Citação de

Fim-de-Semana em Casa

É sábado. É Inverno. É dia de acastelar. Saímos com sacos, «tupper-wares», rolos de notas e troco, listas.
Vamos aos mercados, Ă s lojas, aos restaurantes. O objectivo Ă© enchermo-nos de vĂ­veres, jornais e revistas, queijinhos frescos, nozes e avelĂŁs, coentros e beringelas, feijoadas de chocos e caldeiradas, velharias, bolos e pilhas sobressalentes.
SĂł o bastante para nos acastelarmos em casa, repimpões, com tudo ao nosso alcance, atĂ© Ă  longĂ­nqua segunda-feira. Dia em que saĂ­remos – talvez – quando todos os forasteiros e fim-de-semaneiros tiverem voltado para casa deles.
NĂŁo temos um fosso ou sequer um ferrolho na porta – mas corremo-lo Ă  mesma, idealmente, tropeçando de verdade nas cabeças de alhos-porros e nas ramas das beterrabas, protuberando dos sacos de plástico deitados, mortos, no chĂŁo da cozinha.
Será a mentalidade medieval do campismo ou o ideal «hippy» da auto-suficiência? Não. Constitui açambarcamento? É anti-social? Também não. É apenas o prazer do ninho. Com ameias.
Quanto pior o tempo, melhor sabe fecharmo-nos no nosso castelinho, seguros que estamos abastecidos, de tudo, para dois dias inteiros, prontos para sobrevivermos alegremente até ao fim do fim-de-semana. Cá nos acastelamos e cá nos vamos arranjando.
Noutra dimensĂŁo, graças a compras sabichonas, temos chá bom – para a manhĂŁ e para a tarde, com quatro bules por dia – atĂ© ao fim de 2011. É um alĂ­vio.
O futuro deixa-se roubar – e vai-se roubando enquanto se pode.

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