Passagens sobre Paraíso

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Frases sobre para√≠so, poemas sobre para√≠so e outras passagens sobre para√≠so para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Amo-te Tanto

Amo-te tanto
nem sei porquê!
Que importa o quê
do meu espanto?

Que importa o riso
que me concedes?
Que me embebedes!
Que paraíso!

Indiferente
quero-te assim.
РSê bem de mim,
de toda a gente…

Rasgou-se o véu
do temporal.
Nem bem nem mal.
Entras no céu.

A Mediocridade do Talento

Quem entre n√≥s n√£o tem talento? Mesmo aqueles que nada t√™m, t√™m talento at√© os pol√≠ticos – at√© os jornalistas… Fique pois dito de uma vez para sempre: quem me disser que eu tenho talento, ofende-me; quem me disser que sou um homem de talento, aflige-me.
Renego o vosso talento; despejo-o com os jornais na latrina. Falo-vos claro; para mim o talento n√£o √© sen√£o o grau sublime da mediocridade. O talento √© aquela forma superior de intelig√™ncia que todos podem compreender, apreciar e amar. O talento √© aquela mistura saborosa de facilidade, de esp√≠rito, de lugares-comuns afectados, de filite√≠smo um tanto brilhante que agrada √†s senhoras, aos professores, aos advogados, aos mundanos, √†s famosas pessoas cultas, em suma, a todos os que est√£o meio por meio entre o c√©u e a terra, entre o para√≠so e o inferno, a igual dist√Ęncia da animalidade profunda e do g√©nio grande.

A Inutilidade da Crítica

Que a obra de boa qualidade sempre se destaca √© uma afirma√ß√£o sem valor, se aplicada a uma obra de qualidade realmente boa e se por “destaca” quer-se fazer refer√™ncia √† aceita√ß√£o na sua pr√≥pria √©poca. Que a obra de boa qualidade sempre se destaca, no curso de sua futuridade, √© verdadeiro; que a obra de boa qualidade, mas de segunda ordem sempre se destaca na sua pr√≥pria √©poca, √© tamb√©m verdadeiro.
Pois como há-de um crítico julgar? Quais as qualidades que formam, não o incidental, mas o crítico competente? Um conhecimento da arte e da literatura do passado, um gosto refinado por esse conhecimento, e um espírito judicioso e imparcial. Qualquer coisa menos do que isto é fatal ao verdadeiro jogo das faculdades críticas. Qualquer coisa mais do que isto é já espírito criativo e, portanto, individualidade; e individualidade significa egocentrismo e certa impermeabilidade ao trabalho alheio.
Qu√£o competente √©, por√©m, o cr√≠tico competente? Suponhamos que uma obra de arte profundamente original surja diante dos seus olhos. Como a julga ele? Comparando-a com as obras de arte do passado. Se for original, por√©m afastar-se-√° em alguma coisa ‚ÄĒ e quanto mais original mais se afastar√° ‚ÄĒ das obras de arte do passado.

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O Significado da Vida

Terá a vida algum significado, algum sentido ou valor? A pergunta é: a vida, viver, terá algum propósito? Será que viver nos fará chegar, um dia, a algum lado? Viver é um meio. A meta, o objetivo, esse lugar muito distante situado algures, é o fim. E é esse fim que lhe confere sentido. Se não houver um fim, a vida não terá, certamente, sentido, e será preciso criar um Deus para lhe dar sentido.
Primeiro, foi preciso separar os fins dos meios. Isto divide a nossa mente. A nossa mente est√° sempre a perguntar porqu√™? Para qu√™? E tudo o que n√£o consegue dar uma resposta √† pergunta ¬ęPara qu√™?¬Ľ vai perdendo lentamente valor para n√≥s. Foi assim que o amor se tornou algo sem valor. Que sentido faz o amor? Onde poder√° levar-nos? Que alcan√ßaremos com ele? Chegaremos a alguma utopia, a algum para√≠so? √Č evidente que, encarado dessa maneira, o amor n√£o faz nenhum sentido. √Č v√£o.

Que sentido tem a beleza? Contemplamos um p√īr do sol e ficamos deslumbrados com a sua grande beleza, mas qualquer idiota pode perguntar-nos, ¬ęQue significa um p√īr do sol?¬Ľ, e n√£o teremos uma resposta para lhe dar.

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Século XXI

Falam de tudo como se a raz√£o
lhes ensinasse desesperadamente
a mentir, a lançar
sem remorso nem asco um novo isco
à espera que alguém morda
e acredite nessa liturgia
cujos deuses s√£o f√°ceis de adorar
e obedecem às leis do mercado.

Falam desse ludíbrio a que chamam
o futuro
como se ele existisse
e as suas palavras ecoam
em flatulentas frases
sempre a favor do vento que as agita
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas
em que tudo se vende
por um pre√ßo acess√≠vel: emo√ß√Ķes
& sexo & fama & outros prometidos
paraísos terrestres em horário nobre
Рmatéria reciclável
alimentando o altar do esquecimento.

O poder n√£o existe, como sabes
demasiado bem – apenas uma
in√ļtil recidiva biol√≥gica
de hormonas apressadas que procuram
ser fiéis aos comércio
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo
sedutoras met√°stases do nada
nos códigos de barras ou nos cromossomas
de quem j√° pouco espera dos seus genes.

