Passagens sobre Miséria

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Frases sobre mis√©ria, poemas sobre mis√©ria e outras passagens sobre mis√©ria para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Necessidade da Compaix√£o

Arrebatavam-me os espect√°culos teatrais, cheios de imagens das minhas mis√©rias e de alimento pr√≥prio para o fogo das minhas paix√Ķes. Mas porque quer o homem condoer-se, quando presenceia cenas dolorosas e tr√°gicas, se de modo algum deseja suport√°-las? Todavia, o espectador anseia por sentir esse sofrimento que, afinal, para ele constitui um prazer. Que √© isto sen√£o rematada loucura? Com efeito, tanto mais cada um se comove com tais cenas quanto menos curado se acha de tais afectos (delet√©rios). Mas ao sofrimento pr√≥prio chamamos ordinariamente desgra√ßa, e √† comparticipa√ß√£o das dores alheias, compaix√£o. Que compaix√£o √© essa em assuntos fict√≠cios e c√©nicos, se n√£o induz o espectador a prestar aux√≠lio, mas somente o convida √† ang√ļstia e a comprazer o dramaturgo na propor√ß√£o da dor que experimenta? E se aquelas trag√©dias humanas, antigas ou fingidas, se representam de modo a n√£o excitarem a compaix√£o, e espectador retira-se enfastiado e criticando. Pelo contr√°rio, se se comove, permanece atento e chora de satisfa√ß√£o.
Amamos, portanto, as l√°grimas e as dores. Mas todo o homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ningu√©m apraz ser desgra√ßado, apraz-nos contudo a ser compadecidos. N√£o gostaremos n√≥s dessas emo√ß√Ķes dolorosas pelo √ļnico motivo de que a compaix√£o √© companheira insepar√°vel da dor?

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A vida de uma nação, como a de um indivíduo, é uma ruína perpétua, uma sequência de desabamentos, uma interminável expansão de misérias e crimes.

A força da metáfora mais poderosa que já existiu até aqui não passa de miséria e bagatela ao lado deste retorno da língua à natureza da expressão figurada.

A Hipocrisia do Amor ao Povo

Estes amam o povo, mas n√£o desejariam, por interesse do pr√≥prio amor, que sa√≠sse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as supersti√ß√Ķes e as lendas; v√™em-se generosos e sens√≠veis quando se debru√ßam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; √© muito interessante o animal que examinam, mas que n√£o tente o animal libertar-se da sua condi√ß√£o; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posi√ß√£o; em nome da est√©tica e de tudo o resto conv√©m que se mantenha.
H√° tamb√©m os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir √© o dom√≠nio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um cora√ß√£o de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o v√£o desejo de mandar; nestes n√£o encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque liter√°rio; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, √© o som do oco tambor ret√≥rico o √ļltimo que se ouve.

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A Vida não Passa de um Reflexo da Nossa Memória

H√° uma coisa que me humilha: a mem√≥ria √© muitas vezes a qualidade da tolice; pertence em geral aos esp√≠ritos grosseiros, os quais torna mais pensantes pela bagagem com a qual os sobrecarrega. E, no entanto, sem a mem√≥ria, o que ser√≠amos? Esquecer√≠amos as nossas amizades, os nossos amores, os nossos prazeres, os nossos neg√≥cios; o g√©nio n√£o poderia reunir as suas ideias; o cora√ß√£o mais afectuoso perderia a sua ternura, caso n√£o se recordasse mais dela; a nossa exist√™ncia reduzir-se-ia aos momentos sucessivos de um presente que transcorre sem cessar; n√£o haveria mais passado. √ď que mis√©ria a nossa! A nossa vida √© t√£o v√£ que n√£o passa de um reflexo da nossa mem√≥ria.

O Homem sem Luz

Ao ver a cegueira e a mis√©ria do homem, ao contemplar todo o universo mudo e o homem sem luz, abandonado a si mesmo e como que perdido nesse recanto do universo, sem saber quem o dep√īs ali, o que a√≠ veio fazer, o que ser√° dele ao morrer, incapaz de qualquer conhecimento, sinto-me aterrorizado como um homem que tivessem levado adormecido para uma ilha deserta e aterrorizante e que despertasse sem saber onde est√° e sem condi√ß√Ķes de sair dali.

