Textos sobre Flores

71 resultados
Textos de flores escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Lucidez da Velhice

A mocidade √© noivado, como a velhice √© viuvez. Um jovem, por mais marido que seja, √© noivo ainda; e um velho, embora casado, √© j√° vi√ļvo… um solit√°rio guardando as cinzas duma flor. Mas dessas cinzas o seu esp√≠rito se alimenta. Alimenta-se de pureza, pois a cinza √© o que resta dum inc√™ndio, essa purifica√ß√£o suprema. Por isso, a consci√™ncia √© um atributo da velhice, e tamb√©m a ci√™ncia. A consci√™ncia √© a ci√™ncia connosco, a ci√™ncia identificada ao nosso ser, que entra no pleno conhecimento de si mesmo, e do seu poder representativo do Universo. A velhice √© uma noite maravilhosa em que brilham as nossas ideias, uma atmosfera l√≠mpida ou varrida pelo z√©firo da morte, a √ļnica Deusa verdadeira.

S√£o as Pessoas como Tu

S√£o as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupa√ß√Ķes maiores sejam de facto mais pequenas. S√£o as pessoas como tu que d√£o outra dimens√£o aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma esta√ß√£o de rosas rubras.
As pessoas como tu possuem n√£o uma, mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam porque amar √© tamb√©m partilhar as m√£os e o corpo. Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansa√ßo numa esperan√ßa aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de √°gua pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do p√°ssaro ou a firmeza da flecha. S√£o as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que h√° no dorso das manh√£s, e nos estendem os bra√ßos e nos apertam at√© sentirmos o cora√ß√£o transformar o peito numa m√ļsica infinita. S√£o as pessoas como tu que n√£o nos pedem nada mas t√™m sempre tudo para dar, e que fazem de n√≥s nem √≠caros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justi√ßa,

Continue lendo…

N√£o Ser√° Tempo de Voltarmos aos Sentidos?

N√£o somos apenas o nosso corpo, estamos tamb√©m integrados num corpus social, que solicita, expande e reprime a nossa sensibilidade. Basta ouvir aquele que foi o maior te√≥rico da comunica√ß√£o do s√©culo XX, Marshall McLuhan, para perceber at√© que ponto isso √© aproveitado pela sociedade de comunica√ß√£o global, para quem o indiv√≠duo passa a ser uma presa. O que diz McLuhan sobre a televis√£o, por exemplo, √© imensamente elucidativo: ¬ęUm dos efeitos da televis√£o √© retirar a identidade pessoal. S√≥ por ver televis√£o, as pessoas tornam-se num grupo coletivo de iguais. Perdem o interesse pela singularidade pessoal.¬Ľ Se repararmos, os meios que lideram a comunica√ß√£o humana contempor√Ęnea (da televis√£o ao telefone, do e-mail √†s redes sociais) interagem apenas com aqueles dos nossos sentidos que captam sinais √† dist√Ęncia: fundamentalmente a vis√£o e a audi√ß√£o. Origina-se assim uma descontrolada hipertrofia dos olhos e ouvidos, sobre os quais passa a recair toda a responsabilidade pela participa√ß√£o no real. ¬ęViste aquilo?¬Ľ, ¬ęj√° ouviste a √ļltima do…¬Ľ: os nossos quotidianos s√£o continuamente bombardeados pela press√£o do ver e do ouvir. O mesmo se passa com a locomo√ß√£o: seja a pilotar um avi√£o, a conduzir um autom√≥vel, ou seja o pe√£o a deslocar-se nas art√©rias das cidades modernas,

Continue lendo…

√Č Preciso Repensar a Nossa Vida

√Č preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do caf√©, de que nos servimos de manh√£, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posi√ß√£o do escritor, que √© uma posi√ß√£o universal, no lugar de Deus, acima da condi√ß√£o humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir‚Ķ Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que √© um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que n√£o tem nada a ver com aquilo que existe √† flor da pele. Tem a ver com uma experi√™ncia radical do mundo.
Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí,

