Textos sobre Notícias

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Textos de notícias escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Verdadeiro Rosto da História

O verdadeiro rosto da hist√≥ria afasta-se veloz. S√≥ podemos reter o passado como uma imagem que no instante em que se deixa reconhecer lan√ßa um clar√£o que n√£o voltar√° a ver-se. ¬ęA verdade n√£o nos escapar√°¬Ľ – esta palavra de Gottfried Keller caracteriza com exactid√£o, na concep√ß√£o da hist√≥ria que t√™m os historicistas, o ponto em que o materialismo hist√≥rico realiza o seu avan√ßo atrav√©s dessa imagem. Irrecuper√°vel √©, com efeito, toda a imagem do passado que corre o risco de desaparecer com cada instante presente que nela n√£o se reconheceu. (A feliz not√≠cia trazida pelo ofegante histori√≥grafo do passado sai de uma boca que, talvez no pr√≥prio instante em que se abre, fala j√° no vazio.)

O Enigma do Ser Humano

Encontramos uma pessoa que achamos interessante. Tentamos, como se costuma dizer, ¬ęsitu√°-la¬Ľ. (Tenho o h√°bito de fazer isso at√© com os senhores e as senhoras que l√™em as not√≠cias na televis√£o.) Nas nossas recorda√ß√Ķes, procuramos rostos parecidos com o que temos agora diante de n√≥s. O movimento lento das p√°lpebras faz lembrar um orador na Associa√ß√£o de Biologia, as comissuras dos l√°bios s√£o iguais √†s de um docente de Qu√≠mica em Uppsala nos anos cinquenta. Em suma, uma entoa√ß√£o que conhecemos ali, uma express√£o do rosto que recordamos de outro lado, e imaginamos que fic√°mos a compreender. Reconstitu√≠mos o desconhecido com o aux√≠lio do que conhecemos.
O psicanalista no seu consult√≥rio (nem sei se √© assim que se diz, nunca fui a nenhum) faz, em princ√≠pio, o mesmo: associa experi√™ncias, recorda√ß√Ķes, para encontrar as chaves do novo, do desconhecido, com que se confronta.
Mas as pe√ßas que vamos buscar, os factos a que recorremos, esse molho de chaves que s√£o os rostos antes encontrados e que fazemos tilintar na nossa m√£o, √©, tamb√©m ele, o desconhecido. Explicamos um enigma com outro enigma. √Č a mesma coisa que comprar um novo exemplar do mesmo jornal para confirmar uma not√≠cia em que n√£o acreditamos.

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Virtude e Pecado s√£o Inatos

Nenhum pr√©mio certo tem a virtude, nenhum castigo certo o pecado. Nem seria justo que houvesse tal pr√©mio ou tal castigo. Virtude ou pecado s√£o manifesta√ß√Ķes inevit√°veis de organismos condenados a um ou a outro, servindo a pena de serem bons ou a pena de serem maus. Por isso todas as religi√Ķes colocam as recompensas e os castigos, merecidos por quem, nada sendo nem podendo, nada p√īde merecer, em outros mundos, de que nenhuma ci√™ncia pode dar not√≠cia, de que nenhuma f√© pode transmitir a vis√£o. Abdiquemos, pois, de toda a cren√ßa sincera, como de toda a preocupa√ß√£o de influir em outrem.
A vida, disse Gabriel Tarde, √© a busca do imposs√≠vel atrav√©s do in√ļtil. Busquemos sempre o imposs√≠vel, porque tal √© o nosso fado; busquemo-lo atrav√©s do in√ļtil, porque n√£o passa caminho por outro ponto; ascendamos, por√©m, √† consci√™ncia de que nada buscamos que possa obter-se, de que por nada passamos que mere√ßa um carinho ou uma saudade.
Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender, disse o escolista. Compreendamos, compreendamos sempre, e façamos por tecer astuciosamente capelas ou grinaldas que hão-de murchar também, as flores espectrais dessa compreensão.

