Passagens sobre Lenha

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Frases sobre lenha, poemas sobre lenha e outras passagens sobre lenha para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Natureza de Escravo

Desde quando √© que se tornou digno de louvor o facto de algu√©m possuir uma natureza de escravo? Depois de todos os s√≠mbolos do poder terem desaparecido, j√° n√£o tinhas qualquer raz√£o para obedecer, mas continuaste a faz√™-lo. Que for√ßa misteriosa te impelia a obedecer √†s ordens de pessoas t√£o desgra√ßadas como tu, t√£o nuas e miser√°veis como tu? Eras demasiado cobarde para tentares fazer como os outros, para experimentares dizer uma vez que fosse ao capit√£o: vai buscar lenha, preciso de me aquecer √† fogueira. N√£o, tinhas descoberto uma outra solu√ß√£o; enquanto estavas ainda saciado, calculavas friamente que chegaria a hora em que a tua fome seria maior do que a dos outros todos. E ent√£o pensavas: em breve ficarei faminto, tornar-me-ei selvagem e sem escr√ļpulos, revoltar-me-ei, n√£o abertamente, mas de modo dissimulado, contra estes terroristas. Com a cabe√ßa fria, fazias projectos sobre a maneira como utilizarias a tua embriaguez, e √© isso que √© desprez√≠vel.

Prel√ļdio de Natal

Tudo principiava
pela c√ļmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas.

Barganha

Domingo é dia de barganha.
Troco um relógio dos antigos
por um cavalo rosilho,
um bode por um trinca-ferro,
e uma roda de cabriolé
por um radinho de pilha.
Troco um gib√£o de cigano
pela serra que serrou
o tronco mais odorante
e por um fog√£o de lenha
troco um cachorro de caça
e uma panela de cobre.
Troco toda a luz do sol
pela sombra de um só pássaro.
Por uma espingarda troco
um tacho que foi de escravos
além de um almofariz
e uma xícara sem asa.
Troco a salmoura dos peixes
por qualquer gosto de l√°grima.
Pela vitrola rachada
dou a minha bicicleta
com os pneus arriados.
Troco o entulho que restou
do muro que derrubei
pelo calor da fogueira
que por uma noite apenas
negou o frio dos pobres.
Troco um lençol de noivado
e uma toalha bordada
pela sua reflectida
na escurid√£o das cisternas.
Troco o meu selim de couro
por um arreio de prata.
Dou um caminh√£o de pedra
por um port√£o de peroba.

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Os homens aproveitam o que lhes convém, fazem-se desentendidos, mas nunca se esquecem de nada, acumulam todo esse material como lenha para te queimar.

Se Me Esqueceres

Quero que saibas
uma coisa.

Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalp√°vel cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de s√ļbito
me esqueceres
n√£o me procures,
porque j√° te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,

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Minha M√£e que n√£o Tenho

Minha mãe que não tenho    meu lençol
de linho¬†¬†¬† de carinho¬†¬†¬† de dist√Ęncia
água memória viva do retrato
que √†s vezes mata a sede da inf√Ęncia.

Ai √°gua que n√£o bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço    ai mãe    ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste?    De que Ganges?
De qual pai t√£o distante me pariste
minha mãe    minha dívida de sangue
minha raz√£o de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho    minha força
sumo da f√ļria que fechei por dentro
serás sibila    virgem    buda    corça
ou apenas um mundo em que n√£o entro?

Minha mãe que não tenho    inventa-me primeiro:
constrói a casa    a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo    que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

Os Figos Pretos

РVerdes figueiras soluçantes nos caminhos!
Vós sois odiadas desde os seculos avós:
Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

– √ď verdes figueiras! √≥ verdes figueiras
Deixae-o fallar!
√Ā vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
Que bom que é amar!

– O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

– Quando eu for defunta para os esqueletos,
Ponde uma ao meu lado:
Tristinha, chorando, dar√† figos pretos…
De luto pezado!

– Os alde√Ķes para evitar vosso perfume
Sua respira√ß√£o suspendem, ao passar…
Com vossa lenha n√£o se accende, √° noite, o lume,
Os carpinteiros n√£o vos querem aplainar.

– Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
Que incensa o Senhor!
Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
Para o meu amor…

– As outras arvores n√£o s√£o vossas amigas…
M√£os espalmadas, estendidas, supplicantes,

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Já não adianta nada dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Para os que matam em nome de Deus, Deus é o Pai poderoso que juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e coloca a bomba.

Inf√Ęncia

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar √© preciso; viver n√£o √© preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
N√£o conto gozar a minha vida; nem em goz√°-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

√Č a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Ra√ßa.

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o.

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Pouco Usamos do Pouco que Mal Temos

Cuidas, ínvio, que cumpres, apertando
Teus infecundos, trabalhosos dias
Em feixes de hirta lenha,
Sem ilus√£o a vida.
A tua lenha é só peso que levas
Para onde não tens fogo que te aqueça,
Nem sofrem peso aos ombros
As sombras que seremos.
Para folgar n√£o folgas; e, se leoas,
Antes legues o exemplo, que riquezas,
De como a vida basta
Curta, nem também dura.
Pouco usamos do pouco que mal temos.
A obra cansa, o ouro não é nosso.
De nós a mesma fama
Ri-se, que a n√£o veremos
Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes, de repente antigos,
E cada vez mais sombras,
Ao encontro fatal ‚ÄĒ
O barco escuro no soturno rio,
E os novos abraços da frieza estígia
E o regaço insaciável
Da p√°tria de Plut√£o.

Toda virtude tem seus privilégios: por exemplo, o de levar seu próprio feixezinho de lenha para a fogueira do condenado.

As Balas

D√° o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
D√° a cama e a mesa o verde pinho
As balas d√£o o sangue derramado

D√° a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama d√° calor
As balas d√£o o sangue derramado

D√° a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos cora√ß√Ķes d√° amor renascido
As balas d√£o o sangue derramado

D√° o Sol as searas pelo Ver√£o
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno d√° o p√£o
As balas d√£o o sangue derramado

D√° cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
D√° a conquista um puro sentimento
As balas d√£o o sangue derramado

Do meditar, concluir, ir e fazer
D√° sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas d√£o o sangue derramado

D√° a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que o sangue derramado

Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.

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Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.