Poemas sobre √Āguias

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Poemas de águias escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Sol do Meu Dia

Se eu fosse nuvem tinha imensa m√°goa
N√£o te servindo de asas maternais
Que te pudessem abrigar da √°gua
Que chovesse das mais!

E sendo eu onda, tinha m√°goa suma
N√£o te podendo a ti, mulher, levar
De praia em praia sobre a alva espuma,
Sem nunca te molhar!

E sendo aragem eu, que pela face
Te roçasse de rijo alguma vez
Que o Senhor com mais for√ßa respirasse…
Que m√°goa imensa… V√™s?

E a luz do teu olhar que me n√£o luza
Um r√°pido momento a mim sequer,
Como a √°guia no ar, que passa e cruza
A terra sem na ver!

Mas que me importa a mim! Se me esmagasses
Um dia aos pés o coração a mim,
As vozes que lhe ouviras, se escutasses,
Era o teu nome… sim;

O teu nome gemido docemente,
Com toda a fé de um mártir em Jesus.
Se acaso j√° em Cristo p√īs um crente
A fé que eu em ti pus!

A fé, mais o amor! Porque ele expira
Sem que a ninguém lhe estale o coração;

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O Albatroz

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num v√īo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas t√°buas do conv√©s, ‚ÄĒ pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!…
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
N√£o o deixam andar as asas colossais!

Tradução de Delfim Guimarães

Uma Vida Esquecida

Para o Fernando Alves dos Santos

Eu conheço o vidro franja por franja
meticulosamente
à porta parado um homem oco
franja por franja no espaço
meticulosamente oco uma porta parada.

Um relógio dá dez badaladas ininterruptamente
dez badaladas por brincadeira dança
um homem com pernas de mulher
e um olhar devasso no Marte
passo por passo uma criança chora
uma √°guia e um vampiro recuados no tempo.

Um Segredo

Meu pai tinha sand√°lias de vento
só agora o sei.
Tinha sand√°lias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a express√£o em
[nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem
[estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso
[tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.

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N√£o Fora o Mar!

N√£o fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

N√£o fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena ang√ļstia, pequeno prazer.

N√£o fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sab√£o,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto ‚ÄĒ pingos de √°gua em minha m√£o.

N√£o fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga m√ļsica ao sol p√īr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

N√£o fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilus√£o, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

N√£o fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

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As Causas

Todas as gera√ß√Ķes e os poentes.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da √°gua na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hex√Ęmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias in√ļmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada v√£ gota de √°gua na clepsidra.
As √°guias e os fastos, as legi√Ķes.
Na manh√£ de Fars√°lia J√ļlio C√©sar.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a √°lgebra dos Persas.
Os vest√≠gios das longas migra√ß√Ķes.
A conquista de reinos pela espada.
A b√ļssola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.

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Se houvesse degraus na terra…

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lav√°-lo na ribeira e a √°gua tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da √°guia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Em Viagem

Desde aquela dor tamanha
Do momento em que parti
Um só prazer me acompanha,
Filha, o de pensar em ti:

Por sobre a negra paisagem
Do meu ermo coração
O luar branco da tua imagem
Veste um benigno clar√£o.

A tarde, no azul celeste,
H√° uma estrela esmorecida,
Que é o beijo que tu me deste
Na hora da despedida.

Beijo t√£o longo e dolente,
T√£o longo e cortado de ais,
Que o meu coração pressente
Que n√£o te torno a ver mais.

Conto no céu estrelado
L√°grimas de oiro sem fim:
√Č o pranto que tens chorado,
De dia e noite, por mim…

Quando me deito na cama
E vou quase adormecido,
Oiço a tua voz que me chama,
Num suplicante gemido.

Num gemido t√£o suave,
T√£o triste na noite escura,
Que √© como uma queixa d’ave
Presa numa sepultura!…

Em sonho, às vezes, meu Deus,
Cuido que vou expirar,
Sem levar nos olhos meus
O teu derradeiro olhar.

E sem extremo conforto
Que eu ness’hora quero ter:
Beijar a fronte do morto
Aquela que o fez viver.

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N√£o Sei Meu Amor

N√£o sei
meu amor
porque a memória
se fecha
quando do abismo da vida
j√° tombaram os meus olhos
na aridez da esperança.

N√£o sei
meu amor
porque a memória
chora, oculta
se ninguém a viu nascer.

