Poemas sobre Ilha

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Poemas de ilha escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Aviso à Navegação

Alto l√°!
Aviso à navegação!
Eu n√£o morri:
Estou aqui
na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capit√£o da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!

Eu que aportei
com os por√Ķes inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
– mas aportei!

Aviso à navegação:
N√£o espereis de mim a paz!

Que quanto mais me afundo
maior √© a minha √Ęnsia de salvar-me!
Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!

N√£o espereis de mim a paz!

Que na guerra
só conheço dois destinos:
ou vencer ‚Äď ai dos vencidos! ‚Äď
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!

– (Foi jeito que me ficou
n√£o me sei desinteressar
do jogo que me jogar.)

N√£o espereis de mim a paz,
aviso à navegação!

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O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, j√° n√£o separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Testemunho Incontestado

1

Cam√Ķes, mas que Cam√Ķes?
Que mundo em transição se fixa nesta língua
Que margem se afirma
na língua que se inventa?
Que poeta transita
no mundo que se fixa?
Que poema se afixa
na mente que se alarga
à escala do Globo Universal
e amarga?
Que contr√°rios se afrontam
nos ossos que nos tentam?
Cam√Ķes, mas que Cam√Ķes √© este
que nos marca?

2

homem ou texto
olho vazado ou letra
miséria ou redondilha
bruxo velho ou brochura
sabedoria ou ilha
pesadelo ou vis√£o
aventureiro ou m√°quina
tensa gasta ou tens√£o
um cego amor ou mundo
novidade ou idade
horizonte ou imagem
Cam√Ķes ou re-Cam√Ķes
Fortuna ou coisa amada
mudança ou só desejo
?

3

o lírico nas lonas

o épico e o hípico
que só a pé andou

corre o mundo em degredo
liberta-se em pris√Ķes

só um olho lhe basta
para a vis√£o dos tempos
que novos se dispersam

e em não contradição se contradiz

4

dissipo a vida
se
dissipo a morte

aprendo a vida
se
aprendo a morte

sustento a vida
se
sustenho a morte

re contenho a vida

se retenho a morte

A Possibilidade de uma Ilha

Minha vida, minha vida, minha muito ancestral
Mal cumprido o meu primeiro voto
Repudiado o meu primeiro amor,
Precisei do teu retorno.

Precisei de conhecer
O que a vida tem de melhor,
Quando dois corpos brincam com a felicidade
E se unem e renascem sem fim.

Dominado por uma dependência total,
Sei o estremecimento do ser
A hesitação em desaparecer,
O sol que incide de través

E o amor, onde tudo é fácil,
Onde tudo é dado no momento;
Existe no meio do tempo
A possibilidade de uma ilha.

Mensagem РMar Português

MAR PORTUGUÊS

Possessio Maris

I. O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, j√° n√£o separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

II. Horizonte

√ď mar anterior a n√≥s, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
’Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da long√≠nqua costa ‚ÄĒ
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em √°rvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, h√° aves,

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Como é Belo Seu Rosto Matutino

Como é belo seu rosto matutino
Sua pl√°cida sombra quando anda

Lembra florestas e lembra o mar
O mar o sol a pique sobre o mar

N√£o tive amigo assim na minha inf√Ęncia
Não é isso que busco quando o vejo
Alheio como a brisa
N√£o busco nada
Sei apenas que passa quando passa
Seu rosto matutino
Um som de queda de √°gua
Uma promessa inumana
Uma ilha uma ilha
Que só vento habita
E os p√°ssaros azuis

Alexandrina, Como Era

Minha tia Alexandrina bebia café
meia tigela de manh√£ e meia de tarde
o que dava mais dum litro.
Com esse rio de fogo correndo no seu corpo
punha ela dez filhos fora de casa
e lavava dez sobrados às senhoras da cidade.

E quando voltava para os Biscoitos na camioneta da carreira
deixava-me nos ouvidos a m√ļsica das gargalhadas dadas
e nos olhos os demónios dos seus olhos
pretos, estrelas pequeninas fulgurantes.

