Poemas sobre Esquecimento

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Poemas de esquecimento escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

As Profecias

(fragmentos)

I

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

minguantes novos
cidades mortas
ruas desconhecidas

barcos de vento
perdidos sons

foi l√° que brinquei de longe
e perdi-me de mim
foi l√° a primeira tosquia
quando me tiraram tudo

nem o leque
para afugentar a maturação
nem a haste
para defender-me das feras
nem o silêncio
para vestir-me no esquecimento

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

foi l√° que brinquei de longe
e me perdi de mim

II

A flor abre-se em terra
para o forte a ser nosso.

Perto estamos
dos rios coagulados
de mel colhido aos tempos.
Perto estamos
da nocturna fé de ser impuro
benvinda das lonjuras.

Perto estamos dos infantes campos
junto ao longe tranquilo de viver.
Ouvi, solit√°rias meninas, solit√°rios meninos:
o vento ch√£o que varre os prados
onde somos horizontais,
afinal.

III

Trago a palma na m√£o, aqui estou,

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O Livro Fechado

Quebrada a vara, fechei o livro
e n√£o ser√° por inc√ļria ou descuido
que algumas p√°ginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o √°lcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe n√£o compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou n√£o, servidor apenas
de qualquer miss√£o remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me n√£o pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde n√£o cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Ci√ļme

V√£o decorrendo as horas, v√£o-se os dias,
Mas como outrora ela n√£o vem. Ci√ļme?
Olho em redor de mim, meu pobre lume,
S√£o tudo cinzas mortas, cinzas frias.

Bateu o relógio as horas do costume,
E tu n√£o vens, j√° n√£o te vejo mais…
Dos nossos dias, vivos, triunfais,
Só restam coisas mortas e sombrias.

N√£o sei que m√°goa e dor meus olhos cobre.
Sinto que alguém morreu dentro de mim.
Bate o relógio as horas, como um dobre,
A dizer, a dizer: tudo tem fim.

Vai a tarde a morrer, e um frio imenso
Cai sobre mim como um Pólo de gelo.
Junto de ti, quem estar√°, eu penso,
A beijar, em silêncio, o teu cabelo?

Nessas tardes, assim, vagas, sensuais,
Eu não quero pensar um só momento.
Se foram minhas, hoje s√£o dos mais…
Deixo-as morrer no frio esquecimento.

Do Medo

1

N√£o pode o poema
circunscrever o medo,
dar-lhe o rosto glorioso
de uma f√°bula
ou crer intensamente na sua aura.
Nós permanecemos, quando
escurece à nossa volta o frio
do esquecimento
e dura o vento e uma nuvem leve
a separar-se das brumas
nos começa a noite.

N√£o pode o poema
quase nada. A alguns inspira
uma discreta repugn√Ęncia.
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epit√°fios
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas
sobre a terra.
Quem reconhece a poesia, esse frio
intermitente, essa
persistência através da corrupção?
Quase sempre a ang√ļstia
instaura a luz por dentro das palavras
e lhes rouba os sentidos.
Quase sempre é o medo
que nos conduz à poesia.

2

Voltando ao medo: as asas
prendem mais do que libertam;
os p√°ssaros percorrem necessariamente
os mesmos caminhos no espaço,
sem possibilidades de variação
que n√£o estejam certas com esse mesmo voo
que sempre descrevem.
Voltando ao medo: o poema

desenha uma elipse em redor da tua voz
e cerca-se de ang√ļstia
e ervas bravias ‚ÄĒ nada mais
pode fazer.

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Apresentação

Aqui est√° minha vida ‚ÄĒ esta areia t√£o clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui est√° minha voz ‚ÄĒ esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui est√° minha dor ‚ÄĒ este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui est√° minha heran√ßa ‚ÄĒ este mar solit√°rio,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

A de Sempre, Toda Ela

Se eu vos disser: ¬ętudo abandonei¬Ľ
√Č porque ela n√£o √© a do meu corpo,
Eu nunca me gabei,
Não é verdade
E a bruma de fundo em que me movo
N√£o sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
Sou eu o √ļnico a falar deles,
O √ļnico a ser cingido
Por esse espelho t√£o nulo em que o ar circula
[através de mim
E o ar tem um rosto, um rosto amado,
Um rosto amante, o teu rosto,
A ti que n√£o tens nome e que os outros ignoram,
O mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
Os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
E o sangue espalhado nos melhores momentos,
O sangue da generosidade
Transporta-te com delícias.