Há uma vertente ideológica que facilitou a crise: foi o neo-liberalismo, responsável pela economia virtual, pela globalização desregulada e sem ética, pela idolatria dos mercados usurários Рque vivem dos paraísos fiscais, que deviam ser ilegalizados Рe que hoje mandam nos Estados. Mas à ideologia neo-liberal vai acontecer o mesmo que ao comunismo.

El√≠sio, n. Pa√≠s imagin√°rio e encantador que os antigos acreditavam, disparatadamente, ser a morada dos esp√≠ritos das pessoas boas. Esta f√°bula rid√≠cula e perniciosa foi varrida da superf√≠cie da Terra pelos Crist√£os primitivos ‚ÄĒ que as suas almas sejam felizes no Para√≠so!

Estamos neste mundo para rir. Já não poderemos fazer isso no purgatório e no inferno. E no paraíso isso não seria conveniente.

Sem Poesia N√£o H√° Humanidade

Sem Poesia n√£o h√° Humanidade. √Č ela a mais profunda e a mais et√©rea manifesta√ß√£o da nossa alma. A intui√ß√£o po√©tica ou orfaica antecede, como fonte original, o conhecimento euclidiano ou cient√≠fico. E nos d√° o sentido mais perfeito e harm√≥nico da vida. Aperfei√ßoando o ser humano, afasta-o do antrop√≥ide e aproxima-o dos antropos. Que a mocidade actual, obcecada pela bola e pelo cinema, reduzida quase a uma fotografia peculiar e uma esp√©cie de m√°quina de fazer pontap√©s, despreza o seu aperfei√ßoamento moral; e, com o seu fato de macaco, prefere regressar √† Selva a regressar ao Para√≠so. E assim, igualando-se aos bichos, mente ao seu destino, que √© ser o cora√ß√£o e a consci√™ncia do Universo: o sagrado cora√ß√£o e o santo esp√≠rito. Eis o destino do homem, desde que se tornou consciente. E tornou-se consciente, porque tal acontecimento estava contido nas possibilidades da Natureza. Sim, a nossa consci√™ncia √© a pr√≥pria Natureza numa autocontempla√ß√£o maravilhosa. Ou √© o pr√≥prio Criador numa vis√£o da sua obra, atrav√©s do homem. E, vendo-a, desejou corrigi-la, transfigurando-se em Redentor.

Arrojos

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, ext√°tico e suspenso
Tomar-lhe as mãos mignonnes e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clar√£o dos rel√Ęmpagos noturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sab√£o das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem j√° n√£o tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,

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Os c√£es s√£o o nosso elo com o para√≠so. Eles n√£o conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um c√£o ao p√© de uma colina numa linda tarde, √© voltar ao √Čden onde ficar sem fazer nada n√£o era t√©dio, era paz.

Bendita

Bendita sejas, minha m√£e, bendito
Seja o teu seio, imaculado e santo,
Onde derrama as gotas de seu pranto
Meu dolorido coração aflito.

√ď minha m√£e, √≥ anjo sacrossanto,
Bendito seja o teu amor, bendito!
Ouve do Céu o amargurado grito
Cheio da dor de quem soluça tanto.

E deixa que repouse em teus joelhos
A minha fronte, ouvindo os teus conselhos
Longe do mundo, ó sempiterna dita!

Envia lá do céu no teu sorriso
A morte que levou-te ao Para√≠so…
Bendita sejas, minha m√£e, bendita!

Fui um Leitor Apaixonado

Eu fui um leitor apaixonado. N√£o havia livros em minha casa, mas costumava ler bastante nas biblioteca p√ļblicas, especialmente √† noite. Lia indiscriminadamente. Lembro-me de ler a tradu√ß√£o do ¬ęPara√≠so Perdido¬Ľ quando tinha 16 anos. N√£o havia ningu√©m que me dissesse o que experimentar a seguir. Por isso tive uma educa√ß√£o liter√°ria an√°rquica cheia de lacunas, mas com o tempo consegui organizar uma esp√©cie de vis√£o coerente da literatura, acima de tudo da literatura francesa.

O paraíso é comparável a uma cena em que dezenas de belas garças voam fazendo um círculo no céu: há os que contemplam tal cena e admiram-na, mas há os que nem olham para ela, considerando-a sem graça.

O amor pode nos levar ao inferno ou ao paraíso, mas sempre nos leva a algum lugar. (Na Margem do Rio Piedra Eu sentei e Chorei)

A morte é simples mudança de veste, somos o que somos. Depois do sepulcro, não encontramos senão o paraíso ou o inferno criados por nós mesmos.

Sabedoria

Nos dias em que nada vale a pena,
E em que as √°rvores amigas
S√£o iguais e est√£o vistas,
A vida é tão parada e tão serena
Que afinal j√° n√£o h√° que contar mais,
E prevejo, com olhos anormais,
As coisas imprevistas…
Nos dias em que são cinzentos os meus céus
‚ÄĒ O de dentro e o de fora ‚ÄĒ
E é vaga esta noção de um velho Deus,
Que me n√£o manda embora
Deste espect√°culo estafado
Em que de cor sei dizer
O que me foi ensaiado
E o que todos v√£o fazer,
Tenho inveja dos homens convencidos
Que nem sequer sonharam
Que poderia haver paraísos perdidos,
Ainda n√£o decifraram
Esta charada em que andam envolvidos,
E pensam que, vivendo, triunfaram
Da Vida em que os que sonham s√£o vencidos.