Poemas sobre Vazio

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Poemas de vazio escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Trova do Vento que Passa

Para António Portugal

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios n√£o me sossegam
levam sonhos deixam m√°goas.

Levam sonhos deixam m√°goas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no ch√£o.
Silêncio Рé tudo o que tem
quem vive na servid√£o.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento n√£o me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha p√°tria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

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Libera Me

Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me n√£o quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem n√£o
Possui nem um gr√£o
De imaginação.

Vimos do Tempo da Falta Mínima

Vimos do tempo da falta mínima
da casa construindo as folhas de quadrícula
(quando um traço mais que expressivo preenche
o vazio de uma folha)
nem beleza nem fim
nem n√ļmero ordenador como fantasma.

Todas as memórias partilhámos
a ruína compreende tudo.
Compreender quer dizer abraçar
(linhas e cruzamentos na procura da folha)
o mundo inteiro nos é dado.

Mais tarde (mais além
dois furos a passagem para o √ļtil)
as dunas dar√£o lugar a campos cultivados?
Quero dizer
não rejeito do movimento toda a impaciência
toda a dissolução.
(pouco a pouco) Até onde podemos ir?

O Tempo Seca o Amor

O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas √°guas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o fr√°gil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortu√°ria.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas √°ridas.
Esperarei que te seque,
n√£o na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Pai, a Minha Sombra és Tu

a cadeira est√° vazia, um corpo ausente
n√£o aquece a madeira que lhe d√° forma

e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida

o sol foge
mas o crep√ļsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face

pai, digo-te
a minha sombra és tu

M√£e

I

Dantes, quando a deixava,
As férias já no fim,
Ela vinha à janela
Despedir-se de mim.

Depois, quando na estrada,
Olhava para tr√°s,
Deitava-me ainda a benção
Para que eu fosse em paz.

Dali n√£o se movia,
À vidraça encostada,
Até que eu me perdia
J√° na curva da estrada.

Hoje, se olho, calo-me
E baixo os olhos meus!
Já não vem à janela
Para dizer-me adeus!

II

Chove, e a chuva é fria.
Noite! Nos montes distantes
O Inverno principia.
Um Inverno como dantes.

Ao redor do lume aceso
Todos ficamos a olhar…
Todos n√£o, n√£o somos todos,
Porque h√° vazio um lugar.

Esse lugar era o dela,
Que ninguém mais preencheu.
Mesmo com vida, na terra,
Era uma estrela no céu.

Sombras

A meio desta vida continua a ser
difícil, tão difícil
atravessar o medo, olhar de frente
a cegueira dos rostos debitando
palavras destinadas a morrer
no lume impaciente de outras bocas
anunciando o mel ou o vinho ou
o fel.

Calmamente sentado num sof√°,
começas a entender, de vez em quando,
os condenados a prisão perpétua
entre as quatro paredes do espírito
e um esquife negro onde v√£o desfilando
imagens, só imagens
de canal em canal, sintonizadas
com toda a ang√ļstia e estupidez do mundo.

As pessoas – tu sabes – as pessoas s√£o feitas
de vento
e deixam-se arrastar pela mais bela
respiração das sombras,
pela morte que repete os mesmos gestos
quando o crep√ļsculo fica a s√≥s connosco
e a noite se redime com uma estrela
a prometer salvar-nos.

A meio desta vida os versos abrem
paisagens virtuais onde se perdem
as inten√ß√Ķes que alguma vez tivemos,
o recorte obscuro de perfis
desenhados a fogo h√° muitos anos
numa alma forrada de espelhos
mas sempre t√£o vazia,

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Explicação da Ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
N√£o rodou mais para a festa n√£o irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera √© n√£o acontecer ‚ÄĒ fosse abertura ‚ÄĒ
E a saudade é tudo ser igual.

Mudançar

Repor
na planta da cor brancura
em pedra solicitada

Reler
por vacilação das sílabas
em escurid√£o afundada

Rever
por olho areado com √°guas
a imagem contaminada

Reter
no m√ļsculo oxigenado vaso
areal terra aterrada

Resistir
ao c√Ęntico suado no temor
a evolução revoltada

Reaver
do padre eterno esquecido
fé febril equivocada

Rematar
pontilhados no voo manual
asa de vazio blindada

Reacordar
quando o tempo do morto é
vício pele reciclada

Recomeçar
linguajar contínua marcha
vivente reinventada.

