Textos sobre Culto

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Textos de culto escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Sabedoria e a Alegria

Vou ensinar-te agora o modo de entenderes que n√£o √©s ainda um s√°bio. O s√°bio aut√™ntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturb√°vel; vive em p√© de igualdade com os deuses. Analisa-te ent√£o a ti pr√≥prio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperan√ßa te aflige o √Ęnimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mant√©m igual a si mesma, isto √©, plena de eleva√ß√£o e contente de si pr√≥pria, ent√£o conseguiste atingir o m√°ximo bem poss√≠vel ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, n√£o buscas sen√£o o prazer, fica sabendo que t√£o longe est√°s da sabedoria como da alegria verdadeira. Pretendes obter a alegria, mas falhar√°s o alvo se pensas vir a alcan√ß√°-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso ser√° o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da ang√ļstia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfa√ß√£o e prazer, s√£o apenas motivos para futuras dores.
Toda a gente, repito, tende para um objectivo: a alegria, mas ignora o meio de conseguir uma alegria duradoura e profunda. Uns procuram-na nos banquetes, na libertinagem; outros, na satisfa√ß√£o das ambi√ß√Ķes, na multid√£o ass√≠dua dos clientes;

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O Sensacionismo

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
РMas o que é sentir?
Ter opini√Ķes √© n√£o sentir.
Todas as nossas opini√Ķes s√£o dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da pris√£o com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez s√≥ deve chegar ao limiar da alma. Nas pr√≥prias antec√Ęmaras √© proibido ser expl√≠cito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – s√£o os √ļnicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos s√£o divinos porque s√£o a nossa rela√ß√£o com o Universo,

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Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o.

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O Outro como Motivo da nossa Infelicidade

Pergunta-se por que todos os homens juntos n√£o comp√Ķem uma √ļnica na√ß√£o e n√£o quiseram falar uma √ļnica l√≠ngua, viver sob as mesmas leis, combinar entre eles os mesmos costumes e um mesmo culto; e eu, pensando na contrariedade dos esp√≠ritos, dos gostos e dos sentimentos, surpreendo-me ao ver at√© sete ou oito pessoas reunirem-se sob um mesmo tecto, num mesmo recinto e compor uma √ļnica fam√≠lia.
(…) Buscamos a nossa felicidade fora de n√≥s mesmos e na opini√£o de homens que sabemos aduladores, pouco sinceros, sem equidade, cheios de inveja, de caprichos e preconceitos.

Na Paz Não Há Verdadeiro Progresso, o Egoísmo Impera

A ci√™ncia e a arte progridem sempre num primeiro per√≠odo imediato a uma guerra. A guerra renova-as, rejuvenesce-as, fomenta, fortalece, as ideias e imprime-lhes certo impulso. Numa larga paz, pelo contr√°rio, sucumbe tamb√©m a ci√™ncia. Indiscutivelmente o culto da ci√™ncia requer valor e at√© esp√≠rito de sacrif√≠cio. Mas quantos s√°bios resistem √† praga da paz? A falsa honra, o ego√≠smo e a √Ęnsia de prazeres superficiais, bestiais, fazem tamb√©m mossa no seu esp√≠rito. Procure o senhor acabar com uma paix√£o como a inveja, por exemplo; √© ordin√°rio e vulgar, mas com tudo isso penetra at√© nas nob√≠lissimas almas dos s√°bios. Tamb√©m o s√°bio acaba por querer ter a sua parte no brilho e esplendores gerais. Que significa, ante o triunfo da riqueza, o triunfo de uma descoberta cient√≠fica, a menos que seja t√£o estrondosa como a descoberta de um novo planeta? Parece-lhe que em tais circunst√Ęncias haver√° ainda muitos escravos do trabalho para o bem geral?

Longe disso, procura-se a gl√≥ria e cai-se no charlatanismo, na procura do efeito, e antes de mais nada no utilitarismo… visto que tamb√©m se quer, ao mesmo tempo, ser rico. Na arte acontece o mesmo que na ci√™ncia: id√™ntica √Ęnsia do efeito,

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A Individualidade das Nossas Sensa√ß√Ķes

Nesta era metálica dos bárbaros só um culto metodicamente excessivo das nossas faculdades de sonhar, de analisar e de atrair pode servir de salvaguarda à nossa personalidade, para que se não desfaça ou para nula ou para idêntica às outras.
O que as nossas sensa√ß√Ķes t√™m de real √© precisamente o que t√™m de n√£o nossas. O que h√° de comum nas sensa√ß√Ķes √© que forma a realidade. Por isso a nossa individualidade nas nossas sensa√ß√Ķes est√° s√≥ na parte err√≥nea delas. A alegria que eu teria se visse um dia o sol escarlate.

Que mal existe em ser culto, em amar os belos conhecimentos, em ser s√°bio e ser tido como tal

Que mal existe em ser culto, em amar os belos conhecimentos, em ser sábio e ser tido como tal? Qual o obstáculo que há nisso com relação ao conhecimento de Deus? Não são antes adjutórios para atingir a verdade?

O Oportunismo

O oportunismo √©, porventura, a mais poderosa de todas as tenta√ß√Ķes; quem reflectiu sobre um problema e lhe encontrou solu√ß√£o √© levado a querer realiz√°-la, mesmo que para isso se tenha de afastar um pouco de mais r√≠gidas regras de moral; e a gravidade do perigo √© tanto maior quanto √© certo que se n√£o √© movido por um lado inferior do esp√≠rito, mas quase sempre pelo amor das grandes ideias, pela generosidade, pelo desejo de um grupo humano mais culto e mais feliz.
Por outra parte, é muito difícil lutar contra uma tendência que anda inerente ao homem, à sua pequenez, à sua fragilidade ante o universo e que rompe através dos raciocínios mais fortes e das almas mais bem apetrechadas: não damos ao futuro toda a extensão que ele realmente comporta, supomos que o progresso se detém amanhã e que é neste mesmo momento, embora transigindo, embora feridos de incoerência, que temos de lançar o grão à terra e de puxar o caule verde para que a planta se erga mais depressa.
Seria bom, no entanto, que pensássemos no reduzido valor que têm leis e reformas quando não respondem a uma necessidade íntima, quando não exprimem o que já andava,

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O Português

Prefere ser um rico desconhecido, a ser um her√≥i pobre. √Č melhor do que parece. O homem portugu√™s √© dissimulado, e fez da inveja um discurso do bom senso e dos direitos humanos.
Mas √© tamb√©m um homem de paix√Ķes moderadas pela sensibilidade, o que faz dele um grande civilizado.
Gosta das mulheres, o que explica o estado de dependência em que as pretende manter. A dependência é uma motivação erótica.
√Č inovador mas tem pouco car√°cter, como √© pr√≥prio dos superiormente inteligentes, tanto cientistas, como fil√≥sofos e criadores em geral.
Mente muito, e a verdade que se arroga √© uma culpa inibida. Vemos que ele se mant√©m num estado primitivo quando defende a sua √°rea de partido, de seita e de fam√≠lia, √† custa de corrup√ß√Ķes e de crimes, se for preciso.
Gosta do poder mas não da notoriedade. Não tem o sentido da eternidade, mas sim o prazer da liberdade imediata. Não é democrata; excepto se isso intimidar os seus adversários.
Não tem génio, tem habilidade.
√Č imaginativo mas n√£o pensador.
√Č culto mas n√£o experiente.
N√£o gosta da lei, porque ela desvaloriza a sua pr√≥pria iniciativa. √Č m√≠stico com a f√°bula e viril com a desgra√ßa.

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√Č Preciso Restaurar o Homem

A minha civiliza√ß√£o repousa sobre o culto do Homem atrav√©s dos indiv√≠duos. Teve o des√≠gnio, durante s√©culos, de mostrar o Homem, assim como ensinou a distinguir uma catedral atrav√©s das pedras. Pregou esse Homem que dominava o indiv√≠duo…
Porque o Homem da minha civiliza√ß√£o n√£o se define atrav√©s dos homens. S√£o os homens que se definem atrav√©s dele. H√° nele, como em todo o Ser, qualquer coisa que os materiais que o comp√Ķem n√£o explicam. Uma catedral √© uma coisa muito diferente de uma soma de pedras. √Č geometria e arquitectura. N√£o s√£o as pedras que a definem, √© ela que enriquece as pedras com o seu pr√≥prio significado. Essas pedras ficam enobrecidas por serem pedras de uma catedral. As pedras mais diversas servem a sua unidade. A catedral as absorve, at√© √†s g√°rgulas mais horrendas, no seu c√Ęntico.
Mas, pouco a pouco, esqueci a minha verdade. Julguei que o Homem resumia os homens, tal como a Pedra resume as pedras. Confundi catedral e soma de pedras, e, pouco a pouco, a heran√ßa desvaneceu-se. √Č preciso restaurar o Homem. Ele √© a ess√™ncia da minha cultura. Ele √© a chave da minha Comunidade. Ele √© o princ√≠pio da minha vit√≥ria.

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A Educação da Fé

Sendo a f√© um dom, como pode ser motivo de educa√ß√£o? N√£o pode realmente ser ensinada, mas sim irradiada. Os que a possuem podem significar a estrela-guia, a perseveran√ßa num encontro dif√≠cil de suceder, mas cuja esperan√ßa comove todo o nosso ser. √Č poss√≠vel que a Igreja se volte para esse apostolado da f√© que foi extremamente importante no seu come√ßo. N√£o o velho sistema de grupos sect√°rios que s√£o o modelo dos processos pol√≠ticos e que, quando se afirma um movimento e este toma amplitude, se eliminam. N√£o √© isso. Trata-se de focos de comunica√ß√£o que dispensam a organiza√ß√£o premeditada e at√© a linguagem elaborada, o discurso piedoso e a erudi√ß√£o duma exegese. Um interessar a alma na f√© sem recorrer ao preconceito da santidade. Descobrir a imensa novidade da f√© num mundo em que o pr√≥prio crist√£o vive de maneira pag√£ e singularmente a coberto dos antigos textos que esqueceu ou que desconhece completamente.

A prova de que o cristão vive como um bárbaro é o sentido que tomou a arte religiosa. Não é raro encontrar nas salas de convívio burguesas, juntamente com a televisão, ou a mesa de jogo, ou a instalação estereofónica para o gira-disco,

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O Povo Culto

Os povos ser√£o cultos na medida em que entre eles crescer o n√ļmero dos que se negam a aceitar qualquer benef√≠cio dos que podem; dos que se mant√™m sempre vigilantes em defesa dos oprimidos n√£o porque tenham este ou aquele credo pol√≠tico, mas por isso mesmo, porque s√£o oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da raz√£o; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, n√£o tamb√©m porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno.

Sexo, Poder e Dinheiro

A nossa sociedade gravita em torno de 3 eixos. Muito poucos s√£o os que n√£o se deixam cair em nenhuma das reais tenta√ß√Ķes do aparente.
O culto destas dimens√Ķes imediatas da identidade remete para planos secund√°rios todas as categorias interiores que a estruturam e consubstanciam, dispensando pondera√ß√£o e reflex√£o, abrem alas a uma pregui√ßa estranha que se contenta com o superficial. Quase uma animalidade consentida, mas sem sentido.
O sexo, fazendo parte da vida, n√£o √© contudo o mais importante. O h√°bito consome-se com tremenda rapidez, e o corpo √© apenas uma √≠nfima parte do que somos, o albergue tempor√°rio de uma interioridade composta por, tantas vezes, tenebrosas podrid√Ķes, vulgaridades comuns e, por vezes tamb√©m, belezas indescrit√≠veis. Felizmente, o ser humano √© capaz de ver para bem mais longe do que a vista alcan√ßa, e ver o outro atrav√©s do seu corpo.

O poder atrai e corrompe, muito antes de ser atingido. Promete o que há de melhor pela amplificação da liberdade, mas como não dá nunca o discernimento essencial às escolhas que determinam os passos que nos aproximam da felicidade, ilude enquanto afoga quem se julga por ele abraçado.

O dinheiro é o que parece mover com mais eficácia o mundo,

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O Efeito da Reputação

Tudo o que nos proporciona uma certa eleva√ß√£o em rela√ß√£o aos outros porque nos torna mais perfeitos, como, por exemplo, a ci√™ncia e a virtude, ou porque nos confere uma certa autoridade sobre eles tornando-nos mais poderosos, como as honras e as riquezas, parece fazer-nos independentes em certa medida. Todos os que est√£o abaixo de n√≥s nos temem e reverenciam; est√£o sempre prontos a fazer o que nos agrada para a nossa preserva√ß√£o, e n√£o ousam prejudicar-nos ou resistir aos nossos desejos. […] A reputa√ß√£o de ser rico, culto e virtuoso produz na imagina√ß√£o daqueles que nos cercam ou dos que nos s√£o mais √≠ntimos disposi√ß√Ķes de esp√≠rito que s√£o muito vantajosas para n√≥s. Ela deixa-os prostrados aos nossos p√©s; instiga-os a nos agradar; inspira neles todos os impulsos que tendem √† preserva√ß√£o da nossa pessoa e ao aumento da nossa grandeza. Assim, os homens preservam a sua reputa√ß√£o tanto quanto necess√°rio a fim de viver confortavelmente neste mundo.

A Ideia de Moral Universal

Muito antes de o homem estar maduro para ser confrontado com uma atitude moral universal, o medo dos perigos da vida levaram-no a atribuir a v√°rios seres imagin√°rios, n√£o palp√°veis fisicamente, o poder de libertar as for√ßas naturais que temia ou talvez desejasse. E ele acreditava que esses seres, que dominavam toda a sua imagina√ß√£o, eram feitos fisicamente √† sua imagem, mas eram dotados de poderes sobre-humanos. Estes foram os precursores primitivos da ideia de Deus. Nascidos inicialmente dos medos que enchiam a vida di√°ria dos homens, a cren√ßa na exist√™ncia de tais seres, e nos seus poderes extraordin√°rios, teve uma influ√™ncia t√£o forte nos homens e na sua conduta que √© dif√≠cil de imaginar por n√≥s. Por isso, n√£o surpreende que aqueles que se empenharam em estabelecer a ideia de moral, abarcando igualmente todos os homens, o tenham feito associando-a intimamente √† religi√£o. E o facto de estas pretens√Ķes morais serem as mesmas para todos os homens pode ter tido muito a ver com o desenvolvimento da cultura religiosa da esp√©cie humana desde o polite√≠smo at√© ao monote√≠smo.
A ideia de moral universal deve, assim, a sua potência psicológica original àquela ligação com a religião. No entanto, noutro sentido,

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A Posteridade é uma Sobreposição de Minorias

Aquele que despreza o aplauso da multid√£o de hoje, √© o que procura sobreviver em renovadas minorias, durante gera√ß√Ķes. ¬ęA posteridade √© uma sobreposi√ß√£o de minorias¬Ľ, dizia Gounod. Quer-se prolongar mais no tempo do que no espa√ßo. Os √≠dolos das multid√Ķes s√£o derrubados prontamente por elas mesmas, e a sua est√°tua desfaz-se ao p√© do pedestal, sem que ningu√©m olhe para ela, enquanto que aqueles que conquistam o cora√ß√£o dos escolhidos receber√£o, por mais tempo, um culto fervoroso numa capela, ainda que recolhida e pequena, mas que salvar√° as avenidas do esquecimento. O artista sacrifica a grandeza da sua fama √† sua dura√ß√£o; anseia mais por durar sempre num rec√īndito, do que que brilhar um segundo no universo todo; antes quer ser o √°tomo eterno e consciente de si mesmo, do que a moment√Ęnea consci√™ncia do universo todo; sacrifica a infinidade √† eternidade.

