Passagens sobre Extremos

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Frases sobre extremos, poemas sobre extremos e outras passagens sobre extremos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Paradoxo do Outro

H√° uma grande diferen√ßa entre viver com algu√©m e viver em algu√©m. Pessoas h√° em quem somos capazes de viver sem que consigamos viver com elas. E h√° os casos inversos. S√≥ uma extrema pureza do amor e da amizade est√° em condi√ß√Ķes de juntar as duas coisas.

O homem só pode viver com os que se lhe assemelham. E ao mesmo tempo não pode viver com eles, porque não suporta que alguém se lhe assemelhe eternamente.

Quando duas pessoas est√£o inteiramente satisfeitas uma com a outra, podemos ter quase sempre a certeza de que est√£o ambas enganadas.

O Terror como Base da Religi√£o

√Č verdade que tanto o medo como a esperan√ßa entram na religi√£o, porque estas duas paix√Ķes, em alturas diferentes, agitam a mente humana e cada uma delas forma uma esp√©cie de divindade que lhe √© adequada. Mas, quando um homem se sente bem, ele est√° inclinado para os neg√≥cios, para o conv√≠vio ou para qualquer esp√©cie de divertimento, e dedica-se naturalmente a essas actividades e n√£o pensa em religi√£o. Quando est√° melanc√≥lico e abatido, tudo o que para fazer √© meditar sobre os terrores do mundo invis√≠vel, e mergulhar mais profundamente ainda na afli√ß√£o. Pode realmente acontecer que, ap√≥s ter assim gravado profundamente as opini√Ķes religiosas no seu pensamento e imagina√ß√£o, ocorra uma altera√ß√£o da sa√ļde ou das circunst√Ęncias que restaure o seu bom humor e, ocasionando boas perspectivas de futuro, o fa√ßa cair no extremo oposto da alegria e triunfo. Mas, ainda assim deve reconhecer-se que, como o terror √© o princ√≠pio primordial da religi√£o, √© essa a paix√£o que predomina nela e que s√≥ admite pequenos intervalos de prazer.

O Final Do Guarani

(Santos, 15 jul. 1883)

Ceci — √© a virgem loira das brancas harmonias,
A doce-flor-azul dos sonhos cor de rosa,
Peri — o √≠ndio ousado das bruscas fantasias,
O tigre dos sert√Ķes — de alma luminosa.

Amam-se com o amor ind√īmito e latente
Que nunca foi traçado nem pode ser descrito.
Com esse amor selvagem que anda no infinito.
E brinca nos juncais, — ao lado da serpente.

Por√©m… no lance extremo, o lance pavoroso,
Assim por entre a morte e os tons de um puro gozo,
Dos leques da palmeira a note musical…

Vão ambos a sorrir, às águas arrojados,
Mansos como a luz, tranq√ľilos, enla√ßados
E perdem-se na noite serena do ideal!…

O Esforço pelo Conhecimento da Verdade

Devemos escolher como finalidade independente do nosso esforço o conhecimento da verdade ou, exprimindo-nos mais modestamente, a compreensão do mundo inteligível por meio do pensamento lógico? Ou devemos subordinar esse esforço pelo conhecimento racional de qualquer espécie a outros objectivos, por exemplo, a objectivos práticos? O simples pensamento não pode resolver esta questão. A decisão tem, pelo contrário, uma influência decisiva na nossa maneira de pensar e julgar, partindo-se do princípio de que tem o carácter de convicção inabalável. Permitam-me que confesse: para mim, o esforço pelo conhecimento é um daqueles objectivos independentes, sem os quais uma afirmação consciente da vida me parece impossível ao homem de pensamento.
Uma das características do esforço pelo conhecimento é que ele tende a abranger tanto a multiplicidade da experiência como a simplicidade e redução das hipóteses fundamentais. O acordo final desses objectivos é, devido ao estádio primitivo da investigação, uma questão de fé. Sem essa fé, a convicção do valor independente do conhecimento não seria para mim forte e inabalável.
Esta atitude, por assim dizer, religiosa do cientista perante a verdade não deixa de ter influência sobre a sua personalidade. Pois, além daquilo que resulta da experiência e além das leis do pensamento,

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Nascença Eterna

Nascença Eterna,
Nasce mais uma vez!
Refaz a humílima Caverna
Que nunca se desfez.

