Textos sobre Quimera

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Textos de quimera escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Prosema I

Com a devida vénia me reparto junto do tampo de mármore meu secretário tão certo. Desde quando deixara eu de ouvir esta palavra? Logrei substituí-la numa manhã óptima mas não esta em que a mola salta reprimida sabe-se lá donde, algures na hipófise.
Na confraria dos reclusos outras quimeras se aventam como Sol, M√£e, Amada, at√© que o tempo nosso inimigo se distancie e nos abandone por instantes. Na laje j√° sobre a qual o papel branco me obedece sem que o habitem outros sinais, pequeninos veios avolumam-se em √°reas mais densas, configurando p√°ssaros de porcelana chinesa. Afundo-me neste fundo para descobrir-lhes um sentido, branco, amarelo, de novo branco, cada cent√≠metro um fuso de seres min√ļsculos, buscando reorganizar-se, perder-se, reagrupar-se.
De anacoreta nada tenho, s√≥ de multid√Ķes entre Cacilhas, Piedade e o Barreiro. E Campo de Ourique, que digo! A minha m√£o move-se, o pensamento p√°ra, descubro as uvas pendentes como se fora Ver√£o e o Sol ferisse como se o olhara de frente. Nem o ru√≠do dos p√°ssaros habituais junto √† janela nos veio dar os bons dias, o funcion√°rio impreter√≠vel vir√° √† hora impreter√≠vel. Muito longe fora de portas um galo ou a sua aus√™ncia. Tenho uma toalha,

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O Bem Supremo

Muito discutiu a antiguidade em torno do supremo bem. O que √© o supremo bem? Seria o mesmo que perguntar o que √© o supremo azul, o supremo acepipe, o supremo andar, o ler supremo, etc. Cada um p√Ķe a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto. (…) Sumo bem √© o bem que vos deleita a ponto de nos polarizar toda a sensibilidade, assim como mal supremo √© aquele que vos torna completamente insens√≠vel. Eis os dois p√≥los da natureza humana. Esses dois momentos s√£o curtos. N√£o existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira. Supremo bem e supremo mal s√£o quimeras.Conhecemos a bela f√°bula de Cr√Ęntor, que fez comparecer aos jogos ol√≠mpicos a Fortuna, a Vol√ļpia, a Sa√ļde e a Virtude.
Fortuna: РO sumo bem sou eu, pois comigo tudo se obtém.
Vol√ļpia: – Meu √© o pomo, porquanto n√£o se aspira √† riqueza sen√£o para ter-me a mim.
Sa√ļde: – Sem mim n√£o h√° vol√ļpia e a riqueza seria in√ļtil.
Virtude: – Acima da riqueza, da vol√ļpia e da sa√ļde estou eu, que embora com ouro, prazeres e sa√ļde pode haver infelicidade, se n√£o h√° virtude.

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O Interior da Alma

O olho do espírito em parte nenhuma pode encontrar mais deslumbramentos, nem mais trevas, do que no homem, nem fixar-se em coisa nenhuma, que seja mais temível, complicada, misteriosa e infinita. Há um espectáculo mais solene do que o mar, é o céu; e há outro mais solene do que o céu, é o interior da alma.
Fazer o poema da consci√™ncia humana, mas que n√£o fosse sen√£o a respeito de um s√≥ homem, e ainda nos homens o mais √≠nfimo, seria fundir todas as epopeias numa epopeia superior e definitiva. A consci√™ncia √© o caos das quimeras, das ambi√ß√Ķes e das tentativas, o cadinho dos sonhos, o antro das ideias vergonhosas: √© o pandem√≥nio dos sofismas, √© o campo de batalha das paix√Ķes. Penetrai, a certas horas, atrav√©s da face l√≠vida de um ser humano, e olhai por tr√°s dela, olhai nessa alma, olhai nessa obscuridade. H√° ali, sob a superf√≠cie l√≠mpida do sil√™ncio exterior, combates de gigante como em Homero, brigas de drag√Ķes e hidras, e nuvens de fantasmas, como em Milton, espirais vision√°rias como em Dante.