Continue lendo…

N√£o te Queixes

N√£o te queixes. Recolhe em ti a amargura, n√£o a disperses, n√£o a esbanjes com os outros. Ela √© tua, nasceu de ti, da tua mis√©ria, pertence-te como os ossos e as v√≠sceras. Concentra-te nela, absorve-a, faz dela a tua grandeza. Porque s√≥ se √© grande pelo sofrimento, n√£o pela futilidade do prazer. As pedras n√£o sofrem, Cristo esteve ¬ętriste at√© √† morte¬Ľ. Tem desprezo pelos homens felizes, porque dos homens felizes ¬ęn√£o reza a hist√≥ria¬Ľ. S√≥ a dor pode medir o teu tamanho de excep√ß√£o, s√≥ ela pode medir o que tu vales. O sofrimento med√≠ocre n√£o d√° mais do que a com√©dia, mas a grandeza da trag√©dia s√≥ pode atribuir-se aos grandes. N√£o te aconselho a que v√°s ao encontro da amargura, mas se ela vier ter contigo, acolhe-a com serenidade. N√£o sucumbas aos seus golpes, aguenta-os at√© onde puderes. E se √©s homem de verdade, tu a aguentar√°s.
Também as grandes alegrias são do destino dos grandes, porque elas são irmãs dos grandes sofrimentos. Só os pequenos e mesquinhos se alegram e sofrem com o que é mesquinho e pequeno. Aquilo que é pequeno é imperceptível a quem o não é. Que juízo fazem de ti,

Continue lendo…

O Gosto pela Cultura

√Č mais dif√≠cil encontrar um gentleman que um g√©nio. A marca mais distintiva de um homem culto √© a possibilidade de aceitar um ponto de vista diferente do seu; p√īr-se no lugar de outra pessoa e ver a vida e os seus problemas dessa perspectiva diferente. Estar disposto a experimentar uma ideia nova; poder viver nos limites das diverg√™ncias intelectuais; examinar sem calor os problemas escaldantes do dia; ter simpatia imaginativa, largueza e flexibilidade de esp√≠rito, estabilidade e equil√≠brio de sentimentos, calma ponderada para decidir – √© ter cultura.
(…) A cultura vem da contempla√ß√£o da natureza; do estudo da Literatura, Arte e Arquitectura com letras grandes; e do conhecimento pessoal das realidades emocionais da exist√™ncia. √Č uma escala de valores, ou m√©ritos, diferente da usada nas esferas dominadas pela ci√™ncia e pelo com√©rcio. Vivemos numa cultura onde o sucesso √© medido pelos bens materiais. √Č importante alcan√ßar objectivos materiais, mas ainda √© mais importante ser-se cidad√£o amadurecido, bem equilibrado e culto.

A cultura (…) est√° em n√≥s e n√£o sepultada em estranhas galerias. Significa bondade de esp√≠rito e √© a base de um bom car√°cter. A plenitude da vida n√£o vem das coisas exteriores a n√≥s;

Continue lendo…

Quando Falo com Sinceridade n√£o sei com que Sinceridade Falo

N√£o sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou váriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto cren√ßas que n√£o tenho. Enlevam-me √Ęnsias que repudio. A minha perp√©tua aten√ß√£o sobre mim perp√©tuamente me ponta trai√ß√Ķes de alma a um car√°cter que talvez eu n√£o tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me m√ļltiplo. Sou como um quarto com in√ļmeros espelhos fant√°sticos que torcem para reflex√Ķes falsas uma √ļnica anterior realidade que n√£o est√° em nenhuma e est√° em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

A Degrada√ß√£o das Paix√Ķes Colectivas

As paix√Ķes colectivas s√£o muito pouco numerosas e de qualidade grosseira: o meu Deus √© o √ļnico Deus; a minha pol√≠tica √© a verdade universal; o meu pa√≠s tem como voca√ß√£o dominar os outros. Enquanto isto, as paix√Ķes individuais s√£o de uma diversidade infinita, de uma tissura imprevis√≠vel e sempre surpreendente. Sou pela cultura dessas mil flores diferentes. N√£o sou favor√°vel a tr√™s ou quatro flores carn√≠voras gigantescas.

