Cita√ß√Ķes sobre Insulto

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Onde est√£o vinte pessoas reunidas em preg√£o ao insulto do infort√ļnio, a√≠ sem d√ļvida est√£o acobertados vinte crimes. Do elo da libertinagem ao elo da ladroeira preencham a cadeia com os fuzis que faltam.

O Domínio da Ira

Querer extinguir inteiramente a cólera é pretensão louca dos estóicos. A cólera deve ser limitada e confinada, tanto na extensão como no tempo. Diremos em primeiro lugar como a inclinação natural e o hábito adquirido para se encolerizar podem ser temperados e acalmados. Diremos, em segundo lugar, como os movimentos particulares da cólera podem ser reprimidos, ou pelo menos refreados, para que não façam mal. Diremos, em terceiro lugar, como suscitar ou apaziguar a cólera nas outras pessoas.
Quanto ao primeiro ponto. N√£o h√° outro caminho sen√£o o de meditar e ruminar muito bem os efeitos da c√≥lera, de ver quanto ela perturba a vida humana. E a melhor ocasi√£o de fazer isso, ser√° depois de o acesso ter passado, reflectindo sobre as desvantagens da c√≥lera. S√©neca disse muito bem que ¬ęa c√≥lera √© como uma ru√≠na que se quebra contra o que derruba¬Ľ. (…) Deve o homem cuidar de temperar a c√≥lera mais pelo desd√©m do que pelo temor, para que assim possa estar acima da inj√ļria e n√£o abaixo dela: o que ser√° coisa f√°cil, para quem quiser obedecer a esta lei.
Quanto ao segundo ponto. Há três causas e motivos principais da cólera. Primeiro, ser demasiado sensível ao toque,

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A honra pertence aos que não renunciam à verdade nem quando as coisas parecem negras e terríveis, aos que tentam repetidamente, que nunca se deixam desencorajar pelos insultos, pela humilhação e até pela derrota.

Queria que os Portugueses

Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que s√£o formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das d√ļvidas da raz√£o
que a si própria se devia
olhar pura opini√£o

que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
n√£o me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.

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Eu creio que um dos princípios essenciais da sabedoria é o de se abster das ameaças verbais ou insultos.

Uma Discuss√£o nesta Santa Terra Portuguesa Acaba sempre aos Berros

N√£o h√° maneira. Por mais boa vontade que tenham todos, uma discuss√£o nesta santa terra portuguesa acaba sempre aos berros e aos insultos. Ningu√©m √© capaz de expor as suas raz√Ķes sem a convic√ß√£o de que diz a √ļltima palavra. E a desgra√ßa √© que a esta presun√ß√£o do esp√≠rito se junta ainda a nossa velha tend√™ncia apost√≥lica, que onde sente um n√°ufrago tem de o salvar. O resultado √© tornar-se imposs√≠vel qualquer colabora√ß√£o nas ideias, o alargamento da cultura e de gosto, e dar-se uma tr√°gica concentra√ß√£o de tudo na mesquinhez do individual.

Julgar sem Ira

Não há paixão que tanto abale a integridade dos julgamentos quanto a cólera. Ninguém hesitaria em punir de morte o juiz que, por cólera, houvesse condenado o seu criminoso; por que será mais permitido aos pais e aos professores açoitar as crianças e castigá-las estando encolerizados? Isso já não é correcção: é vingança. O castigo faz papel de remédio para as crianças; e toleraríamos um médico que estivesse animado e encolerizado contra o seu paciente?
N√≥s mesmos, para agir bem, n√£o dever√≠amos p√īr a m√£o nos nossos servi√ßais enquanto nos perdurar a c√≥lera. Enquanto o pulso nos bater e sentirmos emo√ß√£o, adiemos o acerto; as coisas na verdade v√£o parecer-nos diferentes quando estivermos calmos e arrefecidos: agora √© a paix√£o que comanda, √© a paix√£o que fala, n√£o somos n√≥s. Atrav√©s dela as faltas parecem-nos maiores, como os corpos no meio do nevoeiro. Quem tiver fome fa√ßa uso de alimento; mas quem quiser fazer uso do castigo n√£o deve sentir fome nem sede dele. E, al√©m disso, as puni√ß√Ķes que se fazem com pondera√ß√£o e discernimento s√£o muito mais bem aceites e com melhor proveito por quem as recebe. De outra forma, ele n√£o considera que foi condenado justamente,

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A Portugalite

Entre as afec√ß√Ķes de boca dos portugueses que nem a pasta medicinal Couto pode curar, nenhuma h√° t√£o generalizada e galopante como a Portugalite. A Portugalite √© uma inflama√ß√£o nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. √Č altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e at√© hoje n√£o se descobriu cura.

