Poemas sobre Campo

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Poemas de campo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Mania da Solid√£o

Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o c√©u ‚ÄĒ quem sabe quantas mulheres
est√£o a comer a esta hora ‚ÄĒ o meu corpo est√° tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

L√° fora, depois do jantar, as estrelas vir√£o tocar
a terra na ancha planura. As estrelas s√£o vivas,
mas n√£o valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das √°rvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa est√° isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.

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Quem Me Mandou a Mim Querer Perceber?

Como quem num dia de Ver√£o abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
N√£o sei bem como nem o qu√™…
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Ver√£o me passa pela cara
A m√£o leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, √© que √© meu dever senti-lo…

A Lenta Idéia Voa

Solene passa sobre a fértil terra
A branca, in√ļtil nuvem fugidia,
Que um negro instante de entre os campos ergue
Um sopro arrefecido.

Tal me alta na alma a lenta idéia voa
E me enegrece a mente, mas j√° torno,
Como a si mesmo o mesmo campo, ao dia
Da imperfeita vida.

Gazel do Amor Maravilhoso

Com todo o gesso
dos campos maus,
eras junco de amor, jasmim molhado.

Com o sol e chama
dos céus malvados,
eras rumor de neve por meu peito.

Céus e campos
prendiam correntes em minhas m√£os.

Campos e céus
açoitavam as chagas do meu corpo.

Tradução de Oscar Mendes

Endechas a B√°rbara escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
J√° n√£o quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas n√£o de matar.

U~a graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo v√£o
Perde opini√£o
Que os louros s√£o belos.

Pretid√£o de Amor,
T√£o doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansid√£o,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas b√°rbara n√£o.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
√Č for√ßa que viva.

Despedida

Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de c√°lices, uma s√ļplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
N√£o vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta m√ļsica √© quase o vento.

A Voz que Nos Rasgou por Dentro

De onde vem – a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui ‚ÄĒ aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e n√£o a
ouvimos, como se n√£o nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde est√°? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela m√£o o fio
obscuro do horizonte.

Diz: “N√£o chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro h√ļmido dos versos.”

Como se a ouvíssemos.

Há Momentos que Resulta tão Difícil Chegarmos a um Sentimento

H√° momentos em que do fogo sobe para a noite
há momentos que resulta tão difícil chegarmos a um
sentimento.
Descubro uma figura que j√° n√£o
sei seguir. H√° momentos
eu vejo o que se senta à minha frente o amável corte
de cabelo o severo intento tomado como correcto
rosto onde a plenitude era possível. Rosto onde o
passado é a tarde de verão a pequena cidade onde o
sol pode dizer-se cai no campo rosto de passados ou
uma tarde de ver√£o para ter tempo.

Vilegiatura

O sossego da noite, na vilegiatura no alto;
O sossego, que mais aprofunda
O ladrar esparso dos c√£es de guarda na noite;
O silêncio, que mais se acentua,
Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro …
Ah, a opress√£o de tudo isto!
Oprime como ser feliz!
Que vida idílica, se fosse outra pessoa que a tivesse
Com o zumbido ou murm√ļrio mon√≥tono de nada
Sob o céu sardento de estrelas,
Com o ladrar dos c√£es polvilhando o sossego de tudo!

Vim para aqui repousar,
Mas esqueci-me de me deixar l√° em casa,
Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.

Sempre esta inquietação mordida aos bocados
Como p√£o ralo escuro, que se esfarela caindo.
Sempre este mal-estar tomado aos maus haustos
Como um vinho de bêbado quando nem a náusea obsta.

Sempre, sempre, sempre
Este defeito da circulação na própria alma,
Esta lipotimia das sensa√ß√Ķes,
Isto…

(Tuas m√£os esguias, um pouco p√°lidas, um pouco minhas,
Estavam naquele dia quietas pelo teu regaço de sentada,

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Que Pesa o Escr√ļpulo do Pensamento?

