Passagens sobre Sensibilidade

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Imaginação ou Sensibilidade?

N√£o √© certo que para a cria√ß√£o de uma obra liter√°ria a imagina√ß√£o e a sensibilidade sejam qualidades equivalentes, e que a segunda possa sem grande inconveniente substituir a primeira, do mesmo modo que h√° pessoas cujo est√īmago √© incapaz de digerir e que encarregam os intestinos dessa fun√ß√£o. Um homem que nasceu sens√≠vel e que n√£o tenha imagina√ß√£o poder√° apesar disso escrever romances admir√°veis. O sofrimento que os outros lhe causar√£o, os esfor√ßos para o evitar, os conflitos que esse sofrimento e a outra pessoa cruel ir√£o criar, tudo isso, interpretado pela intelig√™ncia, poder√° constituir mat√©ria para um livro n√£o apenas t√£o belo como se tivesse sido imaginado, inventado, mas tamb√©m t√£o exterior aos sonhos, do autor, se este, feliz, se tivesse deixado arrastar por si mesmo, t√£o surpreendente para ele pr√≥prio, t√£o acidental como um capricho fortuito da imagina√ß√£o.

Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia.

Faltam-nos hoje n√£o apenas mestres da vida interior, mas simplesmente da vida, de uma vida total, de uma exist√™ncia digna de ser vivida. Faltam cart√≥grafos e testemunhas do cora√ß√£o humano, dos seus infindos e √°rduos caminhos, mas tamb√©m dos nossos quotidianos, onde tudo n√£o √© e √© extraordinariamente simples. Falta-nos uma nova gram√°tica que concilie no concreto os termos que a nossa cultura tem por inconcili√°veis: raz√£o e sensibilidade, efic√°cia e afetos, individualidade e compromisso social, gest√£o e compaix√£o, espiritualidade e sentidos, eternidade e instante. Ser√° que do instante dos sentidos podemos fazer uma m√≠stica? N√£o tenhamos d√ļvidas: o que est√° dito permanece ainda por dizer.

Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

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Escreve!

Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. Os crentes têm as suas horas de orar, mesmo não estando inclinados para isso. Concentram-se, fazem um esforço de contensão beata e lá conseguem. Esperam a graça e às vezes ela vem. Escrever é orar sem um deus para a oração. Porque o poder da divindade não passa apenas pela crença e é aí apenas uma modalidade de a fazer existir. Ela existe para os que não crêem, como expressão do sagrado sem divindade que a preencha. Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade? Decerto eles o fazem sendo crentes como os crentes pelo acto extremo de o manifestarem. Eles captarão assim o poder da transfiguração e do incognoscível na execução fria do acto em que isso deveria ser. Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante.

Sabe o que eu quero de verdade? Jamais perder a sensibilidade, mesmo que √†s vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela n√£o poderia sentir a mim mesma…

Mesmo que não se tenha a mais pequena sensibilidade às diferenças individuais, a pessoa contudo trata os outros com a sua maneira própria.

O Prazer e a Dor

O prazer e a dor n√£o conhecem a dura√ß√£o. A sua natureza √© dissiparem-se rapidamente e, por conseguinte, s√≥ existirem sob a condi√ß√£o de ser intermitente. Um prazer prolongado cessa logo de ser um prazer e uma dor continua logo se atenua. A sua diminui√ß√£o pode mesmo, por confronto, tornar-se um prazer. O prazer s√≥ √©, pois, um prazer sob a condi√ß√£o de ser descont√≠nuo. O √ļnico prazer um pouco dur√°vel √© o prazer n√£o realizado, ou desejo.
O prazer somente √© avali√°vel pela sua compara√ß√£o com a dor. Falar de prazer eterno √© um contra-senso, como justamente observou Plat√£o. Ignorando a dor, os deuses n√£o podem, segundo Plat√£o, ter prazer. A descontinuidade do prazer e da dor representa a conseq√ľ√™ncia dessa lei fisiol√≥gica: ‚ÄúA mudan√ßa √© a condi√ß√£o da sensa√ß√£o‚ÄĚ. N√£o percebemos os estados cont√≠nuos, por√©m as diferen√ßas entre estados simult√Ęneos ou sucessivos. O tique-taque do rel√≥gio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por n√£o ser mais ouvido, e o moleiro n√£o ser√° despertado pelo ru√≠do das rodas do seu moinho, mas pelo seu parar.