N√£o passo pela ilha sem ir aos Biscoitos
não por vê-la, que ela já não está:
(levou-a o Canad√°, a carta de chamada)
mas porque tenho consciência que são esplêndidos
os ramos das vinhas que alastram nos calhaus.

Na Ampla Praça há apenas Plátanos

Na ampla praça há apenas plátanos.
Nem crianças a correm de tão fria,
nem est√°tuas a comovem bronzeadas.
Das margens secas, com ilhas e outras casas,
janelas, se as h√°, s√£o quase setas.
O frio perfurou t√°buas e latas.
Um vento seco corta junto aos olhos.

O espaço é recomposto agora mesmo: na praça
estou na sombra dos pl√°tanos
e tudo vejo com vontade e amor.
Mas não chega a presença ou a vontade.
Outros n√£o chegam, ou aparecem apressados.
Nomes se referem. Desenha-se um olhar.
Apenas gesto, memória, sombra rara.

Envolvo-me na praça. Os plátanos cobrem-me.
Das margens sempre vem algum calor.
Renascem os olhos. Os pl√°tanos movem-se.
As casas iluminam-se. Um grito
cobre a sombra e assim anima
a ampla solidão de todos nós.

Esqueço-me das Horas Transviadas

PASSOS DA CRUZ

Esqueço-me das horas transviadas
o Outono mora m√°goas nos outeiros
E p√Ķe um roxo vago nos ribeiros…
H√≥stia de assombro a alma, e toda estradas…

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a org√≠aco… Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…

No claustro seq√ľestrando a lucidez
Um espasmo apagado em √≥dio √† √Ęnsia
P√Ķe dias de ilhas vistas do conv√©s

No meu cansaço perdido entre os gelos
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha disson√Ęncia…

Portugal

Maior do que nós, simples mortais, este gigante
foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
seu torrão dilatou, inóspito montado,
numa p√°tria… E que p√°tria! A mais formosa e linda
que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro;
hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro;
trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas;
nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas;
gados nédios; colinas brancas olorosas;
cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas;
selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
de olivais; por nogais, frautas de pegureiros;
rios, noras gemendo, azenhas nas levadas;
eiras de sonho, grutas de génios e de fadas:
riso, abund√Ęncia, amor, conc√≥rdia, Juventude:
e entre a harmonia virgiliana um povo rude,
um povo montanhês e heróico à beira-mar,
sob a graça de Deus a cantar e a lavrar!
P√°tria feita lavrando e batalhando: aldeias
conchegadinhas sempre ao torre√£o de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
por muralhas, basti√Ķes, barbac√£s, fortalezas;
e, a dar fé, a dar vigor,

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Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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Coração Polar

N√£o sei de que cor s√£o os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que h√° um corpo nunca encontrado algures
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus l√°bios de espuma e de salsugem
os teus naufr√°gios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.

Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua h√° uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
h√° uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e n√£o te encontro
h√° um √Ęngulo ao contr√°rio
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
h√° um mar imagin√°rio aberto em cada p√°gina
n√£o me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas m√£os
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num sem√°foro
todos os poentes me dizem quem tu és.

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Funchal

O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca, construída por náufragos.

Muitos, chegados √† porta, voltam para tr√°s, mas n√£o assim as rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num cub√≠culo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga receita da Atl√Ęntida, pequenas explos√Ķes de alho.

O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o oceano nos quer bem, um zunido das profundezas.

Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trep√°ssemos as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansa√ßo. Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, n√£o envelhecemos. Mas j√° suport√°mos tantas coisas juntos, lembramo-nos disso, horas em que tamb√©m de pouco ou nada serv√≠amos ( por exemplo, quando esper√°vamos na bicha para doar o sangue saud√°vel ‚Äď ele tinha prescrito uma transfus√£o). Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se n√£o nos tiv√©ssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado, esquecemos ‚Äď mas eles n√£o nos esqueceram!

Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um mosaico desordenado.

