Textos sobre Avaliação

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Textos de avaliação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Qualquer Conhecimento Vem a Partir da Experiência

Qualquer conhecimento vem a partir da experi√™ncia. Compreendam que aquele que s√≥ quisesse consultar o seu esp√≠rito e fechar todos os seus sentidos n√£o poderia pensar absolutamente nada; encontraria ainda menos nessa medita√ß√£o somente interior alguma verdade relativa ao mundo… na massa dos nossos conhecimentos, que n√£o passam da massa das nossas experi√™ncias, deve-se contudo distinguir os que se baseiam na constata√ß√£o segundo as regras, isto √©, com avalia√ß√Ķes, repeti√ß√Ķes, testemunhos, provas e contraprovas, e os que s√£o poss√≠veis de provar ou demonstrar √† maneira do ge√≥metra.

Gosto Relevante

Toda a boa capacidade é difícil de contentar. Há cultura do gosto, assim como do engenho. Relevantes ambos, são irmãos de um mesmo ventre, filhos da capacidade, herdados por igual na excelência. Engenho sublime nunca criou gosto rasteiro.
H√° perfei√ß√Ķes como s√≥is e h√° perfei√ß√Ķes como luzes. Galanteia a √°guia o sol, perde-se nele a mariposa pela luz de uma candeia e toma-se a altura a uma torrente pela eleva√ß√£o do gosto. T√™-lo bom √© j√° algo, t√™-lo relevante muito √©. Ligam-se os gostos √† comunica√ß√£o, e s√≥ por sorte se avista quem o tenha superlativo.
Têm muitos por felicidade (de empréstimo será) gozar do que lhes apetece, condenando a infelizes todos os demais; mas desforram-se estes com as mesmas linhas, assim se podendo ver uma metade do mundo rindo-se da outra, com maior ou menor necessidade.
√Č qualidade um gosto cr√≠tico, um paladar dif√≠cil de satisfazer; os mais valentes objectos temem-no e as mais seguras perfei√ß√Ķes receiam-no. √Č a avalia√ß√£o precios√≠ssima, e regate√°-la √© pr√≥prio de discretos; toda a escassez em moeda de aplauso √© fidalga e, ao contr√°rio, os desperd√≠cios de estima merecem castigo de desprezo.
A admira√ß√£o √© vulgarmente um manifesto da ignor√Ęncia;

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Influenciar o Estado de Espírito

Nunca √© poss√≠vel anotar e avaliar todas as circunst√Ęncias que influenciam o estado de esp√≠rito do momento, que at√© est√£o activas dentro dele, e que finalmente est√£o activas na pr√≥pria avalia√ß√£o, por isso √© falso dizer que ontem me senti decidido, que hoje estou desesperado. Estas diferen√ßas apenas provam que a pessoa deseja influenciar-se a si pr√≥pria, e t√£o longe de si pr√≥pria quanto poss√≠vel, escondida por detr√°s de preconceitos e fantasias, criar temporariamente uma vida artificial, tal como algu√©m, por vezes, a um canto da taberna, suficientemente escondido por detr√°s de um pequeno copo de u√≠sque, inteiramente s√≥ consigo pr√≥prio, se entret√©m com imagina√ß√Ķes e sonhos improv√°veis e falsos.

Entendimento L√ļcido do Futuro

Uma diferen√ßa caracter√≠stica e muito frequente na vida di√°ria entre as cabe√ßas comuns e as sensatas √© que as primeiras, na sua pondera√ß√£o e avalia√ß√£o sobre poss√≠veis perigos, querem saber e levam em conta apenas o que de semelhante j√° ter√° acontecido. As outras, pelo contr√°rio, ponderam o que possivelmente poderia acontecer. √Č como se tivessem em mente o prov√©rbio espanhol: ¬ęO que n√£o acontece num ano, acontece num instante¬Ľ. Decerto, a diferen√ßa em quest√£o √© natural, pois, para abarcar com a vista aquilo que pode acontecer, √© preciso entendimento; j√° para ver aquilo que aconteceu, s√£o suficientes os sentidos.
A nossa m√°xima, ent√£o, √©: sacrifica-te aos dem√≥nios malignos. Por outras palavras, n√£o se deve temer uma certa perda de esfor√ßo, tempo, desconforto, transtorno, dinheiro ou priva√ß√£o, para fechar as portas √† possibilidade de uma desgra√ßa. E quanto maior a desgra√ßa, tanto menor, mais remota e improv√°vel a sua possibilidade. O exemplo mais claro desta regra √© o pr√©mio do seguro. Ele √© um sacrif√≠cio p√ļblico oferecido por todos no altar dos dem√≥nios malignos.

