Textos sobre Ateus

11 resultados
Textos de ateus escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o.

Continue lendo…

As Desvantagens do Ateísmo

Parece-nos que o homem feliz n√£o colhe vantagem alguma em ser ateu. √Č-lhe t√£o agrad√°vel cismar que os seus dias se prolongar√£o al√©m da vida! Com que desespero n√£o deixaria ele este mundo, se acreditasse separar-se para sempre da felicidade! Debalde sobre a sua cabe√ßa se acumulariam todos os bens do s√©culo, que serviriam apenas para lhe tornar mais tormentoso o nada.
O rico pode tamb√©m contar com que a religi√£o lhe amplie os prazeres, mesclando-os com inexplic√°vel ternura; n√£o se lhe endurecer√° o cora√ß√£o, o gozo, escolho inevit√°vel das grandes prosperidades, n√£o o infastiar√°; que a religi√£o refrigera as sequid√Ķes da alma: √© o que representa esse √≥leo santo com que o cristianismo consagrava a realeza, a inf√Ęncia, e a morte, para as salvar da esterilidade.
O guerreiro arremessa-se ao combate: ser√° ateu esse filho da gl√≥ria? O que busca uma vida infinita consentir√° em termin√°-la? Aparecei sobre as vossas nuvens fulminantes, soldados inumer√°veis, antigas legi√Ķes da p√°tria! Famosas mil√≠cias de Fran√ßa, e agora mil√≠cias do c√©u, aparecei! Dizei aos her√≥is da nossa idade, do alto da cidade santa, que o bravo n√£o cai inteiro no tumulo, e que, ap√≥s ele, permanece alguma coisa mais que um v√£o renome.

Continue lendo…

O Ateu é Deus

Deus n√£o existe (…) A salva√ß√£o de todos consiste agora em provar essa ideia a toda a gente, percebes? Quem √© que h√°-de prov√°-la? Eu! N√£o entendo como √© que at√© agora um ateu podia saber que Deus n√£o existe e n√£o se suicidava logo. Reconhecer que Deus n√£o existe e n√£o reconhecer ao mesmo tempo que o pr√≥prio se tornou deus √© um absurdo, pois de outra maneira suicidar-se-ia inevitavelmente. Se tu o reconheces, √©s um rei e n√£o te matar√°s, mas viver√°s na maior gl√≥ria. Mas s√≥ o primeiro a perceber isso √© que deve inevitavelmente matar-se, sen√£o o que √© que principiaria e provaria?

Sou eu que me vou suicidar para iniciar e para provar. Ainda só sou deus sem querer e sofro porque tenho o DEVER de proclamar a minha própria vontade. Todos são infelizes porque todos têm medo de afirmar a sua vontade. Se o homem até hoje tem sido tão infeliz e tão pobre, é precisamente porque tem tido medo de afirmar o ponto capital da sua vontade, recorrendo a ela às escondidas como um jovem estudante.

Eu sou profundamente infeliz porque tenho medo profundamente. O medo √© a maldi√ß√£o do homem…

Continue lendo…

Religião Cósmica

√Č muito dif√≠cil transmitir este sentimento a algu√©m completamente desprovido dele, especialmente porque n√£o lhe corresponde qualquer concep√ß√£o antropom√≥rfica de Deus.
Os g√©nios religiosos de todos os tempos distinguiram-se por possu√≠rem este tipo de sentimento religioso, que n√£o reconhece nenhum dogma nem nenhum deus concebido √† imagem do homem; por isso n√£o pode existir nenhuma igreja cujos ensinamentos centrais se baseiem nele. Logo, √© precisamente entre os her√©ticos de todos os tempos que encontramos homens cheios deste tipo de sentimento religioso e que foram olhados em muitos casos pelos seus contempor√Ęneos como ateus, por vezes tamb√©m como santos. A esta luz, homens como Dem√≥crito, Francisco de Assis e Spinoza s√£o muito parecidos entre si.
Como pode o sentimento religioso cósmico ser comunicado por uma pessoa a outra se não conduz a nenhuma noção definida de Deus e a nenhuma teologia? Na minha perspectiva, a função mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter vivo este sentimento em todos os que sejam receptivos a ele.
Chegamos deste modo a uma concep√ß√£o da rela√ß√£o entre ci√™ncia e religi√£o muito diferente da habitual. Quando consideramos o assunto de um ponto de vista hist√≥rico, somos levados a olhar para a ci√™ncia e para a religi√£o como antagonistas irreconcili√°veis e por raz√Ķes bastante √≥bvias.

