Textos sobre Satisfação

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Textos de satisfação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Infelicidade do Desejo

Um desejo é sempre uma falta, carência ou necessidade. Um estado negativo que implica um impulso para a sua satisfação, um vazio com vontade de ser preenchido.

Toda a vida é, em si mesma, um constante fluxo de desejos. Gerir esta torrente é essencial a uma vida com sentido. Cada homem deve ser senhor de si mesmo e ordenar os seus desejos, interesses e valores, sob pena de levar uma vida vazia, imoderada e infeliz. Os desejos são inimigos sem valentia ou inteligência, dominam a partir da sua capacidade de nos cegar e atrair para o seu abismo.
A felicidade √©, por ess√™ncia, algo que se sente quando a realidade extravasa o que se espera. A supera√ß√£o das expectativas. Ser feliz √© exceder os limites preestabelecidos, assim se conclui que quanto mais e maiores forem os desejos de algu√©m, menores ser√£o as suas possibilidades de felicidade, pois ainda que a vida lhe traga muito… esse muito √© sempre pouco para lhe preencher os vazios que criou em si pr√≥prio.

Na sociedade de consumo em que vivemos há cada vez mais necessidades. As naturais e todas as que são produzidas artificialmente. Hoje, criam-se carências para que se possa vender o que as preenche e anula.

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A Necessidade da Compaix√£o

Arrebatavam-me os espect√°culos teatrais, cheios de imagens das minhas mis√©rias e de alimento pr√≥prio para o fogo das minhas paix√Ķes. Mas porque quer o homem condoer-se, quando presenceia cenas dolorosas e tr√°gicas, se de modo algum deseja suport√°-las? Todavia, o espectador anseia por sentir esse sofrimento que, afinal, para ele constitui um prazer. Que √© isto sen√£o rematada loucura? Com efeito, tanto mais cada um se comove com tais cenas quanto menos curado se acha de tais afectos (delet√©rios). Mas ao sofrimento pr√≥prio chamamos ordinariamente desgra√ßa, e √† comparticipa√ß√£o das dores alheias, compaix√£o. Que compaix√£o √© essa em assuntos fict√≠cios e c√©nicos, se n√£o induz o espectador a prestar aux√≠lio, mas somente o convida √† ang√ļstia e a comprazer o dramaturgo na propor√ß√£o da dor que experimenta? E se aquelas trag√©dias humanas, antigas ou fingidas, se representam de modo a n√£o excitarem a compaix√£o, e espectador retira-se enfastiado e criticando. Pelo contr√°rio, se se comove, permanece atento e chora de satisfa√ß√£o.
Amamos, portanto, as l√°grimas e as dores. Mas todo o homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ningu√©m apraz ser desgra√ßado, apraz-nos contudo a ser compadecidos. N√£o gostaremos n√≥s dessas emo√ß√Ķes dolorosas pelo √ļnico motivo de que a compaix√£o √© companheira insepar√°vel da dor?

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A Hipocrisia do Conselho

Nada é mais hipócrita do que pedir ou dar conselhos. Quem pede, parece ter um respeito venerando pelos sentimentos do amigo a quem os pede, mas, no fundo, quer é fazer aprovar os sentimentos próprios e, assim, tornar o outro responsável pela sua conduta. Por outro lado, o que presta os conselhos retribui a confiança que lhe é dada, com um zelo ardente e desinteressado, apesar de, quase sempre, querer, através dos conselhos que dá, satisfazer os seus interesses ou a sua glória.

O Amor e o Vinho

Pense-se, por exemplo, na rela√ß√£o que existe entre o bebedor e o vinho. N√£o √© verdade que o vinho oferece sempre ao bebedor a mesma satisfa√ß√£o t√≥xica, que a poesia tem comparado com frequ√™ncia √† satisfa√ß√£o er√≥tica ‚ÄĒ compara√ß√£o, de resto, aceit√°vel do ponto de vista cient√≠fico? J√° alguma vez se ouviu dizer que o bebedor fosse obrigado a mudar sem descanso de bebida porque se cansaria rapidamente de uma bebida que permanecesse a mesma? Pelo contr√°rio, a habitua√ß√£o estreita cada vez mais o la√ßo entre o homem e a esp√©cie de vinho que ele bebe. Existir√° no bebedor uma necessidade de partir para um pa√≠s onde o vinho seja mais caro ou o seu consumo proibido, a fim de estimular por meio de semelhantes obst√°culos a sua satisfa√ß√£o decrescente? De modo nenhum. Basta escutarmos o que dizem os nossos grandes alco√≥licos, como B√≥cklin, da sua rela√ß√£o com o vinho: evocam a harmonia mais pura e como que um modelo de casamento feliz.