Sempre nos Reduzimos √†s Limita√ß√Ķes do Nosso Interlocutor

Ningu√©m pode ver acima de si. Com isso quero dizer: cada pessoa v√™ em outra apenas o tanto que ela mesma √©, ou seja, s√≥ pode conceb√™-la e compreend√™-la conforme a medida da sua pr√≥pria intelig√™ncia. Se esta for de tipo inferior, ent√£o todos os dons intelectuais, mesmo os maiores, n√£o lhe causar√£o nenhuma impress√£o, e ela perceber√° no possuidor desses grandes dons apenas os elementos inferiores da individualidade dela pr√≥pria, isto √©, todas as suas fraquezas, os seus defeitos de temperamento e car√°cter. Eis os ingredientes que, para ela, comp√Ķem o homem eminente, cujas capacidades intelectuais elevadas lhe s√£o t√£o pouco existentes, quanto as cores para os cegos. De facto, todos os esp√≠ritos s√£o invis√≠veis para os que n√£o o possuem, e toda a avalia√ß√£o √© um produto do que √© avaliado pela esfera cognitiva de quem avalia.
Disso resulta que nos colocamos ao mesmo nível do nosso interlocutor, pois tudo o que temos em excedência desaparece, e até mesmo a auto-abnegação exigida em tal atitude permanece irreconhecida por completo. Ora, se considerarmos o quanto a maioria dos homens é de mentalidade e inteligência inferiores, portanto, o quanto é comum, veremos que não é possível falar com ele sem,

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A Amizade e o Amor Segundo uma Lógica de Bazar

Desconfia-se do que √© dado e pesa-se o que se recebe. A amizade e o amor parecem gerir-se, por vezes, segundo uma l√≥gica de bazar. J√° nem √© considerado m√°-educa√ß√£o perguntar quanto √© que uma prenda custou. Se esse pre√ßo √© excessivo chega-se a dizer que n√£o se pode aceitar. Recusar uma d√°diva √© como chamar interesseiro ao dador. √Č desconfiar que existe uma segunda inten√ß√£o. De qualquer forma, s√≥ quem tem medo (ou corre o risco) de se vender pode pensar que algu√©m est√° a tentar compr√°-lo. Quem d√° de bom cora√ß√£o merece ser aceite de bom cora√ß√£o. A ess√™ncia sentimental da d√°diva √© ultrajada pela frieza da avalia√ß√£o.
A mania da equitatividade contamina os esp√≠ritos justos. √Č o caso das pessoas que, n√£o desconfiando de uma d√°diva, recusam-se a aceitar uma prenda que, pelo seu valor, n√£o sejam capazes de retribuir. Esta atitude, apesar de ser nobre, acaba por ser igualmente destrutiva, pois sup√Ķe que existe, ou poder√° vir a existir, uma expectativa de retribui√ß√£o da parte de quem d√°. Mas quem d√° n√£o d√° para ser pago. D√° para ser recebido. N√£o d√° como quem faz um dep√≥sito ou investimento. O valor de uma prenda n√£o est√° na prenda –

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A Preguiça como Obstáculo à Liberdade

A pregui√ßa e a cobardia s√£o as causas por que os homens em t√£o grande parte, ap√≥s a natureza os ter h√° muito libertado do controlo alheio, continuem, no entanto, de boa vontade menores durante toda a vida; e tamb√©m por que a outros se torna t√£o f√°cil assumirem-se como seus tutores. √Č t√£o c√≥modo ser menor.
Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de boa vontade tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de, primeiro, terem embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois aprenderiam por fim muito bem a andar.

