Textos sobre Ajuda

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Textos de ajuda escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Os Grandes Forjam-se na Adversidade

Todo o ambiente √© favor√°vel ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a miss√£o que se imp√īs e a conseguir ir porventura mais al√©m das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se √† invalidez do impulso interior do que aos obst√°culos que lhe ponham diante, mais √† alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que √†s resist√™ncias, √†s invejas e √†s dificuldades que o mundo possa levantar perante H√©rcules que luta.
O mal que se v√™ √© aguilh√£o para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de a√ßo, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a vis√£o do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamente e a mansa quietude s√£o estufa para homens; por a√≠ se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos cora√ß√Ķes que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam.
Mais custa quebrar rochar do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar,

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O Amor Nunca Salva, mas alguém Tem uma Ideia Melhor?

Descobri, um pouco tarde, que afinal todos os meus livros s√£o hist√≥rias de amor. S√≥ que as daninhas estavam t√£o bem disfar√ßadas que eu pr√≥prio n√£o tinha reparado. √Äs vezes, amo entre duas pessoas, outras de amor entre uma pessoa e uma ideia. Idalina enamora-se por ¬ęuma dan√ßa sem m√ļsica¬Ľ. Sam Espinosa apaixona-se por uma mulher uns anitos mais velha (duzentos, coisa pouca), Greg quase √© salvo da perdi√ß√£o por uma s√≥sia de Angelina Jolie. O amor est√° no ar e tamb√©m, como diria um poeta, o amor est√° no mar. O amor n√£o salva, nunca salva, mas algu√©m tem uma ideia melhor?
Tão sensacional descoberta levou-me a cogitar no seguinte: e qual será a melhor forma de amar? Carente de modelos reais na vida humana, decidi procurá-los na natureza. Com a ajuda da televisão, claro, Canal Odisseia, National Geographic, Canal Panda, essas coisas. Pode-se lá chegar à natureza, nos dias que correm, senão pela televisão! Três rolos modelos logo me saltaram à vista: o Amor do Louva-a-deus; o Amor do Cisne; o Amor do Urso Polar.
Após alguma esmiuçação, concluí que qualquer um me parece bem, e tem as suas vantagens e desvantagens.
No romance do louva-a-deus,

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A Morte que Trazemos no Coração

√Č no cora√ß√£o que morremos. √Č a√≠ que a morte habita.

Nem sempre nos damos conta que a carregamos connosco, mas, desde que somos vida, ela segue-nos de perto. Enquanto n√£o somos tomados pela nossa, vamos assistindo e sentindo, em ritmo crescente ao longo da vida, √†s mortes de quem nos √© querido. A morte de um amigo √© como uma amputa√ß√£o: perdemos uma parte de n√≥s; uma fonte de amor; algu√©m que dava sentido √† nossa exist√™ncia… porque despertava o amor em n√≥s.

Mas não há sabedoria alguma, cultura ou religião, que não parta do princípio de que a realidade é composta por dois mundos: um, a que temos acesso direto e, outro, que não passa pelos sentidos, a ele se chega através do coração. Contudo, o visível e o invisível misturam-se de forma misteriosa, ao ponto de se confundirem e, como alguns chegam a compreender, não serem já dois mundos, mas um só.
Só as pessoas que amamos morrem. Só a sua morte é absoluta separação. Os estranhos, com vidas com as quais não nos cruzamos, não morrem, porque, para nós, de facto, não chegam sequer a ser.

Só as pessoas que amamos não morrem.

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Perdoar e Esquecer

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experi√™ncias adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos liga√ß√£o ou conv√≠vio nos faz algo de desagrad√°vel ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos √© ou n√£o valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequ√™ncia semelhante tratamento, e at√© de maneira mais grave. Em caso afirmativo, n√£o h√° muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos √† sua repeti√ß√£o. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispens√°-lo. Pois, quando a situa√ß√£o se repetir, ser√° inevit√°vel que ele fa√ßa exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente an√°logo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contr√°rio de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o pr√≥prio ser, pois o car√°cter √© absolutamente incorrig√≠vel e todas as ac√ß√Ķes humanas brotam de um princ√≠pio √≠ntimo, em virtude do qual, o homem, em circunst√Ęncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e n√£o o que √© diferente. (…) Por conseguinte,

