Passagens sobre Lisboa

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Das Terras A Pior Tu √Čs, √ď Goa

Das terras a pior tu és, ó Goa,
Tu pareces mais ermo que cidade,
Mas alojas em ti maior vaidade
Que Londres, que Paris ou que Lisboa.

A chusma de teus íncolas pregoa
Que excede o Gr√£o Senhor na qualidade;
Tudo quer senhoria; o próprio frade
Alega, para t√™-la, o jus da c’roa!

De timbres prenhe est√°s; mas oiro e prata
Em cruzes, com que dantes te benzias,
Foge a teus infan√ß√Ķes de bolsa chata.

Oh que feliz e esplêndida serias,
Se algum fusco Merlim, que faz bagata,
Te alborcasse a pardaus as senhorias!

Só Há Duas maneiras de se Ter Razão

Quando o p√ļblico soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades √†s senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclama√ß√£o de impaci√™ncia. Sim ‚ÄĒ exactamente a exclama√ß√£o que acaba de escapar ao leitor…

Ser novo √© n√£o ser velho. Ser velho √© ter opini√Ķes. Ser novo √© n√£o querer saber de opini√Ķes para nada. Ser novo √© deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opini√Ķes que t√™m, boas ou m√°s ‚ÄĒ boas ou m√°s, que a gente nunca sabe com quais √© que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! √ď meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ci√™ncias, se estudam ci√™ncias; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra.

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Quer-te Muito a Tua Mulherzinha

Recebi ontem à noite o telegrama que mandaste da Foz. Desejo que tivesses encontrado tudo bem na nossa casinha. Espero com ansiedade a primeira cartinha tua que já cá devia estar. Estou a escrever-te sentada a uma janela com o papel em cima dum livro e o tinteiro no chão; é 1 hora e meia, a hora de ir até às galinhas a ver se já havia algum ovo.

Há quanto tempo isso foi! Escreve para cá só até ao dia 23 ou 24 porque dia 26 pela manhã partimos para Vila Viçosa. O carnaval é dia 8 e já vejo que para minha desgraça o vou passar no covil enjaulada como as feras perigosas. Pouca sorte a da pobre Bela! Não posso ainda hoje falar com o advogado nem amanhã que é domingo, de forma que só segunda-feira te poderei dizer qualquer coisa a esse respeito. Há só um comboio dia sim dia não para Lisboa de forma que não estranhes nem te inquietes por alguma pequena demora na correspondência.
A√≠ vai um belo soneto que as saudades tuas me trouxeram ontem; s√≥ quando estou triste sei fazer versos com jeito como esses. Provavelmente n√£o gostas…

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Regresso

E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e j√° em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

N√£o h√° Dicas para Namorar e Casar

Nunca me ensinaram as coisas realmente √ļteis: como √© que um rapaz arranja uma noiva, que tipo de anel deve comprar, se pode continuar a sair para os copos com os amigos, se √© preciso pedir primeiro aos pais, se tem de usar anel tamb√©m. Palavra que fui um rapaz que estudou muito e nunca me souberam ensinar isto. Ensinaram-me tudo e mais alguma coisa sobre o sexo e a reprodu√ß√£o, sobre o prazer e a sedu√ß√£o, mas quanto ao namorar e casar, nada. E agora, como √© que eu fa√ßo?

Passei a pente fino as melhores livrarias de Lisboa e n√£o encontrei uma √ļnica obra que me elucidasse. Se quisesse fazer cozinha macrobi√≥tica, descobrir o ¬ęponto G¬Ľ da minha companheira para ajud√°-la a atingir um orgasmo mais recompensador, montar um aqu√°rio, criar m√≠scaros ou construir um tanque Sherman em casa, sim, existe toda uma vasta bibliografia. Para casar, nem um folheto. Nem um ¬ęd√©pliant¬Ľ. Nada. Nem um autocolante. Para apanhar SIDA sei exactamente o que devo fazer. Para apanhar a minha noiva n√£o fa√ßo a mais pequena ideia.