Aprende a Ser como os Outros

N√£o precisamos de ler, estudar ou conhecer ningu√©m, quando produzimos n√≥s pr√≥prios. Pois n√£o basta que produzamos n√≥s pr√≥prios? E gostemos de n√≥s pr√≥prios? Que nos pode dar o esp√≠rito alheio, quando sobre o pr√≥prio nosso desceu em l√≠nguas de fogo a sabedoria de tudo? Melhor: A verdade √© que nem precisamos n√≥s pr√≥prios de produzir (toda a produ√ß√£o √© uma limita√ß√£o), ou mal precisamos de produzir, para usufruirmos as vantagens do criador e produtor. (…) Aprende a contar uma anedota; duas anedotas; tr√™s anedotas; quatro anedotas… uma anedota diverte muita gente; quatro anedotas divertem muito mais… aprende a polvilhar de blague todas essas ideias s√©rias, pesadas, profundas, obscuras, – ao cabo simplesmente ma√ßadoras – com que pretendes sufocar (…); aprende a cultivar aquele subtil esp√≠rito de futilidade que ligeiramente embriaga como um champanhe, e a toda a gente agrada, lisonjeia todos, por a todos nos dar a reconfortante impress√£o de pertencermos ao mesmo meio… estarmos ao mesmo n√≠vel; n√£o queiras ser nem sobretudo sejas mais inteligente ou mais sens√≠vel, mais honesto ou mais sincero, mais trabalhador ou mais culto, mais profundo ou mais agudo… numa palavra: superior. Sim, homem! aprende a ser como os outros, dizendo bem ou mal de tudo e todos –

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Luta de Classes

N√£o contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contr√°rio, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
A cultura √© usada como s√≠mbolo de status por alguns, alfinete de lapela, bot√£o de punho. A raridade √© condi√ß√£o indispens√°vel desse exibicionismo. S√≥ pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colec√ß√£o de s√≠mbolos √© descrita com pron√ļncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.
Para esses indiv√≠duos raros, a cultura √© caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, conv√©m n√£o haver misturas. Conhe√ßo melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no in√≠cio da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escrit√≥rios for vista a ler um determinado livro nos transportes p√ļblicos, os snobs que assistam a essa imagem s√£o capazes de enjeit√°-lo na hora. Come√ßar√£o a definir essa obra como “leitura de empregadas de limpeza” (com muita probabilidade utilizar√£o um sin√≥nimo mais depreciativo para descrev√™-las).
Este exemplo aplica-se em qualquer outra √°rea cultural que possa chegar a muita gente: m√ļsica, cinema, televis√£o, etc. Aquilo que mais surpreende √© que estes “argumentos”, esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indiv√≠duos supostamente cultos,

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O Livro

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso √©, indubitavelmente, o livro. Os outros s√£o extens√Ķes do seu corpo. O microsc√≥pio e o telesc√≥pio s√£o extens√Ķes da vista; o telefone √© o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extens√Ķes do seu bra√ßo. Mas o livro √© outra coisa: o livro √© uma extens√£o da mem√≥ria e da imagina√ß√£o.
Em ¬ęC√©sar e Cle√≥patra¬Ľ de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela √© a mem√≥ria da humanidade. O livro √© isso e tamb√©m algo mais: a imagina√ß√£o. Pois o que √© o nosso passado sen√£o uma s√©rie de sonhos? Que diferen√ßa pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal √© a fun√ß√£o que o livro realiza.
(…) Se lemos um livro antigo, √© como se l√™ssemos todo o tempo que transcorreu at√© n√≥s desde o dia em que ele foi escrito. Por isso conv√©m manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos n√£o estar de acordo com as opini√Ķes do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, n√£o para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade,

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