Textos sobre Incómodos

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Textos de incómodos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Juízes Imparciais

Se quisermos ser ju√≠zes imparciais em qualquer circunst√Ęncia, devemos, antes de mais, ter em conta que ningu√©m est√° livre de culpa; o que est√° na origem da nossa indigna√ß√£o √© a ideia de que: ¬ęEu n√£o errei¬Ľ e ¬ęEu n√£o fiz nada¬Ľ. Pelo contr√°rio, tu recusas admitir os teus erros! Indignamo-nos quando somos castigados ou repreendidos, cometendo, simultaneamente, o erro de acrescentar aos crimes cometidos, a arrog√Ęncia e a obstina√ß√£o. Quem poder√° dizer que nunca infringiu a lei? E, se assim for, √© bem estreita inoc√™ncia ser bom perante a lei! Qu√£o mais vasta √© a regra do dever do que a regra do direito! Quantas obriga√ß√Ķes imp√Ķem a piedade, a humanidade, a bondade, a justi√ßa e a lealdade, que n√£o est√£o escritas em nenhuma t√°bua de leis!
Mas n√≥s n√£o podemos satisfazer-nos com aquela no√ß√£o de inoc√™ncia t√£o limitada: h√° erros que cometemos, outros que pensamos cometer, outros que desejamos cometer, outros que favorecemos; por vezes, somos inocentes por n√£o termos conseguido comet√™-los. Se tivermos isto em conta, somos mais justos para com os delinquentes, e mais persuasivos nas admoesta√ß√Ķes; em todo o caso, n√£o nos iremos contra os homens bons (de facto, contra quem n√£o nos sentiremos irados,

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O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o t√©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: √† medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, exp√Ķe uma oscila√ß√£o mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a priva√ß√£o geram a dor; em contrapartida, a seguran√ßa e a abund√Ęncia geram o t√©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocr√°tico, pelo contr√°rio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o t√©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indiv√≠duo, a susceptibilidade para um encontra-se em propor√ß√£o inversa √† susceptibilidade para o outro, j√° que ela √© determinada pela medida das suas for√ßas espirituais. Com efeito, a obtusidade do esp√≠rito est√°, em geral, associada √† da sensa√ß√£o e √† aus√™ncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indiv√≠duo menos suscept√≠vel √†s dores e afli√ß√Ķes de qualquer tipo e intensidade.

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N√£o h√° Nada T√£o Enjoativo Quanto a Abund√Ęncia

O amor bem nutrido e excessivamente submisso logo nos enjoa e cansa, como o excesso de uma iguaria agrad√°vel cansa o est√īmago (Ov√≠dio). Julgam que os meninos de coro t√™m grande prazer com a m√ļsica? A saciedade toma-a antes tediosa. Os festins, as dan√ßas, as mascaradas, os torneios alegram os que n√£o os v√™em ami√ļde e que desejaram v√™-los; mas para quem o faz habitualmente o seu gosto torna-se ins√≠pido e desagra¬≠d√°vel; tamb√©m as mulheres n√£o excitam aquele que delas desfruta √† saciedade. Quem n√£o se d√° tempo para sentir sede n√£o poderia ter prazer em beber. As farsas dos saltimbancos divertem-nos, mas para os actores servem de obriga√ß√£o. E a prova disso √© que para os pr√≠ncipes s√£o de¬≠l√≠cias, √© festa poderem √†s vezes travestir-se e descer √† for¬≠ma de vida baixa e popular, frequentemente aos grandes apraz mudar; e refei√ß√Ķes frugais e asseadas sob o tecto de um pobre, sem tapete nem p√ļrpura, desenrugaram-¬≠lhes a fronte inquieta (Hor√°cio).
N√£o h√° nada t√£o inc√≥modo, t√£o enjoativo quanto a abund√Ęncia. Que apetite n√£o se repugnaria ao ver tre¬≠zentas mulheres √† sua merc√™, como as que tem o grande se¬≠nhor no seu serralho? E que prazer e que esp√©cie de ca¬≠√ßada buscara aquele ancestral seu que nunca ia para os campos com menos de sete mil falcoeiros?