Porque √© que o Minist√©rio da Juventude, em vez de esbanjar fortunas com iniciativas patetas (como aquela piroseira fascist√≥ide dos Descobrimentos) e an√ļncios rid√≠culos (como aqueles ¬ęYa meu,

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Sempre que Lisboa canta

Lisboa cidade amiga
que és meu berço de embalar
ensina-me uma cantiga
das que tu sabes cantar

Uma cantiga singela
Daquelas de enfeitiçar
P’ra eu cantar √† janela
Quando o meu amor passar

Sempre que Lisboa canta
N√£o sei se canta
N√£o sei se reza
A sua voz com carinho
Canta baixinho
Sua tristeza

Sempre que Lisboa canta
à gente encanta
Sua beleza
Pois quando Lisboa canta
Canta o fado
com certeza

Eu quero dar-te um castigo
Por tanto te ter amado
Quero que cantes comigo
Os versos do mesmo fado

Quero que Lisboa guarde
Tantos fados que cantei
Para cantar-me mais tarde
Os fados que lhe ensinei

Lisboa √© a nitidez atrav√©s do ar. Lisboa √© a cor manchada dos muros. Lisboa √© o musgo novo a nascer sobre o musgo seco. Lisboa √© o desenho de fendas, como rel√Ęmpagos, a escorrerem pela superf√≠cie dos muros. Lisboa √© a imperfei√ß√£o criteriosa. Lisboa √© o c√©u reflectido.

Lisboa perto e longe

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem pal√°cios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa Рbranca e rota
a blusa de seu povo – essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as √°guas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa est√£o voltadas
contra as m√£os desarmadas – povo armado
de vento revoltado violas astros
Рmeu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das pris√Ķes tem velas rios
dentro das m√£os navios prisioneiros
ai olhos marinheiros – mar aberto
– com Lisboa t√£o longe em Lisboa t√£o perto.

Lisba é uma palavra dolorosa
Lisboa s√£o seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada m√£o
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde h√° versos que s√£o cravos vermelhos
Lisboa que ninguem ver√° de joelhos.

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Era sempre assim, quando eu voltava √† terra: as coisas come√ßavam por parecer pequenas, quase mirradas submetidas pelo meu olhar de Lisboa, e s√≥ depois iam crescendo, at√© recuperarem as formas grandiloquentes da inf√Ęncia. Era ent√£o que me considerava de volta a casa.

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
Subidas.
Havia duas pris√Ķes. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

“Mas aqui”, dizia o revisor e ria baixinho como um afectado
“aqui sentam-se os pol√≠ticos”. Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois, peguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei ?

Tradução por Luís Costa

Tempo Livre

Numa tarde de domingo, em Central Park, ou
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo, ou
num parque qualquer de uma tarde de domingo
que até pode ser o parque Eduardo VII,
deitas-te na relva com o corpo enrolado
como se fosses uma colher metida no guarda-
napo. A tarde limpa os beiços com esse
guardanapo de flores, que é o teu vestido
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio
do inverno de uma cidade que pode ser
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer,
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio,
com os pássaros distraídos com o sol
que est√° naquela tarde por engano. E tu,
com os dedos presos na relva h√ļmida, v√™s
o teu vestido voar, como um guardanapo,
por entre as nuvens brancas de uma tarde
de inverno.

Lisboa

Lisboa com suas casas
De v√°rias cores,
Lisboa com suas casas
De v√°rias cores,
Lisboa com suas casas
De v√°rias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez in√ļtil de n√£o poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque h√° sono,
E, porque h√° sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fant√°sticos,
Mas n√£o vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De v√°rias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De v√°rias cores.

N√£o Lamentes, Oh Nise, O Teu Estado;

N√£o lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milh√Ķes de vezes putas t√™m reinado:

Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cle√≥patra por puta alcan√ßa a c’roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono n√£o passa por honrado:

Essa da R√ļssia imperatriz famosa,
Que inda h√° pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo d√£o a sua greta:
N√£o fiques, pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de virgo e honra é tudo peta.

Canoa do Tejo

Canoa de vela erguida
Que vens do Cais da Ribeira,
Gaivota que anda perdida
Sem encontrar companheira,
O Vento sopra nas Fragas,
O Sol parece um morango
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango

Estribilho:
Canoa, conheces bem,
Quando h√° Norte pela proa,
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem!
Canoa, por onde vais,
Se algum barco te abalroa,
Nunca mais voltas ao Cais!
Nunca, nunca, nunca mais!!

Canoa de vela panda
Que vens da Boca da Barra
E trazes na aragem branda
Gemidos duma guitarra,
Teu arrais prendeu a vela;
E se adormeceu, deix√°-lo!
Agora muita cautelaa
N√£o v√° o Mar acord√°-lo!

Um bigode é muito mais do que uma pilosidade: é uma metafísica. Vem acompanhado de conversas sobre a necessidade de estudar para ser alguém na vida, a utilidade de amortizar o crédito à habitação, a urgência de substituir as velas do carro, a saudade de quando o fado era o fado, a rádio era a rádio e a Amália Rodrigues cantava o fado na rádio, tanto na Emissora Nacional como na Voz de Lisboa.

Para uma certa categoria de pobres diabos, j√° se sabe, a arrog√Ęncia revela-se muitas vezes uma ferramenta de enorme utilidade. Em Lisboa, pelo menos, √© assim: uma pessoa pode ser modesta, ignorante e fr√°gil, mas se puser um ar de superioridade ganha logo ascendente na rela√ß√£o com a pessoa em frente.

Ao Volante

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haver√° em seguir sen√£o n√£o parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por n√£o poder pass√°-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de n√£o ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquieta√ß√£o sem prop√≥sito, sem nexo, sem conseq√ľ√™ncia,
Sempre, sempre, sempre,
Esta ang√ļstia excessiva do esp√≠rito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maie√°vel aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!,

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Carta de Amor

Para te dizer tão-só que te queria
Como se o tempo fosse um sentimento
bastava o teu sorriso de um outro dia
nesse instante em que fomos um momento.
Dizer amor como se fosse proibido
entre os meus braços enlaçar-te mais
como um livro devorado e nunca lido.
Ser√° pecado, amor, amar-te demais?
Esperar como se fosse (des) esperar-te,
essa certeza de te ter antes de ter.
Ensaiar sozinho a nossa arte
de fazer amor antes de ser.
Adivinhar nos olhos que n√£o vejo
a sede dessa boca que n√£o canta
e deitar-me ao teu lado como o Tejo
aos pés dessa Lisboa que ele encanta.
Sentir falta de ti por tu n√£o estares
talvez por n√£o saber se tu existes
(percorrendo em silêncio esses altares
em sacrifícios pagãos de olhos tristes).
Ausência, sim. Amor visto por dentro,
certezas ao contrário, por estar só.
Pesadelo no meu sonho noite adentro
quando, ao meu lado, dorme o que n√£o sou.
E, afinal, depois o que ficou
das noites perdidas à procura
de um resto de virtude que passou
por nós em co(r)pos de loucura?

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O Tumulto

O tumulto concentrado da minha imagina√ß√£o intelectual…
Fazer filhos √† raz√£o pr√°tica, como os crentes en√©rgicos…
Minha juventude perpétua
De viver as coisas pelo lado das sensa√ß√Ķes e n√£o das responsabilidades.
(√Ālvaro de Campos, nascido no Algarve, educado por um tio-av√ī, padre,
que lhe instilou um certo amor √†s coisas cl√°ssicas.) (Veio para Lisboa muito novo …)
A capacidade de pensar o que sinto, que me distingue do homem vulgar
Mais do que ele se distingue do macaco.
(Sim, amanh√£ o homem vulgar talvez me leia e compreenda a subst√Ęncia do meu ser,
Sim, admito-o,
Mas o macaco j√° hoje sabe ler o homem vulgar e lhe compreende a subst√Ęncia do ser.)

Se alguma coisa foi por que é que não é
Ser não é ser?

As flores do campo da minha inf√Ęncia, n√£o as terei eternamente,
Em outra maneira de ser?
Perderei para sempre os afetos que tive, e até os afetos que pensei ter?
H√° algum que tenha a chave da porta do ser, que n√£o tem porta,
E me possa abrir com raz√Ķes a intelig√™ncia do mundo?

Que Noite Serena!

Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado ‚ÄĒ o que foi aqui de Lisboa ‚ÄĒ me surge…
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A inf√Ęncia sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.

Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena, etc.

Quem é que cantava isso?
Isso estava l√°.
Lembro-me mas esqueço.
E d√≥i, d√≥i, d√≥i…

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.