Frases de Miguel Esteves Cardoso

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Frases de Miguel Esteves Cardoso. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

Um homem nunca diz tão mal das mulheres como uma mulher. Um homem tem medo das mulheres. Corre atrás delas quando elas não o querem para nada e foge delas caso alguma delas o queira. Mas aprendeu a respeitar as mulheres. Isto é, a não compreendê-las e a levar no coco. Repetidamente.

Deve-se ter o m√≠nimo de respeito pelo sofrimento e sofrer-se sozinho. Os portugueses n√£o s√£o capazes. Exibem as m√°s-disposi√ß√Ķes de uma maneira assustadora. Se andam de trombas, andam trombudos pela rua. N√£o disfar√ßam. Deviam disfar√ßar. Usar capote como o ¬ęElephant Man¬Ľ. Mesmo quando est√£o indispostos sem saber bem porqu√™, anunciam ¬ęN√£o sei o que tenho, mas n√£o tenho andado nada bem…¬Ľ.

Amar é amar, e pensar é pensar. Amar é mais raro. Pensar é menos difícil. Amar é ser alguém para alguém, sem que nos outros, e com os outros, ter de se deixar de poder pensar.

A amizade, entre um homem e uma mulher, √© (o leitor que escolha): um bico de obra; uma coisa muito linda; ainda mais complicado que o amor; absolutamente imposs√≠vel; amizade da parte da mulher e ast√ļcia da parte do homem; ast√ļcia da parte da mulher e amizade da parte do homem; s√≥ √© poss√≠vel se a mulher for forte e feia; imposs√≠vel se o homem for minimamente atraente; receita certa para a desgra√ßa; prel√ļdio certo para o romance; indescrit√≠vel; inenarr√°vel; sempre desej√°vel; o que Deus quiser; o diabo.

O presente regime, t√£o contente consigo mesmo e t√£o confiante do futuro, n√£o √© mais que uma vers√£o empobrecida, sem imp√©rio, da arrog√Ęncia absurda do Estado Novo. Ambos s√£o aritm√©ticos, solit√°rios, triunfalistas.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Quem nos quer, quer-nos ¬ęin toto¬Ľ, mas satisfaz-se com pouco. N√£o se pode dar mais. Um bocadinho tem que parecer bastante. E se dermos tudo, tem de parecer pouco. Ela nunca pode saber. Se n√£o perdemo-la. √Č preciso haver sempre uma parte que parece inacess√≠vel.

(O inimigo) faz-nos lembrar o quanto somos detest√°veis, pomposos, insignificantes ‚Äď enfim, iguais aos outros todos. O √≥dio √© destrutivo, mas h√° em n√≥s muito que ganha em ser destru√≠do.

As mulheres n√£o s√£o mais infi√©is do que os homens. Por muito que gostassem que assim fosse (e assim se pensasse), est√£o impedidas de ser mais infi√©is pela circunst√Ęncia de serem humanas.

√Č incr√≠vel que ainda haja quem finja que s√£o os programas e as ideias que decidem os votos. As pessoas votam em pessoas e em partidos e, se e quando coincidem os dois impulsos, maior e mais f√°cil √© a festa.

A f√© n√£o √© apenas um conforto, um apaziguamento, um consolo. √Č uma forma de aceita√ß√£o. √Č a desresponsabiliza√ß√£o mais bonita do mundo. √Č uma forma que a alma arranja de n√£o pedir explica√ß√Ķes √† vida.

Se Portugal teve valor na história do mundo, não foi no esforço da uniformização, igual a tantos outros. Não foi na imposição de uma língua, de uma religião, de uma raça. A glória do império português não foi o facto de ter sido português contra as nacionalidades que subjugou. Foi ter sido capaz de ser português sem deixar de ser outras coisas. No máximo, foi ter sido português por ter sido tudo menos português. Ou quase tudo.

Favorecemos sempre os próximos. Mas sempre mais os escolhidos do que os destinados. Ensinaram-me a minha mãe e o meu pai que tinha a liberdade de gostar de quem gostasse, fossem ou não de família.

O sossegamento √© a forma mais precisa de liberdade. Mas n√£o √© uma liberdade negativa (estar livre de medos, de constrangimentos, de opress√Ķes), mas uma liberdade positiva ‚Äď uma liberdade para sentir o que se sente e confiar no que se sente, e ter tempo, e vontade, e confian√ßa no que se faz.

A confusão define a nossa vida, o nosso dia a dia, a nossa noite a noite. Nunca se sabe onde se vai, em que carro é que se vai chegar a casa, quem vai pagar as bebidas, como é que vai ser para acordar amanhã de manhã. Por muito que se combine, que se planeie, que se organize, é sempre a grande confusão.

Querer estar bem com todos é, quanto a mim, mais odioso que ter ódio a toda a humanidade. O amigalhaço é aquele que acaba por ser inimigo de todos, na maneira como se comporta, para ser amigo só de si mesmo, no resultado desse comportamento. A amizade só faz sentido quando traduz claramente uma escolha.

Cada Português, por muito ignorante que seja nas matérias do mundo, faz e acontece como lhe apetece. Sente-se um pequeno deus, um criador de um mundo à sua medida.