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A Mocidade Prop√Ķe, a Maturidade Disp√Ķe

√Č fun√ß√£o da mocidade ser profundamente sens√≠vel √†s novas ideias como instrumentos r√°pidos para dominar o meio; e √© fun√ß√£o da idade madura opor-se tenazmente a essas ideias ; isso faz com que as inova√ß√Ķes fiquem em experi√™ncia por algum tempo antes que a sociedade as ponha em pr√°tica. A maturidade atenua as ideias novas, redu-las de modo a caberem dentro da possibilidade ou a que s√≥ se realizem em parte. A mocidade prop√Ķe, a maturidade disp√Ķe, a velhice op√Ķe-se. A mocidade domina nos per√≠odos revolucion√°rios; a maturidade, nos per√≠odos de reconstru√ß√£o; a velhice, nos per√≠odos de estagna√ß√£o. ¬ęD√°-se com os homens¬Ľ, diz Nietzsche, ¬ęo mesmo que com as carvoarias na floresta. S√≥ depois que a mocidade se carboniza √© que se torna utiliz√°vel. Enquanto est√° a arder ser√° muito interessante, mas inc√≥moda e in√ļtil.¬Ľ

Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espírito se poderem encontrar num grande espírito, algumas há, no entanto, que lhe são próprias e específicas: as suas luzes não têm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vê e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos são elevados, extensos, justos e intelegíveis; nada escapa à sua perspicácia, que o leva sempre a descobrir a verdade, através das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades não impedem por vezes que o espírito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo esp√≠rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agrad√°veis e naturais; torna vis√≠veis os seus aspectos mais favor√°veis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes conv√™m; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que √© in√ļtil ou lhe possa desagradar. Um esp√≠rito recto, f√°cil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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Sobre a Reforma

Lan√ßar-me-ia num discurso demasiado longo se referisse aqui em particular todas as raz√Ķes naturais que levam os velhos a retirarem-se dos neg√≥cios do mundo: as mudan√ßas de humor, de condi√ß√Ķes f√≠sicas e o enfraquecimento org√Ęnico levam as pessoas e a maior parte dos animais, a afastarem-se pouco a pouco dos seus semelhantes. O orgulho, que √© insepar√°vel do amor-pt√≥prio, substitui-se-lhes √† raz√£o: j√° n√£o pode ser lisonjeado pela maior parle das coisas que lisonjeiam os outros, porque a experi√™ncia lhe fez conhecer o valor do que todos os homens desejam na juventude e a impossibilidade de o continuar a disfrutar; as diversas vias que parecem abertas aos jovens para alcan√ßar grandeza, prazeres, reputa√ß√£o e tudo o mais que eleva os homens, est√£o-lhes vedadas, quer pela fortuna ou pela sua conduta, quer pela inveja ou pela injusti√ßa dos outros; o caminho de reingresso nessas vias √© demasiado longo e demasiado √°rduo para quem j√° se perdeu nelas; as dificuldades parecem-lhes imposs√≠veis de ultrapassar e a idade j√° lhes n√£o permite tais pretens√Ķes. Tornam-se insens√≠veis √† amizade, n√£o s√≥ porque talvez nunca tenham encontrado nenhuma verdadeira, mas tamb√©m porque viram morrer grande n√ļmero de amigos que ainda n√£o tinham tido tempo nem ocasi√£o de desiludir a sua amizade e,

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O Elixir do Prazer

Que √©, pois, o que se opera na alma, quando se deleita mais com as coisas encontradas ou reavidas que estima, do que se as possu√≠sse sempre? H√°, na verdade, muitos outros exemplos que o afirmam. Abundam os testemunhos que nos gritam: -¬ę√Č assim mesmo!¬Ľ. Triunfa o general vitorioso. Mas n√£o teria alcan√ßado a vit√≥ria se n√£o tivesse pelejado e quanto mais grave foi o perigo no combate, tanto maior √© o gozo no triunfo. A tempestade arremessa os marinheiros, amea√ßando-os com o naufr√°gio: todos empalidecem com a morte iminente. Mas tranquilizam-se o c√©u e o mar, e todos exultam muito, porque muito temeram. Est√° doente um amigo e o seu pulso acusa perigo. Todos os que o desejam ver curado sentem-se simultaneamente doentes na alma. Melhora. Ainda n√£o recuperou as for√ßas antigas e j√° reina tal j√ļbilo qual n√£o existia antes, quando se achava s√£o e forte.
Até os próprios prazeres da vida humana não se apossam do coração do homem só por desgraças inesperadas e fortuitas, mas por moléstias previstas e voluntariamente procuradas. Não há prazer nenhum no comer e beber, se o incómodo da fome e da sede o não precede. Por isso, os ébrios costumam tomar certos alimentos salgados,