Entretanto
de teus olhos, √°guias de fogo,
vem um reino eterno,
de calor e significado
claro e sem segredos.

Fecho os meus
e volta a dor
na cruzada
a trazer-me teus olhos
num espaço sem fronteira
na vertigem de teu corpo.

Todo o meu desejo pressente
que da lembrança recomeça
o regresso da tua criação
dessa tarde emocionada
que me trouxe à vida
tua vida transfigurada.

A Minha Hora

Que horas são? O meu relógio está parado,
H√° quanto tempo!…
Que pena o meu relógio estar parado
E eu n√£o poder marcar esta hora extraordin√°ria!
Hora em que o sonho ascende, lento, muito lento,
Hora som de violino a expirar… Hora v√°ria,
Hora sombra alongada de convento…

Hora feita de nostalgia
Dos degredados…
Hora dos abandonados
E dos que o t√©dio abate sem cessar…
Hora dos que nunca tiveram alegria,
Hora dos que cismam noite e dia,
Hora dos que morrem sem amar…

Hora em que os doentes de corpo e alma,
Pedem ao Senhor para os sarar…
Hora de febre e de calma,
Hora em que morre o sol e nasce o luar…
Hora em que os pinheiros pela encosta acima,
S√£o monges a rezar…

Hora irm√£ da caridade
Que d√° rem√©dio aos que o n√£o t√™m…
Hora saudade…
Hora dos Pedro Sem…
Hora dos que choram por n√£o ter vivido,
Hora dos que vivem a chorar algu√©m…

Hora dos que t√™m um sonho √°guia mas… ai!
√Āguia sem asas para voar…

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Só os Lábios Respiram

Só os lábios respiram. Simples gesto vivo,
exílio do som onde se oculta o pavor da
palavra, p√°tria salgada cerrada no vazio
da casa de velhos deuses √°vidos de preces.
Na garra da √°guia se fecha e rompe a boca,
templo e entranha, prodígio e anel
do eco, sinal esparso do caído concerto
da vida. Por estes soberbos montes, estas
rasas colinas, estas √°guas circulantes,
vai o grito da cegueira, o delírio lasso
na manh√£, a saciada loucura do escuro
nome nocturno. Como um fragor dos céus,
caminha o canto agudo das √°rduas cigarras
perseguindo a funesta morte. Por esta
paisagem parda, que l√°bios me guardam
do próximo desastre, a mudança em ave,
cio ou sal, erva ou peixe, cicatriz ou
mito, veia ou √°gua? Que l√°bios respiram
na coisa mortal que serei após o termo
da eterna efemeridade deste meu corpo,
coma de luz, deste desejo, rijo resíduo,
deste pensamento, disfarce ou m√°scara,
deste rapto do tempo, deste
coração que começa?

O Dil√ļvio

H√° muitos dias j√°, h√° j√° bem longas noites
que o estalar dos vulc√Ķes e o atroar das torrentes
ribombam com furor, quais rábidos açoites,
ao crebro rutilar dos coriscos ardentes.

Pradarias, vergéis, hortos, vinhedos, matos,
tudo desapar’ceu ao rude desabar
das constantes, hostis, raivosas cataratas,
que fizeram da Terra um grande e torvo mar.

À flor do torvo mar, verde como as gangrenas,
onde homens e le√Ķes b√≥iam agonizantes,
imprecando com f√ļria e ang√ļstia, erguem-se apenas,
quais monstros colossais, as montanhas gigantes.

√Č a√≠ que, ululando, os homens como as feras
refugiar-se v√£o em tr√°gicos cardumes,
O mar sobe, o mar cresce. e os homens e as panteras,
crianças e reptis caminham para os cumes.

Os fortes, sem haver piedade que os sujeite,
arremessam ao ch√£o pobres velhos cansados.
e as mães largam. cruéis, os filhinhos de leite,
que os que seguem depois pisam, alucinados.

Um sinistro pavor; crescente e sufocante,
desnorteia, asfixia a turba pertinaz:
ouvem-se urros de dor, e os que v√£o adiante
lançam pedras brutais aos que ficam pra trás.

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Confiss√£o

Meus l√°bios, meus olhos (a flor e o veludo…)
Minha ideia turva, minha voz sonora,
Meu corpo vestido, meu sonho desnudo…
Senhor confessor! Sabeis tudo ‚ÄĒ tudo!
Quanto o vulgo, ingénuo, ao saudar-me, ignora!

Sabeis que em meus beijos a fome dormira
Antes que da orgia a f√© despertasse…
Sabeis que sem oiro o mundo é mentira
E, como do fruto que Deus proibira,
Um luar tombou, manchando-me a face.

P√°ssaro, cativo da noite infinita!
√Āguia de asa in√ļtil, pela noite presa!
√ď cruz dos poetas! √≥ noite infinita!
√ď palavra eterna! minha √ļnica escrita!
Beleza! Beleza! Beleza! Beleza!

Eis as minhas mãos! Quem pode prendê-las?
S√£o fr√°geis, mas nelas h√° dedos inteiros.
Senhor confessor! Quem n√£o conta estrelas?
Meus dedos, um dia, contaram estrelas…
Quem conta as estrelas n√£o conta dinheiros!

Tu à Noite

Tu à noite havias de escutar
A trovoada e o ar ambulante.
Tu nessa margem h√°s-de virar
Para onde estão as intempéries dominantes.

Toda essa honrada esperança
Ruirá na ardósia,
E destroçará o inverno
Que vocifera a teus pés.

Se bem que ardam os altares apaixonantes,
E que o sol deliberado
Faça ladrar a águia,
Tu avançarás na corda bamba.

A uma Rosa

Como tens t√£o pouca vida?
Quem t√£o depressa te mata?
Flor do mais ilustre sangue,
Que deu de Vénus a planta?
Uma Aurora só que vives,
Flores te chamam Monarca:
Na mesma terra do império,
Que foi berço, tens a campa.
L√°stima da tarde chamam
A ti doce mimo da alva,
Gentil pérola nascida
Entre concha de esmeralda.
√Āguia nos voos florentes
Estendes ao Sol as asas,
Mas quando os raios lhe logras,
Fénix em raios te abrazas.

Em quanto em verde clausura
Te fecha o bot√£o as galas,
Para os logros, que desejas,
Te dão vida as esperanças.
Mas quando a p√ļrpura bela
Te serve j√° de mortalha,
Sentido o Sol chora raios,
Buscando a morte nas √°guas.
De fermosura t√£o rica
N√£o sei quem foi o pirata
T√£o atrevido, que rouba
A joia da madrugada.

Canção Póstuma

Fiz uma canção para dar-te;
porém tu já estavas morrendo.
A Morte é um poderoso vento.
E √© um suspiro t√£o t√≠mido, a Arte…

√Č um suspiro t√≠mido e breve
como o da respiração diária.
Choro de pomba. E a Morte é uma águia
cujo grito ninguém descreve.

Vim cantar-te a canção do mundo,
mas est√°s de ouvidos fechados
para os meus l√°bios inexatos,
‚ÄĒ atento a um canto mais profundo.

E estou como alguém que chegasse
ao centro do mar, comparando
aquele universo de pranto
com a l√°grima da sua face.

E agora fecho grandes portas
sobre a canção que chegou tarde.
E sofro sem saber de que Arte
se ocupam as pessoas mortas.

Por isso é tão desesperada
a pequena, humana cantiga.
Talvez dure mais do que a vida.
Mas à Morte não diz mais nada.

S√°tira

Besta e mais besta! O positivo √© nada…
(Perdoa, se em gram√°tica te falo,
Arte que ignoras, como ignoras tudo.)
Besta e mais besta! Na palavra embirro;
Que a besta anexa ao mais teu ser define.

D√°s-me louvor servil na voz do prelo,
Grande me crês, proclamas-me famoso,
Excelso, transcendente, incompar√°vel,
Confessas que d’Elmano a f√ļria temes…
E, débil estorninho, águias provocas,
Aves de Jove, que o corisco empunham!

√Čs de r√°bula vil corrupta imagem;
Tu vendes o louvor, como ele as partes,
Mas ele na enxovia inf√Ęmias paga,
E tu, com t√ļstios, que aos caloiros pilhas,
Compras gravatas, em que a tromba enorme
Sumas ao dia, que de a ver se embrusca,
Qual em tenra m√£ozinha esconde a face
Mimoso infante de pap√Ķes vexado.
√ötil descuido aos c√°rceres te furta,
À digna habitação de ti saudosa
(Digo, o Castelo), est√Ęncia equivalente
Aos méritos morais, que em ti reluzem.

De saloios vinténs larápio sujo,
A glória do teu ódio restitui
A quem no teu louvor desacreditas.
Se honrada pelos s√°bios d’Ulisseia
(D’Ulisseia n√£o s√≥,

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