Canto a grande alegria de te cantar,
A grande alegria de te ter ou te n√£o ter,
A candura de te esperar, a inocência de te
[conhecer,
√ď tu que suprimes o esquecimento, a esperan√ßa e
[a ignor√Ęncia,
Que suprimes a aus√™ncia e que me p√Ķes no mundo,

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A Quest√£o deste Corpo

A quest√£o deste corpo est√° hoje no esquecimento
dogma sobre ele erguido há muito tempo: é
um corpo flutuante confuso próximo de
um conhecimento verbal
quest√£o em si mesmo questionando teoria
opini√£o tradicional.

Contamos histórias
renunciamos a determinar-lhe origem
recurso a outro corpo perguntando reclamando
a perder de vista.

Se interrogo retenho a quest√£o quotidiana
o defeito do corpo disponível
ante toda a constatação todo o exame.

(Esta a coragem das m√£os ao pensamento
lenta e solit√°ria
no silêncio da pedra disparada
do alto do tempo.)

Estamos Agora em Paz

Estamos agora em paz
sabendo simular o esquecimento

sentados

com os olhos no vento
l√° de fora atirado para antes
de nós as mãos caídas
nos joelhos mas nada suplicantes
só esvaídas

conformados
com n√£o nos conformarmos

resignados
a esperando n√£o esperarmos

como se tudo fosse um imenso tanto faz

Poema para a Catarina

Hei-de levar-te filha a conhecer a neve
tu que sabes do sol e das marés
mas nunca repousaste os teus pequenos pés
na alvura que só longe e em ti houve

Tinha estado na morte e n√£o pudera
aguentar tamanha solid√£o
mas depois tive a companhia do nev√£o
e tu h√°s-de vir filha com a primavera

E o deslumbrante resplendor da alegria
tua fidelidade eterna à vida
j√° n√£o permitir√£o tua partida
quando raiar fatal o novo dia

As barcas carregadas com as rosas
vir√£o perto daquela pura voz
abandonada pelos meus longínquos avós
em lagoas profundas perigosas

Não me afecta o mínimo cuidado
sinto-me vertical sinto-me forte
embora leve em mim até à morte
a cabeça de um príncipe coitado

Naquelas madrugadas primitivas
eu segregava um secreto pranto
vizinho da alegria enquanto
pelos dias tu ias de m√£os vivas
O costume da minha solid√£o
é ver pela janela as oliveiras
que de todas as √°rvores foram as primeiras
que tocaram meu jovem coração

Purificado pelo tempo estou
um tempo de feroz esquecimento
vem minha filha vem neste momento
em que eu liberto ao teu encontro vou

Recordo-me do teu cabelo de chuva
quando tu caminhavas √°gil e ladina
pelos desfiladeiros da neblina
nessa distante regi√£o da uva

Minha paix√£o viril serena pelos ritos
deseja que na minha companhia
tu sejas imolada à alegria
na surda regi√£o alheia aos gritos

N√£o olhes o meu rosto devastado pela idade
a vida para mim é como se chovesse
mas se viesses seria como se me acontecesse
cantar contigo a perene mocidade

O tempo em que viesses sim seria
um tempo vertebrado um tempo inteiro
e n√£o meras palavras arrancadas ao tinteiro
e alinhadas em fugaz caligrafia

Viesses tu que a tua vinda afastaria
todos os meus cuidados transumantes
e para sempre alegre viveria
os meus dias infantes j√° distantes

A solução da solidão compartilhada
onde vejo o meu mais profundo mundo
seria a solução ampla e sem fundo
oposta sem resposta ao meu país do nada

