Textos sobre Vergonha

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Textos de vergonha escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ser Amigo

O cora√ß√£o de um amigo √© uma coisa que sempre quer. Ser amigo √© estar ao lado de quem n√£o tem raz√£o, contra qualquer inimigo que tenha, e apare√ßa, dizendo com toda a justi√ßa que o amigo n√£o a tem. N√£o √© suspender a raz√£o – √© us√°-la friamente, aplic√°-la, estar sempre consciente dela. E, contudo, n√£o diz√™-la, n√£o mostr√°-la, ficar sempre acima dela. Ser amigo √© ter raz√£o e n√£o querer saber dela. Ser amigo √© pensar duas vezes quando a √ļltima vez pertence ao que repensa o cora√ß√£o.

O amigo discordava dele. Dizia: Queres tu dizer que para se ser um bom amigo é preciso, às vezes, ser-se muito má pessoa? Sim, respondia ele, era isso que ele queria dizer. Porque ser amigo tem de ser uma coisa que custa. Às vezes é um trabalho, muitas horas, muitas dores; um trabalho que é o contrário do que seria natural, e do que apetece. Ser má pessoa para se ser um bom amigo (ou um bom português, ou um bom professor), é fazer fé que um outro fim faz valer o desconforto, faz valer o arrependimento, acaba por se abater sobre a vergonha. E sofrer bastante para que o outro nada sofra,

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Um Bom Pai

Um bom pai não é aquele que nunca perde a paciência, mas é aquele que dialoga muito com os seus filhos, que tem prazer em entrar no mundo deles, que não os deixa do lado de fora da sua história. Ninguém tem filhos sabendo o que é ser pai. Ser pai exige um constante treino, em que os erros corrigem as rotas e as lágrimas acertam os caminhos. Educar filhos é uma tarefa complexa. Costumo brincar e dizer que os melhores filhos para serem educados são os dos outros e não os nossos. E fácil educar os filhos dos outros, pois não temos vínculos nem dificuldades com eles. Sem vínculo, o amor não cresce, mas onde há vínculos há sempre problemas e atritos. Não acredite em manuais mágicos de educação. Acredite na sua sensibilidade.

A melhor educa√ß√£o que os pais podem dar aos seus filhos √© dividir a sua hist√≥ria com eles. O melhor treino da emo√ß√£o √© falar das suas frustra√ß√Ķes, dos seus momentos de hesita√ß√£o, das suas conquistas, dos seus sonhos, dos seus erros. Nunca houve tantos div√≥rcios, mas o ser humano n√£o deixa de se unir. Porqu√™? Porque viver em fam√≠lia √© uma das experi√™ncias mais prazerosas da exist√™ncia.

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De Que Vale a Sabedoria ?

Os homens que se entregam à sabedoria são de longe os mais infelizes. Duplamente loucos, esquecem que nasceram homens e querem imitar os deuses poderosos, e a exemplo dos Titãs, armados com as ciências e as artes, declaram guerra à Natureza. Ora, os menos infelizes são aqueles que mais se aproximam da animalidade e da estupidez.
Tentarei fazer-vos entender isto, usando, em vez dos argumentos dos est√≥icos, um exemplo crasso. Haver√°, pelos deuses imortais, esp√©cie mais feliz que os homens a quem o vulgo chama loucos, parvos, imbecis, cognomes bel√≠ssimos, na minha opini√£o? Esta afirma√ß√£o poder√° a princ√≠pio parecer insensata e absurda e, no entanto, nada h√° de mais verdadeiro. Tais homens n√£o receiam a morte, e, por J√ļpiter! isso j√° n√£o representa pequena vantagem! A sua consci√™ncia n√£o os incomoda. As hist√≥rias de fantasmas n√£o os aterrorizam, nem os afecta o medo das apari√ß√Ķes e espectros, nem os males que os amea√ßam ou a esperan√ßa dos bens que poder√£o vir a receber. Nada, em resumo, os atormenta, isentos dos mil cuidadeos de que a vida √© feita. Ignoram a vergonha, o medo, a ambi√ß√£o, a inveja e chegam mesmo, se s√£o suficientemente est√ļpidos, a gozar o privil√©gio, segundo os te√≥logos,

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Temos de Ser o que Nos Apetecer

Se n√£o mudares, os outros fazem de ti o que querem.

