Passagens sobre Pedras

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Frases sobre pedras, poemas sobre pedras e outras passagens sobre pedras para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

L√°pide

(com tema de Virgílio, o Latino,
e de Lino Pedra-Azul, o Sertanejo)

Quando eu morrer, n√£o soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalg√°-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Ch√£o pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em v√£o ‚Äď Sangue insensato e vagabundo ‚ÄĒ
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulc√£o a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infind√°vel √°gua

com teu sabor de a√ß√ļcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Os Dias Conto, e cada Hora, e Momento

Os dias conto, e cada hora, e momento
qu’ alongando-me vou dos meus amores.
Nas √°rvores, nas pedras, ervas, flores,
parece que acho m√°goa, e sentimento.

As aves que no ar voam, o sol, e o vento,
montes, rios, e gados, e pastores,
as estradas, e os campos, mostram as dores
da minha saudade, e apartamento.

E quanto m’era l√° doce, e suave,
mais triste, e duro Amor c√° mo apresenta,
a que entreguei da minha vida a chave.

Em l√°grimas for√ßa √© qu’ as faces lave,
ou que n√£o sinta a dor que na tormenta
memória da bonança faz mais grave.

O segredo para a realização de uma obra grandiosa está em conhecer o ponto-chave para aí concentrar o esforço. Empreender uma obra grandiosa é como tentar remover uma pedra enorme com uma alavanca: a pedra poderá mover-se ou não, dependendo do ponto onde aplicarmos a força.

Vertentes

As palavras esperam o sono
e a m√ļsica do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro n√£o a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

H√° um olhar que entra pelas paredes da terra
sem l√Ęmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre ext√°tica que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a m√£o do teu seio
sou o teu l√°bio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a √°gua cai sem tempo

A √önica Coisa Duradoura Que Podes Criar

A mam√£ costumava dizer-lhe que tinha muita pena. As pessoas tinham andado a trabalhar durante tantos anos para fazer do mundo um s√≠tio organizado e seguro. Ningu√©m percebera como ele se iria tornar aborrecido. Com todo o mundo dividido em propriedades, com os limites de velocidade e as divis√Ķes por zonas, com tudo regulado e tributado, com todas as pessoas analisadas e recenseadas e rotuladas e registadas. Ningu√©m tinha deixado muito espa√ßo para a aventura, exceptuando, talvez, a do g√©nero que se pode comprar. Numa montanha-russa. Num cinema. No entanto, isso seria sempre uma excita√ß√£o falsa. Sabes que os dinossauros n√£o v√£o comer os m√≠udos. Os referendos recusaram com os seus votos qualquer hip√≥tese de um desastre falso ainda maior. E porque n√£o existe a possibilidade de um desastre verdadeiro, ficamos sem nenhuma hip√≥tese de termos uma salva√ß√£o verdadeira. Entusiasmo verdadeiro. Excita√ß√£o a s√©rio. Alegria. Descoberta. Inven√ß√£o.
As leis que nos dão segurança, estas mesmas leis condenam-nos ao aborrecimento. Sem acesso ao verdadeiro caos, nunca teremos paz verdadeira.

A n√£o ser que tudo possa ficar pior, nunca poder√° ficar melhor.
Isto eram tudo coisas que a mam√£ lhe costumava dizer.
E dizia-lhe mais:

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O Supremo Palhaço da Criação

A velha no√ß√£o antropom√≥rfica de que todo o universo se centraliza no homem ‚Äď de que a exist√™ncia humana √© a suprema express√£o do processo c√≥smico ‚Äď parece galopar alegremente para o ba√ļ das ilus√Ķes perdidas. O facto √© que a vida do homem, quanto mais estudada √† luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que no passado deu a impress√£o de ser a principal preocupa√ß√£o e obra-prima dos deuses, a esp√©cie humana come√ßa agora a apresentar o aspecto de um sub-produto acidental das maquina√ß√Ķes vastas, inescrut√°veis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
(…) O que n√£o quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria seja abandonada pela grande maioria dos homens. Pelo contr√°rio, estes a abra√ßar√£o √† medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropom√≥rfica ainda √© mais adoptada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que um homem era um quase Deus foi no m√≠nimo aperfei√ßoada pela doutrina de que as mulheres inferiores. O que mais est√° por tr√°s da caridade, da filantropia, do pacifismo, da ‚Äúinspira√ß√£o‚ÄĚ e do resto dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas estas tolices s√£o baseadas na no√ß√£o de que o homem √© um animal glorioso e indescrit√≠vel,

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Preso Político

1

Quiseram p√īr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite s√£o iguais por dentro.
N√£o h√° papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce, e cresce a voz armada
descendo pelos muros t√£o tranquila;
t√£o tranquila que j√° nem desespera
de ser apenas voz, n√£o uma guerra.