Com a voracidade do olvido
seria só tu vires e lutares
e por mim de olhos enormes e crepusculares
serias ente querido recebido

Volta com os primeiros anjos de dezembro
num vasto laranjal eu quero amar-te
e ent√£o a tua vida h√°-de ser a minha arte
e o teu vulto a √ļnica coisa que relembro

O passado é mentira digo eu
sensível ao esplendor do meio-dia
e sob a √°rvore plena da alegria
o mínimo cuidado esmoreceu

Ao grande peso de tanto passado
com a ins√≥nia da d√ļvida na testa
basta a tua presença que protesta
e todo eu me sinto renovado

√Č In√ļtil Tudo

Chega através do dia de névoa alguma coisa do esquecimento,
Vem brandamente com a tarde a oportunidade da perda.
Adormeço sem dormir, ao relento da vida.

√Č in√ļtil dizer-me que as a√ß√Ķes t√™m conseq√ľ√™ncias.
√Č in√ļtil eu saber que as a√ß√Ķes usam conseq√ľ√™ncias.
√Č in√ļtil tudo, √© in√ļtil tudo, √© in√ļtil tudo.

Através do dia de névoa não chega coisa nenhuma.

Tinha agora vontade
De ir esperar ao comboio da Europa o viajante anunciado,
De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo.

N√£o vem com a tarde oportunidade nenhuma.

Na Véspera de não Partir Nunca

Na véspera de não partir nunca
Ao menos n√£o h√° que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involunt√°rio de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
N√£o h√° que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de j√° n√£o haver sequer de que ter sossego!
Grande tranq√ľilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
√Č o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de n√£o ter precis√£o de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
H√° quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego…
Grande tranq√ľilidade…
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
√Č pouco o tempo que tens! Dormita!
√Č a v√©spera de n√£o partir nunca!

Como um Adeus Português

Meu amor, desaparecido no sono como sonho de outro sonho,
meu amor, perdido na m√ļsica dos versos que fa√ßo e recome√ßo,
meu amor por fim perdido.

Nenhuma l√Ęmpada se acende na c√Ęmara escura do esquecimento,
onde revelo em banho de prata as imagens que guardo de ti,
imagens que se desfiam na memória de haver corpos,
na memória da alegria que sempre guardamos para dar a alguém,
tremendo de medo, trope√ßando de ang√ļstia,
enternecidos,
entontecidos,
como aves canoras soltas nos vendavais.

Perdi-te no momento certo de perder-te.
Aqui est√£o os aug√ļrios, al√©m o discernimento.
O amor em surdina desfez-se no seu dizer,
entre versos pobres, um corpo cansado,
e a doença sem fim do desejo mortal.

Apagaram-se as luzes. Nunca o vento da indiferença
me abrir√° as m√£os.
Nunca abdicarei deste quinh√£o de luz, o meu amor.
E agora vejo bem como as palavras caem,
n√£o valem,
se desfolham e são pisadas por qualquer afirmação da vida,
da vida que não era para nós.

Hino da Manh√£

Tu, casta e alegre luz da madrugada,
Sobe, cresce no céo, pura e vibrante,
E enche de força o coração triumphante
Dos que ainda esperam, luz immaculada!

Mas a mim p√Ķes-me tu tristeza immensa
No desolado coração. Mais quero
A noite negra, irm√£ do desespero,
A noite solitaria, immovel, densa,

O vacuo mudo, onde astro n√£o palpita,
Nem ave canta, nem susurra o vento,
E adormece o proprio pensamento,
Do que a luz matinal… a luz bemdita!

Porque a noite é a imagem do Não-Ser,
Imagem do repouso inalteravel
E do esquecimento inviolavel,
Que anceia o mundo, farto de soffrer…

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,
O nada universal o pensamento,
E despreza o viver e o seu tormento.
E olvida, como quem est√° j√° morto…

E, interrogando intrepido o Destino,
Como reu o renega e o condemna,
E virando-se, fita em paz serena
O vacuo augusto, placido e divino…

Porque a noite é a imagem da Verdade,
Que está além das cousas transitorias.
Das paix√Ķes e das formas ilusorias,

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Triste Padeço

Aves que o ar discorrei,
No v√īo as asas batendo,
E por vossas penas conta
Às minhas meu sentimento.