As Notícias São o Contrário da Vida

As not√≠cias s√£o o contr√°rio da vida. Uma not√≠cia √© uma novidade; √© uma excep√ß√£o. Mas a pergunta mais dif√≠cil (provocando a resposta mais interessante) √©: “S√£o uma excep√ß√£o a qu√™?”
A no√ß√£o corrente, idiota, √© que “c√£o morde homem” n√£o √© not√≠cia, mas que “homem morde c√£o” √©. Mentira. A grande maioria dos c√£es n√£o morde as pessoas. E quando h√° uma pessoa que morde um c√£o n√£o s√≥ √© raro, como desinteressante.
Atrás Рou à frente Рdesta simplificação está a questão bastante mais importante de como se dão os cães e os homens. As mordeduras são episódios pouco representativos e facilmente explicáveis, sem explicarem nada.
Um psicopata assassina muitas pessoas. √Č uma not√≠cia. Mas que nos diz dos noruegueses? Nada. Que nos diz sobre o comportamento dos europeus? Nada.
A realidade é o contrário da notícia. A notícia é histriónica e histérica, separada da normalidade, que nunca é unívoca ou definidora. Existem dois impulsos. O mais antigo é realçar a surpresa e a indignação. O mais moderno é notar as ausências e as diferenças, mas investigar e descrever as presenças circundantes, onde e entre as quais ocorrem tanto a novidade como a antiguidade.

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A Hipocrisia do Ser

Para que servem esses p√≠ncaros elevados da filosofia, em cima dos quais nenhum ser humano se pode colocar, e essas regras que excedem a nossa pr√°tica e as nossas for√ßas? Vejo frequentes vezes proporem-nos modelos de vida que nem quem os prop√Ķe nem os seus auditores t√™m alguma esperan√ßa de seguir ou, o que √© pior, desejo de o fazer. Da mesma folha de papel onde acabou de escrever uma senten√ßa de condena√ß√£o de um adult√©rio, o juiz rasga um peda√ßo para enviar um bilhetinho amoroso √† mulher de um colega. Aquela com quem acabais de ilicitamente dar uma cambalhota, pouco depois e na vossa pr√≥pria presen√ßa, bradar√° contra uma similar transgress√£o de uma sua amiga com mais severidade que o faria P√≥rcia.
E h√° quem condene homens √† morte por crimes que nem sequer considera transgress√Ķes. Quando jovem, vi um gentil-homem apresentar ao povo, com uma m√£o, versos de not√°vel beleza e licenciosidade, e com outra, a mais belicosa reforma teol√≥gica de que o mundo, de h√° muito √†quela parte, teve not√≠cia.
Assim v√£o os homens. Deixa-se que as leis e os preceitos sigam o seu caminho: n√≥s tomamos outro, n√£o s√≥ por desregramento de costumes, mas tamb√©m frequentemente por termos opini√Ķes e ju√≠zos que lhes s√£o contr√°rios.

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As Infelizes Necessidades do Homem Civilizado

Um autor c√©lebre, calculando os bens e os males da vida humana, e comparando as duas somas, achou que a √ļltima ultrapassa muito a primeira, e que tomando o conjunto, a vida era para o homem um p√©ssimo presente. N√£o fiquei surpreendido com a conclus√£o; ele tirou todos os seus racioc√≠nios da constitui√ß√£o do homem civilizado. Se subisse at√© ao homem natural, pode-se julgar que encontraria resultados muito diferentes; porque perceberia que o homem s√≥ tem os males que se criou para si mesmo, o que √† natureza se faria justi√ßa. N√£o foi f√°cil chegarmos a ser t√£o desgra√ßados. Quando, de um lado, consideramos o imenso trabalho dos homens, tantas ci√™ncias profundas, tantas artes inventadas, tantas for√ßas empregadas, abismos entulhados, montanhas arrasadas, rochedos quebrados, rios tornados naveg√°veis, terras arroteadas, lagos cavados, pantanais dissecados, constru√ß√Ķes enormes elevadas sobre a terra, o mar coberto de navios e marinheiros, e quando, olhando do outro lado, procuramos, meditando um pouco as verdadeiras vantagens que resultaram de tudo isso para a felicidade da esp√©cie humana, s√≥ nos podemos impressionar com a espantosa despropor√ß√£o que reina entre essas coisas, e deplorar a cegueira do homem, que, para nutrir o seu orgulho louco, n√£o sei que v√£ admira√ß√£o de si mesmo,