S√≥ dos Mortos Devemos Ter Ci√ļmes

S√≥ dos mortos devemos ter ci√ļmes; acordar
de entre as pedras doentes dolorosos
que da beira das arribas nos atirem ao porto
onde enfim se encontre a nossa ang√ļstia.
Só eles lutam palmo a palmo pelo espaço
em que já vertical erguemos nosso braço
em busca de que sumo ou de que c√©u. √Č que s√≥ eles
nos retiram da cama de que por nós foi feita
a escolha: a macieza intensa que julg√°mos
eterna, que nos parecia t√£o cordatamente
entregue √† nossa pr√≥pria suma suma√ļma.
Só os mortos, horror, inda que vivos, vivem
paredes meias com os nossos dedos, logo afastam
os momentos ferozes que toc√°ssemos, e as nuvens
por sobre o mar dos olhos: é bem feito,
dizem os meninos. Pois que dos vivos vivos
a vida nos desvia e nisso nos conduz, assaz
encaminhados pelo que vamos querendo.
Só os mortos nos mordem, nos apontam
a dedo frio e tenso, entorpecem desejos
e, pois pior, só eles nos expulsam
do vero som dos sinos numa entrega
às palavras baldadas do comércio.
A luta clara que sonhada fosse
pela m√£o dada e limpa que nos dessem
tropeça,

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O socialismo √© a filosofia do fracasso, a cren√ßa na ignor√Ęncia, a prega√ß√£o da inveja. Seu defeito inerente √© a distribui√ß√£o igualit√°ria da mis√©ria.

Aos Filhos

J√° nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos.

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos?

Estes s√£o tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
f√īssemos ao menos infames.

Compr√°mos e n√£o pag√°mos,
falt√°mos a encontros:
nem sequer quando err√°mos
fizemos grande coisa!

Saber Falar e Calar

√Č grande mis√©ria n√£o ter bastante intelig√™ncia para falar bem, nem bastante ju√≠zo para se calar. Eis o princ√≠pio de toda a impertin√™ncia. Dizer de uma coisa, modestamente, que √© boa ou que √© m√°, e as raz√Ķes por que assim √©, requer bom senso e express√£o; √© um problema. √Č mais c√≥modo pronunciar, em tom decisivo, n√£o importa se prova aquilo que afirma, que ela √© execr√°vel ou que √© miraculosa.

O trabalho persistente vence
tudo, e a miséria que urge nas dificuldades.

Todas as mis√©rias verdadeiras s√£o interiores e causadas por n√≥s mesmos. Erradamente julgamos que elas v√™m de fora, mas n√≥s √© que as formamos dentro de n√≥s, com a nossa pr√≥pria subst√Ęncia.

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
√Č dia de passar a m√£o pelo rosto das crian√ßas,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
√Č dia de pensar nos outros ‚Äď coitadinhos ‚Äď nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que n√£o merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
√Č s√≥ abrir o r√°dio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
N√£o seja est√ļpido! Compre imediatamente um rel√≥gio de pulso antimagn√©tico.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela,

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Minha M√£e, Minha M√£e!

Minha m√£e, minha m√£e! ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que j√° sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as can√ß√Ķes das ceifeiras,
E a Lua branca, além, por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao C√©u!…
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que est√° no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escurid√£o.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paix√Ķes e por todas as m√°goas…
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
V√£o em noite sem Lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.

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Alguns t√™m lampejos de id√©ias geniais e, colocando-as em pr√°tica, tornam-se milion√°rios; outros s√≥ t√™m lampejos de id√©ias infelizes e permanecem na mis√©ria a vida toda. O que decide o destino de uma pessoa √© a natureza desses lampejos ‚Äď id√©ias que surgem repentinamente em determinados momentos.