seus rostos sucessivos e m√ļltiplos, que s√£o as obras. Umas completam as outras, corrigem-as ou alcan√ßam-as, contradizem-as tamb√©m. Se alguma coisa termina a cria√ß√£o, n√£o √© o grito vitorioso e ilus√≥rio do artista, ofuscado: ¬ęDisse tudo¬Ľ, mas a morte do criador que fecha a sua experi√™ncia e o livro do seu g√©nio.
Esse esfor√ßo, esta consci√™ncia sobre-humana, n√£o aparece for√ßosamente ao leitor. N√£o h√° mist√©rio na cria√ß√£o humana. √Č a vontade que faz esse milagre. Em todo o caso, n√£o h√° verdadeira cria√ß√£o sem segredo. Sem d√ļvida, uma sequ√™ncia de obras pode n√£o passar de uma s√©rie de aproxima√ß√Ķes do mesmo pensamento. Mas podemos conceber outra esp√©cie de criadores que procederiam por justaposi√ß√£o. As suas obras podem parecer sem rela√ß√£o entre si. Em certa medida, s√£o contradit√≥rias. Mas, colocadas de novo no seu conjunto, denunciam uma ordem. √Č, pois, da morte que recebem o seu sentido definitivo. Aceitam a sua luz mais clara da pr√≥pria vida do seu autor.

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