O Presente Suport√°vel

Todos n√≥s nascemos na Arc√°dia, todos viemos ao mundo cheios de pretens√Ķes de felicidade e prazer, e conservamos a insensata esperan√ßa de faz√™-las valer, at√© ao momento em que o destino nos aferra bruscamente e nos mostra que nada √© nosso, mas tudo √© dele, uma vez que ele det√©m um direito incontest√°vel n√£o apenas sobre as nossas posses e os nossos ganhos, mas tamb√©m sobre os nossos bra√ßos e as nossas pernas, os nossos olhos e os nossos ouvidos, e at√© mesmo sobre o nosso nariz no centro do rosto.
A experi√™ncia vem em seguida e ensina-nos que a felicidade e o prazer n√£o passam de uma quimera, mostrada √† dist√Ęncia por uma ilus√£o, enquanto que o sofrimento e a dor s√£o reais e manifestam-se directamente por si s√≥, sem a necessidade da ilus√£o e da espera. Se o seu ensinamento se mostra frut√≠fero, deixamos de procurar a felicidade e o prazer e passamos a preocupar-nos apenas em fugir ao m√°ximo do sofrimento e da dor.

Reconhecemos que o melhor que o mundo nos pode oferecer é um presente suportável, tranquilo e sem dor; se isso nos é dado, sabemos apreciá-lo e cuidamos bem para não o estragar ansiando sem trégua alegrias imaginárias ou preocupando-nos temerosos com um futuro sempre incerto que,

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O Homem Pensador e a Mulher Faladora

O homem pensador √© necessariamente taciturno. A mulher faladora n√£o consegue atordoar-lhe o esp√≠rito, mas faz-lhe nos ouvidos a traquinada intoler√°vel de uma matraca. A matraca afuguenta do cora√ß√£o todas as quimeras do amor. N√£o vos caseis com homem pensador, mulheres que falais um momento antes de pensar o que direis. O amor ‚ÄĒse vo-lo pode inspirar tal homem‚ÄĒfar√° que n√£o fecheis olhos velando-lhe a doen√ßa; far√° que lhe sacrifiqueis os haveres, a reputa√ß√£o e a vida; far√° tudo que humanamente pode fazer um anjo de sacrif√≠cio, mas n√£o vos far√° calar. O feudo mais pesado que uma tal mulher p√īde imp√īr a um homem √© ‚ÄĒ a obriga√ß√£o de ouvi-la.

A ofensa que tal mulher nunca perdoa √© ‚ÄĒ a insol√™ncia de ouvi-la, sem escut√°-la. Vejam num dicion√°rio a diferen√ßa das duas palavras. Escutar √© querer ouvir. Uma bela mulher, capaz de extremos, tentou a franqueza do amante que, em v√©speras de matrimonio, lhe disse: ¬ęn√£o faltes tanto.¬Ľ A noiva pesou estas palavras, reflectiu, calculou as suas for√ßas, chorou, atormentou-se, e disse: ¬ęn√£o me casarei: √© imposs√≠vel calar-me.¬Ľ Para que me n√£o tomem isto como anedota, √© preciso dizer-lhes que esta mulher foi acerbamente ferida no seu orgulho.

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Devaneios Reveladores

Na verdade, se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na consci√™ncia dos outros, julgar√≠amos com mais seguran√ßa um homem pelo que devaneia do que pelo que pensa. O pensamento √© dominado pela vontade, o devaneio n√£o. O devaneio, que √© absolutamente espont√Ęneo, toma e conserva, mesmo no gigantesco e no ideal, a figura do nosso esp√≠rito. N√£o h√° coisa que mais directa e profundamente saia da nossa alma do que as nossas aspira√ß√Ķes irreflectidas e desmesuradas para os esplendores do destino. Nestas aspira√ß√Ķes √© que se pode descobrir o verdadeiro car√°cter de cada homem, melhor do que nas ideias compostas, coordenadas e discutidas. As nossas quimeras s√£o o que melhor nos parece. Cada qual devaneia o inc√≥gnito e o imposs√≠vel, conforme a sua natureza.

