Cita莽玫es de Ant贸nio Feij贸

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Frases, pensamentos e outras cita莽玫es de Ant贸nio Feij贸 para ler e compartilhar. Os melhores escritores est茫o em Poetris.

Noite de Natal

[A um pequenito, vendedor de jornais]

Bairro elegante, 鈥 e que mis茅ria!
Roto e faminto, 脿 luz sid茅ria,
O pequenito adormeceu…

Morto de frio e de cansa莽o,
As m茫os no seio, erguido o bra莽o
Sobre os jornais, que n茫o vendeu.

A noite 茅 fria; a geada cresta;
Em cada lar, sinais de festa!
E o pobrezinho n茫o tem lar…

Todas as portas j谩 cerradas!
脫 almas puras, bem formadas,
Vede as estrelas a chorar!

Morto de frio e de cansa莽o,
As m茫os no seio, erguido o bra莽o
Sobre os jornais, que n茫o vendeu,

Em plena rua, que mis茅ria!
Roto e faminto, 脿 luz sid茅ria,
O pequenito adormeceu…

Em torno dele 鈥 贸 dor sagrada!
Ao ver um c铆rculo sem geada
Na sua morna exala莽茫o,

Pensei se o frio descaro谩vel
Do pequenino miser谩vel
Teria m谩goa e compaix茫o…

Sonha talvez, pobre inocente!
Ao frio, 脿 neve, ao luar mordente,
Com o pres茅pio de Bel茅m…

Do c茅u azul, 脿s horas mortas,
Nossa Senhora abriu-lhe as portas
E aos orf茫ozinhos sem ningu茅m…

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A Armadura

Desenganos, trai莽玫es, combates, sofrimentos,
Numa vida j谩 longa acumulados, v茫o
鈥 Como sobre um paul cont铆nuos sedimentos,
Pouco a pouco envolvendo em cinza o cora莽茫o.

E a cinza com o tempo atinge uma espessura
Que nem os mais cru茅is desesperos abalam;
脡 como tenebrosa, imp谩vida armadura
Ou coura莽a de bronze em que os golpes resvalam.

Imperme谩vel da Inveja 脿 pe莽onhenta bava,
Nela a Cal煤nia embota os seus dentes ervados;
N茫o h谩 bra莽o que possa amolg谩-la, nem clava
Que nesse duro arn锚s se n茫o fa莽a em bocados.

E no entanto, atrav茅s dessas rijas camadas,
Ou rompendo por entre as juntas da armadura,
Escorrem muita vez gotas ensanguentadas
Que o cora莽茫o verteu dalguma chaga obscura…

Hino 脿 Solid茫o

Diz-se que a solid茫o torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca
Se encontra s贸; a Alma 茅 um mundo, um mundo
[aberto
Cujo 谩trio, a nossos p茅s, de p茅talas se junca.

Mundo vasto que mil exist锚ncias povoam:
Imagens, concep莽玫es, formas do sentimento,
鈥 Sonhos puros que nele em beleza revoam
E ficam a brilhar, s贸is do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo ch茫o onde se esconde e medra
A semente que vai germinar na Palavra,
Cantar no Som, flores na Cor, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aque莽a
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ela, a sorrir, desabroche e flores莽a,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador,
Da Gl贸ria, sempre v茫, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que ele se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou,

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Hino 脿 Beleza

Onde quer que o fulgor da tua gl贸ria apare莽a,
鈥 Obra de g茅nio, flor de hero铆smo ou santidade, 鈥
Da Gioconda imortal na radiosa cabe莽a,
Num acto de grandeza augusta ou de bondade,

鈥 Como um pag茫o subindo 脿 Acr贸pole sagrada,
Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso,
Ou seja o Her贸i que leva uma aurora na Espada,
Ou o Santo beijando as chagas do Leproso.

Essa luz sem igual com que sempre iluminas
Tudo o que existe em n贸s de grande e puro, veio
Do mesmo foco em mil par谩bolas divinas:
鈥 Raios do mesmo olhar, 芒nsias do mesmo seio.

Alta revela莽茫o que, baixando em segredo,
O prisma humano quebra em 芒ngulos dispersos,
Como a 谩gua a cair de rochedo em rochedo
Repete o mesmo som, mas em modos diversos.

脡 aud谩cia no Her贸i; resigna莽茫o no Santo;
Som e Cor, ondulando em formas imortais;
No m谩rmore rebelde abre em folhas de acanto,
E esmalta de candura a flora dos vitrais.

脫 Beleza! 脫 Beleza! as Horas fugitivas
Passam diante de ti, aladas como sonhos…

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Hino 脿 Alegria

Tenho-a visto passar, cantando, 脿 minha porta,
E 脿s vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
Sentar-se 脿 minha mesa, e a sorrir, meia morta,
Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar.

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
Quase meiga, apesar do seu riso constante,
De olhos a arder, l谩bios em flor, cabelos soltos,
A um tempo 茅 cortes茫, deusa ing茅nua ou bacante…

Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador;
Mas o brilho 茅 fugaz, 鈥 cintila na penumbra,
Sem que dele irradie um facho criador.

Quando menos se espera, irrompe de improviso;
Mas foge-nos tamb茅m com uma presteza igual;
E dela apenas fica um p谩lido sorriso
Traduzindo o desd茅m duma ilus茫o banal.

Onda mansa que s贸 脿 superf铆cie corre,
Toda a alegria 茅 v茫; s贸 a Dor 茅 fecunda!
A Dor 茅 a Inspira莽茫o, louro que nunca morre,
Se em n贸s crava a raiz exaustiva e profunda!

No entanto, eu te sa煤do e louvo, hora dourada,
Em que a Alegria vem extinguir,

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A Cidade do Sonho

Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva 脿 Cidade do Sonho…
De t茫o alta que est谩, v锚-se de toda a parte,
Mas o 铆ngreme trajecto 茅 florido e risonho.

Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho ch茫o duma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de Estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.

Se o teu 芒nimo sofre amarguras na vida,
Deves empreender essa jornada louca;
O Sonho 茅 para n贸s a Terra Prometida:
Em beijos o man谩 chove na nossa boca…

Vistos dessa emin锚ncia, o mundo e as suas
[sombras,
Tingem-se no esplendor dum perp茅tuo arrebol;
O mais est茅ril ch茫o tapeta-se de alfombras,
N茫o h谩 nuvens no c茅u, nunca se p玫e o Sol.

Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos 茅 dado sentir…
E a um beijo s贸 colhido em seus l谩bios de Eleita,
A pr贸pria Dor come莽a a cantar e a sorrir!

Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recorda莽茫o indel茅vel persiste;
E neste amargo ex铆lio,

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O Livro da Vida

Absorto, o S谩bio antigo, estranho a tudo, lia…
鈥 Lia o 芦Livro da Vida禄 鈥 heran莽a inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clar茫o da primeira alvorada.

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, 鈥 inclinada a dorida cabe莽a,鈥
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu esp铆rito esclare莽a!

Cada p谩gina abrange um est谩dio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os anos v茫o correndo;
Passam as gera莽玫es; tudo 茅 p贸, tudo 茅 v茫o…
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma n茅voa, a mesma escurid茫o.

Nesse eterno cismar, nada v锚, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer,

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Eu e Tu

Dois! Eu e Tu, num ser indispens谩vel! Como
Brasa e carv茫o, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo, 鈥 em cada assomo
A nossa aspira莽茫o mais violenta se ateia…

Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho
[e a selva
鈥 O vento erguendo a vaga, o luar doirando a
[noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva 鈥
Cheio de ti, meu ser de efl煤vios impregnou-te!

Como o lil谩s e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
鈥 N贸s dois, de amor enchendo a noite do degredo,

Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os cora莽玫es no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama…

O Amor e o Tempo

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu sub铆amos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
J谩 se viam ind铆cios de cansa莽o;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

鈥 芦Amor! Amor! mais devagar!
N茫o corras tanto assim, que t茫o ligeira
N茫o pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!禄

S煤bito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas tr茅mulas ao vento…
鈥 芦Porque voais assim t茫o apressados?
Onde vos dirigis?禄 鈥 Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
鈥 芦Tende paci锚ncia, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo… Adeus! Adeus!

Hino 脿 Morte

Tenho 脿s vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus l谩bios ro莽ar;
Mas da tua presen莽a o rasto de destro莽os
Nunca de susto fez meu cora莽茫o parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu 芒nimo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas m茫os erguendo a inexor谩vel Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus
[passos,
T茫o pr贸xima de mim que te respiro o alento,
鈥 Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus
[bra莽os,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento…

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim n茫o 茅 mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde espl锚ndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta 脿 Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu 芒nimo assombra,
N茫o 茅s tu, com a paz do teu o谩sis te terra!

Quantas vezes,

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Hino 脿 Dor

Sorri com mais do莽ura a boca de quem sofre,
Embora amargue o fel que os seus l谩bios beberam;
脡 mais ardente o olhar onde, como um aljofre,
A Dor se condensou e as l谩grimas correram.

Soa, como se um beijo ou uma car铆cia fosse,
A voz que a solu莽ar na Desgra莽a aprendeu;
E n茫o h谩 para n贸s consola莽茫o mais doce
Que o rega莽o de quem muito amou e sofreu.

Voz, que jamais vibrou num solu莽o de m谩goa,
Ao nosso cora莽茫o nunca pode chegar…
Mas o pranto, ao cair duns olhos rasos de 谩gua,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

L谩bio, que s贸 bebeu na fonte da Alegria,
脡 frio, como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade 茅 uma flor que se alimenta e cria
Dos res铆duos que a Dor no cora莽茫o deixou.

Em tudo quanto existe o Sofrimento imprime
Uma augusta express茫o… mesmo a Suprema Gra莽a,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna imorredoira a Inspira莽茫o que passa.

脡 por isso que a Dor, sem tr茅gua nem guarida,

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