Passagens sobre Feios

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Frases sobre feios, poemas sobre feios e outras passagens sobre feios para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Sapo

N√£o h√° jardineiro assim,
N√£o h√° hortel√£o melhor
Para uma horta ou jardim,
Para os tratar com amor.

√Č o guarda das flores belas,
da horta mais do pomar;
e enquanto brilham estrelas,
l√° anda ele a rondar…

Que faz ele? Anda a caçar
os bichos destruidores
que adoecem o pomar
e fazem tristes as flores.

Por isso, ficam zangadas
as flores, se se faz mal
a quem as traz t√£o guardadas
com o seu cuidado leal.

E ele guarda as flores belas,
a horta mais o pomar;
brilham no céu as estrelas,
e ele ronda, a trabalhar…

E ao pobre sapo, que é cheio
de amor pela terra amiga,
dizem-lhe que é feio
e h√° quem o mate e persiga

Mas as flores ficam zangadas,
choram, e dizem por fim:
– ¬ęEnt√£o ele traz-nos guardadas,
e depois pagam-lhe assim?¬Ľ

E vendo, à noite, passar
o sapo cheio de medo,
as flores, para o consolar,
chamam-lhe lindo, em segredo…

O Amor √© um Acidente, uma Ren√ļncia, um H√°bito, uma Maldi√ß√£o

O amor é um acidente.
Eu estava sentada no regaço de uma mulher de cobre, uma escultura de Henry Moore, e Bill debruçou-se sobre mim e beijou-me nos lábios. E de repente eu amava-o. Amava-o e só isso importava. Reparei nas mãos dele, mãos de pianista. Mãos preparadas para o amor. Ainda hoje gosto de lhe ver as mãos enquanto folheia um livro, enquanto lê um jornal. As mãos dele envelheceram, envelheceram a apertar outras mãos, milhares de outras mãos, a jogar golfe, a assinar autógrafos e documentos importantes. Envelheceram, sim, mas continuam belas. Continuam a excitar-me.
O amor √© uma ren√ļncia. Amar algu√©m √© desistir de amar outros, √© desistir por esse amor do amor de outros. Eu desisti de tudo. A partir desse dia dei-lhe todos os meus dias. Entreguei-lhe os meus sonhos, os meus segredos, as minhas convic√ß√Ķes mais profundas. N√£o me queixo!
N√£o sou ing√©nua nem est√ļpida. Quando digo que o amor √© uma ren√ļncia, quero dizer que foi assim para mim. Para Bill foi sempre uma outra coisa. Eu sabia que ele reparava noutras mulheres, e que outras mulheres reparavam nele. Um homem feio, com poder, √© quase bonito. Um homem bonito,

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Apesar de tudo, a loucura não é assim uma coisa tão feia como muita gente julga. Há tantas loucas felizes!

O homem que prega moral é usualmente um hipócrita, a mulher moralizadora é invariavelmente feia.

Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar. (Paisagens em movimento, in: Pequenas Epifanias)

Poema de Amor

A noite é cheia de vales e baías.
E do meu peito aberto um rio largo de sangue…
√Āguas densas, de correntes lentas,
serpentes mortas a arrastarem-se.
√Āguas?
√Āguas negras, pastosas, alcatr√£o rolante.
Mas √°guas puras, verde-claras, atraindo
a margem donde os crocodilos fogem mastigando.
√Āguas em transpar√™ncias lucilantes, para cima,
e as estrelas do mar, um polvo e um mefistófeles
ficam no ar sobre ilhéus e lodosos calhaus
que se descobrem.
Plantas brancas e ext√°ticas…
L√°grimas… nuvens… e a cabe√ßa, o perfil,
os olhos, todo o corpo da mulher amada, a prostituta
antes de virgem, que é bela e feia, velha e nova,
e n√£o conhece os filhos!

O fogo envolve essa mulher amada
e é um guindaste erguendo-a e atirando-a,
enquanto dispersas pelo chão brilham mandíbulas
naturalmente √† espera…

O tempo parou feio fotografia, amarelou tudo o que n√£o se movia. O tempo passou, claro que passaria, como passam as vontades que voltam outro dia.

A Senhora de Brabante

Tem um leque de plumas gloriosas,
na sua m√£o macia e cintilante,
de anéis de pedras finas preciosas
a Senhora Duquesa de Brabante.