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Casar por Amor

Quando eu pensava que n√£o podia ser mais feliz, manh√£ ap√≥s manh√£ era mais, mas s√≥ um bocadinho mais do que o m√°ximo humanamente poss√≠vel; pensava eu ser absolutamente imposs√≠vel que eu fosse, de repente, muito mais feliz, do que a pr√≥pria felicidade at√©. Mas, de repente, fui. Muito mais. Casei com o meu amor e o meu amor tornou-se a minha mulher, minha em tudo, para tudo, para sempre. E eu, finalmente, consegui divorciar-me de mim e deixar de ser t√£o triste e aborrecidamente meu, trocando-me, no melhor neg√≥cio do s√©culo, por ela. Ela ficou minha. Eu fiquei dela. √Č ou n√£o √© estranho e lindo e bem pensado por Deus Nosso Senhor que ambos pensemos que nos livr√°mos de boa e fic√°mos a ganhar? √Č.

√Č sim. A minha mulher √© mais minha do que eu alguma vez fui meu ‚ÄĒ e eu antes n√£o podia ter sido mais para mim, felizmente. Por ter tudo agora para lhe dar. Que al√≠vio. Nunca mais me quero ver na vida.
A n√£o ser aos olhos dela, onde sou muito bem visto ‚ÄĒ talvez o maior homem que j√° viveu, logo a seguir ao pai dela, claro. √Č um milagre como melhorei tanto.

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O Pior Medo é o Medo de Nós Próprios

O medo √© muitas vezes o muro que impede as pessoas de fazerem uma s√©rie de coisas. Claro que o medo tamb√©m pode ser positivo, em certa medida ajuda a que se equilibrem alguns elementos e se tenham certas coisas em considera√ß√£o, mas na maior parte dos casos √© negativo, √© algo que nos faz mal. (…) O pior medo √© o medo de n√≥s pr√≥prios e a pior opress√£o √© a auto-opress√£o. Antes de se tentar lutar contra qualquer outra coisa, penso que √© importante lutarmos contra ela e conquistarmos a liberdade de n√£o termos medo de n√≥s pr√≥prios.

A Racionalidade como Solução de Todos os Males do Mundo

A racionalidade pode ser definida como o h√°bito de considerar todos os nossos desejos relevantes, e n√£o apenas aquele que sucede ser o mais forte no momento. (…) A racionalidade completa √©, sem d√ļvida, ideal inating√≠vel; por√©m, enquanto continuarmos a classificar alguns homens como lun√°ticos, √© claro que achamos uns mais racionais que outros. Acredito que todo o progresso s√≥lido no mundo consiste de um aumento de racionalidade, tanto pr√°tica como te√≥rica. Pregar uma moralidade altru√≠stica parece-me um tanto in√ļtil, porque s√≥ falar√° aos que j√° t√™m desejos altru√≠sticos. Mas pregar racionalidade √© um tanto diferente, porque ela nos ajuda, de modo geral, a satisfazer os nossos pr√≥prios desejos, quaisquer que sejam. O homem √© racional na propor√ß√£o em que a sua intelig√™ncia orienta e controla os seus desejos.
Acredito que o controle dos nossos actos pela intelig√™ncia √©, afinal, o que mais importa e a √ļnica coisa capaz de preservar a possibilidade de vida social, enquanto a ci√™ncia expande os meios de que dispomos para nos ferir e destruir. O ensino, a imprensa, a pol√≠tica, a religi√£o – numa palavra, todas as grandes for√ßas do mundo – est√£o actualmente do lado da irracionalidade; est√£o nas m√£os dos homens que lisonjeiam Populus Rex com o fito de desencaminh√°-lo.

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Um Segredo de um Casamento Feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz n√£o √© nem um contrato nem uma rela√ß√£o. Rela√ß√Ķes temos n√≥s com toda a gente. √Č uma cria√ß√£o. √Č criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento √© um filho. √Č um filho inteiramente dependente de n√≥s. Se n√≥s nos separarmos, ele morre. Mas n√£o deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados Рque cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro.

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Confessor ou Psiquiatra ?

