Citação de

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o. √Č uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo √† vista deles; √© ma√ß√°-los, apoquent√°-los com a nossa falta de variedade.
Uma criatura de nervos modernos, de intelig√™ncia sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obriga√ß√£o cerebral de mudar de opini√£o e de certeza v√°rias vezes no mesmo dia. Deve ter, n√£o cren√ßas religiosas, opini√Ķes pol√≠ticas, predile√ß√Ķes liter√°rias, mas sensa√ß√Ķes religiosas, impress√Ķes pol√≠ticas, impulsos de admira√ß√£o liter√°ria.
Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem t√™m, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem est√° diante deles determinadas opini√Ķes pol√≠ticas, religiosas e art√≠sticas, aqueles que eles insinuem, e que variar√£o, como √© de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua intelig√™ncia espelhos do ambiente transit√≥rio: √© republicano de manh√£, e mon√°rquico ao crep√ļsculo; ateu sob um sol descoberto, √© cat√≥lico ultramontano a certas horas de sombra e de sil√™ncio; e n√£o podendo admitir sen√£o Mallarm√© √†queles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma inven√ß√£o de louco quando, ante uma solid√£o de mar, ele n√£o souber de mais do que da “Odisseia”.
Convic√ß√Ķes profundas, s√≥ as t√™m as criaturas superficiais. Os que n√£o reparam para as coisas quase que as v√™em apenas para n√£o esbarrar com elas, esses s√£o sempre da mesma opini√£o, s√£o os √≠ntegros e os coerentes. A pol√≠tica e a religi√£o gastam d’essa lenha, e √© por isso que ardem t√£o mal ante a Verdade e a Vida.
Quando √© que despertaremos para a justa no√ß√£o de que pol√≠tica, religi√£o e vida social s√£o apenas graus inferiores e plebeus da est√©tica ‚ÄĒ a est√©tica dos que ainda a n√£o podem ter? S√≥ quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coer√™ncia tiver acostumado as suas sensa√ß√Ķes a viverem independentemente, se poder√° conseguir qualquer coisa de beleza, eleg√Ęncia e serenidade na vida.