O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

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A Arte de Viver, pela Fantasia

A fantasia é a mãe da satisfação, do humor, da arte de viver. Apenas floresce alicerçada num íntimo entendimento entre o ser humano e aquilo que objectivamente o rodeia. Esse ambiente envolvente não tem de ser belo, singular ou sequer encantador. Basta que tenhamos tempo para a ele nos habituarmos, e é sobretudo isso que hoje em dia nos falta.

Posse Cega

Afligir-se com o que se perdeu e não se rejubilar com o que foi salvo é necedade; só uma criança faria berreiro e atiraria fora o restante dos seus brinquedos se um lhe fosse tomado. Assim procedemos nós, quando a Fortuna nos é adversa num particular: tomamos o resto improfícuo com chorar e lamentarmo-nos.
РQue é que possuímos? Рpode-se perguntar.
Que é que não possuímos? Este homem uma reputação, esse uma família, aquele uma esposa, aquele outro um amigo. No seu leito de morte, Antipater de Tarso fez um inventário das boas coisas que lhe haviam sucedido na vida e nele incluiu, mesmo, uma viagem feliz, que fizera de Cilícia a Atenas. As coisas simples não devem ser negligenciadas, mas levadas em conta. Devemo-nos sentir gratos por estarmos vivos, bem, e por nos ser dado ver o sol; por não haver guerra nem revolução; por a terra e o mar estarem ao dispor de quem deseje plantar ou velejar; por nos ser consentido escolher entre falar e agir ou ficar quietos, em paz, gozando do nosso repouso.
A presença destas bençãos aumentará ainda mais o nosso contentamento se imaginarmos como seria se não estivessem presentes;

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Liberdade é Pouco

Liberdade √© pouco. O que desejo ainda n√£o tem nome. ‚ÄĒ Sou pois um brinquedo a quem d√£o corda e que terminada esta n√£o encontrar√° vida pr√≥pria, mais profunda. Procurar tranquilamente admitir que talvez s√≥ a encontre se for busc√°-la nas fontes pequenas. Ou sen√£o morrerei de sede. Talvez n√£o tenha sido feita para as √°guas puras e largas, mas para as pequenas e de f√°cil acesso. E talvez meu desejo de outra fonte, essa √Ęnsia que me d√° ao rosto um ar de quem ca√ßa para se alimentar, talvez essa √Ęnsia seja uma ideia – e nada mais. Por√©m – os raros instantes que √†s vezes consigo de sufici√™ncia, de vida cega, de alegria t√£o intensa e t√£o serena como o canto de um √≥rg√£o – esses instantes n√£o provam que sou capaz de satisfazer minha busca e que esta √© sede de todo o meu ser e n√£o apenas uma ideia? Al√©m do mais, a ideia √© a verdade! grito-me. S√£o raros os instantes.

O Amor como Factor Civilizador

As provas da psican√°lise demonstram que quase toda rela√ß√£o emocional √≠ntima entre duas pessoas que perdura por certo tempo ‚ÄĒ casamento, amizade, as rela√ß√Ķes entre pais e filhos ‚ÄĒ cont√©m um sedimento de sentimentos de avers√£o e hostilidade, o qual s√≥ escapa √† percep√ß√£o em consequ√™ncia da repress√£o. Isso acha-se menos disfar√ßado nas alterca√ß√Ķes comuns entre s√≥cios comerciais ou nos resmungos de um subordinado em rela√ß√£o ao seu superior. A mesma coisa acontece quando os homens se re√ļnem em unidades maiores. Cada vez que duas fam√≠lias se vinculam por matrim√≥nio, cada uma delas se julga superior ou de melhor nascimento do que a outra. De duas cidades vizinhas, cada uma √© a mais ciumenta rival da outra; cada pequeno cant√£o encara os outros com desprezo. Ra√ßas estreitamente aparentadas mant√™m-se a certa dist√Ęncia uma da outra: o alem√£o do sul n√£o pode suportar o alem√£o setentrional, o ingl√™s lan√ßa todo tipo de cal√ļnias sobre o escoc√™s, o espanhol despreza o portugu√™s. N√£o ficamos mais espantados que diferen√ßas maiores conduzam a uma repugn√Ęncia quase insuper√°vel, tal como a que o povo gaul√™s sente pelo alem√£o, o ariano pelo semita.
Quando essa hostilidade se dirige contra pessoas que de outra maneira s√£o amadas,

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A Vida é uma Busca

A vida √© uma busca ‚ÄĒ uma busca constante, uma busca desesperada, uma busca sem esperan√ßa, uma busca de algo que n√£o se sabe o que √©. H√° um forte impulso para procurar, mas n√£o se sabe o que se procura. E h√° um certo estado de esp√≠rito em que nada daquilo que consegue lhe dar√° qualquer satisfa√ß√£o. A frustra√ß√£o parece ser o destino da humanidade, porque tudo aquilo que se obt√©m perde o sentido no momento exacto em que se consegue. Come√ßa-se novamente a procurar.
A busca continua, quer se consiga alguma coisa ou n√£o. Parece ser irrelevante o que se tem e o que n√£o se tem, pois a busca continua de qualquer maneira. Os pobres andam √† procura, os ricos andam √† procura, os doentes andam √† procura, os que est√£o bem andam √† procura, os poderosos andam √† procura, os est√ļpidos andam √† procura, os sensatos andam √† procura – e ningu√©m sabe exactamente de qu√™.

Essa mesma procura ‚ÄĒ o que √© e porque existe ‚ÄĒ tem de ser compreendida. Parece haver um hiato no ser humano, na mente humana. Na pr√≥pria estrutura da consci√™ncia humana parece haver um buraco, um buraco negro.

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A Hipocrisia do Amor ao Povo

Estes amam o povo, mas n√£o desejariam, por interesse do pr√≥prio amor, que sa√≠sse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as supersti√ß√Ķes e as lendas; v√™em-se generosos e sens√≠veis quando se debru√ßam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; √© muito interessante o animal que examinam, mas que n√£o tente o animal libertar-se da sua condi√ß√£o; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posi√ß√£o; em nome da est√©tica e de tudo o resto conv√©m que se mantenha.
H√° tamb√©m os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir √© o dom√≠nio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um cora√ß√£o de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o v√£o desejo de mandar; nestes n√£o encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque liter√°rio; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, √© o som do oco tambor ret√≥rico o √ļltimo que se ouve.

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O Abismo da Agitação

Uma vida demasiado repleta de agita√ß√£o √© uma vida esgotante que continuamente exige estimulantes mais fortes para provocar as emo√ß√Ķes que acabam por ser consideradas parte essencial do prazer. Uma pessoa habituada a demasiada agita√ß√£o √© compar√°vel √† que tem um desejo m√≥rbido de pimenta e acaba por ser incapaz de lhe apreciar o sabor numa quantidade que sufocaria qualquer outra pessoa. H√° sempre um certo aborrecimento quando se evita em demasia a agita√ß√£o, mas por sua vez a agita√ß√£o demasiada n√£o s√≥ enfraquece a sa√ļde como embota o gosto para toda a esp√©cie de prazeres, substituindo titila√ß√Ķes por profundas satisfa√ß√Ķes org√Ęnicas, habilidade por intelig√™ncia e impress√Ķes fugidias por beleza. N√£o pretendo exagerar os perigos da agita√ß√£o. Uma certa quantidade talvez seja saud√°vel, mas como em quase todas as outras coisas, o problema √© de ordem quantitativa. Uma dose demasiado pequena pode gerar desejos m√≥rbidos e o abuso pode produzir o esgotamento. Certa capacidade para suportar o aborrecimento √© pois essencial a uma vida feliz e isso era uma das coisas que deviam ser ensinadas aos jovens.

A Essência de Nós não Está na Razão

“Que teria sido de mim, que teria sido da minha vida se n√£o fossem essas cren√ßas, se n√£o soubesse que √© preciso viver para Deus e n√£o para as minhas necessidades? Teria roubado, teria matado, teria mentido. Nenhuma das principais alegrias da minha vida teria podido existir para mim”. E por mais esfor√ßos mentais que fizesse, n√£o conseguia ver-se a si pr√≥prio como o ser bestial que teria sido, caso n√£o soubesse para que vivia. “Buscava resposta √† minha pergunta. Mas o pensamento n√£o me podia responder, pois o pensamento n√£o pode medir-se com a pergunta. A pr√≥pria vida se encarregou de me responder gra√ßas ao conhecimento do bem e do mal”.