Aos Realistas

√ď seres frios que vos sentis t√£o coura√ßados contra a paix√£o e a quimera e que tanto gostar√≠eis de fazer da vossa doutrina um adorno e um objecto de orgulho, dais-vos o nome de realistas e dais a entender que o mundo √© verdadeiramente tal como vos aparece; que sois os √ļnicos a ver a verdade isenta de v√©us e que sois v√≥s talvez a melhor parte dessa verdade… √≥ queridas imagens de Sais! Mas n√£o sereis ainda v√≥s pr√≥prios, mesmo no vosso estado mais despojado, seres surpreendentemente obscuros e apaixonados se vos compararmos aos peixes? N√£o sereis ainda demasiado parecidos com artistas apaixonados? E o que vem a ser a ¬ęrealidade¬Ľ aos olhos de um artista apaixonado? Ainda n√£o deixaste de julgar as coisas como f√≥rmulas que t√™m a sua origem nas paix√Ķes e nos complexos amorosos dos s√©culos passados! A vossa frieza est√° ainda cheia de uma secreta e inextirp√°vel embriaguez!
O vosso amor pela ¬ęrealidade¬Ľ, se for necess√°rio escolher-vos um exemplo, que coisa antiga! Que velho ¬ęamor¬Ľ! N√£o h√° sentimento, sensa√ß√£o, que n√£o contenham uma certa dose, que n√£o tenham sido, tamb√©m, trabalhados e alimentados por qualquer exagero da imagina√ß√£o, por um preconceito, uma sem-raz√£o, uma incerteza,

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Cren√ßa e Intoler√Ęncia

A necessidade de f√© n√£o foi absolutamente provocada pelas religi√Ķes; foi ela, ao contr√°rio, que as suscitou. As divindades n√£o fazem mais do que fornecer um objecto ao nosso desejo de crer. Desde que ele se desvia das divindades, o homem entrega-se a uma f√© qualquer, quimeras pol√≠ticas, sortil√©gios ou feiti√ßos. (…) Uma das mais constantes caracter√≠sticas gerais das cren√ßas √© a sua intoler√Ęncia. Ela √© tanto mais intransigente quanto mais forte √© a cren√ßa. Os homens dominados por uma certeza n√£o podem tolerar aqueles que n√£o a aceitam.

Progresso Aparente

O homem progride em todos os sentidos. Domina a mat√©ria, √© incontest√°vel, mas ainda n√£o se sabe dominar a si mesmo. Sim, fa√ßam-se caminhos de ferro e tel√©grafos, atravessem-se num abrir e fechar de olhos terras e mares, mas dirijam-se tamb√©m as paix√Ķes como se conduzem os aer√≥statos: abulam-se sobretudo as paix√Ķes malignas que, apesar das m√°ximas liberais e fraternas da nossa √©poca, ainda n√£o perderam o seu dom√≠nio detest√°vel sobre os nossos cora√ß√Ķes. √Č nisso que reside o verdadeiro progresso, e at√© a verdadeira felicidade! Mas, pelo contr√°rio, at√© parece que os nossos instintos de cobi√ßa e de gozo ego√≠sta foram infindamente ainda mais excitados por todas estas inova√ß√Ķes materiais.
O desejo de uma felicidade impossível, que seria obtida independentemente na satisfação que nos vem da paz da alma, é indissociável já de qualquer nova descoberta e parece fazer retroceder no tempo a quimera desse paraíso dos sentidos.

A Dependência é a Raiz de Todos os Males

O que deve um c√£o a um c√£o, um cavalo a um cavalo? Nada. Nenhum animal depende do seu semelhante. Tendo por√©m o homem recebido o raio da Divindade a que se chama raz√£o, qual foi o resultado? Ser escravo em quase toda a terra. Se o mundo fosse o que parece dever ser, isto √©, se em toda parte os homens encontrassem subsist√™ncia f√°cil e certa e clima apropriado √† sua natureza, imposs√≠vel teria sido a um homem servir-se de outro. Cobrisse-se o mundo de frutos salutares. N√£o fosse ve√≠culo de doen√ßas e morte o ar que contribui para a exist√™ncia humana. Prescindisse o homem de outra morada e de outro leito al√©m do dos gansos e cabras monteses, n√£o teriam os Gengis C√£s e Tamerl√Ķes vassalos sen√£o os pr√≥prios filhos, os quais seriam bastante virtuosos para auxili√°-los na velhice.
No estado natural de que gozam os quadr√ļpedes, aves e r√©pteis, t√£o feliz como eles seria o homem, e a domina√ß√£o, quimera, absurdo em que ningu√©m pensaria: para qu√™ servidores se n√£o tiv√©sseis necessidade de nenhum servi√ßo? Ainda que passasse pelo esp√≠rito de algum indiv√≠duo de bofes tir√Ęnicos e bra√ßos impacientes por submeter o seu vizinho menos forte que ele,

