Passagens sobre Ingratos

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Soneto II – A Uma Inconstante

De uma ingrata em troféu despedaçado
Meu coração devora amor cruento,
Trocando em fero e b√°rbaro tormento
Quantos prazeres concedeu-me o fado.

No seio d’alma, j√° dilacerado,
Negras f√ļrias do b√°ratro apascento!
Filtra-me o delirante pensamento
De zelos negro fel envenenado.

Desprezo, ingratidão, fria esquivança
Da cruel por quem morro, em tal procela
Apagaram-me a estrela da esperança.

E eu (ao confess√°-lo a dor me gela)
Humilhado a seus pés, minha vingança
√Č carpir, delirar, morrer por ela.

Soneto XXVI

Fortuna ingrata, porque me persegues?
Apareces-me branda e logo foges,
D√°s-me um bem, porque dele me despojes,
Mostras-te liberal, só porque negues.

Para que só me deixes, só me segues,
Fazes-me mimos, só porque me enojes,
Se me levantas, é porque me arrojes,
Se me asseguras, é porque me entregues.

Vinga-te bem, Fortuna, que vingado
Estou assaz de ti, com te vingares,
Que todos dizem ser mal empregado.

Um bem me fazes sem o imaginares:
C’o Mundo, eu contra mim tenho apostado,
E assim ganho sempre c’os azares.

Destino

Aquela voz era intranq√ľila. Trago-a
No ouvido ainda ininterruptamente:
Voz de alma que sofreu, voz de vivente,
Desoladora e trêmula de mágoa.

Era o rio da Vida; a √°gua paciente
Que, arrastando calhaus, de fr√°gua em fr√°gua
Ora beijava a sombra na corrente,
Ora abraçava o Sol com os braços de água.

Deus te leve, √°gua pura e fresca!… A treva
Não te interrompa a marcha transitória,
Porque o Destino ingrato que te leva

Para o vale florido ou o amplo deserto,
√Č o mesmo que me arrasta o passo incerto
Para o despenhadeiro ou para a Glória.

XXIII

Tu sonora corrente, fonte pura,
Testemunha fiel da minha pena,
Sabe, que a sempre dura, e ingrata
Almena Contra o meu rendimento se conjura:

Aqui me manda estar nesta espessura,
Ouvindo a triste voz da filomena,
E bem que este martírio hoje me ordena,
Jamais espero ter melhor ventura.

Veio a dar me somente uma esperança
Nova idéia do ódio; pois sabia,
Que o rigor n√£o me assusta, nem me cansa:

Vendo a tanto crescer minha porfia,
Quis mudar de tormento; e por vingança
Foi buscar no favor a tirania.

Psalmo

Esperemos em Deus! Ele h√° tomado
Em suas m√£os a massa inerte e fria
Da mat√©ria impotente e, n’um s√≥ dia,
Luz, movimento, acção, tudo lhe há dado.

Ele, ao mais pobre de alma, h√° tributado
Desvelo e amor: ele conduz à via
Segura quem lhe foge e se extravia,
Quem pela noite andava desgarrado.

E a mim, que aspiro a ele, a mim, que o amo,
Que anseio por mais vida e maior brilho.
Ha-de negar-me o termo d’este anseio?

Buscou quem o n√£o quiz; e a mim, que o chamo,
Ha-de fugir-me, como a ingrato filho?
√ď Deus, meu pai e abrigo! espero!… eu creio!

As Virtudes da Cidade

Amo o ru√≠do e a constante agita√ß√£o das grandes cidades. O movimento cont√≠nuo obriga √† observa√ß√£o dos costumes. O ladr√£o, por exemplo, ao ver toda a actividade humana, pensa involuntariamente que √© um patife, e esta imagem alegre em movimento pode vir a melhorar a sua natureza decadente e arruinada. O bo√©mio sente-se talvez mais modesto e pensativo quando v√™ todas as for√ßas produtivas, e o devasso diz possivelmente a si mesmo, quando lhe salta aos olhos a docilidade das massas, que n√£o √© mais do que um sujeito miser√°vel, est√ļpido e vaidoso, que s√≥ sabe ufanar-se com soberba. As grandes cidades ensinam, educam, e n√£o com doutrinas roubadas aos livros. N√£o h√° aqui nada de acad√©mico, o que √© lisonjeiro, pois o saber acumulado rouba-nos a coragem.
E depois h√° aqui tanto que incentiva, que sustenta e ajuda. Quase n√£o conseguimos diz√™-lo. √Č t√£o dif√≠cil dar uma express√£o viva ao que √© refinado e bom. Agradecemos as nossas vidas modestas, sentimo-nos sempre um pouco gratos quando somos empurrados, quando temos pressa. Quem tem tempo para esbanjar n√£o sabe o que o tempo significa, √© por natureza um ingrato. Nas grandes cidades qualquer mo√ßo de recados conhece o valor do tempo e nenhum ardina quer perder o seu tempo.

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Quase toda a gente sente prazer em retribuir pequenos favores; muitos sentem-se reconhecidos a medíocres; mas não existe quase ninguém que não seja ingrato em relação aos grandes.

Amor Sem Fruto, Amor Sem Esperança

Amor sem fruto, amor sem esperança
√Č mais nobre, mais puro,
Que o que, domando a ríspida esquivança,
Jaz dos agrados nas pris√Ķes seguro.
Meu leal coração, constante e forte,
Vendo a teu lado acesos,
Flérida ingrata, os ódios, os desprezos,
O rigor, a tristeza, a raiva, a morte,
Forjando contra mim, por ordem tua,
Mil setas venenosas,
Em prémio destas lágrimas saudosas,
Inda assim continua
A abrasar-se em teus olhos… Vis amantes,
Cora√ß√Ķes inconstantes,
De s√≥rdidas paix√Ķes envenenados,
Vós, a cujos ardores,
A cujos desbocados
Infames apetites
A Virtude, a Raz√£o n√£o p√Ķe limites,
Suspirai por ilícitos favores,
Cevai-vos em torpíssimos desejos,
Tratai, tratai de louco um amor casto,
Que eu nos grilh√Ķes que arrasto;
T√£o limpos como o Sol, darei mil beijos.
Peçonhenta aliança,
Vergonhoso prazer, de vós não curo;
De ti, sim, porque és puro,
Amor sem fruto, amor sem esperança.

Abandonar a Zona de Conforto

Ningu√©m adquire confian√ßa na rotina. √Č imposs√≠vel. √Č mais do mesmo, todos os dias para o resto das suas vidas. √Č uma esp√©cie de piloto autom√°tico programado para embater, a qualquer momento, na montanha mais alta e √© uma agoniante e pasmacenta viagem √† ingratid√£o e ao pior dos h√°bitos da ra√ßa humana: a pregui√ßa. Viv√™-la √© morrer todos os dias. A rotina, essa resigna√ß√£o perante a putrefa√ß√£o, √©, portanto, para os desistentes, para os ingratos e fracos de esp√≠rito. Na verdade, por que motivo querer√£o eles confiar em si mesmos se j√° pereceram? N√£o faz sentido, certo? Deixai-os estar, ap√°ticos como eles gostam, pois ainda que deambulem de um lado para o outro, a verdade √© que n√£o passam de voltas e viravoltas dentro das suas pr√≥prias urnas.

Toquei-te? De alguma forma te pareci violento nestas √ļltimas linhas?
Se sim, fant√°stico; mas n√£o, esta forma de me expressar nada tem a ver com agressividade ou viol√™ncia. √Č apenas dizer, letrinha a letrinha, o que penso e sinto a este respeito e a isso chama-se ser assertivo.

Por esta Solid√£o, que n√£o Consente

Por esta solid√£o, que n√£o consente
Nem do sol, nem da lua a claridade,
Ralado o peito pela saudade
Dou mil gemidos a Marília ausente:

De seus crimes a mancha inda recente
Lava Amor, e triunfa da verdade;
A beleza, apesar da falsidade,
Me ocupa o coração, me ocupa a mente:

Lembram-me aqueles olhos tentadores,
Aquelas m√£os, aquele riso, aquela
Boca suave, que respira amores…

Ah! Trazei-me, ilus√Ķes, a ingrata, a bela!
Pintai-me vós, oh sonhos, entre as flores
Suspirando outra vez nos braços dela!

Epit√°fio

Caminhante que vais t√£o de corrida.
Pois em nada reparas na jornada.
Repara por tua vida no meu nada.
Que foi toda uma morte a minha vida.

Tamb√©m do mundo andei muito partida,¬ī
Posto que em diligência mal parada,
E por n√£o ser verdade incorporada
Uma mentira sou desvanecida.

Eu tive ocupação sem exercício,
Eu fui mui conhecido sem ter nome,
Eu, ingrato, morri sem benefício.

Exemplo toma de mim, ó pobre homem,
Que se tratares mal, vives de vício,
E se viveres bem, morres de fome