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O Amor em Portugal

Mesmo que Dom Pedro n√£o tenha arrancado e comido o cora√ß√£o do carrasco de Dona In√™s, J√ļlio Dantas continua a ter raz√£o: √© realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no inc√≥modo fon√©tico de dizer ¬ęEu amo-o¬Ľ ou ¬ęEu amo-a¬Ľ. Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que est√£o apaixonados, o que n√£o √© a mesma coisa, ou ent√£o embara√ßam seriamente os eleitos com as vers√Ķes estrangeiras: ¬ęI love you¬Ľ ou ¬ęJe t’aime¬Ľ. As perguntas ¬ęAmas-me?¬Ľ ou ¬ęSer√° que me amas?¬Ľ est√£o vedadas pelo bom gosto, sen√£o pelo bom senso. Por isso diz-se antes ¬ęGostas mesmo de mim?¬Ľ, o que tamb√©m n√£o √© a mesma coisa.

O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contr√°rio do que acontece nas demais l√≠nguas indo-europeias, n√£o tem em Portugal o sentido simples e bonito de ¬ęaquele que ama, ou √© amado¬Ľ. Diz-se que n√£o sei-quem √© amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opr√≥bio galin√°ceo das reuni√Ķes de ¬ętupperwares¬Ľ e de costura.
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo.

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Desaprender

H√° uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a… desaprender. E para qu√™ e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega √†s m√£os, n√£o exclame, satisfeito ou enfastiado: ¬ę- C√° est√° ele!¬Ľ.
Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.
Aten√ß√£o, v√™m a√≠ as receitas, as ideias feitas, os passes de m√£o, os clich√©s, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor est√° instalado. Rev√™-se na sua obra. Come√ßa a abalan√ßar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. √Č a intelectualidade que o chama ao seu seio, o p√ļblico que o p√Ķe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado.
Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se c√≥modo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se inc√≥modo. Organiza ¬ędossiers¬Ľ com os recortes das cr√≠ticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome,

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O Homem Congrega Todas as Espécies de Animais

H√° t√£o diversas esp√©cies de homens como h√° diversas esp√©cies de animais, e os homens s√£o, em rela√ß√£o aos outros homens, o que as diferentes esp√©cies de animais s√£o entre si e em rela√ß√£o umas √†s outras. Quantos homens n√£o vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cru√©is, outros como le√Ķes, mantendo alguma apar√™ncia de generosidade, outros como ursos grosseiros e √°vidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo of√≠cio √© enganar!
Quantos homens n√£o se parecem com os c√£es! Destroem a sua esp√©cie; ca√ßam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atr√°s do dono; outros guardam-lhes a casa. H√° lebr√©us de trela que vivem do seu m√©rito, que se destinam √† guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas h√° tamb√©m dogues irasc√≠veis, cuja √ļnica qualidade √© a f√ļria; h√° c√£es mais ou menos in√ļteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e h√° at√© c√£es de jardineiro. H√° macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que t√™m esp√≠rito e que fazem sempre mal. H√° pav√Ķes que s√≥ t√™m beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.

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Escrever é Triste

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, puré de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que voc√™ perde em viver, escrevinhando sobre a vida. N√£o apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem voc√™, porque com voc√™ n√£o √© poss√≠vel contar. Voc√™ esperando que os outros vivam, para depois coment√°-los com a maior cara-de-pau (“com isen√ß√£o de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divaga√ß√£o descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei propriet√°rio do universo, que escolhe para o seu jantar de not√≠cias um terremoto, uma revolu√ß√£o, um adult√©rio grego ‚ÄĒ √†s vezes nem isso, porque no painel imenso voc√™ escolhe s√≥ um besouro em campanha para verrumar a madeira.