Azuis os montes que est√£o longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escr√ļpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e v√°rio, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.

Missa de Anivers√°rio

H√° um ano que os teus gestos andam
ausentes da nossa freguesia
Tu que eras destes campos
onde de novo a seara amadurece
donde és hoje?
Que nome novo tens?
Haver√° mais singular fim de semana
do que um s√°bado assim que nunca mais tem fim?
Que ocupação é agora a tua
que tens todo o tempo livre à tua frente?
Que passos te levar√£o atr√°s
do arrulhar da pomba em nossos céus?
Que te acontece que n√£o mais fizeste anos
embora a mesa posta continue à tua espera
e l√° fora na estrada as amoreiras tenham outra vez
florido?

Era esta a voz dele assim é que falava
dizem agora as giestas desta sua terra
que o viram passar nos caminhos da inf√Ęncia
junto ao primeiro voo das perdizes

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No ver√£o em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
√Č de novo ver√£o.

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Vozes da Noite

Vozes na Noite! Quem fala
Com tanto ardor, tanto af√£?
Falou o Grilo primeiro,
Logo depois foi a R√£.

Pobre loucura dos homens
Quando julgam entendê-las…
Só eles pasmam os olhos
Neste encanto das estrelas…

Lá no silêncio dos campos
Ou no mais ermo da serra,
Na voz das rãs dala a àgua,
Na voz dos grilos a Terra.

Só eles cantam a vida
Com amor e singeleza,
Por ser descuidada, alegre;
Por ser simples, com beleza.

Pudesse agora dizer-te,
Sem ser por palavras v√£s,
O que diz a voz dos grilos,
O que diz a voz das r√£s.

Nas Altas Torres

Nas altas torres do corpo
todas as horas cantavam.
Eu quis ficar mais um pouco
como se um campo de potros
espantasse a madrugada.

Eu quis ficar mais um pouco
e o teu corpo e o meu tocavam
inquietudes, caminhos,
noites, n√ļmeros, datas.

Nas altas torres do corpo
eu quis ficar mais um pouco
e o silêncio não deixava.
Conjug√°mos m√£os e peitos
no mesmo leito, trançados;
eis que surgiu outro peito,
o do tempo atravessado.

Eu quis ficar mais um pouco
e o teu corpo se iniciava
na liturgia do vento,
lenta e veloz como enxada.
Era a semente batendo,
era a estrela debulhada.

Nas altas torres do corpo,
quis ficar. Amanhecia.
Todos os pombos voavam
das altas torres do corpo.
As horas resplandeciam.

O Meu Amor

O meu amor, que livre anda de engano,
ambiente natural
encontra nestes campos, onde a relva,
levemente movida pela brisa,
ao contacto é macia,
e o boi rumina, sem espanto, a sua
doçura de vagar,
olhos postos nas coisas, distraído;
um cavalo anda longe,
e a crina se desfralda como um leque,
aberto por um vento muito brando.

Meu amor se acomoda entre estas pedras
como a seu leito o rio,
a asa do insecto ao corpo delicado,
ao morno ventre o bicho n√£o nascido.
Como fronde se inclina
aos meus suspiros, que deitando vou
aos transparentes ares,
quando o arvoredo a fina brisa agita.
Ah deleitosa vida,
pelo arado do sonho sou levada,
e o que fazes de mim é o que me fica.

Sem qualquer pensamento ou sentimento
que de leve me afaste,
mergulho na secura do que vejo.
Cada coisa est√° viva em seu lugar,
cada coisa est√° certa:
o inverno seca apenas o exterior,
deixa a humidade interna.
Que sei de olmos e faias e olorosas
ervas?