“E esse conhecimento n√£o o adquiri atrav√©s de coisa alguma, foi-me outorgado, como a todos os demais, visto que o n√£o pude encontrar em parte alguma. De onde o soube? Porventura foi atrav√©s do racioc√≠nio que eu cheguei √† conclus√£o de que √© preciso amar o pr√≥ximo e n√£o lhe fazer mal? Disseram-me na inf√Ęncia e acreditei-o com alegria, pois trazia-o na alma. E quem o descobriu? A raz√£o, n√£o. A raz√£o descobriu a luta pela exist√™ncia e a lei, que exige que se eliminem todos quantos nos impedem de satisfazer os nossos desejos.

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A Boa Vontade

De todas as coisas que podemos conceber neste mundo ou mesmo, de uma maneira geral, fora dele, n√£o h√° nenhuma que possa ser considerada como boa sem restri√ß√£o, salvo uma boa vontade. O entendimento, o esp√≠rito, o ju√≠zo e os outros talentos do esp√≠rito, seja qual for o nome que lhes dermos, a coragem, a decis√£o, a perseveran√ßa nos prop√≥sitos, como qualidades do temperamento, s√£o, indubit√°velmente, sob muitos aspectos, coisas boas e desej√°veis; contudo, tamb√©m podem chegar a ser extrordin√°riamente m√°s e daninhas se a vontade que h√°-de usar destes bens naturais, e cuja constitui√ß√£o se chama por isso car√°cter, n√£o √© uma boa vontade. O mesmo se pode dizer dos dons da fortuna. O poder, a riqueza, a considera√ß√£o, a pr√≥pria sa√ļde e tudo o que constitui o bem-estar e contentamento com a pr√≥pria sorte, numa palavra, tudo o que se denomina felicidade, geram uma confian√ßa que muitas vezes se torna arrog√Ęncia, se n√£o existir uma boa vontade que modere a influ√™ncia que a felicidade pode exercer sobre a sensibilidade e que corrija o princ√≠pio da nossa actividade, tornando-o √ļtil ao bem geral; acrescentemos que num espectador imparcial e dotado de raz√£o, testemunha da felicidade ininterrupta de uma pessoa que n√£o ostente o menor tra√ßo de uma vontade pura e boa,

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A Corrupção é Proporcional à Democracia

Os homens são atormentados pelo pecado original dos seus instintos anti-sociais, que permanecem mais ou menos uniformes através dos tempos. A tendência para a corrupção está implantada na natureza humana desde o princípio. Alguns homens têm força suficiente para resistir a essa tendência, outros não a têm. Tem havido corrupção sob todo o sistema de governo. A corrupção sob o sistema democrático não é pior, nos casos individuais, do que a corrupção sob a autocracia. Há meramente mais, pela simples razão de que onde o governo é popular, mais gente tem oportunidade para agir corruptamente à custa do Estado do que nos países onde o governo é autocrático. Nos estados autocraticamente organizados, o espólio do governo é compartilhado entre poucos. Nos estados democráticos há muito mais pretendentes, que só podem ser satisfeitos com uma quantidade muito maior de espólio que seria necessário para satisfazer os poucos aristocratas. A experiência demonstrou que o governo democrático é geralmente muito mais dispendioso do que o governo por poucos.

A Felicidade Provém da Plena Posse das Suas Faculdades

O √≥dio √† raz√£o, t√£o frequente nos nossos dias, √© devido em grande parte ao facto dos movimentos da raz√£o n√£o serem concebidos duma forma suficientemente fundamental. O homem dividido contra si mesmo procura est√≠mulos e distrac√ß√Ķes; ama as paix√Ķes fortes, n√£o por raz√Ķes profundas, mas porque moment√Ęneamente elas lhe permitem evadir-se de si pr√≥prio e afastam dele a dolorosa necessidade de pensar.
Toda a paix√£o √© para ele uma forma de intoxica√ß√£o, e desde que n√£o pode conceber uma felicidade fundamental, a intoxica√ß√£o parece-lhe o √ļnico al√≠vio para o seu sofrimento. Isso, no entanto, √© o sintoma duma doen√ßa de ra√≠zes profundas. Quando n√£o h√° tal doen√ßa, a felicidade prov√©m da plena posse das suas faculdades. √Č nos momentos em que o esp√≠rito est√° mais activo, em que menos coisas s√£o esquecidas que se sentem alegrias mais intensas. Esta √©, sem d√ļvida, uma das melhores pedras de toque da felicidade. A felicidade que exige intoxica√ß√£o de n√£o importa que esp√©cie, √© falsa e n√£o d√° qualquer satisfa√ß√£o. A felicidade que satisfaz verdadeiramente √© acompanhada pelo completo exerc√≠cio das nossas faculdades e pela compreens√£o plena do mundo em que vivemos.