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Actividade Exterior Por N√£o Existir Actividade Interior

As pessoas necessitam de actividade exterior porque n√£o t√™m actividade interior. Quando, pelo contr√°rio, esta √ļltima existe, √© prov√°vel que a primeira seja um aborrecimento muito inc√≥modo, mesmo execr√°vel, e um impedimento. Este facto tamb√©m explica a inquieta√ß√£o daqueles que nada t√™m para fazer, e as suas viagens sem objectivo. O que os impele de pa√≠s em pa√≠s √© o mesmo t√©dio que no seu pa√≠s os congrega em t√£o grandes grupos que chegam a tornar-se divertidos.

Recebi certa vez uma excelente confirma√ß√£o desta verdade atrav√©s de um cavalheiro de cinquenta anos que n√£o conhecia, e que me falou de uma viagem de recreio de dois anos que havia feito a terras distantes e a estranhas regi√Ķes da Terra. Quando observei que por certo tivera de enfrentar muitas dificuldades e perigos, respondeu-me muito ingenuamente, sem hesita√ß√£o nem pre√Ęmbulo, mas como se enunciasse simplesmente a conclus√£o de um silogismo: ¬ęN√£o tive um instante de aborrecimento¬Ľ.

O Grande Engano da Mediocridade

O grande engano da mediocridade! Este √© um alerta para os nossos dias. O f√°cil, o imediato, o que d√° para todos, o que passa por democr√°tico, o que est√° ‘benzinho’ e mediano, parece, tantas vezes, a solu√ß√£o. N√£o fazer ondas, ceder, ir pelo mais ou menos, vale tudo desde que n√£o chegue c√° o inc√≥modo: este √© o retrato dos desiludidos! Nivelar por baixo n√£o √© caminho, √© engano.

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Símios Aperfeiçoados

√Č preciso viver em estado de preven√ß√£o. N√£o ir na enxurrada do colectivismo e morrer afogado num bairro econ√≥mico ou numa col√≥nia balnear, resistir √†s press√Ķes pol√≠ticas mirabolantes, quer sejam de uma banda ou de outra, manter a condi√ß√£o do homem-artista em luta com o homem-massa foi sempre o que em mim se tornou claro desde que aos poucos tomei posse da minha personalidade. √Č fatal que se caminhe para a sanidade de vida das classes baixas, √© humano que isso se fa√ßa, no entanto tamb√©m √© humano, mais talvez, que se lute desesperadamente para que a condi√ß√£o mais sagrada do homem evolua libertando-se das massas satisfeitas com a assist√™ncia m√©dica, televis√£o e funeral pago. Essa massa vai criar um novo esp√≠rito animal, vai catalogar-se em Darwin e, convencidos que essa massa est√° feliz, constatamos ao fim de pouco tempo que esses grandes grupos de popula√ß√Ķes standardizadas deixaram de pensar e o seu sentir √© apenas tactual, sem nada de sublima√ß√£o em momentos mais √≠ntimos.
O mundo que pensa, do artista e do intelectual, tem de libertar-se do incómodo desses homens que trouxeram como contribuição para a humanidade uma ideia abstracta do colectivo em marcha, que passaram a emitir sons,

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Quem n√£o Ama a Solid√£o, n√£o Ama a Liberdade

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Assim como o nosso corpo est√° envolto em vestes, o nosso esp√≠rito est√° revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ac√ß√Ķes, todo o nosso ser √© mentiroso, e s√≥ por meio desse inv√≥lucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomoda√ß√£o m√ļtua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha ser√°. Cada um s√≥ pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, n√£o ama a solid√£o, tamb√©m n√£o ama a liberdade: apenas quando se est√° s√≥ √© que se est√° livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade.