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Manh√£ de Sol com Azulejos

Tudo se veste da cor de teu vestido azul
Tudo ‚ÄĒ menos a dona do vestido:
meus olhos te passeiam nua
pela grama do campo de golfe

Uma curva e eis-nos diante de meu coração

Não amiga   não temas
meu coração;
é apenas um chapéu surrado
que humildemente estendo
para colher um pouco de tua alegria
de tua graça distraída
de teu dia

Génios

……………………………….
……………………………….
E disse-me: Poeta, ao longe no horizonte
Não vês quase a lamber a abóbada do céu
Brilhante e luminoso um t√ļmido escarc√©u?
Como alvacento le√£o, na r√°pida carreira
Vem sacudindo a juba… A natureza inteira
Cisma, contempla, escuta o c√Ęntico profundo
Em trágico silêncio. O Sol já moribundo
Resvala-lhe no dorso, iria-lho de chamas,
Como dum monstro enorme as f√ļlgidas escamas…
Rugindo enovelada em turbilh√£o insano,
A vaga colossal, rasoira do oceano,

L√° vem rolando grave, e deixa ao caminhar
Um campo atr√°s dum monte, um lago atr√°s dum
[mar!
Qual l√ļcida serpente agora ei-la decresce
Em curva indefinida;‚ÄĒalonga-se… parece
Que a terra há-de estoirar em brancos estilhaços
No círculo fatal dos seus enormes braços.
Como galope infrene! Ei-la que chega!… voa
Num ímpeto feroz, num salto de leoa
Aos rudes alcantis! e em hórrida tormenta
Na rígida tranqueira o vagalhão rebenta,
Bramindo pelo ar: trepa, vacila, nuta,
E ex√Ęnime por fim, vencida nesta luta,
Sem voz, sem força, inerte, exausta, esfarrapada   .
L√° vai… aonde a leve a r√≠spida nortada.

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Tinha de Fachos Mil a Noite Ornado

1

Tinha de fachos mil a noite ornado
A argentada Princesa:
De amor, graça e beleza
O campo etéreo Vénus povoado.

2

A Terra, com perfume precioso
Em torno recendia;
E pl√°cido dormia
Sobre a dourada areia o pego undoso;

3

Quando veio roubar a formosura
De tudo o que é criado,
M√°rcia, fiel traslado
Da beleza do Céu, sublime e pura;

4

Com Lírios, que estendeu, vestiu ufana
A forma divinal;
Em aceso coral
Tingiu, sorrindo, a boca soberana,

5

As madeixas tomou das veias de ouro,
Nos olhos p√īs safiras,
Que das setas, que atiras,
S√£o, fero Amor, o mais caudal tesouro.

6

Todos seus dons lhe p√īs o C√©u no peito;
Como orna o Régio Sposo,
C’o enfeite mais custoso,
A Princesa, a quem rende a alma, sujeito.

7

Eu vi afadigados os Amores,
E as Graças, que cantavam
Enquanto se moldavam
Seus graciosos gestos vencedores.

8

Das Sereias o canto deleitoso
Lhe nasceu sem estudo;

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Quando Eu n√£o te Tinha

Quando eu n√£o te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e pr√≥xima …
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor ‚ÄĒ
Tu n√£o me tiraste a Natureza …
Tu mudaste a Natureza …
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
N√£o me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

No Magno Dia até os Sons São Claros

No magno dia até os sons são claros.
Pelo repouso do amplo campo tardam.
M√ļrmura, a brisa cala.
Quisera, como os sons, viver das coisas
Mas não ser delas, consequência alada
Em que o real vai longe.

Símbolos

S√≠mbolos? Estou farto de s√≠mbolos…
Mas dizem-me que tudo é símbolo,
Todos me dizem nada.
Quais s√≠mbolos? Sonhos. ‚ÄĒ
Que o sol seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Que a lua seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Que a terra seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Mas quem repara no sol sen√£o quando a chuva cessa,
E ele rompe as nuvens e aponta para tr√°s das costas,
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua sen√£o para achar
Bela a luz que ela espalha, e n√£o bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes,
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar tamb√©m √© terra…
Bem, v√°, que tudo isso seja s√≠mbolo…
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde se demorava outrora com o namorado que a deixou?

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