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Ser Injusto é Necessário

Todos os juízos acerca do valor da vida se desenvolveram ilogicamente e são, por isso, injustos. A impureza do juízo encontra-se, em primeiro lugar, na maneira como o material se apresenta, isto é, muito incompleto; em segundo lugar, na maneira como é efectuada a respectiva soma; e, em terceiro lugar, no facto de cada um dos fragmentos do material ser, por seu lado, resultado de um conhecimento impuro e isto, na verdade, de forma absolutamente necessária. Nenhum conhecimento obtido pela experiência acerca, por exemplo, de uma pessoa, por muito perto que esta esteja de nós, pode ser completo, de modo que nós tenhamos um direito lógico a uma avaliação global da mesma. Todas as estimativas são precipitadas e têm de o ser.
No fim de contas, a medida, com a qual n√≥s medimos, ou seja, o nosso ser, n√£o √© uma grandeza invari√°vel; n√≥s temos estados de esp√≠rito e oscila√ß√Ķes, e, n√£o obstante, dever√≠amos conhecer-nos a n√≥s pr√≥prios como uma medida fixa para podermos avaliar justamente a rela√ß√£o de qualquer coisa connosco. Talvez se conclua de tudo isto que n√£o se deveria julgar de todo em todo; mas se se pudesse sequer viver sem avaliar, sem ter antipatia nem simpatia!…

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Instinto de Rebanho

Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avalia√ß√£o e uma classifica√ß√£o hier√°rquica dos instintos e dos actos humanos. Essas classifica√ß√Ķes e essas avalia√ß√Ķes s√£o sempre a express√£o das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: √© aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe √© √ļtil em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro -, que serve tamb√©m de medida suprema do valor de qualquer indiv√≠duo. A moral ensina a este a ser fun√ß√£o do rebanho, a s√≥ atribuir valor em fun√ß√£o deste rebanho. Variando muito as condi√ß√Ķes de conserva√ß√£o de uma comunidade para outra, da√≠ resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transforma√ß√Ķes essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades s√£o ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haver√° ainda morais muito divergentes. A moralidade √© o instinto greg√°rio no indiv√≠duo.

O Empolar dos Conflitos

A maior parte dos conflitos s√£o forjados, baseados em falsas suspei√ß√Ķes ou exageram coisas sem import√Ęncia. Umas vezes, a ira vem at√© n√≥s, outras somos n√≥s que vamos ao seu encontro. Nunca devemos invocar a ira e, mesmo quando ela surge, devemos afast√°-la. Ningu√©m diz para si mesmo: ¬ęJ√° fiz ou poderei vir a fazer o que me est√° agora a causar ira¬Ľ; ningu√©m tem em conta a inten√ß√£o do autor, mas apenas o acto em si. Ora, √© o autor que se deve ter em conta: teve ele inten√ß√£o de fazer o que fez ou f√™-lo sem querer, foi coagido ou estava enganado, seguiu o √≥dio ou procurou lucrar com o seu acto, f√™-lo por sua conta ou prestou um servi√ßo a algu√©m? A idade de quem errou e a sua situa√ß√£o devem ser ponderadas, para que saibamos se devemos suportar e perdoar a sua ofensa com benevol√™ncia ou com humildade.
Coloquemo-nos no lugar daquele que nos suscita ira: então, percebemos que o que nos torna iracundos é uma má avaliação de nós mesmos e não queremos sofrer algo que nós próprios queremos fazer. Ninguém faz uma pausa: ora, a pausa é o maior remédio para a ira,

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Querer Vingar-se e Vingar-se

Ter um pensamento de vingan√ßa e realiz√°-lo significa apanhar um forte acesso de febre, mas que passa; ter, por√©m, um pensamento de vingan√ßa, sem for√ßa nem coragem para o realizar, significa trazer consigo um padecimento cr√≥nico, um envenenamento do corpo e da alma. A moral, que s√≥ olha para as inten√ß√Ķes, avalia de igual maneira ambos os casos; em geral, considera-se o primeiro caso como pior (por causa das m√°s consequ√™ncias que o acto de vingan√ßa talvez traga consigo). Ambas as avalia√ß√Ķes s√£o de vistas curtas.

O Efeito do Tempo e a Mutabilidade das Coisas

Dever√≠amos ter sempre diante dos olhos o efeito do tempo e a mutabilidade das coisas, por conseguinte, em tudo o que acontece no momento presente, imaginar de imediato o contr√°rio, portanto, evocar vivamente a infelicidade na felicidade, a inimizade na amizade, o clima ruim no bom, o √≥dio no amor, a trai√ß√£o e o arrependimento na confian√ßa e na franqueza e vice-versa. Isso seria uma fonte inesgot√°vel de verdadeira prud√™ncia para o mundo, na medida em que permanecer√≠amos sempre precavidos e n√£o ser√≠amos enganados t√£o facilmente. Na maioria das vezes, ter√≠amos apenas antecipado a ac√ß√£o do tempo. Talvez para nenhum tipo de conhecimento a experi√™ncia seja t√£o imprescind√≠vel quanto na avalia√ß√£o justa da inconst√Ęncia e mudan√ßa das coisas. Ora, como cada estado, pelo tempo da sua dura√ß√£o, existe necessariamente e, portanto, com pleno direito, cada ano, cada m√™s, cada dia parecem querer conservar o direito de existir por toda a eternidade. Mas nada conserva esse direito, e s√≥ a mudan√ßa √© permanente.
Prudente é quem não é enganado pela estabilidade aparente das coisas e, ainda, antevê a direcção que a mudança tomará. Por outro lado, o que via de regra faz os homens tomarem o estado provisório das coisas ou a direcção do seu curso como permamente é o facto de terem os efeitos diante dos olhos,

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O Que é a Religião ?

De in√≠cio, portanto, em vez de perguntar o que √© religi√£o, eu preferiria indagar o que caracteriza as aspira√ß√Ķes de uma pessoa que me d√° a impress√£o de ser religiosa: uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser aquela que, tanto quanto lhe foi poss√≠vel, libertou-se dos grilh√Ķes, dos seus desejos ego√≠stas e est√° preocupada com pensamentos, sentimentos e aspira√ß√Ķes a que se apega em raz√£o do seu valor suprapessoal. Parece-me que o que importa √© a for√ßa desse conte√ļdo suprapessoal, e a profundidade da convic√ß√£o na superioridade do seu significado, quer se fa√ßa ou n√£o alguma tentativa de unir esse conte√ļdo com um Ser divino, pois, de outro modo, n√£o poder√≠amos considerar Buda e Espinoza como personalidades religiosas. Assim, uma pessoa religiosa √© devota no sentido de n√£o ter nenhuma d√ļvida quanto ao valor e emin√™ncia dos objectivos e metas suprapessoais que n√£o exigem nem admitem fundamenta√ß√£o racional. Eles existem, t√£o necess√°ria e corriqueiramente quanto ela pr√≥pria.

Nesse sentido, a religi√£o √© o antiqu√≠ssimo esfor√ßo da humanidade para atingir uma clara e completa consci√™ncia desses valores e metas e refor√ßar e ampliar incessantemente o seu efeito. Quando concebemos a religi√£o e a ci√™ncia segundo estas defini√ß√Ķes, um conflito entre elas parece imposs√≠vel.

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Decisão, Desejo e Acção

A decis√£o √©, na verdade, o que de mais pr√≥prio concerne a excel√™ncia e √© melhor do que as pr√≥prias ac√ß√Ķes no que respeita √† avalia√ß√£o dos car√°cteres humanos. A decis√£o parece, pois, ser volunt√°ria. Decidir e agir voluntariamente n√£o √©, contudo, a mesma coisa, pois, a ac√ß√£o volunt√°ria √© um fen√≥meno mais abrangente. √Č por essa raz√£o que ainda que tanto as crian√ßas como os outros seres vivos possam participar na ac√ß√£o volunt√°ria, n√£o podem, contudo, participar na decis√£o. Tamb√©m dizemos que as ac√ß√Ķes volunt√°rias d√£o-se subitamente, mas n√£o assim de acordo com uma decis√£o.
Os que dizem que a decisão é um desejo, ou uma afecção, ou anseio, ou uma certa opinião, não parecem dizê-lo correctamente, porque os animais irracionais não tomam parte nela. Por outro lado, quem não tem autodomínio age cedendo ao desejo, e, desse modo, não age de acordo com uma decisão. Finalmente, quem tem autodomínio age, ao tomar uma decisão, mas não age, ao sentir um desejo.
Um desejo pode opor-se a uma decisão, mas já não poderá opor-se a um outro desejo. O desejo tem em vista o que é agradável e o que é desagradável. A decisão, contudo, não é feita em vista do desagradável nem do agradável.