Dist√Ęncia Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais.

Os que te dizem n√£o,
Os épicos do absurdo,
Que afirmarão, na sua negação,
Sen√£o seu olho cego, ouvido surdo?

Infelizes supremos,
Com seu fracasso alcançam nomeada,
E contentes se atiram aos extremos
Do seu nada.

Na nossa ambiguidade,
Somos piores, nós, talvez,
E uns e outros só vemos a verdade
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês.

Se nada tem sentido sem a fé
No seu sentido, Sol que n√£o te apagas,
Rompe mais uma vez na noite, que não é
Sen√£o o dia de outras plagas.

Perpétua Luz, Contínua Oferta
A nossa escuridade interna,
Abre-te, Porta sempre aberta,
Mais uma vez, na humílima Caverna.

Escreve!

Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. Os crentes têm as suas horas de orar, mesmo não estando inclinados para isso. Concentram-se, fazem um esforço de contensão beata e lá conseguem. Esperam a graça e às vezes ela vem. Escrever é orar sem um deus para a oração. Porque o poder da divindade não passa apenas pela crença e é aí apenas uma modalidade de a fazer existir. Ela existe para os que não crêem, como expressão do sagrado sem divindade que a preencha. Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade? Decerto eles o fazem sendo crentes como os crentes pelo acto extremo de o manifestarem. Eles captarão assim o poder da transfiguração e do incognoscível na execução fria do acto em que isso deveria ser. Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante.

A Justa Medida do Esforço do Prazer

Os s√°bios bem ensinam a nos precavermos contra a trai√ß√£o dos nossos apetities e a discernir entre os prazeres verdadeiros e integrais e os prazeres d√≠spares e mesclados com mais trabalhos. Pois a maioria dos prazeres, dizem eles, excitam e abra√ßam para nos estrangular (…). E, se a dor de cabe√ßa nos viesse antes da embriaguez, evitar√≠amos beber demais. Mas a vol√ļpia, para nos enganar, caminha √† frente e oculta-nos o seu s√©quito. Os livros s√£o apraz√≠veis; mas, se por frequent√°-los perdemos afinal a alegria e a sa√ļde, que s√£o as nossas melhores partes, abandonemo-los. Sou dos que julgam que o seu fruto n√£o pode contrabalan√ßar essa perda. Como os homens que h√° longo tempo se sentem enfraquecidos por alguma indisposi√ß√£o se entregam por fim √† merc√™ da medicina e deixam que lhes estabele√ßa artificialmente certas regras de viver para n√£o mais ultrapass√°-las, assim tamb√©m aquele que se isola, entediado e desgostoso da vida em comum, deve conformar esta √†s regras da raz√£o, deve organiz√°-la e orden√°-la com premedita√ß√£o e reflex√£o.
Deve dizer adeus a toda a esp√©cie de esfor√ßo, sob qualquer apar√™ncia que se apresente; e fugir em geral das paix√Ķes que impedem a tranquilidade do corpo e da alma,

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Nasceu-te um Filho

Nasceu-te um filho. N√£o conhecer√°s,
jamais, a extrema solid√£o da vida.
Se a n√£o chegaste a conhecer, se a vida
ta n√£o mostrou – j√° n√£o conhecer√°s

a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás,
se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,

leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
J√° nenhum astro te ser√° fatal.

E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
Рri-te de ambas, que um filho é imortal.

Os Vencidos

Tres cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas m√£os as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com m√£o potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz n’um solu√ßo: ¬ęAmei e fui amado!
Levou-me uma vis√£o, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo v√īo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paix√£o
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.

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Pelos Extremos Raros Que Mostrou

Pelos extremos raros que mostrou
em saber, Palas, Vénus em fermosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
√Āfrica, Europa e Asia as adorou.

Aquele saber grande que ajuntou
esprito e corpo em liga generosa,
esta mundana m√°quina lustrosa,
de só quatro Elementos fabricou.

Mas mor milagre fez a natureza
em v√≥s, Senhoras, pondo em cada √ľa
o que por todas quatro repartiu.

A v√≥s seu resplandor deu Sol e L√ľa,
a vós com viva luz, graça e pureza,
Ar, Fogo, Terra e √Āgua vos serviu.

Sabedoria I, III

Que dizes, viajante, de esta√ß√Ķes, pa√≠ses?
Colheste ao menos tédio, já que está maduro,
Tu, que vejo a fumar charutos infelizes,
Projectando uma sombra absurda contra o muro?

Também o olhar está morto desde as aventuras,
Tens sempre a mesma cara e teu luto é igual:
Como através dos mastros se vislumbra a lua,
Como o antigo mar sob o mais jovem sol,

Ou como um cemit√©rio de t√ļmulos recentes.
Mas fala-nos, vá lá, de histórias pressentidas,
Dessas desilus√Ķes choradas plas correntes,
Dos nojos como insípidos recém-nascidos.

Fala da luz de g√°s, das mulheres, do infinito
Horror do mal, do feio em todos os caminhos
E fala-nos do Amor e também da Política
Com o sangue desonrado em m√£os sujas de tinta.

E sobretudo não te esqueças de ti mesmo,
Arrastando a fraqueza e a simplicidade
Em lugares onde h√° lutas e amores, a esmo,
De maneira t√£o triste e louca, na verdade!

Foi já bem castigada essa inocência grave?
Que achas? √Č duro o homem; e a mulher? E os choros,
Quem os bebeu?

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Sou uma criatura que necessita de trabalhar e trabalhar muito; felizmente que um trabalho como o meu √© muito bem pago e tem as suas compensa√ß√Ķes, principalmente uma, que em extremo me agrada: distrair-me. √Č isto que eu procuro na vida, sempre e a prop√≥sito de tudo, com um af√£ com que todos os mortais procuram a sempre decantada e fugidia felicidade.

Em Busca Da Beleza II

Nem defini-la, nem ach√°-la, a ela –
A Beleza. No mundo n√£o existe.
Ai de quem coma alma inda mais triste
Nos seres transitórios quer colhê-la!

Acanhe-se a alma porque n√£o conquiste
Mais que o banal de cada cousa bela,
Ou saiba que ao ardor de querer hav√™-la –
À Perfeição Рsó a desgraça assiste.

Só quem da vida bebeu todo o vinho,
Dum trago ou não, mas sendo até o fundo,
Sabe (mas sem remédio) o bom caminho;

Conhece o tédio extremo da desgraça
Que olha estupidamente o nauseabundo
Cristal in√ļtil da vazia ta√ßa.

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paix√£o requer paix√£o; fervor e extremo
Com extremo e fervor se recompensa.

X

Hirta e branca… Repousa a sua √°urea cabe√ßa
Numa almofada de cetim bordada em lírios.
Ei-la morta afinal como quem adormeça
Aqui para sofrer Além novos martírios.

De m√£os postas, num sonho ausente, a sombra espessa
Do seu corpo escurece a luz dos quatro círios:
Ela faz-me pensar numa ancestral Condessa
Da Idade Média, morta em sagrados delírios.

Os poentes sepulcrais do extremo desengano
V√£o enchendo de luto as paredes vazias,
E velam para sempre o seu olhar humano.

Expira, ao longe, o vento, e o luar, longinquamente,
Alveja, embalsamando as brancas agonias
Na sonolenta paz desta C√Ęmara-ardente…

Luto por uma Novidade de Espírito

Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, t√£o extraordin√°ria essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num esc√Ęndalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra mai√ļscula nada pode me dar porque vou confessar que tamb√©m eu devo ter entrado por um beco sem sa√≠da como os outros. Porque noto em mim, n√£o um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. √Č uma quest√£o de sobreviv√™ncia assim como a de comer carne humana quando n√£o h√° alimento. Luto n√£o contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de esp√≠rito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de esp√≠rito.
Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforma num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trémula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água.

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A alma, ao contr√°rio do que tu sup√Ķes, a alma √© exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a mat√©ria. Em certos homens a alma chega a ser vis√≠vel, a atmosfera que os rodeia tomar cor. H√° seres cuja alma √© uma cont√≠nua exala√ß√£o: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda – imensa, dorida, fren√©tica. H√°-os cuja alma √© de uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Da√≠ tamb√©m simpatias e antipatias s√ļbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da mat√©ria comunicar. O amor n√£o √© sen√£o a impregna√ß√£o desses fluidos, formando uma s√≥ alma, como o √≥dio √© a repuls√£o dessa n√©voa sens√≠vel. Assim √© que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus.