Passagens sobre Crep√ļsculo

78 resultados
Frases sobre crep√ļsculo, poemas sobre crep√ļsculo e outras passagens sobre crep√ļsculo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Assim Choram os Deuses

Os deuses desterrados.
Os irm√£os de Saturno,
√Äs vezes, no crep√ļsculo
Vêm espreitar a vida.

Vêm então ter conosco
Remorsos e saudades
E sentimentos falsos.
√Č a presen√ßa deles,
Deuses que o destron√°-los
Tornou espirituais,
De matéria vencida,
Longínqua e inativa.

V√™m, in√ļteis for√ßas,
Solicitar em nós
As dores e os cansaços,
Que nos tiram da m√£o,
Como a um bêbedo mole,
A taça da alegria.

Vêm fazer-nos crer,
Despeitadas ruínas
De primitivas forças,
Que o mundo é mais extenso
Que o que se vê e palpa,
Para que ofendamos
A J√ļpiter e a Apolo.

Assim até à beira
Terrena do horizonte
Hiperion no crep√ļsculo
Vem chorar pelo carro
Que Apolo lhe roubou.

E o poente tem cores
Da dor dum deus longínquo,
E ouve-se soluçar
Para al√©m das esferas…
Assim choram os deuses.

Sem um Filho te Apagar√°s no Poente

A luz real ergueu-se a oriente
com a coroa de fogo na cabeça:
e o nosso olhar, vassalo obediente,
ajoelha ante a visão que recomeça.

Enquanto sobe, Sua Majestade,
a colina do céu a passos de oiro,
adoramos-lhe a adulta mocidade
que fulge com as chamas dum tesoiro.

Mas quando o carro fatigado alcança
o cume e se despenha pela tarde,
desviamos os olhos já sem esperança:

no crep√ļsculo est√©ril nada arde.
Assim tu, meio dia ainda ardente,
sem um filho te apagar√°s no poente.

Tradução de Carlos de Oliveira

√āngelus

Desmaia a tarde. Além, pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do √āngelus ao solu√ßo agoniado e plangente.

Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crep√ļsculo desce,
A ave-maria vai cantando, tristemente.

Nest’hora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja m√°goa me invade,

Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.

Se a nossa vida fosse um eterno estar-√†-janela, se assim fic√°ssemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crep√ļsculo dolorindo a curva dos montes.

Do Outro Lado

Tamb√©m eu j√° me sentei algumas vezes √†s portas do crep√ļsculo, mas quero dizer-te que o meu com√©rcio n√£o √© o da alma, h√° igrejas de sobra e ningu√©m te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela p√°tria, isso √© contigo; pode at√© acontecer que morras por qualquer coisa que te perten√ßa, pois sempre p√°trias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas n√£o me pe√ßas a mim, que s√≥ conhe√ßo os caminhos da sede, que te mostre a direc√ß√£o das nascentes.

C√Ęntico da Noite

Sumiu-se o sol esplêndido
Nas vagas rumorosas!
Em trevas o crep√ļsculo
Foi desfolhando as rosas!
Pela ampla terra alargar-se
Calada solid√£o!
Parece o mundo um t√ļmulo
Sob estrelado manto!
Alabastrina l√Ęmpada,
L√° sobe a lua! Entanto
Gemidos d‚Äôaves l√ļgubres
Soando a espaços vão!
Hora dos melancólicos,
Saudosos devaneios!
Hora que aos gostos íntimos
Abres os castos seios!
Infunde em nossos √Ęnimos
Inspiração da fé!
De noite, se um revérbero
De Deus nos alumia,
Destila-se de l√°grimas
A prece, a profecia!
A alma elevada em êxtase
Terrena já não é!
Antes que o sono t√°cito
Olhos nos cerre, e os sonhos
Nos tomem no seu vórtice,
J√° rindo, e j√° medonhos,
Hora dos céus, conserva-me
No extinto e no porvir.
Onde os que amei? sumiram-se.
Onde o que eu fui? deixou-me.
Deles, só vãs memórias;
De mim, só resta um nome:
No abismo do pretérito
Desfez-se choro e r√ļy
Desfez-se! e quantas l√°grimas
Brotaram de alegrias! Desfez-se!
e quantos j√ļbilos
Nasceram de agonias!

Continue lendo…

Dispers√£o

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
√Č com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na √Ęnsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
N√£o tenho amanh√£ nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é familia,
√Č bem-estar, √© singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia).

O pobre mo√ßo das √Ęnsias…
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas √Ęnsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traíu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho,

Continue lendo…

A juventude passa e o crep√ļsculo espalha-se no seu sorriso.
A vida, exilada do seu sonho é uma viagem sombria.

A Noite Desce

Como p√°lpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce… Ah! doces m√£os piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim m√£os de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crep√ļsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz…
Perfume de baunilha ou de lil√°s,
A noite p√Ķe embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma…
Meu doce Amor tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!

O estatuto da realidade: descobrir esse doce exerc√≠cio destrona a asc√©tica parcim√≥nia do pensar racional. Mais do que um mero crep√ļsculo, flex√≠vel ou determinado, o pensamento precisa de ilus√£o e assim a obra de arte abre-se em leque sobre o invent√°rio do mundo.

Um Amor

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na m√£o,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanh√°mos o crep√ļsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

A Arte da Recordação

A mem√≥ria √© n√£o-mediada, e o que vem em seu aux√≠lio vem directamente; a recorda√ß√£o √© sempre reflectida. √Č por isso que recordar √© uma arte. Como Tem√≠stocles, em vez de lembrar, desejo poder esquecer; por√©m, recordar e esquecer n√£o s√£o opostos. N√£o √© f√°cil a arte de recordar, porque a recorda√ß√£o, no momento em que √© preparada, pode modificar-se, enquanto a mem√≥ria se limita a flutuar entre a lembran√ßa certa e a lembran√ßa errada. Por exemplo, o que √© a saudade? √Č vir √† recorda√ß√£o algo que est√° na mem√≥ria. A saudade gera-se simplesmente pelo facto de se estar ausente. Arte seria conseguir sentir-se saudade sem se estar ausente. Para tanto √© preciso estar-se treinado em mat√©ria de ilus√£o. Viver numa ilus√£o, em que o crep√ļsculo √© cont√≠nuo e nunca se faz dia, ou algu√©m ver-se reflectido numa ilus√£o, n√£o √© t√£o dif√≠cil como algu√©m reflectir-se para dentro de uma ilus√£o e ser capaz de deix√°-la agir sobre si, com todo o poder que √© o da ilus√£o, apesar de se ter pleno conhecimento disso. A magia de trazer at√© si o passado n√£o √© t√£o dif√≠cil como a de fazer desaparecer o que est√° presente em benef√≠cio da recorda√ß√£o.

Continue lendo…

Velho

Est√°s morto, est√°s velho, est√°s cansado!
Como um sulco de l√°grimas pungidas,
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.

Envolve-te o crep√ļsculo gelado
Onde vai soturno amortalhando as vidas
Ante o responso em m√ļsicas gemidas
No fundo coração dilacerado.

A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga
Que os teus nervos círculos governa.

Est√°s velho, est√°s morto! √ď dor, del√≠rio,
Alma despedaçada de martírio,
√ď desespero da Desgra√ßa eterna!

O Maior Triunfo do Homem

O maior triunfo do homem é quando se convence de que o ridículo é uma coisa sua que existe só para os outros, e, mesmo, sempre que outros queiram. Ele então deixa de importar-se com o ridículo, que, como não está em si, ele não pode matar.

Três coisas tem o homem superior que ensinar-se a esquecer para que possa gozar no perfeito silêncio a sua superioridade Рo ridículo, o trabalho e a dedicação.
Como não se dedica a ninguém, também nada exige da dedicação alheia. Sóbrio, casto, frugal, tocando o menos possível na vida, tanto para não se incomodar como para não aproximar as coisas de mais, a ponto de destruir nelas a capacidade de serem sonhadas, ele isola-se por conveniência do orgulho e da desilusão. Aprende a sentir tudo sem o sentir directamente; porque sentir directamente é submeter-se Рsubmeter-se à acção da coisa sentida.

Vive nas dores e nas alegrias alheias, Whitman ol√≠mpico, Proteu da compreens√£o, sem partilhar de viv√™-las realmente. Pode, a seu talante, embarcar ou ficar nas partidas de navios e pode ficar e embarcar ao mesmo tempo, porque n√£o embarca nem fica. Esteve com todos em todas as sensa√ß√Ķes de todas as horas da sua vida.

Continue lendo…

Para qu√™ olhar para os crep√ļsculos se tenho em mim milhares de crep√ļsculos diversos – alguns dos quais que o n√£o s√£o – e se, al√©m de os olhar dentro de mim, eu pr√≥prio os sou, por dentro?

Ode para o Futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crep√ļsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. M√ļsica suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na dist√Ęncia.
√Čramos livres. Fal√°vamos, sab√≠amos,
e am√°vamos serena e docemente.

Uma ang√ļstia delida, melanc√≥lica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as pris√Ķes,
as mortes, o amor vendido,
as l√°grimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
– apenas uma ang√ļstia melanc√≥lica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós Рde nós! Рcomo de um sonho.

LXVIII

Apenas rebentava no oriente
A clara luz da aurora, quando Fido,
O repouso deixando aborrecido,
Se punha a contemplar no mal, que sente.

Vê a nuvem, que foge ao transparente
An√ļncio do crep√ļsculo luzido;
E vê de todo em riso convertido
O horror, que dissipara o raio ardente.

Por que (diz) esta sorte, que se alcança
Entre a sombra, e a luz, n√£o sinto agora
No mal, que me atormenta, e que me cansa?

Aqui toda a tristeza se melhora:
Mas eu sem o prazer de uma esperança
Passo o ano, e o mês, o dia, a hora.

Uma Cidade

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e ger√Ęnios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algod√£o, esporas
de √°gua e flancos
de granito.
Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crep√ļsculo, um bal√£o
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.

A melancolia comp√Ķe-se de oscila√ß√Ķes morais, das quais a primeira atinge a desespera√ß√£o e a √ļltima o prazer; na mocidade √© o crep√ļsculo matutino, na velhice o da tarde.