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A Felicidade

A felicidade √© um estado permanente que n√£o parece ter sido feito, aqui na terra, para o homem. Na terra, tudo vive num fluxo cont√≠nuo que n√£o permite que coisa alguma assuma uma forma constante. Tudo muda √† nossa volta. N√≥s pr√≥prios tamb√©m mudamos e ningu√©m pode estar certo de amar amanh√£ aquilo que hoje ama. √Č por isso que todos os nossos projectos de felicidade nesta vida s√£o quimeras.
Aproveitemos a alegria do esp√≠rito quando a possu√≠mos; evitemos afast√°-la por nossa culpa, mas n√£o fa√ßamos projectos para a conservar, porque esses projectos s√£o meras loucuras. Vi poucos homens felizes, talvez nenhum; mas vi muitas vezes cora√ß√Ķes contentes e de todos os objectos que me impressionaram foi esse o que mais me satisfez. Creio que se trata de uma consequ√™ncia natural do poder das sensa√ß√Ķes sobre os meus sentimentos. A felicidade n√£o tem sinais exteriores; para a conhecer seria necess√°rio ler no cora√ß√£o do homem feliz; mas a alegria l√™-se nos olhos, no porte, no sotaque, no modo de andar, e parece comunicar-se a quem dela se apercebe.

A Convicção é Sempre Cega

O intelecto humano, quando assente numa convic√ß√£o (ou por j√° bem aceite e acreditada porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior n√ļmero, n√£o observa a for√ßa das inst√Ęncias contr√°rias, despreza-as, ou, recorrendo a distin√ß√Ķes, p√Ķe-nas de parte e rejeita, n√£o sem grande e pernicioso preju√≠zo. Gra√ßas a isso, a autoridade daquelas primeiras afirma√ß√Ķes permanece inviolada. E bem se houve aquele que, ante um quadro pendurado no templo, como ex-voto dos que se salvaram dos perigos de um naufr√°gio, instado a dizer se ainda se recusava a a√≠ reconhecer a provid√™ncia dos deuses, indagou por sua vez:¬ęE onde est√£o pintados aqueles que, a despeito do seu voto, pereceram?¬Ľ Essa √© a base de praticamente toda a supersti√ß√£o, trate-se de astrologia, interpreta√ß√£o de sonhos, aug√ļrios e que tais: encantados, os homens, com tal sorte de quimeras, marcam os eventos em que a predi√ß√£o se cumpre; quando falha – o que √© bem mais frequente – negligenciam-nos e passam adiante.
Esse mal insinua-se de maneira muito mais subtil na filosofia e nas ciências. Nestas, o de início aceite tudo impregna e reduz o que se segue, até quando parece mais firme e aceitável. Mais ainda: mesmo não estando presentes essa complacência e falta de fundamento a que nos referimos,

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O Assombro da Incoerência do Nosso Ser

Sou um mero espectador da vida, que n√£o tenta explic√°-la. N√£o afirmo nem nego. H√° muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. N√£o aprendo at√© morrer – desaprendo at√© morrer. N√£o sei nada, n√£o sei nada, e saio deste mundo com a convic√ß√£o de que n√£o √© a raz√£o nem a verdade que nos guiam: s√≥ a paix√£o e a quimera nos levam a resolu√ß√Ķes definitivas.
O papel dos doidos √© de primeira import√Ęncia neste triste planeta, embora depois os outros tentem corrigi-lo e canaliz√°-lo… Tamb√©m entendo que √© t√£o dif√≠cil asseverar a exactid√£o dum facto como julgar um homem com justi√ßa.
Todos os dias mudamos de opini√£o. Todos os dias somos empurrados para l√©guas de dist√Ęncia por uma coisa fren√©tica, que nos leva n√£o sei para onde. Sucede sempre que, passados meses sobre o que escrevo – eu pr√≥prio duvido e hesito. Sinto que n√£o me perten√ßo…
√Č por isso que n√£o condeno nem explico nada, e fujo at√© de descer dentro de mim pr√≥prio, para n√£o reconhecer com espanto que sou absurdo – para n√£o ter de discriminar at√© que ponto creio ou n√£o creio,

