Passagens de Domingos Carvalho da Silva

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Areia e Fonte

Foste a primeira que vi
logo que as √°guas baixaram
nos campos que cultivei,
nos bosques onde caçava.

Dos arbustos que cobriam
a negra pele do monte
cortei ramos e adornei-te
de aroma e cores a fronte.

Saltou, na alcova de relva
e traves de lua cheia,
meu corpo sobre teu corpo
como a fonte sobre a areia.

Do opaco do teu cabelo
vestiu-se a noite. O marfim
de teus peitos reluzia
na chama que ardia em mim.

Morreu a chama. Fugiste
nua, sobre as corças nuas
desses pés com que caminha
meu filho por nove luas.

Apocalipse

Porque a lua é branca e a noite
√© simples an√ļncio da aurora;
e porque o mar é o mar apenas
e a fonte n√£o canta nem chora;

e porque o sal se decomp√Ķe
e s√£o de √°gua e carv√£o as rosas,
e a luz é simples vibração
que excita células nervosas;

e porque o som fere os ouvidos
e o vento canta na harpa eólia;
e porque a terra gera os √°spides
entre a papoula e magnólia;

e porque o trem j√° vai partir
e o corvo nos diz never more;
e porque devemos sorrir
antes que o crep√ļsculo descore;

e porque ontem j√° n√£o existe
e o que h√° de vir n√£o mais vir√°,
e porque estamos num balé
sobre o estopim da Bomba H:

n√£o marcharemos contra o muro
das lamenta√ß√Ķes, prantear
a frustração de tudo o que
sonhamos ousar, sem ousar.

Títeres mudados em gnomos,
enfrentemos o Apocalipse
como pilotos da tormenta
entre o terremoto e o eclipse.

Vamos dançar sobre o convés
enquanto o barco n√£o aderna;

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O Poeta

Este grave ofício de poeta
que exerço enquanto o tempo vai
dando mais terra à minha sombra,
n√£o o aprendi com meu pai.

Este meu alibi de cantar
para ausentar-me do que sou,
de minha m√£e n√£o o herdou
o filho rebelde e sem lar.

Este ritmo que celebrei
no contraponto com a viola,
jamais o aprendi na escola
e a mim mesmo o ensinei.

Sou o inventor do que sou
e, embora neto de avós,
tenho de próprio a minha voz,
b√ļssola do Norte aonde vou.

Entre ícaro e Prometeu
viajo e tenho o céu e o chão.
Comando as pedras de Anfi√£o.
Faço a segunda voz de Orfeu.

E nem me pergunteis se gosto
de ocupação menos errática:
meu verso é a minha vida prática,
sal√°rio e suor do meu rosto.

Deixai-me só com minhas lavras,
e com Hamlet, meu porta-voz,
e esta verdade entre nós:
palavras palavras palavras.

Elegia Marítima

Nasceu da terra. Seu corpo,
feito do limo das grutas,
surgiu cavalgando um rio
por uma estrada de luas.

Através de ondas agrestes
de um oceano vegetal,
de onde acenavam aos olhos
ilhotas de manac√°s,

alcançou o colo das praias
que a m√£o lasciva do mar
aperta, despe e mergulha
em seu aroma de sal.

Ali viveu junto às vagas
essa esquiva amendoeira,
cabelos soltos à brisa,
pés escondidos na areia.

Um dia o mar a arrastou
através de ilhas sem fim.
Parti com ela. E hoje canta
a morte dentro de mim.

Poema Explicativo

In√ļteis s√£o os voos. In√ļteis s√£o os p√°ssaros.
Silenciosas sombras tudo extinguem.
Como as vagas de um mar longínquo e frio,
s√£o de in√ļteis palavras estes versos,
pois o calado tempo esmaga tudo.

Moro num rio in√ļtil que caminha
entre margens de musgo e subalternas
pontes e √°guas que reflectem
estrelas, lumin√°rias, desencanto.

Os peixes n√£o obstante j√° n√£o dormem.
S√£o in√ļteis os sonhos e as amarras
que nos prendem ao cais.
E o sangue que nos leva
em artérias eléctricas de desejo.

J√° somos todos poetas ‚ÄĒ e a poesia √© in√ļtil ‚ÄĒ
antepassados simples de um futuro
remoto onde seremos sinais na rocha, apenas.

Germinar√° o trevo entre os alexandrinos
e nenhum p√°ssaro compreender√° o sentido
das p√°ginas dispersas sobre a areia.

Estas palavras nuas se transformar√£o
em pó, em lodo, em traças e raízes.