E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direcção, o mosaico nasce.

Ele espera por nós. Do cimo da parede,

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Maio de Minha M√£e

O primeiro de Maio de minha M√£e
N√£o era social, mas de favas e giestas.
Uma cadeira de pau, flor dos dedos do Av√ī
‚ÄĒ Polimento, esquadria, engrade, olh√°-la ao longe ‚ÄĒ
Dava assento a Flor√°lia, o meu primeiro amor.

J√° n√£o se usa poesia descritiva,
Mas como hei-de falar da Maromba de Maio
Ou, se era macho, do litro de vinho na sua m√£o?
O primeiro de Maio nas Ilhas, morno como uma rosa,
Algodoado de c√ļmulos, lento no mar e rapioqueiro
Como Baco em Cam√Ķes,
Límpido de azeviche
E, afinal de contas, do ponto de vista prolet√°rio,
Mais de m√£os na algibeira do que Lenine em Zurich.
(Porque foi por esta época: eu é que não sabia!)

A minha Maromba tinha barriga de palha como as massas
E a foice roçadoira da erva das cabras do Ribeiro
Que se pegou, esquecida, no banco do martelo de meu Av√ī
Cujas quedas iguais, gravíficas, profundas

Muito prego em cunhal deixaram,
Muita madeira emalhetaram,
Muita estrela atraíram ao bico da foice do Ribeiro
Nas noites de luar em que roçava erva às cabras.

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Elegia

Vae em seis mezes que deixei a minha terra
E tu ficaste l√°, mettida n’uma serra,
Boa velhinha! que eras mais uma crian√ßa…
Mas, t√£o longe de ti, n’este Payz de Fran√ßa,
Onde mal viste, ent√£o, que eu viesse parar,
Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
Vir√°s tratar de mim, ainda depois de morta?
Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
Ajuda-te o bord√£o que te empresta uma fada.
Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
Escapas-te√£da cova e vens, Bondade enorme!
Atravez do Mar√£o que a lua-cheia banha,
Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
(E as fontes cantam e o c√©u √© todo estrellado…)
Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
Diz: ¬ęV√° seguindo sempre a minha estrella, no Ar!¬Ľ
E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
Que √©s tu a Virgem disfar√ßada em probrezinha…
Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
Sob os quaes rola a humanidade,

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Em Viagem

Ia o vap√īr singrando velozmente
O verde mar antígo e caprixoso,
√Ā rude voz do capit√£o Contente, –
Um rubro homem do mar silencioso.

Demandava a Madeira, – a ilha bella,
A patria excelsa e celebre do vinho,
A viagem foi curta; e no caminho
Intentei rela√ß√Ķes com Arabella.

Arabella era a lyrica ingleza,
Loura, pallida e fragil como um vime,
Que traz sempre a sua alma meiga presa
D’algum amor profundo, mas sublime.

O londrino, o Antony d’esses amores,
Era um rubro e excentrico burguez,
Mais amigo do bife que das flores,
– A extravagancia de chapeu inglez,

Seu olhar dubio, incerto e traiçoeiro
Tinha vis√Ķes de sangue derramado
Em toda a parte; ao todo um ex-banqueiro,
– Um calvo, velho amigo do Peccado!

Nunca o olhar fitava em sitio certo; –
Vogava ás vezes só no tombadilho,
Com um comprido e merencorio filho,
E ninguem viu-lhe um riso franco e aberto.

Punha, √°s vezes, no mar o olhar sombrio;
E ao vento, a fita branca do chapeu
Dir-se-hia a vella triste d’um navio
De naufragos,

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Do meu vagar

J√° n√£o h√° mais o vagar
de quando se comia sentado
e devagar se caminhava
até chegar a qualquer lado
agora vai toda a gente
sempre de m√£o na buzina
sempre na linha da frente
a tremer de adrenalina

Do meu vagar não traço rotas
n√£o tenho trilho que me prenda
n√£o tiro dados nem notas
n√£o encho uma linha de agenda
do meu vagar n√£o chego a Meca
não faço nada num só dia
n√£o corto a fita da meta
n√£o vejo Roma nem Pavia

Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe n√£o faz sentido

Do meu vagar h√° um nicho
um pico de ilha insubmersa
onde h√° lugar para o capricho
que d√° pelo nome de conversa
do meu vagar a paisagem
ainda tem beleza em bruto
e vale mais uma palavra
que mil imagens por minuto

Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe n√£o faz sentido

Versos para a Patrícia

1. Ilha

Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra

Meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me

Depois, n√£o
me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.

2. Véspera

H√° um perfume
que trabalha em mim
e me acende,
antigo,
sobre a poeira

H√° um rosto
que regressa à fonte
√°gua readormecendo

E só hoje reparo
o labor das nuvens
corais solares
arquitectando o céu

P√°ssaros brancos
v√£o pousando
na varanda dos teus olhos

Só hoje enfrento o sol
fogo imóvel,
labareda de √°gua

Andemos, meu amor,
de coração descalço sobre o sol

Romance de Dubrovnik

S√£o estas casas de cinza
De cinza petrificada
√Č como se aqui a vida
tivesse jogado às cartas
e só a morte saíra
ganhando em cada jogada
√Č esta rua comprida
mas que se chama Platza
(embora em eslava grafia
se escreva apenas Placa)
e que na Ragusa antiga
j√° dois mundos separava
De um lado terra latina
e do outro terra b√°rbara
S√£o as verdes gelosias
s√£o as muralhas douradas
a segredarem que a vida
se inda quisesse ganhava
√Č agora ao meio-dia
a Porta Pile empilhada
E s√£o cachos de turistas
trepando pelas muralhas
tirando fotografias
contudo n√£o vendo nada
S√£o fileiras de boutiques
São cafés sob as arcadas
√Č tudo a fingir que a vida
n√£o se d√° por derrotada
√Č no porto a maresia
quando mais avança a tarde
incrustada em cada esquina
suspensa de cada iate
Mas das naves bizantinas
é que ela sente saudades
e das galeras esguias
que Veneza lhe enviava
se bem que tal nostalgia
inda hoje a sobressalte
Nenhum sabor tem a vida
se a morte a n√£o acicata
E s√£o argolas vazias
as que há no porto à entrada
e de onde outrora pendiam
correntes sempre de guarda
Quem ali√°s adivinha
as marítimas estradas
que deste porto saíam
que neste nó se cruzavam
Com certeza agora vivem
na tinta azul de outros mapas
Ou permanecem cativas
Ou ficaram bloqueadas
S√£o em redor tantas ilhas
tanta rocha tanta escarpa
tantas flutuantes ravinas
Mas quando a noite se abate
não são mais do que faíscas
no mar de prata lavrada
E j√° a Lua surgia
na sua rica dalm√°tica
Nem mais a preceito vinha
do que no céu da Dalmácia
Ser√° que o fulgor da vida
vem da morte iluminada
Subo ao monte Zarkovica
(Na língua serbo-croata
deve ler-se Djarkovitza)
e à sombra desta latada
bebo um copo de mastika
olho de novo a cidade
√ď mem√≥ria empedernida
de uma divina morada
√ď ferradura de cinza
de algum cavalo com asas
√ď mediterr√Ęnea figa
mais propriamente adri√°tica
que foi feita por Posídon
e no litoral deixada
O que a morte à vida ensina
através dos deuses passa
Mas não é só nas ruínas
que fica a sua pegada

Chove ? Nenhuma Chuva Cai…

Chove? Nenhuma chuva cai…
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha in√ļtil agonia ?

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e n√£o posso,
√ď c√©u azul, chamar-te meu…

E o escuro ruído da chuva
√Č constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Tra√ßada pelo som do vento…

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro… E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
H√° sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim…

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…

No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em √≥dio √† √Ęnsia
P√Ķe dias de ilhas vistas do conv√©s

No meu cansaço perdido entre os gelos,

Continue lendo…