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O Prazer no Costume

Uma importante varie¬≠dade do prazer e, com isso, fonte da moralidade, prov√©m do h√°bito. O usual faz-se mais facilmente, melhor, portanto, com mais agrado, sente-se nisso um prazer e sabe-se, por experi√™ncia, que o habitual deu bom resultado, da√≠ √© √ļtil; um costume, com o qual se pode viver, est√° provado que √© salutar, pro¬≠veitoso, ao contr√°rio de todas as tentativas novas, ainda n√£o comprovadas. O costume √©, por conse¬≠guinte, a uni√£o do agrad√°vel e do √ļtil; al√©m disso, n√£o exige reflex√£o. Assim que o homem pode exer¬≠cer coac√ß√£o, exerce-a para impor e introduzir os seus costumes, pois para ele, eles s√£o a comprovada sabedoria pr√°tica. De igual modo, uma comunidade de indiv√≠duos obriga cada um deles ao mesmo cos¬≠tume.
Aqui est√° a conclus√£o errada: porque uma pessoa se sente bem com um costume ou, pelo me¬≠nos, porque por interm√©dio do mesmo assegura a sua exist√™ncia, ent√£o esse costume √© necess√°rio, pois passa por ser a √ļnica possibilidade de uma pessoa se conseguir sentir bem; o agrado da vida parece emanar exclusivamente dele. Esta concep√ß√£o do habitual como uma condi√ß√£o da exist√™ncia √© aplica¬≠da at√© aos mais pequenos pormenores do costume: dado que o conhecimento da verdadeira causalidade √© muito escasso entre os povos e as civiliza√ß√Ķes que se encontram a um n√≠vel baixo,

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Antecipar a Recusa

Não cometas a asneira de pedir a alguém um objecto raro que lhe é querido, sobretudo se não tens necessidade expressa dele. Porque, se to recusar, sentirá que te ofendeu e guardar-te-á rancor; se consentir, também te quererá mal, porque passará a considerar-te como um pedinchão incómodo e indelicado.
Como é sempre desagradável ouvir uma recusa, nada peças que não estejas certo de obter. Por isso é que mais vale nada pedir directamente, mas dar a entender por meias palavras o que nos faz falta.
Quando tencionas solicitar um favor, não o deixes adivinhar antes de o teres obtido. Declara mesmo abertamente que nada esperas nesse sentido. Anuncia por toda a parte que foi concedido a outra pessoa aquilo que por um momento cobiçaras e vai felicitar o feliz eleito.
Se te recusarem alguma coisa, compra uma pessoa que tenha mais possibilidades que tu, de modo a que te entregue discretamente o objecto desejado, uma vez obtido.
Se algu√©m disputa uma honra que tamb√©m cobi√ßas, envia-lhe secretamente um emiss√°rio que, em nome da amizade, o dissuada falando-lhe dos m√ļltiplos obst√°culos que em todo o caso teria de enfrentar.

A Justa Medida do Esforço do Prazer

Os s√°bios bem ensinam a nos precavermos contra a trai√ß√£o dos nossos apetities e a discernir entre os prazeres verdadeiros e integrais e os prazeres d√≠spares e mesclados com mais trabalhos. Pois a maioria dos prazeres, dizem eles, excitam e abra√ßam para nos estrangular (…). E, se a dor de cabe√ßa nos viesse antes da embriaguez, evitar√≠amos beber demais. Mas a vol√ļpia, para nos enganar, caminha √† frente e oculta-nos o seu s√©quito. Os livros s√£o apraz√≠veis; mas, se por frequent√°-los perdemos afinal a alegria e a sa√ļde, que s√£o as nossas melhores partes, abandonemo-los. Sou dos que julgam que o seu fruto n√£o pode contrabalan√ßar essa perda. Como os homens que h√° longo tempo se sentem enfraquecidos por alguma indisposi√ß√£o se entregam por fim √† merc√™ da medicina e deixam que lhes estabele√ßa artificialmente certas regras de viver para n√£o mais ultrapass√°-las, assim tamb√©m aquele que se isola, entediado e desgostoso da vida em comum, deve conformar esta √†s regras da raz√£o, deve organiz√°-la e orden√°-la com premedita√ß√£o e reflex√£o.
Deve dizer adeus a toda a esp√©cie de esfor√ßo, sob qualquer apar√™ncia que se apresente; e fugir em geral das paix√Ķes que impedem a tranquilidade do corpo e da alma,

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As Decis√Ķes Nas Fam√≠lias

As decis√Ķes nas fam√≠lias ou se tomam no caso de um perfeito acordo entre os c√īnjuges ou, ent√£o, quando existe uma separa√ß√£o completa entre eles. Se as rela√ß√Ķes entre eles flutuam entre os dois extremos nada √© poss√≠vel decidir. Muitos casais levam anos e anos numa esp√©cie de ponto-morto, inc√≥modo para ambos, s√≥ porque n√£o existe entre eles nem acordo nem separa√ß√£o absoluta.