A Arte Est√° em Todo o Lado

N√≥s n√£o nos damos conta de como a arte nos trespassa de todo o lado. Anotar isso aos que vaticinam a morte da arte. Isto ao n√≠vel mais corriqueiro. Dispor os m√≥veis numa sala √© fazer arte. Ou olhar uma paisagem, p√īr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apar√°-la quando comprida. Todas as coisas de cerim√≥nia t√™m que ver com a arte. E o corte das unhas.
Todo o jogo. Toda a verdade que releva da emo√ß√£o. √Äs vezes mesmo a escolha do papel higi√©nico. Mas mesmo a desordem. Bergson, creio, dizia que se tudo fosse desordenado, n√≥s acabar√≠amos por ler a√≠ uma ordem. E n√£o √© o que fazemos ao inventarmos as constela√ß√Ķes? Admitir a morte da arte √© admitir a morte do homem, que imp√Ķe essa arte a tudo o que v√™. Mas tenho de ir √† casa de banho. A ver se invento arte mesmo a√≠. (Mas quando disse ¬ęcasa de banho¬Ľ e n√£o ¬ęretrete¬Ľ, j√° a inventei.)

A Alma Dominada pela Solid√£o

Se protegerdes com demasiada devoção o jardin secret da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão.

Paix√£o √önica

Quem me dera poder ver-te!
Ai! quem me dera dizer-te,
Que pude amar-te, e perder-te,
Mas olvidar-te… isso n√£o!
Que no ardor de outros amores,
Através de mil dissabores,
Senti vivas sempre as dores
Duma remota paix√£o.

Com que dorida saudade
Penso nessa mocidade,
Nessa vaga ansiedade,
Que soubeste compreender!
E tu só, só tu soubeste,
Que, num mundo, como este,
Qual florinha em penha agreste,
Pode a flor da alma morrer.

Orvalhaste-a quando ainda,
Ao nascer, singela e linda,
Respirava a esperança infinda,
Que consigo a inf√Ęncia tem.
Amparaste-a, quando o norte
Das paix√Ķes, soprando forte,
Lhe quiz dar r√°pida morte
Como √† c√Ęndida cecem!

E, depois, nuvem escura
Lá no céu desta ventura
Enlutou-me a aurora pura
Dos meus anos infantis.
Houve nesta vida um espaço,
Onde nunca dei um passo,
Em que não deixasse um traço
De paix√Ķes torpes e vis !

E não tenho outra memória
Que me inspire altiva gloria,
Nem outro nome na historia
De meus delírios fatais.

Continue lendo…

A Vida Que Nos Escapa Entre os Dedos

Volta-se o rico para os prazeres da carne e a maior parte do mundo faz o mesmo. E n√£o sem acerto, porque todas as coisas agrad√°veis devem ser tidas como inocentes, e at√© que se provem culpadas todas as presun√ß√Ķes pendem a seu favor. A vida j√° √© bastante penosa para que ainda a agravemos com proibi√ß√Ķes e obst√°culos aos seus deleites; t√£o arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. A carne enfraquece muito precocemente – e os olhos olham com melancolia para os prazeres de outrora. Muito r√°pidamente todas as alegrias perdem a vivacidade – e admiramo-nos de como pudessem ter-nos interessado tanto. O pr√≥prio amor torna-se grotesco logo que atinge os seus fins. Guardemos o ascetismo para a esta√ß√£o pr√≥pria – a velhice.
√Č este o grande drama do prazer; todas as coisas agrad√°veis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto √© mais retribu√≠do. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e inj√ļrias e demoramo-nos sobre as vit√≥rias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual s√≥ retemos na mem√≥ria o bom,

