Passagens sobre Europa

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Opi√°rio

Ao Senhor M√°rio de S√°-Carneiro

√Č antes do √≥pio que a minh’alma √© doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo h√°-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
j√° n√£o encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os pr√≥prios gozos g√Ęnglios do meu mal.

√Č por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vis√Ķes de cadafalsos
Num jardim onde h√° flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impress√£o de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um av√ī meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

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A Contagem do Tempo Prejudica a Criatividade

Os povos primitivos n√£o conheciam a necessidade de dividir o tempo em filigranas. Para os antigos n√£o existiam minutos ou segundos. Artistas como Stevenson ou Gauguin fugiram da Europa e aportaram em ilhas onde n√£o havia rel√≥gios. Nem o carteiro nem o telefone apoquentavam Plat√£o. Virg√≠lio nunca precisou de correr para apanhar um comboio. Descartes perdeu-se em pensamentos nos canais de Amsterd√£o. Hoje, por√©m, os nossos movimentos s√£o regidos por fra√ß√Ķes exactas de tempo. At√© mesmo a vig√©sima parte de um segundo come√ßa a n√£o mais ser irrelevante em certas √°reas t√©cnicas.

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos s√£o
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invas√Ķes; salsugem porca
de esgoto atl√Ęntico; irris√≥ria face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignor√Ęncia;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcion√°rios e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balc√£o de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de af√°veis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;

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A Nostalgia da Europa

Na Idade Média, a unidade europeia repousava na religião comum. Nos Tempos Modernos, ela cedeu o lugar à cultura (à criação cultural) que se tornou na realização dos valores supremos pelos quais os Europeus se reconhecem, se definem, se identificam. Ora, hoje, a cultura cede, por sua vez, o lugar.
Mas, a qu√™ e a quem? Qual √© o dom√≠nio onde se realizaram valores supremos suscept√≠veis de unir a Europa? As conquistas t√©cnicas? O mercado? A pol√≠tica com o ideal de democracia, com o princ√≠pio da toler√Ęncia? Mas, essa toler√Ęncia, que j√° n√£o protege nenhuma cria√ß√£o rica nem nenhum pensamento forte, n√£o se tornar√° oca e in√ļtil? Ou ent√£o, ser√° que podemos entender a demiss√£o da cultura como uma esp√©cie de liberta√ß√£o √† qual nos devemos abandonar com euforia? N√£o sei. A √ļnica coisa que julgo saber √© que a cultura j√° cedeu o seu lugar. Assim, a imagem da identidade europeia afasta-se do passado. Europeu: aquele que tem a nostalgia da Europa.

A Esquerda Deixou de Ser Esquerda

A direita nunca deixou de ser direita, mas a esquerda deixou de ser esquerda. A explica√ß√£o pode parecer simplista, mas √© a √ļnica que contempla todos os aspectos da quest√£o. Para serem participantes mais ou menos tolerados nos jogos do poder, os partidos de esquerda correram todos para o centro, onde, infalivelmente, se encontraram com uma direita pol√≠tica e econ√≥mica j√° instalada que n√£o tinha necessidade de se camuflar de centro. Entrou-se, ent√£o, na farsa carnavalesca de denomina√ß√Ķes caricaturais com as de centro-esquerda ou centro-direita. Assim est√° Portugal, a It√°lia, a Europa.