Numa cadeira de espaldar dourado,
Escuta os galanteios dos bar√Ķes.
‚ÄĒ √Č noite: e, sob o azul morno e calado,
concebem os jasmins e os cora√ß√Ķes.

Recorda o senhor Bispo ac√ß√Ķes passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam bar√Ķes de festas e ca√ßadas
√† moda goda: ‚ÄĒ aos toques dos clarins!

Mas a Duquesa √© triste. ‚ÄĒ Oculta m√°goa
vela seu rosto de um solene véu.
‚ÄĒ Ao luar, sobre os tanques chora a √°gua…
‚ÄĒ Cantando, os rouxin√≥is lembram o c√©u…

Dizem as lendas que Sat√£ vestido
de uma armadura feita de um brilhante,
ousou falar do seu amor florido
à Senhora Duquesa de Brabante.

Dizem que o ouviram ao luar nas √°guas,
mais louro do que o sol, marmóreo, e lindo,
tirar de uma viola estranhas m√°goas,
pelas noites que os cravos v√™m abrindo…

Dizem mais que na seda das varetas
do seu leque ducal de mil matizes…

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Todas as casas onde h√° livros e quadros e discos s√£o bonitas. E s√£o feias todas as casas, por mais luxuosas, onde faltem essas coisas.

A Conivência com o Mundo

Nasci dura, her√≥ica, solit√°ria e em p√©. E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza. A fei√ļra √© o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual. E desafio a morte. Eu ‚Äď eu sou a minha pr√≥pria morte. E ningu√©m vai mais longe. O que h√° de b√°rbaro em mim procura o b√°rbaro e cruel fora de mim. Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam √†s chamas da fogueira. Sou uma √°rvore que arde com duro prazer. S√≥ uma do√ßura me possui: a coniv√™ncia com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. √Č o m√≠nimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrif√≠cio da noite.

Porque √© bela a arte? Porque √© in√ļtil. Porque √© feia a vida? Porque √© toda fins e prop√≥sitos e inten√ß√Ķes.

Viver no Escuro ou na Sombra

O objecto que amamos parece-nos mais belo do que √©, por isso vemos com frequ√™ncia mulheres feias e mal-feitas serem adoradas e desfrutarem de grandes honras (Lucr√©cio), e mais feio aquele pelo qual temos avers√£o. Para um homem contrariado e aflito a claridade do dia parece escurecida e tenebrosa. Os nossos sentidos s√£o n√£o apenas alterados mas ami√ļde totalmente embrutecidos pelas paix√Ķes da alma. Quantas coisas vemos, que n√£o perceberemos se tivermos o nosso esp√≠rito ocupado alhures? Mesmo com coisas bem vis√≠veis, reconhecer√°s que, se n√£o lhes aplicares o esp√≠rito, √© como se desde sempre elas estivessem ausentes ou muito distantes (Lucr√©cio). Parece que a alma traz para o interior e transvia os poderes dos sentidos. Dessa maneira, tanto o interior como o exterior do homem s√£o cheios de fraqueza e de mentira.
Os que compararam a nossa vida com um sonho tiveram razão, talvez, mais do que pensavam. Quando sonhamos, a nossa alma vive, age, exerce todas as suas faculdades, nem mais nem menos do que quando está em vigília; porém de modo mais frouxo e obscuro, decerto não tanto que a diferença seja como da noite para uma viva claridade, mas sim como da noite para a sombra: lá ela dorme,

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Poema da Memória

Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia.

De joelhos no banco, o busto inteiriçado,
só tinha olhos para o rio distante,
os olhos do animal embalsamado
mas vivo
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.
Diria o rio que havia no seu tempo
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
onde dois grandes olhos,
grandes e √°vidos, fixos e pasmados,
o fitavam sem tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos grandes,
olhos de bicho atento
que espera apenas por amor de esperar.

E por que n√£o galgar sobre os telhados,
os telhados vermelhos
das casas baixas com varandas verdes
e nas varandas verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da história que voava
com asas grandes, grandes, flutuantes,
e poisava onde bem lhe apetecia,
e espreitava pelos vidros das janelas
das casas baixas com varandas verdes!
Ai que bom seria!

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