Textos sobre Vinho

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Textos de vinho escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Liberdade

Antes que a ideia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de f√©, das persegui√ß√Ķes religiosas da Inquisi√ß√£o e do fundamentalismo isl√Ęmico, o Mediterr√Ęneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das amea√ßas dos Profetas: na barca da morte at√© √† outra vida, como acreditavam os eg√≠pcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebra√ß√£o de cada coisa: a ca√ßa, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e n√£o o terror da morte.

Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisi√ß√£o, antes dos massacres da Arg√©lia, o Mediterr√Ęneo ergueu uma civiliza√ß√£o fundada na celebra√ß√£o da vida, na beleza de todas as coisas e na toler√Ęncia dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto √© nosso e pertence-nos ‚Äď por uma √ļnica, breve e intensa passagem. √Č a isso que chamamos liberdade ‚Äď a grande heran√ßa do mundo do Mediterr√Ęneo.

(…) Sabes, quem n√£o acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e n√£o na dos sentimentos;

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Eu Gosto da Paisagem

Eu gosto da paisagem. Mas amo-a duma maneira casta, comovida, sem poder macular a sua intimidade em descri√ß√Ķes a vint√©m por palavra. Chego a uma terra e n√£o resisto: tenho de me meter pelos campos fora, pelas serras, pelos montes, saber das culturas, beber o vinho e provar o p√£o. E quando anoitece volto, como agora, cheio do enigma que fez cada regi√£o do seu feitio, tal e qual como p√īs nas costas do dromed√°rio aquela incr√≠vel marreca, e no pesco√ßo do le√£o aquela fant√°stica juba.

Felicidade Calma

Incita esse teu amigo a animosamente n√£o ligar import√Ęncia a quem o censura por se acolher √† obscuridade da vida privada, por desistir das suas grandezas, por ter preferido a tranquilidade a tudo o mais, apesar de poder ainda avan√ßar na sua carreira. Mostra a essa gente que ele trata diariamente dos pr√≥prios interesses da forma mais √ļtil. Aqueles que pela sua posi√ß√£o elevada suscitam a inveja geral nunca vivem em terreno firme: uns s√£o derrubados, outros caem por si. Esse tipo de felicidade nunca conhece a calma, antes se excita sempre a si mesma. Desperta em cada um ideias de v√°rios tipos, move os homens cada qual em sua direc√ß√£o, lan√ßa uns numa vida de excessos, outros numa vida de lux√ļria, a uns enche-os de orgulho, a outros de moleza, mas a todos igualmente destr√≥i.
Dir√°s tu: H√°, todavia, quem aguente bem uma liberdade desse g√©nero”. Pois h√°, assim como h√° quem aguente bem o vinho. Por isso n√£o existe o m√≠nimo fundamento para te deixares persuadir que algu√©m √© feliz pelo facto de viver rodeado de clientes; os clientes n√£o buscam nele sen√£o o mesmo que buscam num lago: beber at√© fartar e deixar a √°gua suja!

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A Única Qualidade Específica do Homem

Esfor√ßa-te por que n√£o te suceda o mesmo que a mim: come√ßar os estudos na velhice. E esfor√ßa-te tanto mais quanto enveredaste por um estudo que dificilmente chegar√°s a dominar mesmo na velhice. ¬ęAt√© que ponto poderei progredir?¬Ľ – perguntas-me. At√© ao ponto onde chegarem os teus esfor√ßos. De que est√°s √† espera? O saber n√£o se obt√©m por obra do acaso. O dinheiro pode cair-te em sorte, as honras serem-te oferecidas, os favores e os altos cargos poder√£o talvez acumular-se sobre ti: a virtude, essa, n√£o vir√° ter contigo! N√£o √© sem custo, sem grandes esfor√ßos, que chegamos a conhec√™-la; mas vale bem a pena o esfor√ßo, porquanto de uma s√≥ vez se obt√™m todos os bens poss√≠veis. De facto, o √ļnico bem √© aquele que √© conforme √† moral; nos valores aceites pela opini√£o comum n√£o encontrar√°s a m√≠nima parcela de verdade ou de certeza.
(…) Cada coisa √© avaliada por uma qualidade espec√≠fica. O valor da videira est√° na sua produtividade, o do vinho no seu sabor, o do veado na sua rapidez; o que nos interessa nas bestas de carga √© a sua for√ßa, pois elas apenas servem para isso mesmo: transportar carga. Num c√£o a primeira qualidade √© o faro,

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√Č o Que a Gente Leva Desta Vida…