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A Inteligência e o Carácter das Massas

O nosso tempo √© rico em mentes inventivas, cujas inven√ß√Ķes podem facilitar consideravelmente as nossas vidas. Estamos a atravessar os mares com pot√™ncia e a utilizar a pot√™ncia tamb√©m para libertar a humanidade de todo o trabalho muscular cansativo. Aprendemos a voar e somos capazes de enviar mensagens e not√≠cias sem qualquer dificuldade para todo o mundo atrav√©s de ondas el√©ctricas.
Contudo, a produção e a distribuição de bens estão completamente desorganizadas, de tal forma que toda a gente vive com medo de ser completamente eliminada do ciclo económico, sofrendo deste modo do querer tudo. Para além disso, as pessoas que vivem em países diferentes matam-se umas às outras com intervalos de tempo irregulares, de tal modo que, também por esta razão, todo aquele que pensa no futuro vive no medo e no terror. Isto deve-se ao facto de a inteligência e o carácter das massas serem incomparavelmente menores do que a inteligência e o carácter dos poucos que produzem algo de verdadeiramente válido para a comunidade.
Tenho confian√ßa em que a posteridade ler√° estas afirma√ß√Ķes com um sentimento de orgulho e superioridade justificada.

Como te Tens Lembrado Hoje de Mim?

O que tens tu feito, amor? Andar√°s, como segunda-feira, cavaleiro andante a flirtar √†s janelas das ruas do Alto do Pina, com damas de cem anos?… Cem anos, pelo menos… Eu creio mesmo que tu disseste mais alguns… Sempre est√°s uma prenda, um espertalh√£o… Tenho que te educar convenientemente e ensinar-te que damas de cem anos e mulheres que fazem queijadas, n√£o servem, ou pelo menos n√£o devem servir, a quem tem a suprema felicidade de possuir uma mulher como eu, que sou uma p√©rola, ou por outra: um colar de p√©rolas, como ontem gentilmente me chamaste… Est√°s de acordo, n√£o √© verdade?

A tua pequenina fera está há imenso tempo ansiosa que a chuva acabe, para deitar o focinhito fora do covil, ao menos por cinco minutos; mas não há meio, o diabo da chuva continua a cair sem piedade e daqui a pouco a ferazinha sai mesmo com chuva e tudo. Há tanto tempo que não saio! Em horas de concentração de consciência, eu ponho-me a pensar que nunca julguei capaz que um homem pudesse fazer da Miss América, como muita gente me chamava dantes, esta burguezinha pacata, que, detrás dos vidros duma janela, passa a vida a fazer rendas,

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A Voz que Ouço quando Leio

Quando leio, h√° uma voz que l√™ dentro de mim. Paro o olhar sobre o texto impresso, mas n√£o acredito que seja o meu olhar que l√™. O meu olhar fica embaciado. √Č essa voz que l√™. Quando √© s√©ria, ou√ßo-a falar-me de assuntos s√©rios. √Äs vezes, sussurra-me. √Äs vezes, grita-me. Essa voz n√£o √© a minha voz. N√£o √© a voz que, em filmagens de festas de anos e de natais, vejo sair da minha boca, do movimento dos meus l√°bios, a voz que estranho por, num rosto parecido com o meu, n√£o me parecer minha. A voz que ou√ßo quando leio existe dentro de mim, mas n√£o √© minha. N√£o √© a voz dos meus pensamentos. A voz que ou√ßo quando leio existe dentro de mim, mas √© exterior a mim. √Č diferente de mim. Ainda assim, n√£o acredito que algu√©m possa ter uma voz que l√™ igual √† minha, por isso √© minha mas n√£o √© minha. Mas, claro, n√£o posso ter a certeza absoluta. N√£o s√≥ porque uma voz √© indescrit√≠vel, mas tamb√©m porque nunca ningu√©m me tentou descrever a voz que ouve quando l√™ e porque eu nunca falei com ningu√©m da voz que ou√ßo quando leio.

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A Originalidade é Antitética à Novidade

Arte, m√ļsica e literatura significativas n√£o s√£o novas, como s√£o, como se esfor√ßam por ser, as not√≠cias dadas pelo jornalismo. A originalidade √© antit√©tica √† novidade. A etimologia da palavra alerta-nos. Fala de ¬ęin√≠cio¬Ľ e de ¬ęinstaura√ß√£o¬Ľ de um regresso, em subst√Ęncia e em forma, ao in√≠cio. Directamente relacionadas com a sua originalidade e com a sua for√ßa de inova√ß√£o espiritual-formal, as inven√ß√Ķes est√©ticas s√£o ¬ęarcaicas¬Ľ. Trazem em si o pulsar de uma fonte distante.

A Vaidade Cega a Sabedoria

Os s√°bios da terra n√£o s√£o os mais pr√≥prios para o governo dela. As Rep√ļblicas, que se fundaram, ou se quiseram governar por s√°bios, perderam-se, acabaram-se; temos not√≠cia delas pelo que foram, e n√£o pelo que s√£o. (…) As maiores crueldades, ou foram feitas, ou aconselhadas pelos S√°bios; estes quando persuadem o mal, √© com tanta veem√™ncia, e t√£o eficazmente, que as gentes na boa f√©, buscam, e particam esse mal, como por entusiasmo, e sem advertirem nele. A impiedade, √© uma das coisas que a ci√™ncia ensina; n√£o porque seja o seu objecto, ou instituto, mas porque quando a impiedade √© √ļtil, √† for√ßa de a ornar, se lhe tira o horror. A vaidade das ci√™ncias n√£o consente, que haja cousa de que ela n√£o possa, nem se saiba aproveitar.
Os erros comummente s√£o partos da sabedoria humana; o errar propriamente √© dos s√°bios, porque o erro sup√Ķe conselho, e premedita√ß√£o; os ignorantes qu√°si que obram por instinto; a ci√™ncia sabe legitimar o erro, a ignor√Ęncia n√£o; por isso nesta n√£o h√° perigo de que ningu√©m o aprove; ao passo que naquela h√° o perigo de que a multid√£o o siga. O erro na m√£o de um s√°bio √© como uma lan√ßa penetrante,

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SMS

Ela caminha já a tarde vai alta pelo passeio que segue paralelo ao mar, por cima das praias. Em baixo, a areia estende-se vazia até à água, acabando numa espuma branca, das ondas que rebentam com o fragor dos dias de Inverno. Vai sozinha. Cruza-se com jovens a passo de corrida, outros que deslizam em patins, um casal com o filho pequeno feliz na sua bicicleta de rodinhas, acompanhado por um cãozinho saltitante que corre para a frente e para trás em redor dele.
Leva na m√£o o telem√≥vel e nos olhos castanhos brilhantes uma esperan√ßa. Vai pensativa e sem horas, caminhando sem pressa, reparando nas pessoas, no mar desabrido que se atira √† praia, no ar fresco que respira, no vento que se levanta com uma promessa de tempestade. Cruza o casaco grosso, azul-escuro, √† frente do peito, sem apertar os bot√Ķes. Cruza os bra√ßos. Uma folha de jornal passa por ela a esvoa√ßar, not√≠cias antigas, pensa divertida, logo se concentrando no navio de carga iluminado que vem de Lisboa e ruma ao mar aberto com o vagar de quem tem um destino certo num dia certo.

Acaba por apertar os bot√Ķes do casaco e levantar a gola para se sentir mais protegida do vento,

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√Č Virtude Dissimular a Virtude

– Vede, caro Roberto, o senhor de Salazar n√£o diz que o sensato deve simular. Sugere-vos, se bem entendi, que deve aprender a dissimular. Simula-se o que n√£o se √©, dissimula-se o que se √©. Se vos gabardes do que n√£o fizestes, sois um simulador. Mas se evitardes, sem faz√™-lo notar, mostrar em pleno o que fizestes, ent√£o dissimulais. √Č virtude acima de todas as virtudes dissimular a virtude. O senhor de Salazar est√° a ensinar-vos um modo prudente de ser virtuoso, ou de ser virtuoso de acordo com a prud√™ncia. Desde que o primeiro homem abriu os olhos e soube que estava nu, procurou cobrir-se at√© √† vista do seu Fazedor: assim a dilig√™ncia no esconder quase nasceu com o pr√≥prio mundo. Dissimular √© estender um v√©u composto de trevas honestas, do qual n√£o se forma o falso mas sim d√° algum repouso ao verdadeiro.
A rosa parece bela porque à primeira vista dissimula ser coisa tão caduca, e embora da beleza mortal costume dizer-se que não parece coisa terrena, ela não é mais do que um cadáver dissimulado pelo favor da idade. Nesta vida nem sempre se deve ser de coração aberto, e as verdades que mais nos importam dizem-se sempre até meio.

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H√° l√° Coisa Melhor?

H√° l√° coisa melhor do que duas m√£os que se beijam?

A m√£o dela tinha Deus dentro. Apertava-a, beijava-a com a minha m√£o apressada, com a minha m√£o urgente, a minha m√£o como se numa ambul√Ęncia, e percorr√≠amos as ruas mesmo que fossem as ruas que nos percorressem a n√≥s, simples corpos sorridentes

H√° l√° coisa melhor do que dois corpos que se sorriem?

Sabia, com cada um dos meus dedos, com cada uma das minhas mãos, todos os riscos e ranhuras da mão dela; era ali, no por dentro das mãos que tocava, que ouvia as novidades, que lia os títulos das notícias, de todas as notícias que me importavam

Há lá coisa melhor do que ler as notícias na mão que se ama?

N√£o havia, nos passos que d√°vamos, qualquer dist√Ęncia andada, nem sequer um caminho a andar; √©ramos caminhantes de andar, viajantes do nosso tempo. E acredit√°vamos, todos os dias, em todas as respira√ß√Ķes que respir√°vamos no espa√ßo das nossas m√£os, que o tempo era apenas o instante em que, juntos, par√°vamos o tempo

H√° l√° coisa melhor do que o instante em que se p√°ra o tempo?

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O Poder da Ind√ļstria Cultural

O poder magn√©tico que sobre os homens exercem as ideologias, embora j√° se lhes tenham tornado decr√©pitas, explica-se, para l√° da psicologia, pelo derrube objectivamente determinado da evid√™ncia l√≥gica como tal. Chegou-se ao ponto em que a mentira soa como verdade, e a verdade como mentira. Cada express√£o, cada not√≠cia e cada pensamento est√£o preformados pelos centros da ind√ļstria cultural. O que n√£o traz o vest√≠gio familiar de tal preforma√ß√£o √©, de antem√£o, indigno de cr√©dito, e tanto mais quanto as institui√ß√Ķes da opini√£o p√ļblica acompanham o que delas sai com mil dados factuais e com todas as provas de que a manipula√ß√£o total pode dispor. A verdade que intenta opor-se n√£o tem apenas o car√°cter de inveros√≠mil, mas √©, al√©m disso, demasiado pobre para entrar em concorr√™ncia com o altamente concentrado aparelho da difus√£o.

Escrever é Triste

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, puré de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que voc√™ perde em viver, escrevinhando sobre a vida. N√£o apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem voc√™, porque com voc√™ n√£o √© poss√≠vel contar. Voc√™ esperando que os outros vivam, para depois coment√°-los com a maior cara-de-pau (“com isen√ß√£o de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divaga√ß√£o descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei propriet√°rio do universo, que escolhe para o seu jantar de not√≠cias um terremoto, uma revolu√ß√£o, um adult√©rio grego ‚ÄĒ √†s vezes nem isso, porque no painel imenso voc√™ escolhe s√≥ um besouro em campanha para verrumar a madeira.

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Amar Ajuda

Hoje, no dia antes do dia de São Valentim, quero escrever sobre o amor nos outros dias do ano. Ontem foi um deles. Recebi uma má notícia e imediatamente a Maria João recebeu-a como se fosse ela a recebê-la.
Recebemos a m√° not√≠cia e, ao receb√™-la no plural, diluiu-se por muito mais do que dois. O plural de um n√£o √© dois: s√£o muitos. Sentimo-nos como se f√īssemos muitos.
Existe o espalhar o mal pelas aldeias. Mas com o amor, com o casamento de almas que, virando-se uma para a outra, se voltam, viradas, contra o mundo, o mal multiplica-se e exagera-se ao ponto dos dois apaixonados se tornarem numa multid√£o de revoltados que se revolta tanto como se ama.
A boa ideia Рmas talvez errada Рvem de Platão, das duas metades que se encontram para alcançarem a unidade de um só ser completo. Sendo assim, as almas gémeas são apenas duas metades que se completam: precisam de completar-se para se transformarem numa unidade.
Não é verdade. O amor junta duas unidades Рa Maria João e eu, por exemplo Рe faz com que tenham muito mais do que a força de uma só pessoa.

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Cont√°gio Mental

O cont√°gio mental representa o elemento essencial da propaga√ß√£o das opini√Ķes e das cren√ßas. A sua for√ßa √©, muitas vezes, bastante consider√°vel para fazer agir o indiv√≠duo contra os seus interesses mais evidentes. As inumer√°veis narra√ß√Ķes de mart√≠rios, de suic√≠dios, de mutila√ß√Ķes, etc., determinados por cont√°gio mental fornecem uma prova disso.
Todas as manifesta√ß√Ķes da vida ps√≠quica podem ser contagiosas, mas s√£o, especialmente, as emo√ß√Ķes que se propagam desse modo. As ideias contagiosas s√£o s√≠nteses de elementos afectivos.
Na vida comum, o cont√°gio pode ser limitado pela ac√ß√£o inibidora da vontade, mas, se uma causa qualquer – violenta mudan√ßa de meio em tempo de revolu√ß√£o, excita√ß√Ķes populares, etc. – v√™m paralis√°-la, o cont√°gio exercer√° facilmente a sua influ√™ncia e poder√° transformar seres pac√≠ficos em ousados guerreiros, pl√°cidos burgueses em terr√≠veis sect√°rios. Sob a sua influ√™ncia, os mesmos indiv√≠duos passar√£o de um partido para outro e empregar√£o tanta energia em reprimir uma revolu√ß√£o quanto em foment√°-la.
O contágio mental não se exerce somente pelo contacto direto dos indivíduos. Os livros, os jornais, as notícias telegráficas, mesmo simples rumores, podem produzi-lo.
Quanto mais se multiplicam os meios de comunicação tanto mais se penetram e se contagiam. A cada dia estamos mais ligados àqueles que nos cercam.

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Vivemos Para os Momentos Futuros, e N√£o o Presente

A √Ęnsia de matar tempo, de liquidar o espa√ßo de dias entre um acontecimento e o que lhe sucede, transmite, tanto em casos de amor como em outros, fins importantes, um estado de alma que se preocupa exclusivamente em atingir esse alvo previamente estabelecido. N√£o se pensa em mais nada. Semelhante √† situa√ß√£o criada quando se sabe de antem√£o que se vai encontrar determinada pessoa que nos interessa muito. Fica-se incapaz de articular palavra, de estreitar v√≠nculo com quem quer que seja que se nos atravesse no caminho. Est√°-se a viver em outrem, num estado fora da rela√ß√£o humana do dia a dia. Nem sequer ouvimos os sons, arrepiamos a pele ao tomar conhecimento consciente de not√≠cias que j√° sab√≠amos de antem√£o pertencerem ao dom√≠nio p√ļblico. Esta √© tamb√©m a √Ęnsia do suicida que nada mais faz entre a decis√£o de cometer o homic√≠dio e a pr√°tica do acto extremo.