O Homem-Massa

Numa boa ordena√ß√£o das coisas p√ļblicas, a massa √© o que n√£o actua por si mesma. Tal √© a sua miss√£o. Veio ao mundo para ser dirigida, influ√≠da, representada, organizada ‚Äď at√© para deixar de ser massa, ou, pelo menos, aspirar a isso. Mas n√£o veio ao mundo para fazer tudo isso por si. Necessita referir a sua vida √† inst√Ęncia superior, constitu√≠da pelas minorias excelentes. Discuta-se quanto se queira quem s√£o os homens excelentes; mas que sem eles ‚Äď sejam uns ou outros ‚Äď a humanidade n√£o existiria no que tem de mais essencial, √© coisa sobre a qual conv√©m que n√£o haja d√ļvida alguma, embora leve a Europa todo um s√©culo a meter a cabe√ßa debaixo da asa, ao modo dos estr√ļcios para ver se consegue n√£o ver t√£o radiante evid√™ncia. Porque n√£o se trata de uma opini√£o fundada em factos mais ou menos frequentes e prov√°veis, mas numa lei da ¬ęf√≠sica¬Ľ social, muito mais incomov√≠vel que as leis da f√≠sica de Newton. No dia em que volte a imperar na Europa uma aut√™ntica filosofia ‚Äď √ļnica coisa que pode salv√°-la ‚Äď, compreender-se-√° que o homem √©, tenha ou n√£o vontade disso, um ser constitutivamente for√ßado a procurar uma inst√Ęncia superior.

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Não desejo Europa, o boulevard, os brilhos de uma posição, desejo o sertão, a picada malgradada, e a vida afanosa e triste de pioneiro. Nestes tempos de fragilidade já não é pouco.

A fun√ß√£o da juventude depende do lugar em que residem. Por exemplo: para que servem os rapazes e as mo√ßas da Am√©rica? Resposta: para consumirem maci√ßamente. E os corol√°rios desse tipo de consumo s√£o: comunica√ß√Ķes em massa, publicidade em massa. Narc√≥ticos em massa (sob a forma de televis√£o, tranquilizantes, pensamentos positivos e cigarro). Agora que a Europa tamb√©m ingressou na produ√ß√£o em massa, para que servir√£o os seus rapazes e mo√ßas? Para consumirem maci√ßamente, exatamente como a juventude da Am√©rica. [‚Ķ] O destino da mocidade deve ser apenas se desenvolver harmoniosamente e se transformar em adultos plenamente realizados.

O Amor por Matilde e os Versos do Capit√£o

E vou contar-lhes agora a hist√≥ria deste livro, um dos mais controvertidos daqueles que escrevi. Foi durante muito tempo um segredo, durante muito tempo n√£o ostentou o meu nome na capa, como se o renegasse ou o pr√≥prio livro n√£o soubesse quem era o pai. Tal como os filhos naturais, filhos do amor natural, ¬ęLos versos del capit√°n¬Ľ eram, tamb√©m, um ¬ęlibro natural¬Ľ.

Os poemas que cont√©m foram escritos aqui e ali, ao longo do meu desterro na Europa. Foram publicados anonimamente em N√°poles, em 1952. O amor por Matilde, a nostalgia do Chile, as paix√Ķes c√≠vicas, recheiam as p√°ginas desse livro, que teve muitas edi√ß√Ķes sem trazer o nome do autor.

Para a 1¬™ edi√ß√£o, o pintor Paolo Ricci conseguiu um papel admir√°vel e antigos tipos de imprensa ¬ębodonianos¬Ľ, bem como gravuras extra√≠das dos vasos de Pompeia. Com fraternal fervor, Paolo elaborou tamb√©m a lista dos assinantes. Em breve apareceu o belo volume, com tiragem limitada a cinquenta exemplares. Festej√°mos largamente o acontecimento, com mesa florida, ¬ęfrutti di mare¬Ľ, vinho transparente como √°gua, filho √ļnico das vinhas de Capri. E com a alegria dos amigos que amaram o nosso amor.
Alguns críticos suspicazes atribuíram a motivos políticos a publicação anónima do livro.

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O Estado social é indispensável para que a economia funcione. E os anos de progresso da Europa foi porque tinha um Estado social. Não foi por mais nada.