H√° pessoas que procuram mais o psiquiatra que o confessor. J√° foi ao contr√°rio, e n√£o √© s√≥ quest√£o de moda. O psiquiatra procura desfazer as confus√Ķes, o confessor oferece a energia para as ultrapassar. O primeiro ajuda a olhar para a culpa, o segundo garante a gra√ßa de que √© poss√≠vel come√ßar de novo, mesmo com culpa. O assumir da culpa e o perdoar deviam andar juntos.

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Os Amigos Nunca S√£o para as Ocasi√Ķes

Os amigos nunca s√£o para as ocasi√Ķes. S√£o para sempre. A ideia utilit√°ria da amizade, como entreajuda, pronto-socorro m√ļtuo, troca de favores, dep√≥sito de confian√ßa, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade √© puro prazer. N√£o se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se d√≠vidas. Pede-se, d√°-se, recebe-se, esquece-se e n√£o se fala mais nisso.

A decad√™ncia da amizade entre n√≥s deve-se √† instrumentaliza√ß√£o que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa esp√©cie de ma√ßonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. √Č por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem la√ßos pol√≠ticos ou comerciais. Se algu√©m ¬ęfalta¬Ľ ou ¬ęn√£o corresponde¬Ľ, se n√£o cumpre as obriga√ß√Ķes contratuais, √© logo condenado como ¬ęmau¬Ľ amigo e sumariamente proscrito. Est√° tudo doido. S√≥ uma mis√©ria destas obriga a dizer o √≥bvio: os amigos s√£o as pessoas de que n√≥s gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de n√≥s. N√£o interessa. A amizade √© um gosto ego√≠sta, ou inevitabilidade, o caminho de um cora√ß√£o em roda-livre.

Os amigos t√™m de ser in√ļteis. Isto √©, bastarem s√≥ por existir e,

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O Amor e a Vida

O amor √© uma imagem da nossa vida. Tanto o primeiro como a segunda est√£o sujeitos √†s mesmas revolu√ß√Ķes e mudan√ßas. A sua juventude √© resplandecente, alegre e cheia de esperan√ßas porque somos felizes por ser jovens tal como somos felizes por amar. Este agradabil√≠ssimo estado leva-nos a procurar outros bens muito s√≥lidos. N√£o nos contentamos nessa fase da vida com o facto de susbsistirmos, queremos progredir, ocupamo-nos com os meios para nos aperfei√ßoarmos e para assegurar a nossa boa sorte. Procuramos a protec√ß√£o dos ministros, mostrando-nos sol√≠citos e n√£o aguentamos que outrem queira o mesmo que temos em vista. Este est√≠mulo cumula-nos de mil trabalhos e esfor√ßos que logo se apagam quando alcan√ßamos o desejado. Todas as nossas paix√Ķes ficam ent√£o satisfeitas e nem por sombras podemos imaginar que a nossa felicidade tenha fim.
No entanto, esta felicidade raramente dura muito e fatiga-se da graça da novidade. Para possuirmos o que desejámos não paramos de desejar mais e mais. Habituamo-nos ao que temos, mas os mesmos haveres não conservam o seu preço, como nem sempre nos tocam do mesmo modo. Mudamos imperceptivelmente sem disso nos apercebermos. O que já adquirimos torna-se parte de nós mesmos e sofreríamos muito com a sua perda,

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Confiança Audaz

H√° um momento na aprendizagem de cada homem em que este chega √† convic√ß√£o de que a inveja √© ignor√Ęncia; que a imita√ß√£o √© suic√≠dio; que ele tem que se tomar a ele pr√≥prio tanto para melhor, tanto para pior, como a sua parcela; que embora o universo esteja cheio de coisas boas, nenhuma semente de milho nutritiva chegar√° a ele sen√£o atrav√©s da labuta que ele ofere√ßa nesse lote de terreno que lhe foi dado para cultivar. O poder que reside nele √© novo na natureza, e nenhum outro sen√£o ele sabe o que √© que pode fazer, e n√£o o saber√° at√© que o tente. N√£o √© por nada que uma cara, um car√°cter, um facto, causa muito impress√£o nele, e outros n√£o t√™m qualquer efeito. Esta escultura na mem√≥ria n√£o existe sem uma harmonia pr√©-estabelecida. O olho foi colocado onde um raio deve cair, de forma a testemunhar esse raio em particular. N√≥s apenas nos exprimimos pela metade, e temos vergonha da ideia divina que cada um de n√≥s representa. Podemos ser de confian√ßa e de motiva√ß√Ķes boas e proporcionais, e darmo-nos fielmente, mas Deus n√£o ter√° o seu trabalho mais manifesto feito por cobardes. Um homem est√° seguro e tranquilo quando coloca todo o cora√ß√£o no seu trabalho ou outra actividade e faz o seu melhor de acordo consigo pr√≥prio;

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A Delicadeza de Express√£o

As regras e os preceitos n√£o s√£o de grande ajuda para se aprender a falar delicadamente, se a natureza n√£o concorrer para isso. A delicadeza de que falo √© menos o efeito da arte do que de uma imagina√ß√£o viva e venturosa, que sem se esfor√ßar encontra termos apropriados para exprimir aquilo que se pensou; mas, para falar delicadamente, √© necess√°rio pensar delicadamente. A maioria das mulheres de qualidade que t√™m muito esp√≠rito e frequentam a sociedade falam com delicadeza, e embora n√£o inventem palavras novas, colocam t√£o bem os termos de que se servem, que eles parecem inteiramente novos e feitos especialmente para significar o que elas querem dizer. Elas exprimem todo um sentimento numa √ļnica palavra, e deixam ainda mil coisas agrad√°veis a adivinhar; √© nisso que consiste a tal delicadeza da express√£o. Ela n√£o consiste de modo algum em palavras grandiosas, num longo agrupamento de palavras harmoniosas, em frases muito rebuscadas; √© necess√°rio n√£o sei qu√™ de natural, de desenvolto, de simples, de ing√©nuo, de f√°cil, mas vivo e engenhoso.

As Virtudes da Cidade

Amo o ru√≠do e a constante agita√ß√£o das grandes cidades. O movimento cont√≠nuo obriga √† observa√ß√£o dos costumes. O ladr√£o, por exemplo, ao ver toda a actividade humana, pensa involuntariamente que √© um patife, e esta imagem alegre em movimento pode vir a melhorar a sua natureza decadente e arruinada. O bo√©mio sente-se talvez mais modesto e pensativo quando v√™ todas as for√ßas produtivas, e o devasso diz possivelmente a si mesmo, quando lhe salta aos olhos a docilidade das massas, que n√£o √© mais do que um sujeito miser√°vel, est√ļpido e vaidoso, que s√≥ sabe ufanar-se com soberba. As grandes cidades ensinam, educam, e n√£o com doutrinas roubadas aos livros. N√£o h√° aqui nada de acad√©mico, o que √© lisonjeiro, pois o saber acumulado rouba-nos a coragem.
E depois h√° aqui tanto que incentiva, que sustenta e ajuda. Quase n√£o conseguimos diz√™-lo. √Č t√£o dif√≠cil dar uma express√£o viva ao que √© refinado e bom. Agradecemos as nossas vidas modestas, sentimo-nos sempre um pouco gratos quando somos empurrados, quando temos pressa. Quem tem tempo para esbanjar n√£o sabe o que o tempo significa, √© por natureza um ingrato. Nas grandes cidades qualquer mo√ßo de recados conhece o valor do tempo e nenhum ardina quer perder o seu tempo.

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Sou a Tua Casa

Sou a tua casa, a tua rua, a tua seguran√ßa, o teu destino. Sou a ma√ß√£ que comes e a roupa que vestes. Sou o degrau por onde sobes, o copo por onde bebes, o teu riso e o teu choro, o teu frio e a tua lareira. O pedinte que ajudas, o asilo que te quer acolher. Sou o teu pensamento, a tua recorda√ß√£o, a tua vontade. E tamb√©m o artes√£o que para ti trabalha, o medo que te perturba e o c√£o que te guia quando entras pela noite. Sou o s√≠tio onde descansas, a √°rvore que te d√° sombra, o vento que contigo se comove. Sou o teu corpo, o teu esp√≠rito, o teu brilho, a tua d√ļvida. Sou a tua m√£e, o teu amante, o marfim dos teus dentes. E sou, na luz do outono, o teu olhar. Sou a tua parteira e a tua l√°pide. Os teus vinte anos. O cora√ß√£o sepultado em ti. Sou as tuas asas, a tua liberdade, e tudo o que se move no teu interior. Sou a tua ressaca, o teu transtorno, o rel√≥gio que mede o tempo que te resta. Sou a tua mem√≥ria, a mem√≥ria da tua mem√≥ria,