A velha m√°xima ¬ęSe est√°s mal, muda-te¬Ľ faz mesmo todo o sentido.

Se não nos sentimos bem com determinado relacionamento, se não estamos felizes no nosso trabalho, se não conseguimos encarar certa pessoa ou se, simplesmente, não nos sentimos bem naquele jantar, naquele ginásio ou naquela viagem, só nos resta uma alternativa: mudar.

Acontece que, e apesar de parecer simples, essa decisão é extremamente delicada. E porquê? Porque uma vez mais colocamos o mundo inteiro à nossa frente. Em vez de nos respeitarmos e levarmos a cabo o nosso desejo de liberdade, saindo de onde estamos para onde queremos estar, não, deixamo-nos ficar mesmo que o amor já não exista, mesmo que o patrão ou os colegas nos tratem mal, mesmo que continuemos a ser julgados ou cobrados pela mãe, pelo pai, pelo tio ou pelo cão e por aí adiante. Não mudamos e o caldo entorna-se. Ou seja, é o pior dos dois mundos.
N√£o comemos a sopa, n√£o nos nutrimos, e ainda nos queimamos por andarmos constantemente nas m√£os de uns e outros.

As pessoas relacionam-se mais por medo de se perderem umas às outras ou por necessidade de dominarem alguém do que por se amarem genuinamente,

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Acreditei que Podia Dar-te um Céu para Brincares

Filho. Gostava que houvesse uma aragem qualquer que me explicasse esse teu sorriso e outra que te explicasse, sem te magoar, o meu silêncio. Gostava de aprender o trejeito dos teus lábios, a maneira dos teus olhos, e to lembrar quando tivesses a minha idade. Fui um dia a tua inocência. E dela ficou-me a grande inocência de acreditar.
Acreditei que podia dar-te um céu para brincares e que a vida seria o que nós quiséssemos. Assim. Bastaria querermos, esforçarmo-nos muito, trabalharmos, e teríamos então o que desejássemos. Não digo coisas majestosas, roupas bonitas ou charretes, mas comida, comida gostosa e bem temperada, e um cavalo de cartão novo, se por acaso esquecesses o teu no quintal numa noite de chuva. Acreditei que a felicidade dos teus olhos a sorrir podia voltar aos olhos da tua mãe, aos meus e perdurar intocada nos teus. Acreditei em tantas coisas. Sabes, aproximo-me da vila e o que me espera é morrer um pouco mais. Preferia que não o soubesses, mas infelizmente nem isso posso esconder-te, porque um dia, quando te contarem a história da tua vida, dir-te-ão que numa noite de estrelas, o teu pai foi à vila e levou uma sova;

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Atenção aos Detalhes do Comportamento dos Outros

Devemos ter muito cuidado para n√£o emitir uma opini√£o demasiado favor√°vel de um homem que acabamos de conhecer; pelo contr√°rio, na maioria das vezes, seremos desiludidos, para nossa pr√≥pria vergonha ou at√© para nosso dano. A esse respeito, uma senten√ßa de S√©neca merece ser mencionada: Podem-se obter provas da natureza de um car√°cter tamb√©m a partir de miudezas. Justamente nestas √© que o homem, quando n√£o se procura conter, √© que revela o seu car√°cter. Nas ac√ß√Ķes mais insignificantes, em simples maneiras, pode-se ami√ļde observar o seu ego√≠smo ilimitado, sem a menor considera√ß√£o para com os outros e que, em seguida, embora dissimulado, n√£o se desmente nas grandes coisas.
N√£o se deve perder semelhante oportunidade. Quando algu√©m procede sem considera√ß√£o nos pequenos acontecimentos e circunst√Ęncias da vida di√°ria, intentando obter vantagens ou comodidade, em preju√≠zo de outrem, nas coisas em que se aplica a m√°xima de a lei n√£o se ocupa com ninharias, ou ainda apropriando-se do que existe para todos, etc., podemos convencer-nos de que no cora√ß√£o de tal indiv√≠duo n√£o reside justi√ßa alguma; ele ser√° um patife tamb√©m nas grandes situa√ß√Ķes, caso as suas m√£os n√£o sejam atadas pela lei e pela autoridade. N√£o lhe permitamos, pois,