Na Europa h√° um mito hist√≥rico e religioso. A Uni√£o Europeia tende para isso: um s√≥ comando gen√©rico e uma s√≥ f√© que √© posta na democracia. Tira-se a religi√£o um pouco para o lado e estabelece-se uma democracia generalizada, a uni√£o da Europa com um mesmo fim: um s√≥ rei e um s√≥ papa. √Č o mito que se est√° a tornar uma realidade actualmente com Bruxelas no centro da Uni√£o Europeia. Acho que √© √≥ptimo mas √© muito dif√≠cil porque h√° diferentes climas nas regi√Ķes, h√° diferentes idiossincrasias, diferentes l√≠nguas. √Č sempre muito dif√≠cil tornar uma coisa acess√≠vel a toda essa diversidade.

Tal era a forma primitiva e singela de um espectáculo de eras barbaras, que a civilização, desenvolvendo-se gradualmente por alguns séculos, ainda não pode desterrar da Península, e que nos conserva na fronte o estigma de bárbaros, embora tenhamos procurado esconder esse estigma debaixo dos ouropéis e pompas da arte moderna e pleitear a nossa vergonhosa causa perante o tribunal da opinião da Europa com sofismas pueris e ineptos.

A Vós Seu Resplendor Deu Sol e Lua

Pelos raros extremos que mostrou
Em sábia Palas, Vénus em formosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
√Āfrica, Europa e √Āsia as adorou.

Aquele saber grande que juntou
Espírito e corpo em liga generosa,
Esta mundana m√°quina lustrosa
De só quatro elementos fabricou.

Mas fez maior milagre a natureza
Em vós, Senhoras, pondo em cada uma
O que por todas quatro repartiu.

A vós seu resplendor deu Sol e Lua:
A vós com viva luz, graça e pureza,
Ar, Fogo, Terra e √Āgua vos serviu.

A experi√™ncia contempor√Ęnea de restri√ß√Ķes comerciais na Europa de p√≥s-guerra oferece numerosos exemplos de impedimentos mal concebidos contra a liberdade que, destinados a melhorar a balan√ßa favor√°vel, produziram, de fato, o resultado inverso.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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A social-democracia √© desej√°vel para Portugal pois √©, at√© hoje, a √ļnica via experimentada na Europa que tem conseguido caminhar para a igualdade sem viola√ß√£o da liberdade.

A Europa j√° n√£o √© miragem como era a √ćndia, j√° n√£o √© a panaceia que tudo vai resolver, √© sim a oportunidade que se nos d√° de, com o nosso pr√≥prio esfor√ßo e a nossa riqueza, acedermos a um n√≠vel de desenvolvimento e de dignidade que hoje n√£o temos.

A Portugalite

Entre as afec√ß√Ķes de boca dos portugueses que nem a pasta medicinal Couto pode curar, nenhuma h√° t√£o generalizada e galopante como a Portugalite. A Portugalite √© uma inflama√ß√£o nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. √Č altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e at√© hoje n√£o se descobriu cura.

A Portugalite √© contra√≠da por cada portugu√™s logo que entra em contacto com Portugal. √Č uma doen√ßa n√£o tanto ven√©rea como venal. Para compreend√™-la √© necess√°rio estudar a rela√ß√£o de cada portugu√™s com Portugal. Esta rela√ß√£o √© semelhante a uma outra que j√° √© cl√°ssica na literatura. Suponhamos ent√£o que Portugal √© fundamentalmente uma meretriz, mas que cada portugu√™s est√° apaixonado por ela. Est√° sempre a dizer mal dela, o que √© compreens√≠vel porque ela trata-o extremamente mal. Chega at√© a julgar que a odeia, porque n√£o acha uma √ļnica raz√£o para am√°-la. Contudo, existem cinco sinais ‚ÄĒ t√≠picos de qualquer grande e arrastada paix√£o ‚ÄĒ que demonstram que os portugueses, contra a vontade e contra a l√≥gica, continuam apaixonados por ela, por muito afectadas que sejam as ¬ębocas¬Ľ que mandam.

Em primeiro lugar, estão sempre a falar dela. Como cada português é um amante atraiçoado e desgraçado pela mesma mulher,

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