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Sobre o Falso

Somos falsos de maneiras diferentes. Há homens falsos que querem parecer sempre o que não são. Outros há de melhor fé, que nasceram falsos, se enganam a si próprios o nunca vêem as coisas tal como são. Há alguns cujo espírito é estreito e o gosto falso. Outros têm o espírito falso, mas alguma correcção no gosto. E ainda há outros que não têm nada de falso, nem no gosto nem no espírito. Estes são muito raros, já que, em geral, não há quase ninguém que não tenha alguma falsidade algures, no espírito ou no gosto.
O que torna essa falsidade t√£o universal, √© que as nossas qualidades s√£o incertas e confusas e a nossa vis√£o tamb√©m: n√£o vemos as coisas tal como s√£o, avaliamo-las aqu√©m ou al√©m do que elas valem e n√£o as relacionamos connosco da forma que lhes conv√©m e que conv√©m ao nosso estado e √†s nossas qualidades. Esse erro de c√°lculo traz consigo um n√ļmero infinito de falsidades no gosto e no esp√≠rito: o nosso amor-pr√≥prio lisonjeia-se como tudo que se nos apresenta sob a apar√™ncia de bem; mas como h√° v√°rias formas de bem que sensibilizam a nossa vaidade ou o nosso temperamento,

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O Elogio da História

Nenhuma realidade √© mais essencial para a nossa autocertifica√ß√£o do que a hist√≥ria. Mostra-nos o mais largo horizonte da humanidade, oferece-nos os conte√ļdos tradicionais que fundamentam a nossa vida, indica-nos os crit√©rios para avalia√ß√£o do presente, liberta-nos da inconsciente liga√ß√£o √† nossa √©poca e ensina-nos a ver o homem nas suas mais elevadas possibilidades e nas suas realiza√ß√Ķes impercept√≠veis.
Não podemos melhor aproveitar os nossos ócios do que familiarizando-nos com as magnificências do passado, conservando viva essa recordação e, ao mesmo tempo, contemplando as calamidades em que tudo se subverteu. A experiência do presente compreende-se melhor reflectida no espelho da história. O que a história nos transmite vivifica-se à luz da nossa época. A nossa vida processa-se no esclarecimento recíproco do passado e do presente.
S√≥ de perto, na intui√ß√£o concreta e sens√≠vel, e prestando aten√ß√£o aos pormenores, a hist√≥ria realmente interessa. Filosofando procedemos a considera√ß√Ķes que se mant√™m abstractas.

Use o Seu Cérebro

N√£o existe manual de instru√ß√Ķes para o c√©rebro, mas ele precisa de alimento, repara√ß√£o e da devida manuten√ß√£o ainda assim. Certos nutrientes s√£o f√≠sicos; a atual mania dos alimentos para o c√©rebro faz as pessoas correrem para vitaminas e enzimas. Mas o devido alimento para o c√©rebro √© tanto mental como f√≠sico. O √°lcool e o tabaco s√£o t√≥xicos, e sujeitar o c√©rebro √† sua exposi√ß√£o √© fazer mau uso dele. A raiva e o medo, o stress e a depress√£o s√£o igualmente uma forma de m√° utiliza√ß√£o. No momento em que escrevemos este livro, um novo estudo revela que uma rotina de stress di√°rio fecha o c√≥rtex pr√©-frontal, a parte do c√©rebro respons√°vel pela tomada de decis√Ķes, corre√ß√£o de erros e avalia√ß√£o de situa√ß√Ķes. √Č por isso que as pessoas d√£o em doidas em engarrafamentos. √Č um stress rotineiro, e contudo a f√ļria, frustra√ß√£o e impot√™ncia que alguns condutores sentem indicam que o c√≥rtex pr√©-frontal deixou de dominar os impulsos prim√°rios por cujo controlo √© respons√°vel.