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Saber Terminar uma Amizade Indesej√°vel

Sucede, tamb√©m, como por calamidade, que algumas vezes √© necess√°rio romper uma amizade: porque passo agora das amizades dos s√°bios √†s liga√ß√Ķes vulgares. Muitas vezes quando os v√≠cios se revelam num homem, os seus amigos s√£o as suas v√≠timas como todos os outros: contudo √© sobre eles que recai a vergonha. √Č preciso, pois, desligar-se de tais amizades ‚ÄĒ, afrouxando o la√ßo pouco a pouco e, como ouvi dizer a Cat√£o, √© necess√°rio descoser antes que despeda√ßar, a menos que se n√£o haja produzido um esc√Ęndalo de tal modo intoler√°vel, que n√£o fosse nem justo nem honesto, nem mesmo poss√≠vel, deixar de romper imediatamente.

Mas se o car√°cter e os gostos vierem a mudar, o que acontece muitas vezes; se algum dissentimento pol√≠tico separar dois amigos (n√£o falo mais, repito-o, das amizades dos s√°bios, mas das afei√ß√Ķes vulgares), √© preciso tomar cuidado em, desfazendo a amizade, n√£o a substituir logo pelo √≥dio. Nada mais vergonhoso, com efeito, que estar em guerra com aquele que se amou por muito tempo.
(…) Apliquemo-nos, pois, antes de tudo, em afastar toda a causa de ruptura: se contudo, acontecer alguma, que a amizade pare√ßa antes extinta do que estrangulada. Temamos sobretudo que ela n√£o se transforme em √≥dio violento,

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O Ponto mais Alto da Moral Consiste na Gratid√£o

O ponto mais alto da moral consiste na gratid√£o. E esta verdade proclam√°-la-√£o todas as cidades, todos os povos, mesmo os oriundos das regi√Ķes b√°rbaras, neste ponto est√£o de acordo os bons e os maus. Haver√° quem aprecie sobre¬≠tudo o prazer, outros haver√° que julguem prefer√≠vel o esfor√ßo activo; uns consideram a dor como o sumo mal, para outros a dor n√£o ser√° sequer um mal; alguns inclui¬≠r√£o a riqueza no sumo bem, outros dir√£o que a riqueza foi inventada para o mal da humanidade e que o homem mais rico √© aquele a quem a fortuna nada encontra para dar; no meio desta diversidade de posi√ß√Ķes uma coisa h√° que todos afirmar√£o, como soe dizer-se, a uma s√≥ voz: que devemos gratid√£o √†queles que nos favorecem. Neste ponto toda esta multid√£o de opini√Ķes se mostra de acordo, mesmo quando por vezes pagamos favores com inj√ļrias; e a pri¬≠meira causa de ingratid√£o √© n√£o podermos ser suficiente¬≠mente gratos. A insensatez chegou ao ponto de se tornar perigos√≠ssimo fazer um grande benef√≠cio a algu√©m; como se considera uma vergonha n√£o pagar o benef√≠cio, julga-se prefer√≠vel n√£o existir ningu√©m que no-lo fa√ßa! Goza em paz o que de mim recebeste; n√£o to reclamo,

