Passagens sobre Obras

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Frases sobre obras, poemas sobre obras e outras passagens sobre obras para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Retrato de Mónica

M√≥nica √© uma pessoa t√£o extraordin√°ria que consegue simultaneamente: ser boa m√£e de fam√≠lia, ser chiqu√≠ssima, ser dirigente da ¬ęLiga Internacional das Mulheres In√ļteis¬Ľ, ajudar o marido nos neg√≥cios, fazer gin√°stica todas as manh√£s, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, n√£o fumar, n√£o envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do s√©c. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser s√≥cia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito s√©ria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.

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A Vulgaridade Intelectual

Hoje, (…) o homem m√©dio tem as ¬ęideias¬Ľ mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audi√ß√£o. Para qu√™ ouvir, se j√° tem dentro de si o que necessita? J√° n√£o √© √©poca de ouvir, mas, pelo contr√°rio, de julgar, de sentenciar, de decidir. N√£o h√° quest√£o de vida p√ļblica em que n√£o intervenha, cego e surdo como √©, impondo as suas ¬ęopini√Ķes¬Ľ.
Mas n√£o √© isto uma vantagem? N√£o representa um progresso enorme que as massas tenham ¬ęideias¬Ľ, quer dizer, que sejam cultas? De maneira alguma. As ¬ęideias¬Ľ deste homem m√©dio n√£o s√£o autenticamente ideias, nem a sua posse √© cultura. A ideia √© um xeque-mate √† verdade. Quem queira ter ideias necessita antes de dispor-se a querer a verdade, e aceitar as regras do jogo que ela imponha. N√£o vale falar de ideias ou opini√Ķes onde n√£o se admite uma inst√Ęncia que as regula, uma s√©rie de normas √†s quais na discuss√£o cabe apelar. Estas normas s√£o os princ√≠pios da cultura. N√£o me importa quais s√£o. O que digo √© que n√£o h√° cultura onde n√£o h√° normas. A que os nossos pr√≥ximos possam recorrer.
Não há cultura onde não há princípios de legalidade civil a que apelar.

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Inteligência de Rotina

A matem√°tica √© uma ci√™ncia muito bela. Os matem√°ticos por√©m, muitas vezes, nada valem. Acontece com a matem√°tica quase o mesmo que com a teologia. Da mesma maneira que os homens se dedicam √† √ļltima, por pouco que exer√ßam uma fun√ß√£o p√ļblica, pretendem ter um cr√©dito particular de santidade e um parentesco mais estreito com Deus, ainda que entre eles haja um grande n√ļmero de aut√™nticos tratantes, os pretensos matem√°ticos exigem com muita frequ√™ncia ser considerados profundos pensadores, embora entre eles se encontrem as mentes mais entulhadas de mix√≥rdias, incapazes de fazer qualquer trabalho que exija reflex√£o e que n√£o possa ser reduzido de imediato a essa combina√ß√£o f√°cil de sinais que √© mais obra da rotina do que do pensamento.

O privilégio de se ser uma vítima do nosso sentimento de superioridade, é difícil de suportar. Assusta muita gente, parece uma heresia em tempos como os nossos. E, no entanto, é fundamental, para que uma obra seja feita.

O criador é uma espécie de monstro em que há o homem e o outro; quem desanima, quem se abate, quem chora é o homem: o outro, se é grande, até os desesperos utiliza. O essencial é que nunca o homem traia o artista, que a troco de uma felicidade que tanta gente tem se perca a obra que ninguém mais poderia realizar.

A guerra é a obra de arte dos militares, a coroação da sua formação, a insígnia dourada da sua profissão. Não foram criados para brilhar na paz.

O convívio com um artista não é a melhor forma de desvendar o mistério da sua obra. Mas é talvez a melhor forma de o destruir. Ou de supor que.

A Esterilidade da Crítica

Personagem que Deus n√£o cuidou de convocar quando criou o mundo, o cr√≠tico faz quest√£o de estabelecer uma hierarquia nas obras de cria√ß√£o e nas obras do esp√≠rito humano. Assim geram-se inveja e desprezo, e o des√Ęnimo dos maiores, ante injusti√ßas; assim ficam eles √† merc√™ dos seus inferiores, os est√©reis. A √ļnica est√©tica sadia √© a que n√£o cogita de medir impress√Ķes produzidas por tipos diferentes, a que coloca no mesmo plano todos os grandes esfor√ßos intelectuais da humanidade, fundindo-os no g√©nio humano, como as cores se fundem na luz sem sobressair nenhuma.

As tradu√ß√Ķes das obras liter√°rias ou s√£o fi√©is e s√≥ podem ser ruins, ou s√£o boas e s√≥ podem ser infi√©is.

Todas as obras de arte são de acesso bastante difícil. Se um leitor as julga fáceis é porque não soube penetrar no coração da obra.

Aqui jaz um grande poeta. Nada deixou escrito. Este silêncio, acredito, são suas obras completas.

A obra de arte deve dominar o espectador. O espectador n√£o deve dominar a obra de arte.

O segredo para a realização de uma obra grandiosa está em conhecer o ponto-chave para aí concentrar o esforço. Empreender uma obra grandiosa é como tentar remover uma pedra enorme com uma alavanca: a pedra poderá mover-se ou não, dependendo do ponto onde aplicarmos a força.

A Lamechal√Ęndia

Acabo de perceber que estou a escrever mais uma obra lamechas, vivo na Lamechal√Ęndia desde que te conhe√ßo, e √© bom que d√≥i, t√£o bom que s√≥ escrevo s√≥ ela, a lamechice √© boa mas nunca sozinha, exige que aqui e ali surja o lado negro, a lua existe para valorizar o sol, e o contr√°rio tamb√©m √© verdadeiro, n√£o percebo patavina de astronomia mas de amor percebo, que √© o mesmo que dizer que percebo de ti, tento, v√°, √†s vezes consigo,
a Lamechal√Ęndia n√£o √© s√≥ lamechice, n√£o √© s√≥ cor de rosa, Deus me livre de ser assim, adormecia antes de viver, a Lamechal√Ęndia √© a capacidade de ser lamechas quando √© preciso ser lamechas, quando ser lamechas tem de ser, agora que estamos aqui deitados nesta cama tem de ser, abra√ßo-te a cada letra que escrevo, procuro com as minhas m√£os cada cent√≠metro da tua pele sempre que me lembro de que somos assim, ser lamechas √© conseguir n√£o pensar em como se vai amar, n√£o pensar no que se vai dizer, olhar o outro e dizer-lhe ‚Äúprocuro-te como se procurasse sobreviver‚ÄĚ, e isto n√£o tem nada de mal, a falta de um orgasmo provoca mais conflitos do que a falta de um p√£o,

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O Intelectual e o Político

A miss√£o do chamado ¬ęintelectual¬Ľ √©, de certo modo, oposta √† do pol√≠tico. A obra intelectual aspira, frequentemente em v√£o, a aclarar um pouco as coisas, enquanto a do pol√≠tico s√≥i, pelo contr√°rio, consistir em confundi-las mais do que j√° estavam. Ser da esquerda √©, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, com efeito, s√£o formas da hemiplegia moral.

Instruir, salubrizar, enriquecer… Nenhuma obra de governo forte pode assentar sobre aquisi√ß√Ķes que n√£o sejam as derivadas pr√≥ximas destes postulados m√°ximos e extremos.

Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente, por isso pouco sentiam. De aí a sua perfeita execução da obra de arte.