Continue lendo…

O Significado da Vida

Terá a vida algum significado, algum sentido ou valor? A pergunta é: a vida, viver, terá algum propósito? Será que viver nos fará chegar, um dia, a algum lado? Viver é um meio. A meta, o objetivo, esse lugar muito distante situado algures, é o fim. E é esse fim que lhe confere sentido. Se não houver um fim, a vida não terá, certamente, sentido, e será preciso criar um Deus para lhe dar sentido.
Primeiro, foi preciso separar os fins dos meios. Isto divide a nossa mente. A nossa mente est√° sempre a perguntar porqu√™? Para qu√™? E tudo o que n√£o consegue dar uma resposta √† pergunta ¬ęPara qu√™?¬Ľ vai perdendo lentamente valor para n√≥s. Foi assim que o amor se tornou algo sem valor. Que sentido faz o amor? Onde poder√° levar-nos? Que alcan√ßaremos com ele? Chegaremos a alguma utopia, a algum para√≠so? √Č evidente que, encarado dessa maneira, o amor n√£o faz nenhum sentido. √Č v√£o.

Que sentido tem a beleza? Contemplamos um p√īr do sol e ficamos deslumbrados com a sua grande beleza, mas qualquer idiota pode perguntar-nos, ¬ęQue significa um p√īr do sol?¬Ľ, e n√£o teremos uma resposta para lhe dar.

Continue lendo…

Conta Comigo Sempre

Conta comigo sempre. Desde a s√≠laba inicial at√© √† √ļltima gota de sangue. Venho do sil√™ncio incerto do poema e sou, umas vezes constela√ß√£o e outras vezes √°rvore, tantas vezes equil√≠brio, outras tantas tempestade. A nossa mem√≥ria √© um mist√©rio, recordo-me de uma m√ļsica maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o obo√©.
O sonho √©, e ser√° sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o p√£o amadurecido da d√ļvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as m√£os com uma fragilidade que √© um p√°ssaro s√°bio e distra√≠do que se aninha no cora√ß√£o e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar.

Continue lendo…

Talento não é Sabedoria

Deixa-me dizer-te francamente o ju√≠zo que eu formo do homem transcendente em g√©nio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes. O homem de talento √© sempre um mau homem. Alguns conhe√ßo eu que o mundo proclama virtuosos e s√°bios. Deix√°-los proclamar. O talento n√£o √© sabedoria. Sabedoria √© o trabalho incessante do esp√≠rito sobra a ci√™ncia. O talento √© a vibra√ß√£o convulsiva de esp√≠rito, a originalidade inventiva e rebelde √† autoridade, a viagem ext√°tica pelas regi√Ķes inc√≥gnitas da ideia. Agostinho, F√©nelon, Madame de Sta√ęl e Bentham s√£o sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron s√£o talentos.
Compara as vicissitudes dessas duas mulheres e os servi√ßos prestados √† humanidade por esses homens, e ter√°s encontrado o antagonismo social em que lutam o talento com a sabedoria. Porque √© mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio um espinho envenenado ? Essa espl√™ndida ta√ßa de brilhantes e ouro porque √© que cont√©m o fel, que abrasa os l√°bios de quem a toca ? Aqui tens um tema para trabalhos superiores √† cabe√ßa de uma mulher, ainda mesmo refor√ßada por duas d√ļzias de cabe√ßas acad√©micas !

Continue lendo…

As Ilhas e as Flores

Percorreu um trilho ao longo da manh√£ e sentou-se a comer entre as az√°leas. Quando um dia voltasse a partir, talvez nada lhe fizesse tanta falta como as flores. As hort√™nsias e as √°rvores-de-fogo, as beladonas e as cam√©lias, as magn√≥lias e as olaias: encantava-o a cad√™ncia a que floriam naquela ilha ‚ÄĒ e depois ainda havia os hibiscos, os jarros e os mantos infinitos de erva azeda, sempre prontos a acorrer a algum sobressalto da meteorologia, para que nunca faltasse a cor.
Podia dizer-se o que se quisesse sobre as ilhas, menos que fossem claustrofóbicas. Não as ilhas onde houvesse flores.

Felicidade a Longo Prazo

Procuremos manter-nos de boa sa√ļde, n√£o ter quaisquer preconceitos, ter paix√Ķes, p√ī-las ao servi√ßo da nossa felicidade, substituir as nossas paix√Ķes por gostos, conservar preciosamente as nossas ilus√Ķes, ser virtuosos, nunca nos arrependermos, afastar de n√≥s as ideias tristes e nunca permitir ao nosso cora√ß√£o conservar uma centelha de gosto por algu√©m cujo gosto diminua e que deixe de amar-nos. Por pouco que envelhe√ßamos, um dia seremos for√ßados a abrir m√£o do amor, e esse dia deve ser aquele em que o amor j√° n√£o nos fa√ßa felizes. Pensemos, enfim, em cultivar o gosto pelo estudo, esse gosto que faz depender a felicidade apenas de n√≥s pr√≥prios. Ponhamo-nos ao abrigo da ambi√ß√£o e, sobretudo, cuidemos bem de saber o que queremos ser; decidamo-nos sobre o caminho que queremos seguir para passar a nossa vida e procuremos seme√°-lo de flores.

A Destruição de Tudo

√Č a palavra de ordem para o homem de hoje. Destruir. Tudo. Os deuses, as artes, diferen√ßas culturais, ou a s√≥ cultura, diferen√ßas sexuais, diferen√ßas liter√°rias ou a s√≥ literatura que leva hoje tudo, valores de qualquer esp√©cie, filosofias, o simples pensamento, a simples palavra – tudo alegremente ao caixote. Entretanto, ou por isso, prolifera√ß√£o das gentes com a forma que lhes pertence, devasta√ß√£o da sida, que foi o que de melhor a natureza arranjou para equilibrar a demografia, droga dura para se avan√ßar na vida mais depressa, criminalidade para esse avan√ßo, juventude de esgotos nocturnos, velhos em excesso e que n√£o h√° maneira de se despacharem e atulham os chamados lares de idosos ou simplesmente os dep√≥sitos em que s√£o largados at√© mudarem de cemit√©rio, politiqueiros que t√™m a verdade do erro que se segue e o mais e o mais. √Č tempo de cair um pedregulho como o que acabou com os dinossauros h√° sessenta milh√Ķes de anos e de poder dar-se a hip√≥tese de a vida recome√ßar. At√© que venha outra vez a destrui√ß√£o e Deus definitivamente se farte do brinquedo. Entretanto v√™ se v√™s ainda alguma flor ao natural e demora-te um pouco a admirar-lhe a beleza e estupidez.

Continue lendo…

A Fonte da Harmonia

A boa disposi√ß√£o e a alegria de um c√£o, o seu amor incondicional pela vida e a prontid√£o dele para a celebrar a todo o momento contrasta muito com o estado de esp√≠rito do dono – deprimido, ansioso, sobrecarregado de problemas, perdido em pensamentos, ausente do √ļnico lugar e do √ļnico tempo que existe: o Aqui e o Agora. E uma pessoa interroga-se: vivendo com algu√©m assim, como consegue o c√£o manter-se t√£o equilibrado e s√£o, t√£o cheio de alegria?

Quando apreendemos a Natureza apenas através da mente, do pensamento, não somos capazes de sentir a sua força de viver e de existir. Vemos somente a parte física, a matéria, e não nos apercebemos da vida interior Рo mistério sagrado. O pensamento reduz a Natureza a uma mercadoria que se usa na busca de benefícios ou de conhecimento ou de qualquer outro fim utilitário. A floresta ancestral passa a ser vista apenas como madeira, o pássaro como um objecto de investigação, a montanha como alguma coisa para se explorar ou conquistar.

Quando se apreende a Natureza, deve-se permitir que hajam momentos sem pensamento, sem a intervenção da mente. Ao aproximarmo-nos da Natureza desta maneira, ela responde-nos e,

Continue lendo…

N√£o Penses

N√£o penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar √© trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar √© n√£o ver. Olha apenas, v√™. Est√° um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o fil√≥sofo da ave de Minerva. Mas n√£o agora. H√° alegria bastante para se n√£o pensar, que √© coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de n√≠vel, havia um aviso de ¬ępare, escute, olhe¬Ľ com vistas ao atropelo dos comboios. √Č o aviso que devia haver nestes dias magn√≠ficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos p√°ssaros. N√£o penses, que √© sacril√©gio.