Quiseram p√īr-me inteiro numa ficha.
N√£o h√° papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos, esta m√£o estendida
por sobre os muros só de medo e pedra.

2

Quando saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que far√°s da liberdade:
quando saíres, amigo, não me esqueças.

Quero mais fazimento que promessas.
S√£o de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade.
Não me esqueças, amigo, não me esqueças.

1966

Abrir o Entendimento, Pela Amizade

O fruto da amizade √© saud√°vel e excelente para o entendimento, pois a amizade converte as tormentas e as tempestades dos sentimentos em dia l√≠mpido, e ilumina com luz solar as trevas e a confus√£o dos pensamentos. N√£o se deve entender com isso apenas os conselhos fi√©is que se recebem de um amigo. Antes deles, √© fora de d√ļvida que quem tenha a mente borbulhante de pensamentos lograr√° clarificar e ordenar o entendimento comunicando as suas ideias a outrem. Trar√° √† tona mais facilmente os pensamentos; orden√°-los-√° de maneira mais eficaz; julgar√° como parecem quando convertidos em palavras; em suma, far-se-√† mais s√°bio do que √©, alcan√ßando numa hora de palestra mais do que num dia inteiro de medita√ß√£o.
Disse bem Temístocles ao Rei da Pérsia, que o falar é como pano de Arras, desenfardado e posto à venda: nele, as imagens são exibidas, enquanto que, no pensamento, permanecem enfardadas. Este fruto da amizade, o de abrir o entendimento, não se restringe apenas aos amigos capazes de nos dar conselho (estes são, na verdade, os melhores); mesmo sem isso, aprendemos acerca de nós mesmos, trazemos os nossos pensamentos à luz e afiamos a agudeza do nosso engenho como se contra uma pedra de amolar,

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Um Calção De Pindoba A Meia Zorra

Um calção de pindoba a meia zorra
Camisa de urucu, mantéu de arara,
Em lugar de cotó, arco, e taquara,
Penacho de guar√°s em vez de gorra.

Furado o beiço, e sem temer que morra
O pai, que lho envazou cuma titara,
Porém a Mãe a pedra lhe aplicara
Por reprimir-lhe o sangue que n√£o corra,

Alarve sem razão, bruto sem fé,
Sem mais leis, que as do gosto, quando erra,
De Paiaiá tornou-se em Abaeté.

N√£o sei onde acabou, ou em que guerra,
Só sei que deste Adão de Massapé,
Procedem os fidalgos desta terra.

O amor? Sabemos de ciência tão certa (esse instinto) que vai morrer que levamos a vida inteira a polir a pedra da sua memória.

Bela

Bela,
como na pedra fresca
da fonte, a √°gua
abre um vasto rel√Ęmpago de espuma,
assim é o sorriso do teu rosto,
bela.

Bela,
de finas mãos e delicados pés
como um cavalinho de prata,
caminhando, flor do mundo,
assim te vejo,
bela.

Bela,
com um ninho de cobre enrolado
na cabeça, um ninho
da cor do mel sombrio
onde o meu coração arde e repousa,
bela.

Bela,
n√£o te cabem os olhos na cara,
n√£o te cabem os olhos na terra.
Há países, há rios
nos teus olhos,
a minha p√°tria est√° nos teus olhos,
eu caminho por eles,
eles d√£o luz ao mundo
por onde quer que eu v√°,
bela.

Bela,
os teus seios s√£o como dois p√£es feitos
de terra cereal e lua de ouro,
bela.

Bela,
a tua cintura
moldou-a o meu braço como um rio quando
passou mil anos por teu doce corpo,
bela.

Bela,
n√£o h√° nada como as tuas coxas,

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Marília De Dirceu

Soneto 2

Num fértil campo de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu tesouro.

De uma parte, um mont√£o de prata e ouro
Com pedras de valor o ch√£o curvava;
Aqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grama e louro.

– Acabou – diz-me ent√£o – a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura.

Escolhi, acordei, e n√£o vi nada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.

O Mal Saltitante

A morte √© apenas uma consequ√™ncia da nossa maneira de viver. Vivemos de pensamento em pensamento, de sensa√ß√£o em sensa√ß√£o. Os nossos pensamentos e as nossas sensa√ß√Ķes n√£o correm tranquilamente como um rio, ¬ęocorrem-nos¬Ľ, caem em n√≥s como pedras. Se te observares bem, sentir√°s que a alma n√£o √© algo que vai mudando de cor em grada√ß√Ķes progressivas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos saindo de um buraco negro. Neste momento tens um pensamento ou uma sensa√ß√£o, e no seguinte aparece outro, diferente, como que sa√≠do do nada. Se deres aten√ß√£o, at√© podes sentir o instante entre dois pensamentos, quando tudo se torna negro. Esse instante, uma vez apreendido, √© para n√≥s o mesmo que a morte.
Pois a nossa vida resume-se a definir marcos e a saltar de um para o outro, diariamente, passando por milhares de instantes de morte. De certo modo, vivemos apenas nos pontos de repouso. √Č por isso que temos esse medo rid√≠culo da morte irrevers√≠vel, porque ela √©, em absoluto, o lugar sem marcos, o abismo insond√°vel em que ca√≠mos. Na verdade, ela √© a nega√ß√£o absoluta daquela maneira de viver.
Mas isto só é assim quando visto da perspectiva desta vida,

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Exílio

Dentro de cada rosto vai-se
e perde o passo antes certo
que não se quisera passo, mas silêncio.

Se em v√£o caminha e nada encontra,
um rosto e cada ruga, cada cancro
conferem o périplo e o decretam
desde sempre, nas frias manh√£s do tempo, nulo.

Mármores, fátua memória de um crime,
ou qualquer m√ļsica degredada em pranto,
nada falta, mas fasta, imóvel, sucessiva
uma lua basta e sua lousa, desterro.

Letras, pedras, fomes, por entre grades paisagem
ou rosto informe no fundo de uma p√°gina,
vai a viagem ontem e esquece, urro ou simples erro.

Porque o Melhor, Enfim

Porque o melhor, enfim,
√Č n√£o ouvir nem ver…
Passarem sobre mim
E nada me doer!

_ Sorrindo interiormente,
Co’as p√°lpebras cerradas,
Às águas da torrente
J√° t√£o longe passadas. _

Rixas, tumultos, lutas,
N√£o me fazerem dano…
Alheio às vãs labutas,
√Äs esta√ß√Ķes do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva

Que Abril copioso ensope…
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Disp√Ķe ao sacrif√≠cio

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas…

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos,

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Pesada Noite

A noite cai de bruços,
cai com o peso fundo do cansaço,
cai como pedra, como braço,
cai como um século de cera,
aos tombos, aos soluços,
entre a maçã maciça e a perene pêra,
entre a tarde e o crep√ļsculo,
dilatação da madrugada, elástica,
cai, de borracha,
imita√ß√£o de m√ļsculo,
cai, parecendo que se agacha
na sombra, e feminina, e √°gil
salta, com molas de gin√°stica
nos pés, o abismo
do press√°gio,
a noite, essa mandíbula do trismo,
tétano e espasmo,
ao mesmo tempo, a noite
amorosa, à espreita do orgasmo,
ferina, mas também açoite,
contraditória
como existir esquecimento
no íntimo do homem,
na intimidade viva da memória,
reminiscências que o consomem
fugindo com o vento,
a noite, a noite acata
tudo que ocorre,
tanto aquele que mata
quanto aquele que morre,
a noite, a sensação e aguda
de um sono
fechando os olhos, invencível
como fera que estuda
a vítima, abandono
completo, fuga, salto
nas garras do impossível,
a noite pétrea do basalto,

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A liberdade é um vinho de excelência. Não faz sentido que não o compartilhes. A sedução de ambos ajuda-nos a viver, é o perfume da pele, a pele do vento, o segredo com que a flor atrai a abelha. As árvores amam-se, e até mesmo as pedras partilham o amor entre si. O verde perde-se de amor pelo azul.