Passagens sobre Casas

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Os P√°ssaros de Londres

Os p√°ssaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao tr√Ęnsito autom√≥vel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os p√°ssaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os p√°ssaros de Londres

quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas √°rvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde n√£o sabes n√£o
se vida rogo amor
algum dia erguer√£o
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os p√°ssaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidad√£os brit√Ęnicos
que nunca nunca viram
os c√©us mediterr√Ęnicos

A Musa Venal

Musa do meu amor, ó principesca amante,
Quando o inverno chegar, com seus ventos irados
Pelos longos ser√Ķes, de frio tiritante,
Com que hás-de acalentar os pésitos gelados?

Tencionas aquecer o colo deslumbrante
Com os raios de luz pelos vidros filtrados?
Tendo a casa vazia e a bolsa agonizante
o ouro vais roubar aos céus iluminados?

Precisas, para obter o triste p√£o di√°rio,
Fazer de sacrist√£o e de turibul√°rio,
Entoar um Te-Deum, sem crença nem favor,

Ou, como um saltimbanco esfomeado, mostrar
As tuas perfei√ß√Ķes, atrav√©s d’um olhar
Onde ocultas, a rir, o natural pudor!

Tradução de Delfim Guimarães

O sono é como uma outra casa que poderíamos ter, e onde, deixando a nossa, iríamos dormir.

A Pessoa de quem se Anda à Procura

Normalmente a pessoa de quem se anda √† procura vive mesmo ao lado. Isto n√£o √© f√°cil de explicar, temos de simplesmente aceit√°-lo como um facto. Tem ra√≠zes t√£o profundas que n√£o se pode fazer nada, mesmo com esfor√ßo. A raz√£o √© que n√≥s n√£o sabemos nada deste vizinho de quem andamos √† procura. Ou seja, n√£o sabemos que andamos √† procura dele nem que ele vive na casa ao lado, mas ent√£o ele vive mesmo na casa ao lado. √Č claro que podemos saber isto como um facto geral na nossa experi√™ncia; s√≥ que sab√™-lo n√£o tem qualquer import√Ęncia, mesmo que guardemos isso em mente.

Se toda a gente exigisse paz em vez de mais uma televis√£o l√° em casa, ent√£o existiria paz.

√Č a Vaidade e n√£o o Prazer que nos Interessa

Qual a finalidade da avareza e da ambi√ß√£o, da busca de riqueza, poder e preemin√™ncia? Ser√° para suprir as necessidades da natureza? O sal√°rio do mais pobre trabalhador pode supri-las. Vemos que esse sal√°rio lhe permite ter comida e roupas, o conforto de uma casa e de uma fam√≠lia. Se examin√°ssemos a sua economia com rigor, constatar√≠amos que ele gasta grande parte do que ganha com conveni√™ncias que podem ser consideradas sup√©rfluas. […] Qual √©, ent√£o, a causa da nossa avers√£o √† sua situa√ß√£o, e por que os que foram educados nas camadas mais elevadas consideram pior que a morte serem reduzidos a viver, mesmo sem trabalhar, compartilhando com ele a mesma comida simples, a habitar o mesmo tecto modesto e a vestir-se com os mesmos trajes humildes? Por acaso imaginam que t√™m um est√īmago superior ou que dormem melhor num pal√°cio do que numa cabana? [… ] De onde, portanto, nasce a emula√ß√£o que permeia todas as diferentes classes de homens, e quais s√£o as vantagens que pretendemos com esse grande prop√≥sito da vida humana a que chamamos melhorar nossa condi√ß√£o? Ser notado, ser ouvido, ser tratado com simpatia e afabilidade e ser visto com aprova√ß√£o s√£o todas as vantagens que se pode pretender obter com isso.

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À noite, Marie esquecera tudo. O filme tinha momentos engraçados e outros realmente idiotas. A sua perna estava encostada na minha. Acariciava-lhe os seios. No fim da sessão, eu a beijei, mas mal. Ao sair, veio para minha casa.