A persist√™ncia instintiva da vida atrav√©s da apar√™ncia da intelig√™ncia √© para mim uma das contempla√ß√Ķes mais √≠ntimas e mais constantes. O disfarce irreal da consci√™ncia serve somente para me destacar aquela inconsci√™ncia que n√£o disfar√ßa.
Da nascença à morte, o homem vive servo da mesma exterioridade de si mesmo que têm os animais. Toda a vida não vive, mas vegeta em maior grau e com mais complexidade. Guia-se por normas que não sabe que existem, nem que por elas se guia, e as suas ideias, os seus sentimentos, os seus actos, são todos inconscientes Рnão porque neles falte a consciência, mas porque neles não há duas consciências.
Vislumbres de ter a ilus√£o – tanto, e n√£o mais, tem o maior dos homens.
Sigo, num pensamento de divaga√ß√£o, a hist√≥ria vulgar das vidas vulgares. Vejo como em tudo s√£o servos do temperamento subconsciente, das circunst√Ęncias externas alheias, dos impulsos de conv√≠vio e desconv√≠vio que nele, por ele e com ele se chocam como pouca coisa.
Quantas vezes os tenho ouvido dizer a mesma frase que simboliza todo o absurdo, todo o nada, toda a insci√™ncia falada das suas vidas. √Č aquela frase que usam de qualquer prazer material: ¬ę√© o que a gente leva desta vida¬Ľ…

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A Inspiração da Leitura

Fala-se √†s vezes de ‘inspira√ß√£o’ a prop√≥sito de quem escreve uma obra. Mas nunca se diz isso de quem a l√™. Mas l√™-la √© escrev√™-la outra vez. E √© preciso estar-se inspirado para o conseguir bem. A inspira√ß√£o poss√≠vel de quem escreve um livro cumpre-se nele sem mais para o autor. Mas a de quem o reescreve, ou seja l√™, √© sempre vari√°vel. Ela varia n√£o s√≥ com o desgaste da repeti√ß√£o da leitura, mas ainda com a varia√ß√£o dessa varia√ß√£o e o motivo dela. Porque por arranjos incognosc√≠veis pode alternar a ades√£o com a repulsa e recuperar depois em ades√£o o que repelira e o contr√°rio. Como pode tudo ter que ver com raz√Ķes mais cognosc√≠veis ou razo√°veis e tudo depender assim de um insulto que nos doeu ou de um vinho que nos caiu mal. Um livro que se escreveu √© imut√°vel. O mesmo livro que se l√™ n√£o o √©. A inspira√ß√£o de quem escreveu deu o que tinha a dar. A de quem o recebe varia e n√£o se esgota. Porque se se esgotar, o livro n√£o tinha nenhuma.

Onde Ser√° a Terra Prometida?

Triste época a nossa! Para que oceano correrá esta torrente de iniquidades? Para onde vamos nós, numa noite tão profunda? Os que querem tactear este mundo doente retiram-se depressa, aterrorizados com a corrupção que se agita nas suas entranhas.
Quando Roma se sentiu agonizar, tinha pelo menos uma esperança, entrevia por detrás da mortalha a Cruz radiosa, brilhando sobre a eternidade. Essa religião durou dois mil anos, mas agora começa a esgotar-se, já não basta, troçam dela; e as suas igrejas caem em ruínas, os seus cemitérios transbordam de mortos.
E nós, que religião teremos nós? Sermos tão velhos como somos, e caminharmos ainda no deserto, como os Hebreus que fugiam do Egipto.
Onde ser√° a Terra prometida?
Tentámos tudo e renegámos tudo, sem esperança; e depois uma estranha ambição invadiu-nos a alma e a humanidade, há uma inquietação imensa que nos rói, há um vazio na nossa multidão; sentimos à nossa volta um frio de sepulcro.
A humanidade come√ßou a mexer em m√°quinas, e ao ver o ouro que nelas brilhava, exclamou: ¬ę√Č Deus!¬Ľ E come esse Deus. H√° – e √© porque tudo acabou, adeus! adeus! – vinho antes da morte! Cada um se precipita para onde o seu instinto o impele,

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Somos Traídos pela Nossa Própria Percepção e Experiência

