Passagens sobre Pedras

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Frases sobre pedras, poemas sobre pedras e outras passagens sobre pedras para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Pedra no charco

Caiu uma pedra no charco,
caiu um penedo no rio,
caiu mais um cabo da boa esperança no mar,
p’r√° gente se agarrar.

Deix√°mos de ver as nuvens
que nos tapavam o céu,
pudemos sentir de perto a meiguice do tempo
onde a gente se escondeu.

√Č que hoje
nasceu mais um dia.
√Č que hoje
nasceu mais alguém.
√Č que hoje
nasceu um poeta na serra com a estrela da manh√£.

Foi quando os lobos uivaram,
foi quando o lince miou,
as ovelhas n√£o tinham fome
e a alcateia repousou.

E entre os uivos e os miados
o poeta abriu o choro.
E entre os vales e os cabeços,
cavalgando uma alcateia
o poema deslizou.

Historiador

Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecora√ß√Ķes, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os neg√≥cios de trapa√ßa, as ilus√Ķes jamais confirmadas
nem desfeitas.

Veio para contar
o que n√£o faz jus a ser glorificado
e se deposita, gr√Ęnulo,
no poço vazio da memória.
√Č importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.

Onde Estar√° aquele Velho √Ālbum?

Onde estar√° aquele velho √°lbum? A cena
das fiandeiras sob as trombetas que o fechavam.
Os ancestrais esperam… Seria um mero encontro
não houvesse a consciências das coisas deixadas para trás.
Pompéia desenterrada. O valor menos notado
também assombra a idade. Afinal, para que encontrarmos
humanos petrificados embaixo de um tempo
que só poderia existir dentro daquilo mesmo?
O amor n√£o foi maior ou menor para eles. Ontem
ninguém autorizou essa exibição nem a de uma família
embaixo da ponte. Mas essa parte de pedra
que nunca podemos entender e que teríamos
depois de séculos pode ainda enterrar
todos os nossos sonhos num instante.

Desde que o meu bem partiu
Parecem outras as cousas;
Até as pedras da rua
Têm aspecto de lousas!

Quando por acaso as piso,
Perturba-me um tal mist√©rio!…
Como se pisasse à noite
As pedras dum cemit√©rio…

As palavras que te envio s√£o interditas

As palavras que te envio s√£o interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem j√° reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas m√£os nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

A Imensa Imoralidade da Existência

Viver era como correr em c√≠rculo num grande labirinto, esse g√©nero de labirinto para crian√ßas que se v√™ em certos parques de jogos modernos; em cima de uma pedra no meio do labirinto h√° uma pedra brilhante; os m√≠udos chegam com as faces coradas, cheios de uma f√© inabal√°vel na honestidade do labirinto e come√ßam a correr com a certeza de alcan√ßarem dentro de pouco tempo o seu alvo. Corremos, corremos, e a vida passa, mas continuaremos a correr na convic√ß√£o de que o mundo acabar√° por se mostrar generoso para quem correr sem des√£nimo, e quando por fim descobrimos que o labirinto s√≥ aparentemente tende para o ponto central, √© tarde demais – de facto, o construtor do labirinto esmerou-se a desenhar v√°rias pistas diferentes, das quais s√≥ uma conduz √† p√©rola, de modo que √© o acaso cego e n√£o a justi√ßa l√ļcida o que determina a sorte dos que correm.
Descobrimos que gast√°mos todas as nossas for√ßas a realizar um trabalho perfeitamente in√ļtil, mas √© muito tarde j√° para recuarmos. Por isso n√£o √© de espantar que os mais l√ļcidos saiam da pista e suprimam algumas voltas in√ļteis para atingirem o centro cortando caminho. Se dissermos que se trata de uma ac√ß√£o imoral e maldosa,

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Eu, no fundo, n√£o invento nada. Sou apenas algu√©m que se limita a levantar uma pedra e a p√īr √† vista o que est√° por baixo. N√£o √© minha culpa se de vez em quando me saem monstros.

Amizade

Uma criança muito suja atira pedras a um cão. O cão
não foge. Esquiva-se e vem até junto da criança
para lhe lamber o rosto.

Há, depois, um abraço apertado, de compreensão e
de amizade. E lado a lado, com a m√£ozinha muito
suja no pescoço felpudo, lá vão, pela rua estreita,
em direcção ao sol.

A minha m√£e costuma dizer que a √°gua arredonda as pedras como a mulher molda a alma dos homens.

Não elogies a um homem antes de ele falar, porque esta é a pedra de toque

Não elogies a um homem antes de ele falar, porque esta é a pedra de toque.

A Razão da Minha Esperança

Meu bom amigo,

Sei que tens sofrido bastante.

Não posso esquecer que um dia me ensinaste: que leal é quem não abandona; que devemos procurar ser pessoas dignas de confiança, mais do que tentar encontrar alguém assim; e, que a vontade de amar já é, em si mesma, amor.

Permite-me que partilhe contigo, hoje, algumas ideias a respeito dos momentos dif√≠ceis…

S√£o muitas as provas que na vida servem para testar quem somos, a for√ßa que temos em n√≥s e o nosso valor. Algumas vezes uma pedra gigante vem cair mesmo diante de n√≥s… outras vezes s√£o s√©ries infind√°veis de pequenos obst√°culos no caminho… longas etapas que nos obrigam a seguir adiante sem descansar, em percursos onde quase nunca se v√™ o horizonte.
A agita√ß√£o permanente em que vivemos leva muitos a desistir de encontrar refer√™ncias mais adiante, mas √© preciso que nos afastemos do tempo para assim encontrarmos a posi√ß√£o mais segura, elevando-nos acima dos momentos passageiros para os compreender melhor. No meio da confus√£o √© preciso ver para al√©m do que se pode olhar… estabelecer os alicerces sobre o que √© s√≥lido, ainda que seja preciso escavar muito mais fundo do que o normal…

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O Pressuposto Indispens√°vel para se Ser um Grande-Escritor

O pressuposto indispens√°vel para se ser um grande-escritor √©, ent√£o, o de escrever livros e pe√ßas de teatro que sirvam para todos os n√≠veis, do mais alto ao mais baixo. Antes de produzir algum bom efeito, √© preciso primeiro produzir efeito: este princ√≠pio √© a base de toda a exist√™ncia como grande-escritor. √Č um princ√≠pio miraculoso, eficaz contra todas as tenta√ß√Ķes da solid√£o, por excel√™ncia o princ√≠pio goethiano do sucesso: se nos movermos apenas num mundo que nos √© prop√≠cio, tudo o resto vir√° por si. Pois quando um escritor come√ßa a ter sucesso d√°-se logo uma transforma√ß√£o significativa na sua vida. O seu editor p√°ra de se lamentar e de dizer que um comerciante que se torna editor se parece com um idealista tr√°gico, porque faria muito mais dinheiro negociando com tecidos ou papel virgem. A cr√≠tica descobre nele um objecto digno da sua actividade, porque os cr√≠ticos muitas vezes at√© nem s√£o m√°s pessoas, mas, dadas as circunst√Ęncias epocais pouco prop√≠cias, ex-poetas que precisam de um apoio do cora√ß√£o para poderem p√īr c√° fora os seus sentimentos;s√£o poetas do amor ou da guerra, consoante o capital interior que t√™m de aplicar com proveito, e por isso √© perfeitamente compreens√≠vel que escolham o livro de um grande-escritor e n√£o o de um comum escritor.

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√Č por Ti que Vivo

Amo o teu t√ļmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu h√°lito de p√°ssaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro n√£o o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofere√ßo-te esta fr√°gil Ô¨āor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

√Č preciso ver o que n√£o foi visto, ver outra vez o que se viu j√°, ver na Primavera o que se vira no Ver√£o, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva ca√≠a, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui n√£o estava.

Terra – 7

Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para l√° da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e m√°quinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava um outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as √°guas dum rio.

XXXIII

Aqui sobre esta pedra, √°spera, e dura,
Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,
A ver, se o bruto m√°rmore eterniza
A tua, mais que ingrata, formosura.

J√° cintilam teus olhos: a figura
Avultando j√° vai; quanto indecisa
Pasmou na efígie a idéia, se divisa
No engraçado relevo da escultura.

Teu rosto aqui se mostra; eu n√£o duvido,
Acuses meu delírio, quando trato
De deixar nesta pedra o vulto erguido;

√Č tosca a prata, o ouro √© menos grato;
Contemplo o teu rigor: oh que advertido!
Só me dá esta penha o teu retrato!

Canção do Verdadeiro Abandono

Podem todos rir de mim,
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.

Com palavras de ilus√£o
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na m√£o
não tem vislumbres de além.

N√£o sou irm√£ das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastos.

Coda

In√ļtil escapar. A presen√ßa perdura.
Desde que sinto ch√£o
ou de verde
ou de pedra

é teu rastro que encontro e encontro em ti meu chão.

E quando te pressinto
o de verde é mais terno
e o de mais dura pedra
um sens√≠vel dur√Ęmen.

Tu que arrancas até da rocha viva o sangue,
tu que vens pela foz destes veios de eu te amo:
‚ÄĒ Em que s√©culo, amor, nossas almas se fundem?
Em que terra?

Através de que mar? Ah que céu
velho c√©u j√° chorou por n√≥s ‚ÄĒ perdidos c√ļmulos ‚ÄĒ
guaiando em nosso mundo impossíveis azuis?
E desde quando o amor se abriu aos nossos olhos?
De que abrolhos e sal de amar nos marejou?

Em meu solo és madeiro
e nave
e asa que sonha.
Em todo canto te acho e onde é teu canto eu sou.