Poemas de Orlando Neves

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Poemas de Orlando Neves. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

SĂł no Pensamento Volta o Mundo

SĂł no pensamento volta o
mundo. Ao ruĂ­do da voz
apenas aspiro — que a alma
Ă© o ser mais que a dor ou o
verde cinza do halo das
árvores na manhã íntima das
cores diurnas. Temi os
deuses pelo coração dos
homens, ao homem temo
que por metade vive o medo
divino. Resta, no espasmo
da terra, a mágoa seca, a
ruína da água, a traição do
nada neste corpo de cera,
coroado do silĂŞncio ferido.
Se nĂŁo de amor Ă© o dia
aberto quando as vĂ­sceras
róseas ouvem a respiração
do fogo derramado eros.
Que a estreita vida diz na
tĂŁo pouco breve humilde
erva a tĂŁo febril brisa, cio de
matinal bĂşzio ou rouca
flauta. EntĂŁo me ergo e
ouso, vaso do vento, clamar
a queda. Ă“ esta humana e
divina pobreza de querer
sem fulgor, de tudo poder
sem desejo, alheio ou meu!
O que do futuro ignoro Ă©
maior que o tempo que vivo,
Ă© palavra de cega lĂ­ngua, em
mim calada por jamais lida.

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Pandora

De repente,
o corpo da mulher fulgura,
pupila de deus,
punhal ou bico,
sede que chama.
Pára em mim e deslumbra
— nula possibilidade
da lucidez.

Ă€ Morte

Tu que mĂ­sero vives
no vão dos braços
em sĂşbito furor

Tu de mĂŁos cativas
senhor dos ombros
indefeso dador

Tu que os dedos secas
no liso peito
armado amador

Tu no cárcere vivo
das horas idas
impune rumor

Tu rendida palavra
íntimo trânsito
do barco raptor

Tu que na minha pele
táctil ardor

amável me esperas

Só os Lábios Respiram

Só os lábios respiram. Simples gesto vivo,
exĂ­lio do som onde se oculta o pavor da
palavra, pátria salgada cerrada no vazio
da casa de velhos deuses ávidos de preces.
Na garra da águia se fecha e rompe a boca,
templo e entranha, prodĂ­gio e anel
do eco, sinal esparso do caĂ­do concerto
da vida. Por estes soberbos montes, estas
rasas colinas, estas águas circulantes,
vai o grito da cegueira, o delĂ­rio lasso
na manhĂŁ, a saciada loucura do escuro
nome nocturno. Como um fragor dos céus,
caminha o canto agudo das árduas cigarras
perseguindo a funesta morte. Por esta
paisagem parda, que lábios me guardam
do próximo desastre, a mudança em ave,
cio ou sal, erva ou peixe, cicatriz ou
mito, veia ou água? Que lábios respiram
na coisa mortal que serei apĂłs o termo
da eterna efemeridade deste meu corpo,
coma de luz, deste desejo, rijo resĂ­duo,
deste pensamento, disfarce ou máscara,
deste rapto do tempo, deste
coração que começa?

SĂł de Restos se Consagra o Tempo

Só de restos se consagra o tempo, força
cerrada na inutilidade destas
cores campestres, quando o sol em Novembro
escurece os sobreiros. SĂł de restos me
espera a cerimĂłnia de viver,
trânsito e transigência do silêncio,
ocultado no meu corpo. SĂł de restos
o trespassa o tempo, máscara e manto. Morro
muito antes da morte, sem saber se os anjos
foram gaivotas hirtas no piedoso
musgos dos rios ou se hão-de ser maçãs
ou ciência, loendros ou lembrança,
inocentes, lĂşcidos sonos ou oblata
de seda, a deus cedida, em pagamento
da paz. SĂł do que chega ao fim, se corrompe
e apodrece, se imagina o princĂ­pio,
a majestade das coisas, o silĂŞncio
irrevelado que o corpo desconhece.

Como Realiza o Corpo este ExercĂ­cio da Queda

Como realiza o corpo este exercĂ­cio
da queda no sĂşbito conhecimento
do espanto, quando os olhos estĂŁo vencidos,
cerrados pela transparĂŞncia e pela luz
ofuscante da alva? À medida que o corpo
seca e se aplacam os seus, outrora, amáveis
dons, se ensombram os ossos, mĂ­seras as mĂŁos
emagrecidas e se desnuda a carne
no fundo fôlego das águas, aumenta
o assombro da claridade. SĂł a vida
gerou o tempo, eis que ausente, ao resplendor
inesperado da luz descida. Onde vai
o humilde corpo, se corpo resta ou se outro,
receber a miraculosa mudança
de nada existir a nĂŁo ser o profundo
bando do grito terrĂ­vel de todos
os mortos? Ah, que estupor sela os mĂşsculos,
enrijece as unhas e aspira a voz,
resfria o suor e nos conduz, inertes
e cegos, ao nĂşcleo da luz deslumbrante?
Ă“ mar de que futuro, rumor volĂşvel,
sopro claro, envolve-nos de compaixĂŁo!

Erra, Fio mortal da Alma, o Destino

Erra, fio mortal da alma, o destino.
Porém, trémulo, o não temo.
Seco será o poder do nada, o silêncio
dos deuses ou o rosto corrompido
dos homens. Estas folhas ásperas
e pálidas entardecem e conhecem-me.
O ar que queima, sem arder, a pedra
da manhĂŁ ou o inigualado luto
da noite, Ă© solene, Ă© suave,
inexorável princípio de tudo
quanto existirá. É ido o sonho
do fogo, a exacta vida, sucumbe
o corpo no vazio enigma da cĂłlera
divina. Dura, sem medida, a excessiva,
a Ă©bria, a avara solidĂŁo, neste ar
perene que, no odor da terra se
oculta. SĂł minha absurda aparĂŞncia
a Ave dilacera.

Todas as Noites me Sinto

Todas as noites me sinto
igual aos desconhecidos.
Sou a criança que sou,
só quando o tempo pára.

Fico em mim,
fora dos mĂşsculos.

Por que se movem os deuses
quando o sol cresta as formigas?
Lendas da luz da noite
secam todo o movimento.

Seguro a vida
por desespero.

Criei, nĂŁo PossuĂ­

Criei, nĂŁo possuĂ­.
Instante de infinitude, o que moldei na voz
respira. A firme casa do meu corpo se fez
pelo contraste, que só o contrário cria.
NĂŁo possuĂ­,
denso ou raro,
pequeno até ao nada,
nenhum sĂ­mbolo,
nenhum olhar de brasa,
nenhum odor colado Ă  pele.
Pretendi a verdade, mas tudo se muda
pelos meus olhos e a fosca luz do que foi viver
sĂł no amor se moveu. Morto o amor,
transforma-se a água.
Onde a noite não há e o dia não é,
esqueço as mudanças do tempo
e com meus ardis me defendo
do terror de mim.