√Č em virtude dessa descontinuidade necess√°ria que o prazer prolongado cessa logo de ser um prazer, por√©m uma coisa neutra,

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O que é a experiência? Algo que quebra uma rotina educada e por um breve período nos permite testemunhar coisas com a sensibilidade aumentada que nos concede a novidade, o perigo, ou a beleza. As amizades nutridas somente por jantares ocasionais jamais terão a profundidade daquelas formadas numa viagem ou numa universidade.

A alma, ao contr√°rio do que tu sup√Ķes, a alma √© exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a mat√©ria. Em certos homens a alma chega a ser vis√≠vel, a atmosfera que os rodeia tomar cor. H√° seres cuja alma √© uma cont√≠nua exala√ß√£o: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda – imensa, dorida, fren√©tica. H√°-os cuja alma √© de uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Da√≠ tamb√©m simpatias e antipatias s√ļbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da mat√©ria comunicar. O amor n√£o √© sen√£o a impregna√ß√£o desses fluidos, formando uma s√≥ alma, como o √≥dio √© a repuls√£o dessa n√©voa sens√≠vel. Assim √© que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus.

A Devida Educação

Das coisas que mais custa ver é uma pessoa inteligente e criativa, quando nos está a contar uma opinião ou um acontecimento, ser diminuída pela falta de vocabulário Рou de outra coisa facilmente aprendida pela educação.
A distribuição humana de inteligência, graça, sensibilidade, sentido de humor, originalidade de pensamento e capacidade de expressão é independente da educação ou do grau de instrução. Em Portugal e, ainda mais, no mundo, onde as oportunidades de educação são muito mais desiguais, logo injustamente, distribuídas, é não só uma tragédia como um roubo.
Rouba-se mais aos que n√£o falam nem escrevem com os meios t√©cnicos de que precisam. Mas tamb√©m s√£o roubados aqueles, adequadamente educados, que n√£o podem ouvir ou ler os milh√Ķes de pessoas que s√≥ n√£o conseguem dizer plenamente o que querem, porque n√£o t√™m as ferramentas que t√™m as pessoas mais novas, com mais sorte.
Mete nojo a ideia de a educação ser uma coisa que se dá. Que o Estado ou o patrão oferece. Não é assim. A educação, de Platão para a frente, é mais uma coisa que se tira. Não educar é negativamente positivo: é como vendar os olhos ou cortar a língua.
O meu pai,

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A Realidade da Vida e a Realidade do Mundo

A nossa crença na realidade da vida e na realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa. A segunda provém basicamente da permanência e da durabilidade do mundo, bem superiores às da vida mortal. Se o homem soubesse que o mundo acabaria quando ele morresse, ou logo depois, esse mundo perderia toda a sua realidade, como a perdeu para os antigos cristãos, na medida em que estes estavam convencidos de que as suas expectativas escatológicas seriam imediatamente realizadas. A confiança na realidade da vida, pelo contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é experimentada, do impacte com que ela se faz sentir.
Esta intensidade √© t√£o grande e a sua for√ßa √© t√£o elementar que, onde quer que prevale√ßa, na alegria ou na dor, oblitera qualquer outra realidade mundana. J√° se observou muitas vezes que aquilo que a vida dos ricos perde em vitalidade, em intimidade com as ¬ęboas coisas¬Ľ da natureza, ganha em refinamento, em sensibilidade √†s coisas belas do mundo. O facto √© que a capacidade humana de vida no mundo implica sempre uma capacidade de transcender e alienar-se dos processos da pr√≥pria vida, enquanto a vitalidade e o vigor s√≥ podem ser conservados na medida em que os homens se disponham a arcar com o √≥nus,

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A Armadilha da Identidade

A mais perigosa armadilha é aquela que possui a aparência de uma ferramenta de emancipação. Uma dessas ciladas é a ideia de que nós, seres humanos, possuímos uma identidade essencial: somos o que somos porque estamos geneticamente programados. Ser-se mulher, homem, branco, negro, velho ou criança, ser-se doente ou infeliz, tudo isso surge como condição inscrita no ADN. Essas categorias parecem provir apenas da Natureza. A nossa existência resultaria, assim, apenas de uma leitura de um código de bases e nucleótidos.

Esta biologização da identidade é uma capciosa armadilha. Simone de Beauvoir disse: a verdadeira natureza humana é não ter natureza nenhuma. Com isso ela combatia a ideia estereotipada da identidade. Aquilo que somos não é o simples cumprir de um destino programado nos cromossomas, mas a realização de um ser que se constrói em trocas com os outros e com a realidade envolvente.

A imensa felicidade que a escrita me deu foi a de poder viajar por entre categorias existenciais. Na realidade, de pouco vale a leitura se ela n√£o nos fizer transitar de vidas. De pouco vale escrever ou ler se n√£o nos deixarmos dissolver por outras identidades e n√£o reacordarmos em outros corpos,

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O Mundo é de Quem não Sente

O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção Рa sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alhieo, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
Para agir √©, pois, preciso que nos n√£o figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza p√°ra. O homem de ac√ß√£o considera o mundo externo como composto exclusivamente de mat√©ria inerte – ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque n√£o lhe p√īde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como √† pedra, ou se afastou ou se passou por cima.

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A Razão ao Serviço do Instinto

O homem √© um ser que tem necessidades na medida em que pertence ao mundo sens√≠vel, e, a esse respeito, a sua raz√£o tem certamente um encargo que n√£o pode declinar em rela√ß√£o √† sensibilidade, o de se ocupar dos interesses da √ļltima, o de constituir m√°ximas pr√°ticas, em vista da felicidade desta vida e tamb√©m, quando √© poss√≠vel, da felicidade de uma vida futura. Mas n√£o √©, no entanto, t√£o completamente animal para ser indiferente a tudo o que a raz√£o lhe diz por ela mesma e para empreg√°-la simplesmente como um instrumento pr√≥prio para satisfazer as suas necessidades como ser sens√≠vel. Pois o facto de ter a raz√£o n√£o lhe d√° absolutamente um valor superior √† simples animalidade, se ela s√≥ devesse servir-lhe para o que o instinto realiza nos animais.

Tem a arte, para nascer, que ser de um indivíduo; para não morrer, que ser como estranha a ele. Deve nascer no indivíduo per, que não em, o que ele tem de individual. No artista nato a sensibilidade, subjectiva e pessoal, é, ao sê-lo, objectiva e impessoal também.

O Talento na Juventude e na Velhice

Nada menos exacto do que supor que o talento constitui privilégio da mocidade. Não. Nem da mocidade, nem da velhice. Não se é talentoso por se ser moço, nem genial por se ser velho. A certidão de idade não confere superioridade de espírito a ninguém. Nunca compreendi a hostilidade tradicional entre velhos e moços (que aliás enche a história das literaturas); e não percebo a razão por que os homens se lançam tantas vezes recíprocamente em rosto, como um agravo, a sua velhice ou a sua juventude.
Ser idoso não quer dizer que se seja necessáriamente intolerante e retrógado; e engana-se quem supuser que a mocidade, por si só, constitui garantia de progresso ou de renovação mental. As grandes descobertas que ilustram a história da ciência e contribuiram para o progresso humano são, em geral, obra dos velhos sábios; e a mocidade literária, negando embora sistemáticamente o passado, é nele que se inspira, até que o escritor adquire (quando adquire) personalidade própria.
(…) A mocidade, em geral, n√£o cria; utiliza, transformando-o, o legado que recebeu. Juventude e velhice n√£o se op√Ķem; completam-se na harmonia universal dos seres e das coisas. A vida n√£o √© s√≥ o entusiasmo dos mo√ßos;

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Cada um só vê do universo aquilo que a sua sensibilidade ou a sua maneira de ser lhe permite. O universo pode ser muito mais vasto e muito mais diferente do que aquilo que é apenas o nosso mundo.