A Portugalite √© contra√≠da por cada portugu√™s logo que entra em contacto com Portugal. √Č uma doen√ßa n√£o tanto ven√©rea como venal. Para compreend√™-la √© necess√°rio estudar a rela√ß√£o de cada portugu√™s com Portugal. Esta rela√ß√£o √© semelhante a uma outra que j√° √© cl√°ssica na literatura. Suponhamos ent√£o que Portugal √© fundamentalmente uma meretriz, mas que cada portugu√™s est√° apaixonado por ela. Est√° sempre a dizer mal dela, o que √© compreens√≠vel porque ela trata-o extremamente mal. Chega at√© a julgar que a odeia, porque n√£o acha uma √ļnica raz√£o para am√°-la. Contudo, existem cinco sinais ‚ÄĒ t√≠picos de qualquer grande e arrastada paix√£o ‚ÄĒ que demonstram que os portugueses, contra a vontade e contra a l√≥gica, continuam apaixonados por ela, por muito afectadas que sejam as ¬ębocas¬Ľ que mandam.

Em primeiro lugar, estão sempre a falar dela. Como cada português é um amante atraiçoado e desgraçado pela mesma mulher,

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Porque N√£o Te Calas?

O sil√™ncio – porque n√£o te calas? Decerto, como depois da morte, cair-te-√° em cima uma horda de malfeitores que se defendem na cal√ļnia e no insulto para seres tu a defender-te da ofensa deles. Ser o primeiro a caluniar √© ficar logo por cima. A n√£o ser, como nas aldeias, que respondas com outro insulto. E a raz√£o ficar√° ent√£o com quem tiver melhor pulmadura.

Um País de Canalhas

Pensar Portugal. N√≥s somos um pa√≠s de ¬ęelites¬Ľ, de indiv√≠duos isolados que de repente se p√Ķem a ser gente. N√≥s somos um pa√≠s de ¬ęher√≥is¬Ľ √† Carlyle, de excep√ß√Ķes, de singularidades, que t√™m tomado √†s costas o fardo da nossa hist√≥ria. N√≥s n√£o temos sequer n√ļcleos de grandes homens. Temos s√≥, de longe em longe, um original que se levanta sobre a canalhada e toma √† sua conta os destinos do pa√≠s. A canalhada cobre-os de insultos e de esc√°rnio, como √© da sua condi√ß√£o de canalha. Mas depois de mortos, p√Ķe-os ao peito por jact√Ęncia ou simplesmente ignora que tenham existido. N√≥s n√£o somos um pa√≠s de voca√ß√Ķes comuns, de consci√™ncia comum. A que fomos tendo foi-nos dada por empr√©stimo dos grandes homens para a ocasi√£o. Os nossos populistas √© que dizem que n√£o. Mas foi. A independ√™ncia foi Afonso Henriques, mas sem patriotismo que ainda n√£o existia. Aljubarrota foi Nuno √Ālvares. Os descobrimentos foi o Infante, mas porque o neg√≥cio era bom. O Iluminismo foi Verney e alguns outros, para ser deles todos s√≥ Pombal. O liberalismo foi Mouzinho e a Fran√ßa. A reac√ß√£o foi Salazar. O comunismo √© o Cunhal. Quanto √† sarrabulhada √© que √© uma data deles.

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Os Amantes

Amor, é falso o que dizes;
Teu bom rosto é contrafeito;
Busca novos infelizes
Que eu inda trago no peito
Mui frescas as cicatrizes;

O teu meu é mel azedo,
N√£o creio em teu gasalhado,
Mostras-me em v√£o rosto ledo;
J√° estou muito escaldado,
J√° d’√°guas frias hei medo.

Teus prémios são pranto e dor;
Choro os mal gastados anos
Em que servi tal senhor,
Mas tirei dos teus enganos
O sair bom pregador.

Fartei-te assaz a vontade;
Em v√£os suspiros e queixas
Me levaste a mocidade,
E nem ao menos me deixas
Os restos da curta idade?

√Čs como os c√£es esfaimados
Que, comendo os troncos quentes
Por destro negro esfolados,
Levam nos √°vidos dentes
Os ossos ensanguentados.

Bem vejo a aljava dourada
Os ombros nus adornar-te;
Amigo, muda de estrada,
P√Ķe a mira em outra parte
Que daqui n√£o tiras nada.

Busca algum fofo morgado
Que, solto j√° dos tutores,
Ao domingo penteado,
Vá dizendo à toa amores
Pelas pias encostado;

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Se alguém vier com grosserias e insultos, seja paciente e acalme-o. Até o rio mais impetuoso é engolido pela calmaria do mar.

Estrangeiro

Sou estrangeiro em todos os lugares.
In√ļtil procurar-te, aldeia minha.
Subo de escada todos os andares,
com a fria espada a acutilar-me a espinha.