Vemos muito bem que as coisas não se alojam em nós com a sua forma e essência, e não penetram em nós pela sua própria força e autoridade; porque, se assim fosse, recebê-las-íamos do mesmo modo: o vinho seria o mesmo na boca do doente e na boca do homem são. Quem tem os dedos gretados, ou que os tem entorpecidos, encontraria na lança ou na espada que maneja uma rigidez semelhante à que o outro encontra. Os objetos externos rendem-se então à nossa mercê; alojam-se em nós como nos apraz. Ora, se da nossa parte recebêssemos alguma coisa sem alteração, se as faculdades humanas fossem bastante capazes e firmes para apreender a verdade pelos nossos próprios meios, esses meios sendo comuns a todos os homens, essa verdade se transmitiria de mão em mão de um para outro. E pelo menos se encontraria uma coisa no mundo, entre tantas que há, que seria acreditada pelos homens por um consenso universal. Mas o facto de não se ver proposição alguma que não seja debatida e controversa entre nós, ou que não o possa ser, mostra bem que o nosso julgamento natural não apreende muito claramente aquilo que apreende; pois o meu julgamento não pode fazer com que isso seja aceite pelo julgamento do meu companheiro,

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O Que Mais Contribui para a Felicidade

J√° reconhecemos em geral que aquilo que somos contribui muito mais para a felicidade do que aquilo que temos ou representamos. Importa saber o que algu√©m √© e, por conseguinte, o que tem em si mesmo, pois a sua individualidade acompanha-o sempre e por toda a parte, e tinge cada uma das suas viv√™ncias. Em todas as coisas e ocasi√Ķes, o indiv√≠duo frui, em primeiro lugar, apenas a si mesmo. Isso j√° vale para os deleites f√≠sicos e muito mais para os intelectuais. Por isso, a express√£o inglesa to enjoy one’s self √© bastante acertada; com ela, dizemos, por exemplo, he enjoys himself at Paris, portanto, n√£o ¬ęele frui Paris¬Ľ, mas ¬ęele frui a si em Paris¬Ľ. Entretanto, se a individualidade √© de m√° qualidade, ent√£o todos os deleites s√£o como vinhos deliciosos numa boca impregnada de fel.
Assim, tanto no bem quanto no mal, tirante os casos graves de infelicidade, importa menos saber o que ocorre e sucede a alguém na vida, do que a maneira como ele o sente, portanto, o tipo e o grau da sua susceptibilidade sob todos os aspectos. O que alguém é e tem em si mesmo, ou seja, a personalidade e o seu valor,

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Os Nossos Eus

Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas m√£os de um empregado de mesa, t√™m outros v√≠nculos, outras simpatias, pequenas constitui√ß√Ķes e direitos pr√≥prios – chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer t√™m nome) – de modo que um deles s√≥ comparece se chover, outro s√≥ numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones n√£o estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho – e assim por diante; pois cada indiv√≠duo poder√° multiplicar, a partir da sua experi√™ncia pessoal, os diversos compromissos que os seus diversos eus estabelecerem consigo – e alguns s√£o demasiado absurdos e rid√≠culos para figurarem numa obra impressa.

A Velha Angra

Olhou sobre a velha Angra, aninhada aos p√©s do Monte Brasil, as arauc√°rias erguendo-se contra o c√©u cinzento. Esquadrinhou com o olhar as suas ruas, os seus solares e pal√°cios, as suas igrejas. Imaginou marinheiros e mercadores, saltimbancos e aventureiros a caminho das sete partidas do mundo. Charlat√£es bebiam vinho com mission√°rios, soldados negociavam servi√ßos com prostitutas, piratas persuadiam navegadores ao servi√ßo do rei sobre novas e mais rent√°veis rotas, de encontro ao Vento Carpinteiro. Havia escravos e b√™bedos, burocratas e crian√ßas furtivas, freiras e casais de condenados com destino ao Brasil, e toda essa gente circulava pela cidade como se fosse o seu sangue, incerto e veloz, bombeado por um cora√ß√£o descompassado que era o pr√≥prio movimento do mar, furioso, naufragando naus e gale√Ķes como numa tela de Vernet.

Julgamento Precipitado

Se algu√©m se banha rapidamente, n√£o dever√°s dizer: ¬ęN√£o se saiu bem.¬Ľ Melhor ser√° que digas: ¬ęFoi r√°pido de mais.¬Ľ Se algu√©m bebe muito vinho, n√£o dever√°s dizer: ¬ę√Č um erro.¬Ľ Melhor ser√° que digas: ¬ęBebeu muito vinho.¬Ľ Antes de teres apurado a raz√£o que levou algu√©m a proceder daqueles modos, como podes tu saber, em boa verdade, se algu√©m procedeu bem ou mal? E s√≥ deste jeito, √≥ caro, n√£o correr√°s o risco de te pronunciar sobre situa√ß√Ķes falsas tendo-as como situa√ß√Ķes verdadeiras.

