Passagens sobre Bocas

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Frases sobre bocas, poemas sobre bocas e outras passagens sobre bocas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Ver√£o

Est√°s no ver√£o,
num fio de repousada √°gua, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Est√°s em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as m√°goas.
√Čs o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras no√ß√Ķes do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras est√£o em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.

Crep√ļsculo

Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois l√≠rios roxos e dolentes…

E os l√≠rios fecham… Meu Amor, n√£o sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres m√£os s√£o maceradas
Como vagas saudades de doentes…

O Sil√™ncio abre as m√£os… entorna rosas…
Andam no ar carícias vaporosas
Como p√°lidas sedas, arrastando…

E a tua boca rubra ao pé da minha
√Č na suavidade da tardinha
Um cora√ß√£o ardente palpitando…

Amo-te no Intenso Tr√°fego

Amo-te no intenso tr√°fego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
√ď verbo que amo como a pron√ļncia
Da m√£e, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio
Dos teus l√°bios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.

Exaltação

Viver!… Beber o vento e o sol!… Erguer
Ao C√©u os cora√ß√Ķes a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto, a arder!…
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!…
A gl√≥ria!… A fama!… O orgulho de criar!…

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos ext√°ticos, pag√£os!…

Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas:
– Como eu sou vossa Irm√£, √≥ meus Irm√£os!…

N√£o Estou Pensando em Nada

N√£o estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
√Č-me agrad√°vel como o ar da noite,
Fresco em contraste com o ver√£o quente do dia,

N√£o estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
√Č ter a alma pr√≥pria e inteira.
Pensar em nada
√Č viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida…
N√£o estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
H√° um amargo de boca na minha alma:
√Č que, no fim de contas,
N√£o estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada…

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
√Č uma mat√©ria vibr√°til e nost√°lgica
que n√£o consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os l√°bios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque n√£o posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que n√£o prendem p√°ssaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um dist√ļrbio da paix√£o.

Dona Flor

Ela é tão meiga! Em seu olhar medroso
Vago como os crep√ļsculos do estio,
Treme a ternura, como sobre um rio
Treme a sombra de um bosque silencioso.

Quando, nas alvoradas da alegria,
A sua boca √ļmida floresce,
Naquele rosto angelical parece
Que é primavera, e que amanhece o dia.

Um rosto de anjo, l√≠mpido, radiante…
Mas, ai! sob êsse angélico semblante
Mora e se esconde uma alma de mulher

Que a rir-se esfolha os sonhos de que vivo
– Como atirando ao vento fugitivo
As folhas sem valor de um malmequer…

Amar e Ser Livre ao mesmo Tempo

Tudo o que posso dizer √© que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e n√£o consegui. Estou constantemente a escrever-te… Na minha cabe√ßa, e os dias passam, e eu imagino o que pensar√°s. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para ter√ßa-feira! E n√£o s√≥ ter√ßa-feira… Imagino quando poder√°s ficar uma noite… Quando te poderei ter durante mais tempo… Atormenta-me ver-te s√≥ por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece… O tempo √© t√£o precioso e as palavras sup√©rfluas… Mas fazes-me t√£o feliz… porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas prepara√ß√Ķes para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda h√° demasiado sagrado agarrado a ti.

A tua carta… Ah, estas moscas! Fazes-me sorrir. E fazes-me adorar-te tamb√©m. √Č verdade, n√£o te dou o devido valor. √Č verdade. Mas eu nunca disse que n√£o me d√°s o devido valor. Acho que deve haver um erro no teu ingl√™s.

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Gazel do Amor Imprevisto

O perfume ninguém compreendia
da escura magnólia de teu ventre.
Ninguém sabia que martirizavas
entre os dentes um colibri de amor.

Mil pequenos cavalos persas dormem
na praça com luar de tua fronte,
enquanto eu enlaçava quatro noites,
inimiga da neve, a tua cinta.

Entre gesso e jasmins, o teu olhar
era um p√°lido ramo de sementes.
Procurei para dar-te, no meu peito,
as letras de marfim que dizem sempre,

sempre, sempre; jardim em que agonizo,
teu corpo fugitivo para sempre,
teu sangue arterial em minha boca,
tua boca j√° sem luz para esta morte.

Tradução de Oscar Mendes

Nossa Língua

para o poeta Antoniel Campos*

O doce som de mel que sai da boca
na l√≠ngua da saudade e do crep√ļsculo
vem adoçando o mar de conchas ocas
em mansa voz domando tons mai√ļsculos.

√Č bela fiandeira em sua roca
tecendo a fala forte com seu m√ļsculo
na hora que é preciso sai da toca
como fera que sabe o tomo e o op√ļsculo.

Dizer e maldizer do mel ao fel
é fado de cantigas tão antigas
desde Cam√Ķes, Bandeira a Antoniel,
este jovem poeta que se abriga

na língua portuguesa em verso e fala
nau de calado ao mar que n√£o se cala.

* “filiu brasilis, mater portucale,
Que em outra l√≠ngua a minha l√≠ngua cale.”

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual n√£o podemos contactar
sen√£o como amantes
de olhos fechados
e l√Ęmpadas nos dedos¬†¬†¬† e na boca

Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulc√£o a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infind√°vel √°gua

com teu sabor de a√ß√ļcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Divino Instante

Ser uma pobre morta inerte e fria,
Hier√°tica, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo h√° paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia;

Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!

Ah! fixar o efémero! Esse instante
Em que o teu beijo s√īfrego de amante
Queima o meu corpo fr√°gil de √Ęmbar loiro;

Ah! fixar o momento em que, dolente,
Tuas p√°lpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!

Inconst√Ęncia

Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clar√£o nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
√Č igual a outro amor que vai surgindo,
Que h√° de partir tamb√©m… nem eu sei quando…

Anima Mea

Estava a Morte ali, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.

Era de ver a f√ļnebre bachante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: ¬ęQue buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?¬Ľ

‚ÄĒ N√£o temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a boca fria).

Eu n√£o busco o teu corpo… Era um trof√©u
Glorioso de mais… Busco a tua alma ‚ÄĒ
Respondi-lhe: ¬ęA minha alma j√° morreu!¬Ľ

Quero Acabar

Quero acabar entre rosas, porque as amei na inf√Ęncia.
Os cris√Ęntemos de depois, desfolhei-os a frio.
Falem pouco, devagar.
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
O que quis? Tenho as m√£os vazias,
Crispadas flebilmente sobre a colcha longínqua.
O que pensei? Tenho a boca seca, abstrata.
O que vivi? Era t√£o bom dormir!

Somos prisioneiros da vida e temos que suport√°-la at√© que o √ļltimo viaduto nos invada pela boca adentro e viaje eternamente em nossos corpos

Para morder o próximo é mais própria a boca de uma velha desdentada, do que os formosos dentes da mais florida juventude.

L√ļbrica

Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,
E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;
Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da lux√ļria febril na chama intensa…
Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;
Como, da √Āsia nos bosques tropicais
Apertam, em espiral auriluzente,
Os m√ļsculos herc√ļleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.
Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa, todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;
Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,

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