Passagens sobre Condenados

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O Deserto num Mundo Abastado

Tender√≠amos ilusoriamente a crer que uma vida nascida num mundo abastado seria melhor, mais vida e de superior qualidade √† que consiste, precisamente, em lutar com a escassez. Mas n√£o √© verdade. Por raz√Ķes muito rigorosas e arquifundamentais que agora n√£o √© oportuno enunciar. Agora, em vez dessas raz√Ķes, basta recordar o facto sempre repetido que constitui a trag√©dia de toda a aristocracia heredit√°ria. O aristocrata herda, quer dizer, encontra atribu√≠das √† sua pessoa umas condi√ß√Ķes de vida que ele n√£o criou, portanto, que n√£o se produzem organicamente unidas √† sua vida pessoal e pr√≥pria. Acha-se ao nascer instalado, de repente e sem saber como, no meio da sua riqueza e das suas prerrogativas. Ele n√£o tem, intimamente, nada que ver com elas, porque n√£o v√™m dele. S√£o a carapa√ßa gigantesca de outra pessoa, de outro ser vivente, seu antepassado. E tem de viver como herdeiro, isto √©, tem de usar a carapa√ßa de outra vida. Em que ficamos? Que vida vai viver o ¬ęaristocrata¬Ľ de heran√ßa, a sua ou a do pr√≥cer inicial? Nem uma nem outra. Est√° condenado a representar o outro, portanto, a n√£o ser nem o outro nem ele mesmo.
A sua vida perde inexoravelmente autenticidade,

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A inveja é um vício mesquinho e sórdido: o vício do condenado que reclama porque o seu companheiro de prisão recebeu uma ração de sopa maior.

Ao Espelho

E de repente chegas aos
quarenta e tal anos

e palavras como colesterol
hipertens√£o astigmatismo

começam a invadir a tua
vida… Olhas para tr√°s e

o que vês? Uma pomba
com uma das asas ferida

condenada ao mais terrí-
vel pedestrianismo

Todo o Confronto é Fruto de um Mal-Entendido

Todo o confronto é fruto de um mal-entendido; se as partes em disputa se conhecessem uma à outra, o confronto cessaria. Nenhum homem, no fundo, tenciona cometer injustiças; é sempre por uma imagem distorcida e obscura de algo moralmente correcto que ele batalha: uma imagem obscura, difractada, exagerada da forma mais assombrosa pela natural obtusão e egoísmo, uma imagem que se distorce dez vezes mais pelo acirramento da contenda, até tornar-se virtualmente irreconhecível, mas ainda assim a imagem de algo moralmente correcto. Se um homem pudesse admitir perante si próprio que aquilo pelo que luta é errado e contrário à equidade e à lei da razão, admitiria também, por conta disso, que a sua causa ficou condenada e desprovida de esperança; ele não conseguiria continuar a lutar por ela.

As certezas s√£o sempre uma vantagem. H√° raz√Ķes contra tudo e a favor de tudo. Qualquer ponto de vista pode ser justificado ou condenado. Al√©m disso, h√° possibilidades infinitas entre o sim e o n√£o. Pouco importa as respostas que escolhas, quem ter√° suficiente autoridade para as julgar? Quem se achar√° com suficiente lucidez para te contradizer? Algu√©m cheio de certezas, n√£o te parece?

…Desistir dos sonhos √© abrir m√£o da felicidade porque quem n√£o persegue seus objetivos esta condenado a fracassar 100% das vezes…

A Freira Morta

(Desterro)

Muda, espectral, entrando as arcarias
Da cripta onde ela jaz eternamente
No austero claustro silencioso — a gente
Desce com as impress√Ķes das cinzas frias…

Pelas negras abóbadas sombrias
Donde pende uma l√Ęmpada fulgente,
Por entre a frouxa luz triste e dormente
Sobem do claustro as sacras sinfonias.

Uma paz de sepulcro ap√≥s se estende…
E no luar da l√Ęmpada que pende
Brilham clar√Ķes de amores condenados…

Como que vem do t√ļmulo da morta
Um gemido de dor que os ares corta,
Atravessando os m√°rmores sagrados!

Uma Significação para a Vida

Como √© que o homem vai viver sem uma significa√ß√£o para a vida? Donde essa significa√ß√£o? Os suced√Ęneos dos deuses atropelam-se tumultuosos, mas duram menos que os deuses, duram menos que um homem. Imaginei um dia que o homem viria a aceitar a sua condi√ß√£o em plenitude. S√≥ n√£o imagino esse homem. Porque imaginando-o como me √© poss√≠vel, penso que admitir√° uma transcend√™ncia inomin√°vel, uma dimens√£o que supere o imediato da vida. S√≥ que o pens√°-lo n√£o me afecta o sentir. Tenho o enigma mas n√£o a chave que o desvende. Sei a interroga√ß√£o, mas n√£o posso convert√™-la na pergunta a que se d√° uma resposta. Da integra√ß√£o do homem no mist√©rio do universo o que me fica √© a vertigem. Mas aguento-me a√≠ sem me retirar do abismo nem cair nele. O curioso √© que s√£o os ¬ęracionalistas¬Ľ quem menos se perturba com a sem-raz√£o de tudo isto. Porque eles √© que deviam saber, mais do que os outros, o porqu√™ e o para qu√™. N√£o querem. O mundo existe-lhes assim mesmo, sem significa√ß√£o. Para mim me existe tamb√©m. Mas isso aturde-me. A velhice que se anuncia, anuncia-me a aceita√ß√£o e a serenidade. Mas n√£o me anuncia a liquida√ß√£o do problema.

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A Fonte do Interesse

E de vez em quando √© assim: vivo numa suspens√£o de tudo, de interesses, de leituras, de escrita. Possivelmente √© um erro supor-se que um interesse, seja qual for, reside nisso mesmo em que se est√° interessado. N√£o est√°. Um interesse remete sempre para outro e outro, at√© ao interesse final que tem que ver com a pr√≥pria vida, o motivo global que nos impulsiona. H√° pelo menos que haver uma raz√£o final e gen√©rica para que as raz√Ķes circunstanciais ou ocasionais tenham um efeito propulsor. H√° que termos essa raz√£o, mesmo inconsciente, para que todas as outras actuem em n√≥s. E o que n√£o acontece quando por exemplo dizemos que estamos sem interesse. N√£o nos apetece ler, n√£o nos apetece escrever, n√£o nos apetece ir ao cinema, ouvir m√ļsica etc, quando falta uma raz√£o global em que isso se inscreva. E ent√£o dizemos sumariamente isso mesmo: que n√£o nos apetece. Se temos um grande desgosto, se estamos condenados por uma doen√ßa etc. justifica-se o desinteresse por essa raz√£o. Significa isso que essa raz√£o √© o fundamento global que nos falhou para qualquer outro interesse subsistir. Os que superam esse estado s√£o excepcionais, ou loucos ou de for√ßa de vontade ou obsessivos,

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A raz√£o √© um monarca condenado a lutar continuamente contra as paix√Ķes sublevadas.

Sobre os amantes e os soldados, sobre os homens condenados √† morte, sobre todos aqueles que o poder c√≥smico da vida preenche, o poder do destino desce por vezes imprevisto numa s√ļbita ilumina√ß√£o que ser√° a sua gra√ßa e o seu fardo.

Presos ao Passado

Num romance que estou escrevendo h√° uma personagem a quem perguntam: ¬ęE onde ir√°s ser sepultado?¬Ľ E ela responde: ¬ęA minha sepultura maior n√£o mora no futuro. A minha cova √© o meu passado.¬Ľ
De facto, cada um de n√≥s corre o risco de ficar sepultado no seu pr√≥prio passado. Todos temos de resistir para n√£o ficarmos aprisionados numa mem√≥ria simplificada que √© o retrato que outros fizeram de n√≥s. Todos trazemos escrito um livro e esse texto quer-se impor como nossa nascente e como nosso destino. Se existe uma guerra em cada um de n√≥s √© a de nos opormos a esse fado de estarmos condenados a uma √ļnica e previs√≠vel narrativa.

Ode à Esperança

1

Vem, vem, doce Esperan√ßa, √ļnico al√≠vio
Desta alma lastimada;
Mostra, na c’roa, a flor da Amendoeira,
Que ao Lavrador previsto,
Da Primavera próxima dá novas.

2

Vem, vem, doce Esperança, tu que animas
Na escravid√£o pesada
O aflito prisioneiro: por ti canta,
Condenado ao trabalho,
Ao som da braga, que nos pés lhe soa,

3

Por ti veleja o pano da tormenta
O marcante afouto:
No mar largo, ao saudoso passageiro,
(Da sposa e dos filhinhos)
Tu lhe pintas a terra pelas nuvens.