Compadecidas ouvi
De minha dor os excessos,
Mas em dizer que é saudade,
Digo o que posso dizer-vos.
Triste padeço, e ausente
Os golpes dos meus receios
Nas batalhas da dist√Ęncia,
Nos desafios do tempo.

Nas violências, do que choro,
Dos alívios desespero,
Que n√£o adormece a queixa,
Quando a desperta o desvelo.

Esmoreceu a esperança
Nas dila√ß√Ķes do desejo
Prognosticando a ruína
Frenético o pensamento.

Se meu mal s√£o sintomas,
Mortais ausências, e zelos,
Era o remédio esquecer-me,
Se em mim houvera esquecimento.

Mas se faz no meu cuidado
Opera√ß√Ķes o veneno,
Viva de senti-lo quem,
Não morre de padecê-lo.

J√° que morro, ingrata sorte,
Às mãos da tua porfia,
Deixa-me inquirir um dia
A causa da minha morte:

Se amor com impulso forte
Me rendeu, como me aparta
Do bem, que na alma retrata
Minha doce saudade,

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A Mulher

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso √© a dist√Ęncia fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.

Algumas Coisas

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

Pesada Noite

A noite cai de bruços,
cai com o peso fundo do cansaço,
cai como pedra, como braço,
cai como um século de cera,
aos tombos, aos soluços,
entre a maçã maciça e a perene pêra,
entre a tarde e o crep√ļsculo,
dilatação da madrugada, elástica,
cai, de borracha,
imita√ß√£o de m√ļsculo,
cai, parecendo que se agacha
na sombra, e feminina, e √°gil
salta, com molas de gin√°stica
nos pés, o abismo
do press√°gio,
a noite, essa mandíbula do trismo,
tétano e espasmo,
ao mesmo tempo, a noite
amorosa, à espreita do orgasmo,
ferina, mas também açoite,
contraditória
como existir esquecimento
no íntimo do homem,
na intimidade viva da memória,
reminiscências que o consomem
fugindo com o vento,
a noite, a noite acata
tudo que ocorre,
tanto aquele que mata
quanto aquele que morre,
a noite, a sensação e aguda
de um sono
fechando os olhos, invencível
como fera que estuda
a vítima, abandono
completo, fuga, salto
nas garras do impossível,
a noite pétrea do basalto,

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Alegria

Já ouço gritos ao longe
J√° diz a voz do amor
A alegria do corpo
O esquecimento da dor

J√° os ventos recolheram
J√° o ver√£o se nos oferece
Quantos frutos quantas fontes
Mais o sol que nos aquece

J√° colho jasmins e nardos
J√° tenho colares de rosas
E danço no meio da estrada
As danças prodigiosas

J√° os sorrisos se d√£o
J√° se d√£o as voltas todas
√ď certeza das certezas
√ď alegria das bodas

Porque é Tão Ansiosamente que Espero por Ti?

Porque é tão ansiosamente que espero por ti?
Sabias ocultar entre os teus menores movimentos
a lembran√ßa de um corpo e de um ardor sem m√ļsica
nem esquecimento possível. Quantas cidades
atravess√°mos, quantos ¬ęgrandes s√£o os desertos e tudo √© deserto¬Ľ,
quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os,
consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias
a m√ļsica, regressa ao lugar donde partiste. Pe√ßo-te,
regressa. Nós nunca acordamos conformes,
nenhuma cifra nos devolver√° o n√ļmero m√°gico,
vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas
fórmulas antigas. Da nossa idade
guard√°mos alguns emblemas, alguns maneirismos.
Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos
à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos
um inquietante rosnido entre as frestas do muro.
Regressemos, n√£o h√° √ćtaca poss√≠vel, os corpos desfizemo-los
na mesma eros√£o do seu m√°gico movimento.
Porque é tão ansiosamente que espero por ti
se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?