Adeus! Caro de Mais te Possuía

Adeus! caro de mais te possuía,
sabes a estimativa em que te trazem;
carta de teu valor d√°-te franquia,
meus vínculos a ti já se desfazem.

Como reter-te sem consentimento
e onde mereço essa riqueza grada?
Falece a causa em mim de tal provento
e a patente que tenho é revogada.

Deste-me, sem saber do teu valor,
ou quanto a mim, a quem o deste, errando,
e a d√°diva que em base errada for

volta a casa, melhor se ponderando.
Tive-te assim qual sonho de embalar,
um rei no sono e nada ao acordar.

Despedida

Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de c√°lices, uma s√ļplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
N√£o vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta m√ļsica √© quase o vento.

A Arte Est√° em Todo o Lado

N√≥s n√£o nos damos conta de como a arte nos trespassa de todo o lado. Anotar isso aos que vaticinam a morte da arte. Isto ao n√≠vel mais corriqueiro. Dispor os m√≥veis numa sala √© fazer arte. Ou olhar uma paisagem, p√īr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apar√°-la quando comprida. Todas as coisas de cerim√≥nia t√™m que ver com a arte. E o corte das unhas.
Todo o jogo. Toda a verdade que releva da emo√ß√£o. √Äs vezes mesmo a escolha do papel higi√©nico. Mas mesmo a desordem. Bergson, creio, dizia que se tudo fosse desordenado, n√≥s acabar√≠amos por ler a√≠ uma ordem. E n√£o √© o que fazemos ao inventarmos as constela√ß√Ķes? Admitir a morte da arte √© admitir a morte do homem, que imp√Ķe essa arte a tudo o que v√™. Mas tenho de ir √† casa de banho. A ver se invento arte mesmo a√≠. (Mas quando disse ¬ęcasa de banho¬Ľ e n√£o ¬ęretrete¬Ľ, j√° a inventei.)

A Memória é um Silêncio que Espera

O património do silêncio. Os livros acumulam-se pela casa. Cobrem as paredes, enchem as prateleiras dos armários. Aguardam-nos calados com suas páginas apertadas onde o pó e a humidade se infiltram. Disciplinados, exibem apenas o seu dorso curvo coberto de pele, ou então magro, estreito, de papel. A memória é um silêncio que espera, uma provação da paciência.

Ausência Misteriosa

Uma hora só que o teu perfil se afasta,
Um instante sequer, um só minuto
Desta casa que amo — vago luto
Envolve logo esta morada casta.

Tua presença delicada basta
Para tudo tornar claro e impoluto…
Na tua ausência, da Saudade escuto
O pranto que me prende e que me arrasta…

Secretas e sutis melancolias
Recuadas na Noite dos meus dias
Vêm para mim, lentas, se aproximando.

E em toda casa, nos objetos, erra
Um sentimento que não é da Terra
E que eu mudo e sozinho vou sonhando…

Vilegiatura

O sossego da noite, na vilegiatura no alto;
O sossego, que mais aprofunda
O ladrar esparso dos c√£es de guarda na noite;
O silêncio, que mais se acentua,
Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro …
Ah, a opress√£o de tudo isto!
Oprime como ser feliz!
Que vida idílica, se fosse outra pessoa que a tivesse
Com o zumbido ou murm√ļrio mon√≥tono de nada
Sob o céu sardento de estrelas,
Com o ladrar dos c√£es polvilhando o sossego de tudo!

Vim para aqui repousar,
Mas esqueci-me de me deixar l√° em casa,
Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.

Sempre esta inquietação mordida aos bocados
Como p√£o ralo escuro, que se esfarela caindo.
Sempre este mal-estar tomado aos maus haustos
Como um vinho de bêbado quando nem a náusea obsta.

Sempre, sempre, sempre
Este defeito da circulação na própria alma,
Esta lipotimia das sensa√ß√Ķes,
Isto…

(Tuas m√£os esguias, um pouco p√°lidas, um pouco minhas,
Estavam naquele dia quietas pelo teu regaço de sentada,

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Talvez não se pudesse amar uma casa como a uma pessoa. Mas podia-se, mesmo assim, amar através de uma casa as pessoas com quem se fora feliz nela.