4

Tu consolas no leito o lasso enfermo,
C’os ares da melhora,
Tu d√°s vivos clar√Ķes ao moribundo,
Nos j√° vidrados olhos,
Dos horizontes da Celeste P√°tria.

5

Eu já fui de teus dons também mimoso;
A vida largos anos
Rebatida entre acerbos infort√ļnios
A sustentei robusta
Com os pomos de teus vergéis viçosos.

6

Mas agora, que M√°rcia vive ausente;
Que n√£o me alenta esquiva
C’o brando mimo dum de seus agrados,

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V√≥s, √ď Fran√ßas, Semedos, Quintanilhas

Vós, ó Franças, Semedos, Quintanilhas,
Macedos e outras pestes condenadas;
Vós, de cujas buzinas penduradas
Tremem de Jove as melindrosas filhas;

Vós, néscios, que mamais das vis quadrilhas
Do baixo vulgo insossas gargalhadas,
Por versos maus, por trovas aleijadas,
De que engenhais as vossas maravilhas,

Deixai Elmano, que, inocente e honrado
Nunca de vós se lembra, meditando
Em coisas sérias, de mais alto estado.

E se quereis, os olhos alongando,
Ei-lo! Vede-o no Pindo recostado,
De perna erguida sobre vós mijando.

Chega sempre um momento na história em que quem se atreve a dizer que dois e dois são quatro é condenado à morte.

O Existencialista

Dostoievski escreveu: ¬ęSe Deus n√£o existisse, tudo seria permitido¬Ľ. A√≠ se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo √© permitido se Deus n√£o existe , fica o homem, por conseguinte , abandonado, j√° que n√£o encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, n√£o h√° desculpas para ele. Se, com efeito, a exist√™ncia precede a ess√™ncia, n√£o ser√° nunca poss√≠vel referir uma explica√ß√£o a uma natureza humana dada e imut√°vel; por outras palavras, n√£o h√° determinismo, o homem √© livre, o homem √© liberdade. Se, por outro lado, Deus n√£o existe, n√£o encontramos diante de n√≥s valores ou imposi√ß√Ķes que nos legitimem o comportamento. Assim, n√£o temos nem atr√°s de n√≥s, nem diante de n√≥s, no dom√≠nio luminoso dos valores, justifica√ß√Ķes ou desculpas. Estamos s√≥s e sem desculpas. √Č o que traduzirei dizendo que o homem est√° condenado a ser livre. Condenado, porque n√£o se criou a si pr√≥prio; e no entanto livre, porque uma vez lan√ßado ao mundo, √© respons√°vel por tudo quanto fizer. O existencialista n√£o cr√™ na for√ßa da paix√£o. N√£o pensar√° nunca que uma bela paix√£o √© uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos actos e que por conseguinte,

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O Desejo de Discutir

Se as discuss√Ķes pol√≠ticas se tornam facilmente in√ļteis, √© porque quando se fala de um pa√≠s se pensa tanto no seu governo como na sua popula√ß√£o, tanto no Estado como na no√ß√£o de Estado enquanto tal. Pois o Estado como no√ß√£o √© uma coisa diferente da popula√ß√£o que o comp√Ķe, igualmente diferente do governo que o dirige. √Č qualquer coisa a meio caminho entre o f√≠sico e o metaf√≠sico, entre a realidade e a ideia.
√ą a esse g√©nero de estirilidade que est√£o geralmente condenadas, tal como acontece com as discuss√Ķes pol√≠ticas, as que incidem sobre a religi√£o, pois a religi√£o pode ser sin√≥nima de dogmas, ou de ritual, ou referir-se a posi√ß√Ķes pessoais do indiv√≠duo sobre quest√Ķes ditas eternas, o infinito e a eternidade, problemas do livre arb√≠trio e da responsabilidade ou, como se diz tamb√©m: Deus.
E o mesmo acontece com as discuss√Ķes que t√™m a ver com a maior parte dos assuntos abstractos, sobretudo a √©tica e os temas filos√≥ficos, mas tamb√©m com campos de an√°lise mais restritos, incidindo sobre os problemas mais imediatos, como por exemplo o socialismo, o capitalismo, a aristocracia, a democracia, etc…, em que as no√ß√Ķes s√£o tomadas tanto no sentido amplo como no restrito,

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