A Felicidade é tão Cansativa como a Infelicidade

Toda a gente tem o seu m√©todo de interpretar a seu favor o balan√ßo das suas impress√Ķes, para que da√≠ resulte de algum modo aquele m√≠nimo de prazer necess√°rio √†s suas exist√™ncias quotidianas, o suficiente em tempos de normalidade. O prazer da vida de cada um pode ser tamb√©m constitu√≠do por desprazer, essas diferen√ßas de ordem material n√£o t√™m import√Ęncia; sabemos que existem tantos melanc√≥licos felizes como marchas f√ļnebres, que pairam t√£o suavemente no elemento que lhes √© pr√≥prio como uma dan√ßa no seu. Talvez tamb√©m se possa afirmar, ao contr√°rio, que muitas pessoas alegres de modo nenhum s√£o mais felizes do que as tristes, porque a felicidade √© t√£o cansativa como a infelicidade; mais ou menos como voar, segundo o princ√≠pio do mais leve ou mais pesado do que o ar. Mas haveria ainda uma outra objec√ß√£o: n√£o ter√° raz√£o aquela velha sabedoria dos ricos segundo a qual os pobres n√£o t√™m nada a invejar-lhes, j√° que √© pura fantasia a ideia de que o seu dinheiro os torna mais felizes? Isso s√≥ lhes imporia a obriga√ß√£o de encontrar um sistema de vida diferente do seu, cujo or√ßamento, em termos de prazer, fecharia apenas com um m√≠nimo excedente de felicidade,

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A Sabedoria e a Alegria

Vou ensinar-te agora o modo de entenderes que n√£o √©s ainda um s√°bio. O s√°bio aut√™ntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturb√°vel; vive em p√© de igualdade com os deuses. Analisa-te ent√£o a ti pr√≥prio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperan√ßa te aflige o √Ęnimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mant√©m igual a si mesma, isto √©, plena de eleva√ß√£o e contente de si pr√≥pria, ent√£o conseguiste atingir o m√°ximo bem poss√≠vel ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, n√£o buscas sen√£o o prazer, fica sabendo que t√£o longe est√°s da sabedoria como da alegria verdadeira. Pretendes obter a alegria, mas falhar√°s o alvo se pensas vir a alcan√ß√°-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso ser√° o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da ang√ļstia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfa√ß√£o e prazer, s√£o apenas motivos para futuras dores.
Toda a gente, repito, tende para um objectivo: a alegria, mas ignora o meio de conseguir uma alegria duradoura e profunda. Uns procuram-na nos banquetes, na libertinagem; outros, na satisfa√ß√£o das ambi√ß√Ķes, na multid√£o ass√≠dua dos clientes;

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Compaix√£o Perversa

O prazer de maltratar outr√©m √© distinto da crueldade. Esta consiste em encontrar satisfa√ß√£o na compaix√£o, e atinge o ponto culminante quando a compaix√£o chega a extremos, como quando maltratamos os que amamos; todavia, se fosse algu√©m, que n√£o n√≥s, a magoar os que amamos, ent√£o fic√°vamos furiosos, e a compaix√£o tornar-se-nos-ia dolorosa; mas somos n√≥s a am√°-los e somos n√≥s a mago√°-los…
A compaixão exerce uma infinita atenção: a contradição de dois instintos fortes e opostos actua em nós como atractivo supremo.
(…) A crueldade e o prazer da compaix√£o:
A compaixão aumenta quanto mais conhecemos e mais amamos intensamente quem é objecto dela. Portanto, aquele que trata com crueldade o objecto do seu amor retira da crueldade Рque amplia a compaixão Рa máxima satisfação.
Quando, acima de tudo, nos amamos a nós próprios, o maior prazer que encontramos Рpor meio da compaixão Рpode levar-nos a mostrarmo-nos cruéis para connosco. Heróico da nossa parte é o esforço de completa identificação com aquilo que nos é contrário. A metamorfose do Diabo em Deus representa esse grau de crueldade.

O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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