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A Essência das Coisas

Nunca me conformei com um conceito puramente científico da Existência, ou aritmético-geométrico, quantitativo-extensivo. A existência não cabe numa balança ou entre os ponteiros dum compasso. Pesar e medir é muito pouco; e esse pouco é ainda uma ilusão. O pesado é feito de imponderáveis, e a extensão de pontos inextensos, como a vida é feita de mortes.
A realidade n√£o est√° nas apar√™ncias transit√≥rias, reflexos palpitantes, simulacros luminosos, um aflorar de quimeras materiais. Nem √© s√≥lida, nem l√≠quida, nem gasosa, nem electromagn√©tica, palavras com o mesmo significado nulo. Foge a todos os c√°lculos e a todos os olhos de vidro, por mais longe que eles vejam, ou se trate dum n√ļcleo at√≥mico perdido no infinitamente pequeno, ou da nebulosa Andr√≥meda, a seiscentos mil anos de luz da minha aldeia!
A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão. Esta apenas descobre um simples jogo de forças repetido ou modificado lentamente, gestos insubstanciais, formas ocas, a casca de um fruto proibido.
Mas o miolo é do poeta. Só ele saboreia a vida até ao mais íntimo do seu gosto amargoso,

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A Quimera da Felicidade

(…) do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, atrav√©s de um nevoeiro, uma cousa √ļnica. Imagina tu, leitor, uma redu√ß√£o dos s√©culos, e um desfilar de todos eles, as ra√ßas todas, todas as paix√Ķes, o tumulto dos imp√©rios, a guerra dos apetites e dos √≥dios, a destrui√ß√£o rec√≠proca dos seres e das cousas. Tal era o espect√°culo, acerbo e curioso espect√°culo. A hist√≥ria do homem e da terra tinha assim uma intensidade que n√£o lhe podiam dar nem a imagina√ß√£o nem a ci√™ncia, porque a ci√™ncia √© mais lenta e a imagina√ß√£o mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensa√ß√£o viva de todos os tempos. Para descrev√™-la seria preciso fixar o rel√Ęmpago. Os s√©culos desfilavam num turbilh√£o, e, n√£o obstante, porque os olhos do del√≠rio s√£o outros, eu via tudo o que passava diante de mim, – flagelos e del√≠cias, – desde essa cousa que se chama gl√≥ria at√© essa outra que se chama mis√©ria, e via o amor multiplicando a mis√©ria, e via a mis√©ria agravando a debilidade. A√≠ vinham a cobi√ßa que devora, a c√≥lera que inflama, a inveja que baba,

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O Sonho Febril da Realidade

A verdade acerca do mundo, disse ele, √© que tudo √© poss√≠vel. N√£o fosse o caso de voc√™s se terem habituado desde a nascen√ßa a ver tudo aquilo que vos rodeia, esvaziando assim as coisas da sua estranheza, e a realidade surgiria aos vossos olhos tal como √©, um truque de magia num n√ļmero de ilusionismo, um sonho febril, um transe povoado de quimeras sem analogia nem precedente imagin√°vel, um carnaval itinerante, um espect√°culo de feira migrat√≥rio cujo derradeiro destino, depois de montar a tenda tantas e tantas vezes em tantos baldios enlameados, √© t√£o indescrit√≠vel e calamitoso que o esp√≠rito humano n√£o consegue sequer conceb√™-lo.
O universo n√£o √© uma coisa limitada e a ordem que o rege n√£o tem peias que, tolhendo-lhe os des√≠gnios, a forcem a repetir noutro lugar qualquer o que j√° existe num dado lugar. Mesmo neste mundo, existem mais coisas que escapam ao nosso conhecimento do que aquelas que conhecemos e a ordem que os nossos olhos v√™em na cria√ß√£o √© a ordem que n√≥s l√° pusemos, qual fio num labirinto, para n√£o nos perdermos. √Č que a exist√™ncia tem a sua pr√≥pria ordem e essa nenhum esp√≠rito humano consegue abarcar, sendo esse esp√≠rito apenas mais um facto entre tantos outros.

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