Damos constantemente connosco a voltar √† mesma quest√£o: use o seu c√©rebro, n√£o deixe que o seu c√©rebro o use a si. As f√ļrias com o tr√Ęnsito s√£o um exemplo do seu c√©rebro a us√°-lo,

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Da Desigualdade que Existe Entre os Homens

Plutarco diz nalgum lugar que n√£o observa entre um animal e outro dist√Ęncia t√£o grande como encontra entre um homem e outro. Est√° a falar do valor da alma e das faculdades interiores. Na verdade, observo tanta dist√Ęncia de Epaminondas, como o imagino, at√© algu√©m que conhe√ßo, quero dizer capaz de senso comum, que de bom grado eu iria al√©m de Plutarco e diria que h√° mais dist√Ęncia entre tal e tal homem do que h√° entre tal homem e tal animal: Ah! Entre um homem e outro homem, quanta dist√Ęncia! (Ter√™ncio), e que h√° tantos graus de esp√≠ritos quantas bra√ßas h√° daqui ao c√©u, e igualmente inumer√°veis.
Mas, a propósito da avaliação dos homens, é espantoso que, excepto nós, todas as coisas sejam avaliadas tão-somente pelas suas próprias qualidades. Elogiamos um cavalo porque é vigoroso e ágil, e não pelos arreios; um galgo pela sua velocidade, não pela coleira; um pássaro pela envergadura e não pelas suas correias e sinetas. Por que da mesma forma não avaliamos um homem pelo que é propriamente seu? Ele tem um alto nível de vida, um belo palácio, tanto de crédito, tanto de renda: tudo isto está ao redor dele e não nele.

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O √āmago da Virtude

Haver√° fil√≥sofos que pretendem induzir-nos a dar grande valor √† prud√™ncia, a praticarmos a virtude da coragem, a nos aplicarmos √† justi√ßa ‚ÄĒ se for poss√≠vel ‚ÄĒ com maior empenho ainda do que √†s restantes virtudes. Pois bem: de nada servir√£o estes conselhos se n√≥s ignorarmos o que √© a virtude, se ela √© una ou m√ļltipla, se as virtudes s√£o individualizadas ou interdependentes, se quem possui uma virtude possui tamb√©m as restantes ou n√£o, qual a diferen√ßa que existe entre elas. Um oper√°rio n√£o precisa de investigar qual a origem ou a utilidade do seu trabalho, tal como o bailarino o n√£o tem que fazer quanto √† arte da dan√ßa: os conhecimentos relativos a todas estas artes est√£o circunscritos a elas mesmas, porquanto elas n√£o t√™m incid√™ncia sobre a totalidade da vida. A virtude, por√©m, implica tanto o conhecimento dela pr√≥pria como o de tudo o mais; para aprendermos a virtude temos de come√ßar por aprender o que ela √©. Uma ac√ß√£o n√£o pode ser correcta se n√£o for correcta a vontade, pois √© desta que prov√©m a ac√ß√£o. Tamb√©m a vontade nunca ser√° correcta se n√£o for correcto o car√°cter, porquanto √© deste que prov√©m a vontade. Finalmente,

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A Desvantagem da Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades?
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas dif√≠ceis ligados √† conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso n√£o era priorit√°rio para ningu√©m, iam ach√°-lo desalmado e p√īr-lhe toda a esp√©cie de obst√°culos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avalia√ß√£o das situa√ß√Ķes, por tudo e nada reanima a aten√ß√£o dos outros com os seus conselhos. Depressa √© tratada como importuna e ter√° que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria √© moderada e v√™ as coisas em profundidade. √Č, portanto, inimiga do ju√≠zo f√°cil e das paix√Ķes que s√£o requestadas para dar emo√ß√£o √†s exist√™ncias f√ļteis e cinzentas.
Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas.
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza,

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