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A Inteligência e o Sentido Moral

A intelig√™ncia √© quase in√ļtil para aqueles que s√≥ a possuem a ela. O intelectual puro √© um ser incompleto, infeliz, pois √© incapaz de atingir aquilo que compreende. A capacidade de apreender as rela√ß√Ķes das coisas s√≥ √© fecunda quando associada a outras actividades, como o sentido moral, o sentido afectivo, a vontade, o racioc√≠nio, a imagina√ß√£o e uma certa for√ßa org√Ęnica. S√≥ √© utiliz√°vel √† custa de esfor√ßo.
Os detentores da ciência preparam-se longamente realizando um duro trabalho. Submetem-se a uma espécie de ascetismo. Sem o exercício da vontade, a inteligência mantém-se dispersa e estéril. Uma vez disciplinada, torna-se capaz de perseguir a verdade. Mas só a atinge plenamente se for ajudada pelo sentido moral. Os grandes cientistas têm sempre uma profunda honestidade intelectual. Seguem a realidade para onde quer que ela os conduza. Nunca procuram substituí-la pelos seus próprios desejos, nem ocultá-la quando se torna opressiva. O homem que quiser contemplar a verdade deve manter a calma dentro de si mesmo. O seu espírito deve ser como a água serena de um lago. As actividades afectivas, contudo, são indispensáveis ao progresso da inteligência. Mas devem reduzir-se a essa paixão que Pasteur chamava deus inteiror, o entusiasmo.

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Absurdo, Liberdade e Projecto

Uma vez admitidos dois factos: que o devir n√£o tem fim e que n√£o √© dirigido por qualquer grande unidade na qual o indiv√≠duo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta s√≥ uma escapat√≥ria poss√≠vel: condenar todo esse mundo do devir como ilus√≥rio e inventar um mundo situado no al√©m, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo n√£o √© sen√£o constru√≠do sobre as suas pr√≥prias necessidades psicol√≥gicas e que ele n√£o √© de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a √ļltima forma do niilismo, que implica a nega√ß√£o do mundo metaf√≠sico e que a si mesma se pro√≠be de crer num mundo verdadeiro. Alcan√ßado este estado, reconhecemos que a realidade do devir √© a √ļnica realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam √† cren√ßa em outros mundos e em falsos deuses – mas n√£o suportamos este mundo que n√£o temos j√° a vontade de negar.
(…) Que se passou portanto? Cheg√°mos ao sentimento do n√£o valor da exist√™ncia quando compreendemos que ela n√£o pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade.

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Nao há Virtude sem Agitação Desordenada

Os choques e abalos que a nossa alma recebe pelas paix√Ķes corporais muito podem sobre ela; por√©m podem mais ainda as suas pr√≥prias, pelas quais est√° t√£o fortemente dominada que talvez possamos afirmar que n√£o tem nenhuma outra velocidade e movimento que n√£o os do sopro dos seus ventos, e que, sem a agita√ß√£o destes, ela permaneceria sem ac√ß√£o, como um navio em pleno mar e que os ventos deixassem sem ajuda. E quem sustentasse isso, seguindo o partido dos peripat√©ticos, n√£o nos causaria muito dano, pois √© sabido que a maior parte das mais belas ac√ß√Ķes da alma procedem desse impulso das paix√Ķes e necessitam dele. A valentia, diz-se, n√£o se pode cumprir sem a assist√™ncia da c√≥lera.

Ajax sempre foi valente, mas nunca o foi tanto como na sua loucura (Cícero)

Nem investimos contra os maus e os inimigos com tanto vigor se n√£o estivermos encolerizados; e pretende-se que o advogado inspire a c√≥lera nos ju√≠zes para deles obter justi√ßa. As paix√Ķes excitaram Tem√≠stocles, excitaram Dem√≥stenes e impeliram os fil√≥sofos para trabalhos, vig√≠lias e peregrina√ß√Ķes; conduzem-nos √† honra, √† ci√™ncia, √† sa√ļde – fins √ļteis. E essa falta de vigor da alma para suportar o sofrimento e os desgostos serve para alimentar na consci√™ncia a penit√™ncia e o arrependimento,

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