N√£o sou daqui nem sou de l√°. Perdi-me
na indecis√£o de becos e de esquinas.
Como o pardal diante do gato, vi-me
apanhado por garras assassinas.

Os mapas pendurados nas paredes
riem de mim como insensíveis redes,
rasgando os peixes que n√£o fogem mais.

Prenderam-me entre muros que abomino
e toda a noite entoam-me seu hino
de insultos, gritos e ódios triunfais.

Obsess√£o

Os bosques para mim s√£o como catedrais,
Com org√£os a ulular, incutindo pavor…
E os nossos cora√ß√Ķes, – jazidas sepulcrais,
De profundis tamb√©m solu√ßam, n’um clamor.

Odeio do oceano as iras e os tumultos,
Que retratam minh’alma! O riso singular
E o amargo do infeliz, misto de pranto e insultos,
√Č um riso semelhante ao do soturno mar.

Ai! como eu te amaria, ó Noite, caso tu
Pudesses alijar a luz que te constéia,
Porque eu procuro o Nada, o Tenebroso, o Nu!

Que a própria escuridão é tambem uma téia,
Onde vejo fulgir, na luz dos meus olhares.
Os entes que perdi, – espectros familiares!

Tradução de Delfim Guimarães

A Vida é Líquida

√Č crua a vida. Al√ßa de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
√Č crua e dura a vida. Como um naco de v√≠bora.
Como-a no livro da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha p√ļmblea, me casaco rosso
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é liquída.

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu h√°lito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
√Č um rei que nos visita e nos cobre de mirra.

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Fuga do √ďdio

Queres amar a vida e n√£o te deixam. Tens de respirar o √≥dio, o insulto, o bafo azedo do vexame e isso faz-te mal. Emana√ß√Ķes de um p√Ęntano de febres, de esgotos a c√©u aberto com o seu fedor de v√≥mito. Um dos tormentos do inferno medievo era esse, o fedor – a ess√™ncia da podrid√£o. E o que te fazem respirar de uma flor, do aroma de existires? Porque √© que o √≥dio √© assim fundamental para os teus parceiros em humanidade existirem? T√™m uma estrutura diferente de serem, Deus fabricou-os num momento de mau g√©nio.

Males de Anto

A Ares n’uma aldeia

Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
Porque eram todas, eu sei l√°! desde o odio ao tedio.
Molestias d’alma para as quaes n√£o ha remedio.
Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
No entanto, √°s vezes, os meus nervos gastos, velhos,
Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
Que eram, bem o sentia, instantes de Cam√Ķes!
Sei de c√≥r e salteado as minhas afflic√ß√Ķes:
Quiz partir, professar n’um convento de Italia,
Ir pelo Mundo, com os p√©s n’uma sandalia…
Comia terra, embebedava-me com luz!
Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
Contei n’aquelle dia um cento de desgra√ßas.
Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
(Na aldeia, sim!) para pegar n’um cacho d’uvas,
Ou n’uma flor. Por cauza d’essas m√£os… Perdoae-me,
Alde√Ķes! eu sei que v√≥s sois puros. Desculpae-me.

Mas, atravez da minha dor,

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A Ira

O que se irrita justificadamente nas situa√ß√Ķes em que se deve irritar ou com as pessoas com as quais se deve irritar, e ainda da maneira como deve ser, quando deve ser e durante o tempo em que deve ser, √© geralmente louvado. Quem assim for √© gentil, se √© que a gentileza √© uma disposi√ß√£o louvada. Porque o gentil quer permanecer imperturb√°vel e n√£o quer ser levado pela emo√ß√£o, e apenas o sentido orientador lhe poder√° prescrever as situa√ß√Ķes em que deve irritar-se e durante quanto tempo. Ou seja, o gentil parece pecar mais por defeito, porque n√£o √© do tipo vingativo mas mais do g√©nero que perdoa.
O defeito, seja uma certa fleuma seja o que for, √© repreendido. Os que n√£o se irritam quando t√™m motivo parecem parvos, o mesmo quando n√£o se irritam de modo correcto, nem quando devem, nem com aqueles que devem. Parece at√© que n√£o sentem a inj√ļria ou n√£o sofrem com ela. Mas se n√£o se irritarem n√£o conseguem defender-se, e aguentar um insulto ou tolerar os insultos feitos a terceiros √© uma caracter√≠stica de subservi√™ncia.
H√° excessos a respeito de todos os elementos circunstanciais envolvidos num acesso de ira (seja por se dirigir contra as pessoas indevidas,

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Remar contra a corrente não desfaz enganos e é extremamente perigoso. Só um Sócrates poderia fazê-lo. Discordar é considerado um insulto, pois significa condenar a opinião alheia.