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A Fragilidade dos Valores

Todas as coisas ¬ęboas¬Ľ foram noutro tempo m√°s; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprud√™ncia de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Cambodja o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, ben√©volos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os ¬ęvalores por excel√™ncia¬Ľ; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza.
A submiss√£o ao direito: oh! que revolu√ß√£o de consci√™ncia em todas as ra√ßas aristocr√°ticas quando tiveram de renunciar √† vingan√ßa para se submeterem ao direito! O ¬ędireito¬Ľ foi por muito tempo um vetitum, uma inova√ß√£o, um crime; foi institu√≠do com viol√™ncia e opr√≥bio.
Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos supl√≠cios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumer√°veis m√°rtires; por estranho que isto hoje nos pare√ßa, j√° o demonstrei na Aurora, aforismo 18: ¬ęNada custou mais caro do que esta migalha de raz√£o e de liberdade, que hoje nos envaidece¬Ľ. Esta mesma vaidade nos impede de considerar os per√≠odos imensos da ¬ęmoraliza√ß√£o dos costumes¬Ľ que precederam a hist√≥ria capital e foram a verdadeira hist√≥ria,

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Evitar o Sofrimento

Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa sa√ļde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emo√ß√Ķes, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa √©. E este h√°bito de reprimirmos constantemente as nossas puls√Ķes naturais √© o que faz de n√≥s seres t√£o refinados. Porque √© que n√£o nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabe√ßa fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque √© que n√£o nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separa√ß√£o, uma parte dos nossos cora√ß√Ķes fica desfeita. Assim, esfor√ßamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.

A Minha Cidade Preferida

√Č o Porto. Tem umas caracter√≠sticas muito particulares, muito suas. Ou melhor, tinha. Est√£o agora a fazer for√ßa para tir√°-las, ao contr√°rio do que se faz l√° fora. Mesmo √†s cidades que foram arrasadas pela guerra, como Vars√≥via, na Pol√≥nia, que foi refeita tal qual era antes. O mesmo aconteceu em Berlim. Aqui destroem o que est√° feito para construir uma porcaria qualquer incaracter√≠stica, que n√£o representa coisa nenhuma. Por exemplo, o que querem fazer no mercado do Bolh√£o √© uma vergonha – querem meter l√° um supermercado, ou outra borra qualquer, que tira todo o car√°cter √† cidade e a modifica. Assim, as cidades confundem-se todas: a gente chega a uma cidade e j√° n√£o sabe onde est√°. √Č tudo igual em toda a parte.

Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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A Inj√ļria tem Sempre que ter Troco na mesma Medida

Os homens envergonham-se n√£o das inj√ļrias que fazem, mas das que recebem. Mas para se conseguir que os injuriadores sintam vergonha n√£o h√° outro meio sen√£o pagar-lhes na mesma moeda.

Somos Uma Nação Que Se Regenera

Que somos n√≥s hoje? Uma na√ß√£o que tende a regenerar-se: diremos mais: que se regenera. Regenera-se, porque se repreende a si pr√≥pria; porque se revolve no loda√ßal onde dormia tranquila; porque se irrita da sua decad√™ncia, e j√° n√£o sorri sem vergonha ao insultar de estranhos; porque principia, enfim, a reconhecer que o trabalho n√£o desonra, e vai esquecendo as visagens senhoris de fidalga. Deixai passar essas paix√Ķes pequenas e m√°s que combatem na arena pol√≠tica, deixai flutuar √† luz do sol na superf√≠cie da sociedade esses cora√ß√Ķes cancerosos que a√≠ vedes; deixai erguerem-se, tombar, despeda√ßarem-se essas vagas encontradas e confusas das opini√Ķes! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o mar do povo agita-se debaixo da sua superf√≠cie. O sarga√ßo imundo, a escuma f√©tida e turva h√£o-de desparecer. Um dia o oceano popular ser√° grandioso, puro e sereno como saiu das m√£os de Deus. A tempestade √© a precusora da bonan√ßa. O lago asfaltite, o Mar Morto, esse √© que n√£o tem procelas.
O nosso estrebuchar, muitas veze col√©rico, muitas mais mentecapto e rid√≠culo, prova que a Europa se enganava quando cria que esta nobre terra do √ļltimo ocidente era o cemit√©rio de uma na√ß√£o cad√°ver.

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A Necessidade da Mentira

A imoralidade da mentira n√£o consiste na viola√ß√£o da sacrossanta verdade. Ao fim e ao cabo, tem direito a invoc√°-la uma sociedade que induz os seus membros compulsivos a falar com franqueza para, logo a seguir, tanto mais seguramente os poder surpreender. √Ä universal verdade n√£o conv√©m permanecer na verdade particular, que imediatamente transforma na sua contr√°ria. Apesar de tudo, √† mentira √© inerente algo repugnante cuja consci√™ncia submete algu√©m ao a√ßoite do antigo l√°tego, mas que ao mesmo tempo diz algo acerca do carcereiro. O erro reside na excessiva sinceridade. Quem mente envergonha-se, porque em cada mentira deve experimentar o indigno da organiza√ß√£o do mundo, que o obriga a mentir, se ele quiser viver, e ainda lhe canta: “Age sempre com lealdade e rectid√£o”.
Tal vergonha rouba a for√ßa √†s mentiras dos mais subtilmente organizados. Elas confundem; por isso, a mentira s√≥ no outro se torna imoralidade como tal. Toma este por est√ļpido e serve de express√£o √† irresponsabilidade. Entre os insidiosos pr√°ticos de hoje, a mentira j√° h√° muito perdeu a sua honrosa fun√ß√£o de enganar acerca do real. Ningu√©m acredita em ningu√©m, todos sabem a resposta. Mente-se s√≥ para dar a entender ao outro que a algu√©m nada nele importa,

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Confiança Audaz

H√° um momento na aprendizagem de cada homem em que este chega √† convic√ß√£o de que a inveja √© ignor√Ęncia; que a imita√ß√£o √© suic√≠dio; que ele tem que se tomar a ele pr√≥prio tanto para melhor, tanto para pior, como a sua parcela; que embora o universo esteja cheio de coisas boas, nenhuma semente de milho nutritiva chegar√° a ele sen√£o atrav√©s da labuta que ele ofere√ßa nesse lote de terreno que lhe foi dado para cultivar. O poder que reside nele √© novo na natureza, e nenhum outro sen√£o ele sabe o que √© que pode fazer, e n√£o o saber√° at√© que o tente. N√£o √© por nada que uma cara, um car√°cter, um facto, causa muito impress√£o nele, e outros n√£o t√™m qualquer efeito. Esta escultura na mem√≥ria n√£o existe sem uma harmonia pr√©-estabelecida. O olho foi colocado onde um raio deve cair, de forma a testemunhar esse raio em particular. N√≥s apenas nos exprimimos pela metade, e temos vergonha da ideia divina que cada um de n√≥s representa. Podemos ser de confian√ßa e de motiva√ß√Ķes boas e proporcionais, e darmo-nos fielmente, mas Deus n√£o ter√° o seu trabalho mais manifesto feito por cobardes. Um homem est√° seguro e tranquilo quando coloca todo o cora√ß√£o no seu trabalho ou outra actividade e faz o seu melhor de acordo consigo pr√≥prio;

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A Vergonha é um Sentimento de Profanação

A vergonha é bem um sentimento da profanação. Amizade, amor e piedade deveriam ser tratados secretamente. Só deveríamos falar deles em raros momentos de intimidade, ficar de acordo silenciosamente Рhá muitas coisas que são demasiado delicadas para se pensar nelas, muito menos ainda para delas se falar.

A Subjectividade do Amor-Próprio

Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
– O senhor n√£o tem vergonha de se dedicar a mister t√£o infame, quando podia trabalhar?
– Senhor, – respondeu o pedinte – estou-lhe a pedir dinheiro e n√£o conselhos. – E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo n√£o suportava reprimendas.
Viajando pela √ćndia, topou um mission√°rio com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patr√≠cios hindus, que lhe davam algumas moedas do pa√≠s.
– Que ren√ļncia de si pr√≥prio! – dizia um dos espectadores.
– Ren√ļncia de mim pr√≥prio? – retorquiu o faquir. – Ficai sabendo que n√£o me deixo a√ßoitar neste mundo sen√£o para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
Tiveram pois plena raz√£o os que disseram ser o amor de n√≥s mesmos a base de todos as nossas ac√ß√Ķes – na √ćndia, na Espanha como em toda a terra habit√°vel. Sup√©rfluo √© provar aos homens que t√™m rosto.

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A Vergonha e a Injustiça Não Existem na Natureza

A vergonha n√£o existe na natureza. Os animais sabem a lei: a for√ßa, a for√ßa, a for√ßa. Quem √© fraco cai e faz o que o forte quer. A inunda√ß√£o, as chuvas, o mam√≠fero mais pesado e mais r√°pido e o mam√≠fero pequeno. Os primatas, os r√©pteis, os peixes maiores e os mais min√ļsculos, a cascata: j√° viste algum animal cair?, n√£o h√° a mais breve compaix√£o entre os animais e a √°gua, o mar engoliu milhares e milhares de c√£es desde o in√≠cio do mundo. N√£o h√° a mais breve compaix√£o entre a √°gua e as plantas, entre a terra que desaba e os pequenos animais acabados de nascer. A natureza avan√ßa com o que √© forte e a cidade avan√ßa com o que √© forte: qual a d√ļvida? Queres o qu√™?
N√£o h√° animais injustos, n√£o sejas imbecil. N√£o h√° inunda√ß√Ķes injustas ou desabamentos da maldade. A injusti√ßa n√£o faz parte dos elementos da natureza, um c√£o sim, e uma √°rvore e a √°gua enorme, mas a injusti√ßa n√£o. Se a injusti√ßa se fizesse organismo: coisa que pode morrer, ent√£o, sim, faria parte da natureza.

Gonçalo M.

O Descontentamento Consigo Próprio

O caso √© o mesmo em todos os v√≠cios: quer seja o daqueles que s√£o atormentados pela indol√™ncia e pelo t√©dio, sujeitos a contantes mudan√ßas de humor, quer o daqueles a quem agrada sempre mais aquilo que deixaram para tr√°s, ou dos que desistem e caem na indol√™ncia. Acrescenta ainda aqueles que em nada diferem de algu√©m com um sono dif√≠cil, que se vira e revira √† procura da posi√ß√£o certa, at√© que adormece de t√£o cansado que fica: mudando constantemente de forma de vida, permanecem naquela ¬ęnovidade¬Ľ at√© descobrirem n√£o o √≥dio √† mudan√ßa, mas a pregui√ßa da velhice em rela√ß√£o √† novidade. Acrescenta ainda os que nunca mudam, n√£o por const√Ęncia, mas por in√©rcia, e vivem n√£o como desejam, mas como sempre viveram. As caracter√≠sticas dos v√≠cios s√£o, pois, inumer√°veis, mas o seu efeito apenas um: o descontentamento consigo pr√≥prio.
Este descontentamento tem a sua origem num desequil√≠brio da alma e nas aspira√ß√Ķes t√≠midas ou menos felizes, quando n√£o ousamos tanto quanto desej√°vamos ou n√£o conseguimos aquilo que pretend√≠amos, e ficamos apenas √† espera. √Č a inevit√°vel condi√ß√£o dos indecisos, estarem sempre inst√°veis, sempre inquietos. Tentam por todas as vias atingir aquilo que desejam, entregam-se e sujeitam-se a pr√°ticas desonestas e √°rduas,

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