Carpe diem

Confias no incerto amanh√£? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos l√°bios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a d√ļvida
definitiva. Um nome in√ļtil persegue a tua mem√≥ria,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe d√° a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
vis√≠veis do humano? “N√£o”, dizes, “nada me obrigar√°
√† ren√ļncia de mim pr√≥prio – nem esse olhar
que me oforece o leito profundo da sua imagem!”
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Noite Vazia

Crescimento do silêncio a devorar as nuvens.
Voo incansável e monótono das aves brancas do cérebro.
Florida e ondulada suspens√£o da m√°goa.
As ferocidades s√£o ternuras desmaiando na estepe adivinhada.
O amor abre goelas bocejantes nos c√īncavos da aus√™ncia do espa√ßo.
E a morte espreitando a lentid√£o
irradia baçamente a sua despedida.

Noite vazia.

As aves brancas do cérebro
inutilmente abatem as suas asas!

Se Te Disserem

Se te disserem que um gorila salvou a tua irm√£
E que não é bonito pensares a todo o momento
Na caixa de correio vazia
Pensa bem, mano, na fórmula que adoptaste
Para uma sociedade sem classes
Onde n√£o adianta patinar na relva como os ursos.
Só eles possuem o dom do peso
Aliado à levitação,
Mas a um qualquer é permitido rir
E falar alto como se acordasse em forma.
Fora do orabolas em que foste criado
Há muita coisa à espera de ser vista
Pela primeira vez
Se guardi√£o-centauro de crespas unhas
Pronto ao disparo da saliva
Em vez de balas.
Não te rias de quem sofre à beira de água
Porque deles é também o reino da luta.
Na feira onde o loureiro medra ao qu√Įl√≥metro dezassete
E se afoga a virtude em c√Ęntaros de √°gua
Não há lugar para a débil panaceia de risos.
As √°rvores crescem e tu com todas
Fora do ped√ļnculo
Junto à terra

Lugares da Inf√Ęncia

Lugares da inf√Ęncia onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
j√° l√° n√£o est√£o nem l√° estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, p√Ķem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recorda√ß√Ķes.

O quarto eu n√£o o via
porque era ele os meus olhos;
e eu n√£o o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que n√£o me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa j√° n√£o cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
j√° o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.

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A Minha Alma Partiu-se

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das m√£os da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensa√ß√Ķes do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

N√£o se zanguem com ela.
S√£o tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, n√£o conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois n√£o sabem por que ficou ali.

Trevas

De dia n√£o se via nada, mas p’la tardinha j√° se apercebia gente que vinha de punhaes na m√£o, devagar, silenciosamente, nascendo dos pinheiros e morrendo nelles. E os punhaes n√£o brilhavam: eram luzes distantes, eram guias de len√ßoes de linho escorridos de hombros franzinos. E a briza que vinha dava gestos de azas vencidas aos len√ßoes de linho, azas brancas de gar√ßas ca√≠das por faunos ca√ßadores. E o vento segredava por entre os pinheiros os m√™dos que nasciam.

E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descal√ßa com p√©s de surdina por m√īr do barulho, de bra√ßos estendidos p’ra n√£o topar com os troncos; e vinha vindo a noite c√©guinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao v√™-la esconderam os punhaes nos peitos vazios.

A lua √© uma laranja d’oiro num prato azul do Egypto com perolas desirmanadas. E as silhuetas negras dos pinheiros embaloi√ßados na briza eram um bailado de estatuas de sonho em vitraes azues. M√£os ladras de sombra lev√°ram a laranja, e o prato enlutou-se.

Por entre os pinheiros esgalgados, por entre os pinheiros entristecidos, havia gemidos da briza dos tumulos,

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Ao Volante

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haver√° em seguir sen√£o n√£o parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por n√£o poder pass√°-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de n√£o ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquieta√ß√£o sem prop√≥sito, sem nexo, sem conseq√ľ√™ncia,
Sempre, sempre, sempre,
Esta ang√ļstia excessiva do esp√≠rito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maie√°vel aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!,

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Medo

Quem dorme à noite comigo?
√Č meu segredo, √© meu segredo!
Mas se insistirem lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
√Č com sil√™ncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a raz√£o.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que est√° dormindo a meu lado,
L√°zaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que est√° dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele h√°-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

brincávamos a cair nos braços um do outro

brinc√°vamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesita√ß√Ķes, como se a desgra√ßa nos
servisse bem e, a ver filmes, ach√°vamos que
o peito era todo em movimento e n√£o
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de dist√Ęncia e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas t√£o
diferente de mim como se j√° tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo,

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Os Poemas

Os poemas s√£o p√°ssaros que chegam
n√£o se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles al√ßam v√īo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de m√£os
e partem.
E olhas, ent√£o, essas tuas m√£os vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles j√° estava em ti…

Que amor n√£o me engana

Que amor n√£o me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor n√£o se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irm√£ cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia