Cita√ß√Ķes sobre Ruas

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Frases sobre ruas, poemas sobre ruas e outras cita√ß√Ķes sobre ruas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Selvagem

Eu n√£o amo ninguem. Tambem no mundo
Ninguem por mim o peito bater sente,
Ninguem entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitario, inerte e mudo,
– Passividade estupida das Cousas.

Fechei, de ha muito, o livro do Passado
Sinto em mim o despreso do Futuro,
E vivo só commigo, amortalhado
N’um egoismo barbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regi√Ķes dos crueis indifferentes,
Meu peito é um covil, onde, ás escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguem. Saio sómente
Depois de p√īr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguem me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os c√£es ladram √† lua…

De que me vale saber o mundo ‚Äď se n√£o me sei o lugar, a rua, o bairro? De que me vale ser o que tudo sabe ‚Äď se n√£o me sei saber de verdade?

O Essencial é Ter o Vento

O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma d√ļzia ou mesmo d√ļzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dir√£o que o preciso, o urgente,
√Č ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não: O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cad√°ver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Ver√£o,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo Que n√£o fique sopro ou brisa
Nas m√£os de um concorrente
Incompetente.

A pris√£o n√£o s√£o as grades, e a liberdade n√£o √© a rua; existem homens presos na rua e livres na pris√£o. √Č uma quest√£o de consci√™ncia.

Tudo é fantasia, a família, o escritório, os amigos, a rua, tudo fantasia, mais longe ou mais perto, a mulher; mas a verdade que está mais perto é só esta, é bater com a cabeça na parede de uma cela sem janelas e sem portas.

Uma Cidade

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e ger√Ęnios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algod√£o, esporas
de √°gua e flancos
de granito.
Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crep√ļsculo, um bal√£o
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.

Acendem-se as Luzes

Acendem-se as luzes
nas ruas da cidade.

Ainda h√° claridade
ao alto das cruzes
da igreja da praça
e para l√° dos telhados
j√° meio esfumados
na mesma cor baça
do casario velho
que recobre a encosta
e mal entremostra
as cores de Botelho,
sobranceiro à massa
fluida e movente
das cordas de gente
por onde perpassa
um ar de alegria
que é do tempo quente
e deste andar contente
que no fim do dia
leva para casa,
a paz das varandas,
o √°lcool das locandas,
tanta vida rasa
minha semelhante.
Solid√£o povoada
que a tarde cansada
suspende um instante
ao acender das luzes.

Em cada olhar uma rosa
de propósito formosa
para que a uses.

Quanto Morre um Homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurar√° nelas as linhas do teu rosto?
Quem dar√° o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te por√° como fruto nas √°rvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro esta√ß√Ķes?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Acendimento

Seria bom sentir no quarto qualquer m√ļsica
enquanto nos banham os perfis ateados
pelo aroma da tília, sem voz, em abandono.
A entrada por detr√°s das ruas principais
onde a morrinha parece que nem molha
e se chega perdido onde se vai.
Não, não é só um beijo que te quero dar.

Quantas vezes nesta hora de desvalimento
vejo orion e as plêiades devagar no céu de inverno.
Mas hoje
com a calma inesperada de chuvas que n√£o cessam
acordo já depois. Caí numa hibernação que não norteia
o desequilíbrio do sentimento.

Espelhos sem paz tocam-nos no rosto.
Na cega mancha de roupagem aconchego
cada intempérie com sua mentira
e depois sigo pela torrente, pelo enredo
dos outeiros, cada espelho continua
a caução pacificadora do engano.
√Č isso que te levo, isso que me d√°s
quando dizes, j√° sem o dizeres, eu amo-te.

Pela berma da humidade cerrada
um risco de merc√ļrio trespassa.
Na gravilha passos que n√£o h√°
esmagam a m√ļsica que ningu√©m escuta.
Sabiam de cor tudo o que falhava,

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Serenata à Chuva

Chuva, manh√£ cinza, guarda-chuva.
Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela
abraçados caminham sob o tecto
do guarda-chuva que os guarda.
Pelas ruas v√£o com a vontade de voltar
ao branco dos lençóis. Esse objecto prosaico
que às vezes se vira com o vento
torna-se objecto de poema. Dizer também
como a chuva é doce neste dia de verão.
Como o amor altera o sentido da chuva,
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam
ao vestido. No interior da pele o poema mudou
desde que entraste no guarda-chuva esquecido
a um canto do arm√°rio. Talvez o amor seja tudo amar
sem excepção. Eu que nunca uso guarda-chuva
assino incondicionalmente este poema.

O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(√Č nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

H√° tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que n√£o andei
(E h√° uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste j√° t√£o longo andar!)

E talvez de meu repouso…

A Rua Dos Cataventos – VI

Na minha rua h√° um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua h√° um oper√°rio triste:
N√£o canta nada na manh√£ sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . .
E est√° compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente. . .

As Profecias

(fragmentos)

I

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

minguantes novos
cidades mortas
ruas desconhecidas

barcos de vento
perdidos sons

foi l√° que brinquei de longe
e perdi-me de mim
foi l√° a primeira tosquia
quando me tiraram tudo

nem o leque
para afugentar a maturação
nem a haste
para defender-me das feras
nem o silêncio
para vestir-me no esquecimento

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

foi l√° que brinquei de longe
e me perdi de mim

II

A flor abre-se em terra
para o forte a ser nosso.

Perto estamos
dos rios coagulados
de mel colhido aos tempos.
Perto estamos
da nocturna fé de ser impuro
benvinda das lonjuras.

Perto estamos dos infantes campos
junto ao longe tranquilo de viver.
Ouvi, solit√°rias meninas, solit√°rios meninos:
o vento ch√£o que varre os prados
onde somos horizontais,
afinal.

III

Trago a palma na m√£o, aqui estou,

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Que monstruosidades poderiam andar nas ruas onde os rostos de algumas pessoas s√£o t√£o incompletos como suas mentes.

Lembrança

Fui Essa que nas ruas esmolou
E fui a que habitou Paços Reais;
No m√°rmore de curvas ogivais
Fui Essa que as m√£os p√°lidas poisou…

Tanto poeta em versos me cantou!
Fiei o linho √† porta dos casais…
Fui descobrir a √ćndia e nunca mais
Voltei! Fui essa nau que n√£o voltou…

Tenho o perfil moreno, lusitano,
E os olhos verdes, cor do verde Oceano,
Sereia que nasceu de navegantes…

Tudo em cinzentas brumas se dilui…
Ah, quem me dera ser Essas que eu fui,
As que me lembro de ter sido… dantes!…

Miritiba

√Č o que me lembra: uma soturna vila
olhando um rio sem vapor nem ponte;
Na √°gua salobra, a canoada em fila…
Grandes redes ao sol, mangais defronte…

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte…
Duas ruas somente… a √°gua tranq√ľila…
Botos no prea-mar… A igreja… A fonte
E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, n√£o reflito, ou penso.
P√Ķem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
Minha m√£e, pela noite, agita um len√ßo…

Ao vir do sol, a √°gua do mar se alteia.
Range o mastro… Depois… s√≥ me recordo
Deste doido lutar por terra alheia!

A vida j√° √© um buraco de agulha t√£o estreitinho, e as suas obriga√ß√Ķes, camelos t√£o gordos e abastecidos, que passar tr√™s quartos do ano a magicar numa distin√ß√£o manique√≠sta entre mulheres decentes e gald√©rias perniciosas, entre c√£ezinhos de rua e pr√≠ncipes encantados, √© matem√°tica t√£o intricada como a dos fanatismos religiosos, pol√≠ticos ou mesmo club√≠sticos: passamos uma vida inteira a identificar bons e maus ‚Äď e, quando finalmente percebemos a soma zero do problema, j√° estamos com a pele encarquilhada e a tomar comprimidos para a tens√£o arterial.

O Amor é o Homem Inacabado

Todas as √°rvores com todos os ramos com todas
[as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
[amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
[obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
[l√°bios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
[olhares conquistados
A confus√£o dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

Tradução de António Ramos Rosa

O Pecado da Gula

Ontem à tarde saí.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
H√° dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.

√Č f√°cil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatr√£o
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
√© uma b√ļssola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.

As Melhores Coisas da Vida São à Borla

As melhores coisas da vida são à borla.

Vivemos em abund√Ęncia.

N√£o parece, pois h√° muito tempo que se d√° mais valor √† mat√©ria, aos bens que possu√≠mos e √†s contas que temos no banco do que √†quilo que verdadeiramente importa, mas √© um facto. A terra d√°-nos tudo. √Č t√£o generosa que mesmo ap√≥s tanta destrui√ß√£o continua a regenerar-se e a alimentar-nos a alma e o corpo. Os melhores alimentos v√™m do solo que pisamos. As praias encontram-se o ano todo no mesmo lugar. 0 mar e a areia n√£o desaparecem. Existem desde sempre e para sempre e est√£o √† tua disposi√ß√£o sempre que entenderes senti-los. As florestas, os bosques e os jardins, a mesma coisa. A ess√™ncia do verde, apesar de amarelar no outono e cair no inverno, mant√©m-se intacta, dispon√≠vel para a respirares e te entregares sempre que precisares de te curar. O vento sopra todos os dias. O sol intercala com a chuva para poderes sentir sempre algo novo quando vais √† janela ou sais √† rua. O c√©u est√° sempre estrelado ou cheio de formas para que possas agradecer ou dar asas √† tua criatividade. Mas h√° mais. Os nossos amigos s√£o de gra√ßa.

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