A Instabilidade e Imprevisibilidade do Nosso Comportamento

N√£o deveis estranhar se hoje vedes poltr√£o aquele que ontem vistes t√£o intr√©pido: ou a c√≥lera, ou a necessidade, ou a companhia, ou o vinho, ou o som de uma trombeta, tinham-lhe incutido coragem. N√£o se trata de uma coragem que a raz√£o haja modelado; foram as circunst√Ęncias que lhe deram consist√™ncia; n√£o espanta, pois, que circunst√Ęncias contr√°rias a tenham transformado.
Esta t√£o flex√≠vel varia√ß√£o e estas contradi√ß√Ķes que em n√≥s se v√™em, fizeram com que alguns imaginassem termos duas almas, e que outros supusessem que dois poderes nos acompanham e agitam, cada qual √† sua maneira, um tendendo para o bem, o outro para o mal, j√° que t√£o brutal diversidade n√£o poderia atribuir-se a uma s√≥ entidade.
N√£o somente o vento dos acidentes me agita consoante a direc√ß√£o para que sopra, mas, ademais, eu agito-me e perturbo-me a mim pr√≥prio pela instabilidade da minha postura; e quem, antes do mais, se observar, nunca se achar√° duas vezes no mesmo estado. Confiro √† minha alma ora um rosto ora outro, conforme o lado sobre que a pousar. Se falo de mim de diferentes maneiras √© porque de maneiras diferentes me observo. Toda a sorte de contradi√ß√Ķes se podem encontrar em mim sob algum ponto de vista e sob alguma forma.

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Lembrar ou Recordar

A recorda√ß√£o n√£o tem apenas que ser exacta; tem que ser tamb√©m feliz; √© preciso que o aroma do vivido esteja preservado, antes de selar-se a garrafa da recorda√ß√£o. Tal como a uva n√£o deve ser pisada em qualquer altura, tal como o tempo que faz no momento de esmag√°-la tem grande influ√™ncia no vinho, tamb√©m o que foi vivido n√£o est√° em qualquer momento ou em qualquer circunst√Ęncia pronto para ser recordado ou pronto para dar entrada na interioridade da recorda√ß√£o.
Recordar não é de modo algum o mesmo que lembrar. Por exemplo, alguém pode lembrar-se muito bem de um acontecimento, até ao mais ínfimo pormenor, sem contudo dele ter propriamente recordação. A memória é apenas uma condição transitória. Por intermédio da memória o vivido apresenta-se à consagração da recordação.
A diferença é reconhecível logo nas diferentes idades da vida. O ancião perde a memória, que aliás é a primeira capacidade a perder-se. Contudo, o ancião tem em si algo de poético; de acordo com a representação popular ele é profeta, é divinamente inspirado. A recordação é afinal também a sua melhor força, a sua consolação: consola-o com esse alcance da visão poética.
A inf√Ęncia, pelo contr√°rio,

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O Poeta não é um Pequeno Deus

O poeta n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o, n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o est√° amrcado por um destino cabal√≠stico superior ao de quem exerce outros misteres e of√≠cios. Exprimi ami√ļde que o melhor poeta √© o homem que nos entrega o p√£o de cada dia: o padeiro mais pr√≥ximo, que n√£o se julga deus. Cumpre a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, levar ao forno, dourar e entregar o p√£o de cada dia, com uma obriga√ß√£o comunit√°ria. E se o poeta chega a atingir essa simples consci√™ncia, a simples consci√™ncia tamb√©m se pode converter em parte de uma artesania colossal, de uma constru√ß√£o simples ou complicada, que √© a constru√ß√£o da sociedade, a transforma√ß√£o das condi√ß√Ķes que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: p√£o, verdade, vinho, sonhos.

Se o poeta se incorpora nessa nunca consumida luta para cada um confiar nas mãos dos outros a sua ração de compromisso, a sua dedicação e a sua ternura pelo trabalho comum de cada dia e de todos os homens, participa no suor, no pão, no vinho, no sonho de toda a humanidade. Só por esse caminho inalienável de sermos homens comuns conseguiremos restituir à poesia o vasto espaço que lhe vão abrindo em cada época,

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O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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√Č Necess√°rio Estar Sempre Embriagado

√Č necess√°rio estar sempre embriagado. Tudo est√° a√≠: √© a √ļnica quest√£o. Para n√£o se sentir o horr√≠vel fardo do Tempo que quebranta os vossos ombros e vos curva em direc√ß√£o √† terra, deveis vos embriagar sem tr√©gua. Mas de qu√™? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos.