Textos sobre Cabelos

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Textos de cabelos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O anci√£o merece respeito n√£o pelos cabelos brancos ou pela idade, mas pelas tarefas e empenhos, trabalhos e suores do caminho j√° percorrido na vida.

Para a Minha Mulher

Desde que a Maria João casou (oficialmente) comigo há treze anos, damos por nós a casarmo-nos um com o outro, voluntária ou involuntariamente, várias vezes por dia.
Vou contar s√≥ uma. Esta semana, quando volt√°vamos da praia, a Maria Jo√£o estava a pentear-se e deu-me uns cabelos soltos para eu deitar pela janela do carro. Tive ci√ļmes que algu√©m pudesse apanhar os lindos cabelos dela e disse-lhe. Dei-lhes um beijinho e atirei-os ao vento. E a Maria Jo√£o disse: ¬ęAgora tenho eu ci√ļmes que algu√©m apanhe o cabelo com beijinhos teus¬Ľ.

Cas√°mos um com o outro nesse momento. J√° t√≠nhamos casado cinco vezes na praia. Casar √© o que acontece quando duas pessoas descobrem que, por estarem a fazer ou terem feito uma coisa grande ou pequena, s√£o as duas √ļnicas pessoas no mundo. Todas as outras pessoas n√£o podem fazer parte daquele prazer. Aquele prazer s√≥ √© poss√≠vel para duas pessoas concretas: ela e eu.

À nossa volta casavam-se muitas outras pessoas, casando-se mais por nós estarmos de fora, juntamente com todas as outras. Às vezes somos nós os espectadores. Vemos outras pessoas a casarem-se: um homem a rir-se leva uma mulher a rir-se nos braços pelo mar adentro e não a deixa cair até ela pedir.

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A Ira é uma Loucura Breve

Alguns s√°bios afirmaram que a ira √© uma loucura breve; por n√£o se controlar a si mesma, perde a compostura, esquece as suas obriga√ß√Ķes, persegue os seus intentos de forma obstinada e ansiosa, recusa os conselhos da raz√£o, inquieta-se por causas v√£s, incapaz de discernir o que √© justo e verdadeiro, semelhante √†s ru√≠nas que se abatem sobre quem as derruba. Mas, para que percebas que est√£o loucos aqueles que est√£o possu√≠dos pela ira, observa o seu aspecto; na verdade, s√£o claros ind√≠cios de loucura a express√£o ardente e amea√ßadora, a fronte sombria, o semblante feroz, o passo apressado, as m√£os trementes, a mudan√ßa de cor, a respira√ß√£o forte e acelerada, ind√≠cios que est√£o tamb√©m presentes nos homens irados: os olhos incendiam-se e fulminam, a cara cobre-se totalmente de um rubor, por causa do sangue que a ela aflui do cora√ß√£o, os l√°bios tremem, os dentes comprimem-se, os cabelos arrepiam-se e eri√ßam-se, a respira√ß√£o √© ofegante e ruidosa, as articula√ß√Ķes retorcem-se e estalam, entre suspiros e gemidos, irrompem frases praticamente incompreens√≠veis, as m√£os entrechocam-se constantemente, os p√©s batem no ch√£o e todo o corpo se agita amea√ßador, a face fica inchada e deformada, horrenda e assutadora. Ficas sem saber se o que h√° de pior neste v√≠cio √© ele ser detest√°vel ou t√£o disforme.

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F√°bula

Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante.
Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.
Os seio de Maria ca√≠am nus da blusa. Uma das m√£os do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo d√® homem: r√≠gido e fremente, ao mesmo tempo, √† for√ßa de concentrar todo o √≠mpeto nas n√°degas, arco de onde a flecha partia, para se cravar exasperada nas entranhas da rapariga. Parecia um cavalo ofegante ‚ÄĒ os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espa-lhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o c√©u branco de agosto. Mas a terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz desceu ao mundo.
Maria olhava o carpinteiro com olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante.

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A Soberania da Alma

A alma sabe que as verdadeiras riquezas não se encontram onde nós as amontoamos: é a alma que nós devemos encher, não o cofre! Àquela devemos nós conceder o domínio sobre tudo, atribuir a posse da natureza inteira de modo a que os seus limites coincidam com o oriente e o ocaso, a que a alma, identicamente aos deuses, tudo possua, olhando soberanamente do alto os ricos e as suas riquezas Рesses ricos a quem menos alegria proporciona o que têm do que tristeza lhes dá o que aos outros pertence! Quando se eleva a tais alturas, a alma passa a cuidar do corpo (esse mal necessário!), não como amigo fiel, mas apenas como tutor, sem se submeter à vontade de quem está sob sua tutela.
Ningu√©m pode simultaneamente ser livre e escravo do corpo: para j√° n√£o falar de outras tiranias que o excessivo cuidado com ele nos imp√Ķe, a soberania do corpo tem exig√™ncias que s√£o aut√™nticos caprichos. A alma desprende-se dele ora com serenidade, ora de firme prop√≥sito – busca a sua sa√≠da sem se importar com a sorte dessa pobre coisa que para a√≠ fica! N√≥s n√£o ligamos import√Ęncia aos p√™los da barba ou aos cabelos que acab√°mos de cortar;

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N√£o H√° Amor como o Primeiro

N√£o h√° amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, h√° o equivalente adulto ao primeiro amor ‚ÄĒ √© o primeiro casamento; mas n√£o √© igual. O primeiro amor √© uma chapada, um sacudir das ra√≠zes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e n√£o nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as √≥rbitas dos olhos, do impens√°vel calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde salt√°mos. Saltamos e ca√≠mos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer tr√™s ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na √°gua ou no ch√£o, como patos disparados de um obus, com penas a esvoa√ßar por toda a parte.

H√° amores melhores, mas s√£o amores cansados, amores que j√° levaram na cabe√ßa, amores que sabem dizer ‚ÄúAlto-e-p√°ra-o-baile‚ÄĚ, amores que j√° d√£o o desconto, amores que j√° t√™m medo de se magoarem, amores democr√°ticos, que se discutem e debatem. E todos os amores d√£o maior prazer que o primeiro. O primeiro amor est√° para al√©m das categorias normais da dor e do prazer. N√£o faz sentido sequer.

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Aquilo em que se Tem Mais Vaidade é o Corpo

Aquilo em que se tem mais vaidade √© o corpo. Mesmo que aleijado, h√° sempre um pormenor que nos envaidece. Comp√ī-lo. Arranj√°-lo. O careca puxa o cabelo desde o cacha√ßo ou do olho do c√ļ para tapar a degrada√ß√£o. O marreco faz peito. O espelho √© para todos o grande dialogante. Passa-se a uma vitrina e olha-se de soslaio a ver como se vai. Uma mulher perfeita (e um homem) n√£o inveja o intelectual, o artista. O inverso √© que √©. Muitas mulheres (e homens) cultivam a excepcionalidade do seu esp√≠rito ou engenho por complexo ou vingan√ßa. Quando se n√£o tem j√° vaidade no corpo, est√°-se no fim. Mas mesmo num leito de morte nos queremos ¬ęcompostos¬Ľ. ¬ęN√£o me descomponhas¬Ľ ‚ÄĒ disse a marquesa de T√°vora ao carrasco, uns momentos antes de ser decapitada. Tomam-se provid√™ncias para como se h√°-de ir no caix√£o. A degrada√ß√£o do corpo √© a √ļltima coisa que se aceita. Hoje lavei o carro e vesti um cal√ß√£o para me n√£o molhar. Dei uma vista de olhos ao espelho. Grumos, tumefac√ß√Ķes pelas pernas. N√£o gostei. N√£o muito tempo. Lembrou-me um certo professor. Tinha a bossa da orat√≥ria. E ent√£o contava: escrevia um discurso e lia. Parecia-lhe p√©ssimo.

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Não são os cabelos brancos que fazem o ancião; de qualquer velho que só tenha idade, pode-se dizer que envelheceu em vão.

√Č por ter Esp√≠rito que me Aborre√ßo

√Č preciso esconjurar, da forma que nos for poss√≠vel, este diabo de vida que n√£o sei porque √© que nos foi dada e que se torna t√£o facilmente amarga se n√£o opusermos ao t√©dio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. √Č preciso, numa palavra, agitar este corpo e este esp√≠rito que se delapidam um ao outro na estagna√ß√£o e numa indol√™ncia que se confunde com um torpor. √Č preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho – e reciprocamente: s√≥ assim estes parecer√£o, ao mesmo tempo, agrad√°veis e salutares. Um desgra√ßado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadi√°veis, deve ser, sem d√ļvida, extremamente infeliz, mas um indiv√≠duo que n√£o fa√ßa mais do que divertir-se n√£o encontrar√° nas suas distrac√ß√Ķes nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o t√©dio e que este o prende pelos cabelos – como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detr√°s de cada distrac√ß√£o e espreitasse por cima do nosso ombro.
Não julgue, cara amiga, que eu só porque trabalho regularmente estou isento das investidas deste terrível inimigo; penso que, quando se tem uma certa disposição de espírito, é preciso termos uma imensa energia de forma a não nos deixarmos absorver e conseguir escapar,

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Morre-se Agora Muito Tarde

Pensando bem, vale mais morrer j√°, morre-se agora muito tarde. Quero dizer, muito depois de ter morrido muita coisa √† nossa volta e dentro de n√≥s. A vida humana estendeu-se e o que havia nela encolheu. A vida humana √© assim vagarosa, ¬ęobjectivamente¬Ľ vagarosa, mas o que acontece dentro dela √© rapid√≠ssimo (…) Porque aos vinte e cinco anos, digamos aos trinta, temos o farnel pronto para a viagem. Antigamente dava para a viagem toda, agora temos de nos abastecer outra vez – com qu√™?
Temos a bagagem pronta, o amor, as ideias, o corte das camisas e do cabelo, tudo na mala – como aguentar at√© aos setenta sem mudar de mala nem de camisas? Mesmo que as camisas sejam novas. Imagina agora tu a usares o coco do teu av√ī.

Os Homens são como as Crianças

A atitude que nós temos para com as crianças é a atitude que o sábio tem para com todos os homens, que são pueris mesmo após a idade madura e os cabelos brancos. O que terão progredido estes homens, cujos males da sua alma apenas se tornaram em maiores males, que em forma e grandeza corporais tanto diferem das crianças, mas que em tudo o resto não são menos ligeiros e inconstantes, correndo atrás dos desejos sem reflectirem, agitados e que quando se aquietam é por medo, não por engenho seu?
Diria que aquilo que distingue as crian√ßas dos homens √© que a avidez das crian√ßas √© por dados, nozes e pequenas moedas de ouro, enquanto que a dos homens √© pelo ouro e pela prata das cidades; uns imaginam magistrados entre eles mesmos e imitam a toga, o facho e o tribunal, os outros jogam os mesmos jogos, mas a s√©rio, no Campo de Marte, no F√≥rum e na C√ļria; uns, amontoando areia √† beira-mar, constroem simulacros de casas, os outros, como quem executa uma grande obra, trabalhando a pedra na constru√ß√£o de paredes e tectos, fazem aquilo que os devia abrigar um verdadeiro perigo. Por isso, entre crian√ßas e homens-feitos o erro √© igual,

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As Memórias Procriam como se Fossem Pessoas Vivas

H√° pequenas impress√Ķes finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, n√£o sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da mem√≥ria e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidos. S√≥ que, por efeito desse per√≠odo de gesta√ß√£o profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisi√ß√Ķes da experi√™ncia temperada de c√°lcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem j√° no estado adulto e prontas a procriar. Porque as mem√≥rias procriam como se fossem pessoas vivas.

O Homem Superior

O maior triunfo do homem é quando se convence de que o ridículo é uma cousa sua que existe só para os outros, e, mesmo, sempre que outros queiram. Ele então deixa de importar-se com o ridículo, que, como não está em si, ele não pode matar.
Tr√™s cousas tem o homem superior que ensinar-se a esquecer para que possa gozar no perfeito silencio a sua superioridade ‚ÄĒ o ridiculo, o trabalho e a dedica√ß√£o.
Como n√£o se dedica a ningu√©m, tamb√©m nada exige da dedica√ß√£o alheia. S√≥brio, casto, frugal, tocando o menos poss√≠vel na vida, tanto para n√£o se incomodar como para n√£o approximar as cousas de mais, a ponto de destruir nelas a capacidade de serem sonhadas, ele isola-se por conveni√™ncia do orgulho e da desillus√£o. Aprende a sentir tudo sem o sentir directamente; porque sentir directamente √© submeter-se ‚ÄĒ submeter-se √† ac√ß√£o da cousa sentida.
Vive nas dores e nas alegrias alheias, Whitman ol√≠mpico, Proteu da compreens√£o, sem partilhar de viv√™-las realmente. Pode, a seu talante, embarcar ou ficar nas partidas de navios ‚ÄĒ e pode ficar e embarcar ao mesmo tempo, porque n√£o embarca nem fica. Esteve com todos em todas as sensa√ß√Ķes de todas as horas da sua vida.

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SMS

Ela caminha já a tarde vai alta pelo passeio que segue paralelo ao mar, por cima das praias. Em baixo, a areia estende-se vazia até à água, acabando numa espuma branca, das ondas que rebentam com o fragor dos dias de Inverno. Vai sozinha. Cruza-se com jovens a passo de corrida, outros que deslizam em patins, um casal com o filho pequeno feliz na sua bicicleta de rodinhas, acompanhado por um cãozinho saltitante que corre para a frente e para trás em redor dele.
Leva na m√£o o telem√≥vel e nos olhos castanhos brilhantes uma esperan√ßa. Vai pensativa e sem horas, caminhando sem pressa, reparando nas pessoas, no mar desabrido que se atira √† praia, no ar fresco que respira, no vento que se levanta com uma promessa de tempestade. Cruza o casaco grosso, azul-escuro, √† frente do peito, sem apertar os bot√Ķes. Cruza os bra√ßos. Uma folha de jornal passa por ela a esvoa√ßar, not√≠cias antigas, pensa divertida, logo se concentrando no navio de carga iluminado que vem de Lisboa e ruma ao mar aberto com o vagar de quem tem um destino certo num dia certo.

Acaba por apertar os bot√Ķes do casaco e levantar a gola para se sentir mais protegida do vento,

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Atenção ao Estilo Rebuscado e Cheio de Adornos

Quando vires algu√©m com um estilo rebuscado e cheio de adornos podes ter a certeza de que a sua alma apenas se ocupa igualmente de bagatelas. Uma alma verdadeiramente grande √© mais tranquila e senhora de si a falar, e em tudo quanto diz h√° mais firmeza do que preocupa√ß√£o estil√≠stica. Tu conheces bem os nossos jovens elegantes, com a barba e o cabelo todo aparado, que parecem acabadinhos de sair da f√°brica! De tais criaturas nada ter√°s a esperar de firme ou s√≥lido. O estilo √© o adorno da alma: se for demasiado penteado, maquilhado, artificial, em suma, s√≥ provar√° que a alma carece de sinceridade e tem em si algo que soa a falso. N√£o √© coisa digna de homens o cuidado extremo com o vestu√°rio! Se nos fosse dado observar “por dentro” a alma de um homem de bem ‚ÄĒ oh! que figura bela e vener√°vel, que fulgor de magnificente tranquilidade n√≥s contemplar√≠amos, que brilho n√£o emitiriam a justi√ßa, a coragem, a modera√ß√£o e a prud√™ncia! E n√£o s√≥ estas virtudes, mas ainda a frugalidade, o autodom√≠nio, a paci√™ncia, a liberalidade, a gentileza e essa virtude, incrivelmente rara no homem, que √© a humanidade ‚ÄĒ tamb√©m estas fariam jorrar sobre a alma o seu sublime esplendor!

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As Subtilezas da Alma

Tal como o corpo assimila coisas de toda a natureza – vulgares, polu√≠das ou purificadas por um padre ou por uma vis√£o – e as converte em destreza ou for√ßa, m√ļsculo ou suavidade de linhas, curvas e cor do cabelo, dos l√°bios e dos olhos, assim tamb√©m a Alma, por sua vez, tem as suas fun√ß√Ķes assimiladoras e pode transformar em nobres pensamentos e elevadas paix√Ķes o que em si mesmo √© baixo, cruel e degradante; mais ainda, pode encontrar nestas a maneira mais digna de afirma√ß√£o. E muitas vezes pode revelar-se a si mesma de um modo mais perfeito atrav√©s daquilo que estava destinado a destru√≠-la ou a profan√°-la.

No Teu Colo

No teu colo cabem todos os meus medos.
E se Deus existir, √© a calma do teus ombros, o sossego divino que vai do teu pesco√ßo ao teu peito. E eu ali, t√£o pequeno que nem me√ßo os cent√≠metros que tenho, e ainda assim t√£o grande que nem o c√©u teria espa√ßo para me guardar assim. Somos criaturas para al√©m do mundo, pares √ļnicos de uma viagem que nem o final dos corpos conseguir√° parar.
Até o pior da vida se acalma quando estou nos teus olhos.
H√° pessoas m√°s, m√£e. Pessoas que n√£o imaginam o que √© resistir por dentro deste corpo, por tr√°s destes ossos, sob os escombros de uma idade por descobrir. H√° pessoas que n√£o sabem que sou uma crian√ßa com medo como todas as crian√ßas (uma pessoa com medo como todas as pessoas: os adultos tamb√©m t√™m medo, n√£o t√™m, m√£e?, toda a gente tem medo, n√£o tem, m√£e?), e ontem um adulto disse-me para crescer e aparecer, e uma crian√ßa menos crian√ßa do que eu agarrou-me pelos cabelos e atirou-me ao ch√£o, a escola toda a olhar e a rir, e o adulto a dizer ¬ęcresce e aparece¬Ľ e a crian√ßa a dizer ¬ętoma l√° que √© para aprenderes¬Ľ.

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Tenho Saudades da Carícia dos Teus Braços

Tenho saudades da car√≠cia dos teus bra√ßos, dos teus bra√ßos fortes, dos teus bra√ßos carinhosos que me apertam e que me embalam nas horas alegres, nas horas tristes. Tenho saudades dos teus beijos, dos nossos grandes beijos que me entontecem e me d√£o vontade de chorar. Tenho saudades das tuas m√£os (…) Tenho saudades da seda amarela t√£o leve, t√£o suave, como se o sol andasse sobre o teu cabelo, a polvilh√°-lo de oiro. Minha linda seda loira, como eu tenho vontade de te desfiar entre os meus dedos! Tu tens-me feito feliz, como eu nunca tivera esperan√ßas de o ser. Se um dia algu√©m se julgar com direitos a perguntar-te o que fizeste de mim e da minha vida, tu dize-lhe, meu amor, que fizeste de mim uma mulher e da minha vida um sonho bom; podes dizer seja a quem for, a meu pai como a meu irm√£o, que eu nunca tive ningu√©m que olhasse para mim como tu olhas, que desde crian√ßa me abandonaram moralmente que fui sempre a isolada que no meio de toda a gente √© mais isolada ainda. Podes dizer-lhe que eu tenho o direito de fazer da minha vida o que eu quiser,

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O Homem Primitivo Moderno

Reparai num homem civilizado, rico, inteligente e feliz; olhai-o bem; tirai-lhe o chapéu alto, o casaco, as botas de verniz; despi-o, enfim: vereis a miséria da carne tentando um feroz regresso às formas caricatas do orogotango inicial.
Ide mais longe; penetrai-lhe o esqueleto, atravessai-lhe as entranhas: vereis então a maior das pobrezas, a miséria absoluta, a ausência de alma.
Sim: conforme a alma vai desaparecendo, o corpo vai-se sumindo e, apagando nas indecisas, grosseiras formas originárias. Por cada sentimento que morre, o cóccix aumenta um elo.
As criaturas de que se comp√Ķe a parte dominante da sociedade, est√£o j√° mais pr√≥ximas do macaco do que do homem. As abas da casaca s√£o feitas para encobrir os primeiros movimentos comprometedores da cauda… a bota de verniz tenta apertar e reduzir o p√© que principia a prolongar-se assustadoramente. A luva realiza, nas m√£os, o mesmo papel hip√≥crita…
Continuai na vossa an√°lise do homem civilizado que parou agora, al√©m, em frente duma vitrine de ourives, atra√≠do, como os moscardos, pelo fulgor dos brilhantes, das esmeraldas, dos r√ļbis, dos top√°zios, de todas as pedras, enfim, que o homem n√£o pode atirar ao seu semelhante.
Olhai-o bem; a primeira coisa que nos fere é a hostilidade que se exala de toda a sua fisionomia.

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