Continue lendo…

Religião e Superstição

√Č t√£o grande a fraqueza do g√©nero humano, tamanha a sua perversidade, que, sem d√ļvida, lhe vale mais estar subjugado por todas as supersti√ß√Ķes poss√≠veis – desde que n√£o tenham car√°cter assassino – do que viver sem religi√£o. O homem sempre teve necessidade de um freio e, por rid√≠culo que fosse sacrificar aos faunos, aos silvanos ou √†s n√°iades, era mais razo√°vel e mais √ļtil adorar essas imagens fant√°sticas da Divindade do que entregar-se ao ate√≠smo. Um ateu que fosse razoador, violento e poderoso, seria um flagelo t√£o funesto como um supersticioso sanguin√°rio.
Quando os homens n√£o disp√Ķem de s√£s no√ß√Ķes acerca da Divindade, as ideias falsas suprem-lhes a falta, tal como nos tempos de desgra√ßa se fazem neg√≥cios com moeda falsa quando falta a moeda boa. O pag√£o, se cometia um crime, temia ser punido pelos seus falsos deuses; o malabar teme ser punido pelo seu pagode. Em todo o lado onde h√° uma sociedade estabelecida, √© necess√°ria uma religi√£o. As leis exercem vigil√Ęncia sobre os crimes conhecidos, a religi√£o exerce-a sobre os crimes secretos.
Mas, a partir do momento em que os homens chegam a abra√ßar uma religi√£o pura e santa, a supersti√ß√£o torna-se n√£o apenas in√ļtil,

Continue lendo…

A Verdade Universal N√£o Existe

Consultei os fil√≥sofos, folheei os seus livros, examinei as suas diversas opini√Ķes; achei-os todos orgulhosos, afirmativos, dog¬≠m√°ticos – mesmo no seu pretenso cepticismo -, n√£o ignorando nada, n√£o demonstrando nada, tro√ßando uns dos outros; e esse ponto, que √© comum a todos eles, pareceu-me ser o √ļnico em que todos concordavam. Triunfantes quando atacam, n√£o t√™m vigor quando se defendem. Se examinais as suas raz√Ķes, s√≥ as t√™m pa¬≠ra destruir; se contais os seus caminhos, cada um est√° limitado ao seu; s√≥ se p√Ķem de acordo para discutir; prestar-lhes ouvidos n√£o era o meio de me livrar da minha incerteza. Compreendi que a insufici√™ncia do esp√≠rito humano √© a pri¬≠meira causa dessa prodigiosa diversidade de sentimentos, e que o orgulho √© a segunda.
N√≥s n√£o temos a medida dessa imensa m√°qui¬≠na, n√£o podemos calcular as suas propor√ß√Ķes; n√£o lhe conhecemos nem as primeiras leis nem a causa final; ignoramo-nos a n√≥s mes¬≠mos; n√£o conhecemos nem a nossa natureza nem o nosso princ√≠pio activo; mal sabemos se o homem √© um ser simples ou composto: mist√©rios impenetr√°veis rodeiam-nos por todos os lados; pairam por cima da regi√£o sens√≠vel; para os compreendermos, supomos ter intelig√™ncia, e apenas temos imagina√ß√£o. Cada um de n√≥s abre¬≠ atrav√©s desse mundo imagin√°rio –

Continue lendo…

As Pessoas Sensatas

Platão comparava a vida a um jogo de dados, no qual devêssemos fazer um lance vantajoso e, depois, bom uso dos pontos obtidos, quaisquer que fossem. O primeiro item, o lance vantajoso, não depende do nosso arbítrio; mas receber de maneira apropriada o que a sorte nos conceder, assinalando a cada coisa um lugar tal que o que mais apreciamos nos cause o maior bem e o que mais aborrecemos o menor mal Рisso nos incumbe, se formos sensatos. Os homens que defrontam a vida sem habilidade ou inteligência são como enfermos que não podem tolerar nem o calor nem o frio; a prosperidade exalta-os e a adversidade desalenta-os. São perturbados por uma e por outra, ou melhor, por si próprios, numa ou noutra, não menos na prosperidade que na adversidade.
Teodoro, chamado o Ateu, costumava dizer que oferecia os seus discursos com a m√£o direita, mas os seus ouvintes recebiam-nos com a esquerda; os ignaros frequentemente d√£o mostras da sua in√©pcia oferecendo √† Fortuna uma recep√ß√£o canhestra quando ela se apresenta de modo destro. Mas as pessoas sensatas agem como as abelhas, que extraem mel do tomilho, planta muito seca e azeda; similarmente, as pessoas sensatas muitas vezes obt√™m para si algo de √ļtil e apraz√≠vel das mais adversas situa√ß√Ķes.

Continue lendo…

Escravizados ao Além

Acabar com a morte como agonia di√°ria da humanidade √© talvez o maior bem que se pode fazer hoje ao homem. O cristianismo transformou a vida numa cruz, porque lhe p√īs a consci√™ncia da morte √† cabeceira. E crentes e ateus vivem no mesmo terror. Ora a ideia terr√≠fica do fim n√£o √© uma condi√ß√£o fisiol√≥gica, nem mesmo intelectual do homem. Nem os Gregos, nem os Romanos, por exemplo, sentiam a morte com a irrepar√°vel ang√ļstia que nos r√≥i. √Č for√ßoso, pois, que se arranquem as ra√≠zes desta dor, custe o que custar. Escravizados ao al√©m, os nossos dias aqui n√£o podem ter liberdade nem alegria. Qualquer doutrina que nega ao homem o direito de ser pleno na sua f√≠sica dura√ß√£o, √© uma doutrina de castra√ß√£o e de aniquilamento. Ir buscar ao post-mortem as leis que devem limitar a expans√£o abusiva da personalidade, √© o artif√≠cio mais desgra√ßado que se podia inventar. Pregue-se e exija-se do indiv√≠duo medida e disciplina, mas que nas√ßam da sua pr√≥pria harmonia. Institua-se uma √©tica com ra√≠zes no mesmo ch√£o onde o homem caminha.

A Pergunta Limita a Resposta

Quando se faz uma pergunta dissemos j√° que nos interessamos por uma determinada quest√£o, limitamos j√° o campo da resposta. Que eu te pergunte, disseste-me tu, ¬ęest√° frio?¬Ľ, e nada se poder√° dizer sen√£o referente ao frio. N√£o se poder√° responder por exemplo que a arte √© bela ou que a Terra √© redonda. √Č por isso que √© suspeito para um ateu que se pergunte se Deus existe; como seria ofensivo perguntar-se a algu√©m se a mulher o atrai√ßoa… Mesmo que a resposta dissesse ¬ęn√£o¬Ľ, a pergunta, s√≥ por si, j√° de algum modo tinha dito ¬ęsim¬Ľ.

As Desvantagens das Nossas Paix√Ķes

Quanto mais um homem se emaranha numa paix√£o, tanto mais os acontecimentos, em si indiferentes, se traduzem para ele em dor, enganando justamente, pela sua indiferen√ßa, a avidez tensa em que esse homem se encontra. Um ambicioso sofrer√° porque uma pessoa c√©lebre n√£o lhe reconheceu import√Ęncia; essa mesma pessoa c√©lebre tentar√° insuflar escr√ļpulos de tenta√ß√£o a algum evang√©lico de quem procurar√° a conversa√ß√£o; escr√ļpulos que, por sua vez, irritar√£o um individualista, que ser√° atingido por eles, malgrado seu. A inveja, ambi√ß√£o ruminada, est√° na base de todas as ang√ļstias que sofremos. N√£o toleramos que uma coisa aconte√ßa indiferentemente, por acaso, escapando √† nossa chancela.
Qualquer género de fervor acarreta consigo a tendência para sentir uma lei preestabelecida na vida, uma lei que castiga os que abusam ou descuram esse mesmo fervor. Um estado de paixão Рmesmo que fosse a embriaguez da absoluta autodeterminação Рorganiza e anima de tal forma o Universo que toda a desgraça, parece, depois, provocada por uma ruptura do equilíbrio vital dessa paixão difusa, que, assim, se defende como um corpo vivo. E, segundo o temperamento de cada um, teremos a sensação de que abusámos, ou de que fomos inferiores; de qualquer forma, sentir-nos-emos organicamente punidos pela própria lei da paixão e do Universo.

Continue lendo…

A Nossa Religiosidade

Existe sempre, em cada um de n√≥s, uma religiosidade, mesmo em quem se considera ateu. √Č uma quest√£o civilizacional, que se desvenda em aspectos t√£o prosaicos como acordarmos todos os dias com a certeza de que vamos encontrar o mundo igual ao que deix√°mos no dia anterior. Apesar de nada nos garantir que assim seja, sen√£o a cren√ßa, uma palavra em tudo semelhante √† palavra f√©.