Passagens sobre Desconhecidos

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Frases sobre desconhecidos, poemas sobre desconhecidos e outras passagens sobre desconhecidos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Nunca nos Assemelhamos a nós Próprios

O homem não é conhecível a si próprio, porque a sua vida consiste em esforços alternados para ser o que não é, e essa transposição e substituição contínuas de almas irreais e estranhas fazem com que aquilo que na verdade e, ao contrário de Deus, pareça o que nunca é. Mesmo no mais pobre de nós existem pelo menos sete homens.
Há aquele que parece aos outros e o julgado, justamente, sabe quase sempre que não é.
Há aquele que diz ser e ele próprio sabe não ser, porque a vaidade ou medo tornam sempre mentiroso.
Há aquele que julga ser e é o mais distante da verdade, que cada um se inclina para se julgar aquilo que não é, por uma retorsão do orgulho que afasta tudo o pior, que é a maioria.
H√° aquele que quereria ser, o mito pessoal de todo o homem, o sonho reservado ao futuro, aquele que depois deforma todas as autobiografias.
Aquele que finge ser para comodidade e necessidade da vida comum, onde o insensível deve mostrar-se caloroso, o avarento liberal e o vil corajoso.
H√° aquele que se poderia chamar o nosso duplo desconhecido: a personalidade subconsciente,

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O Amor Inspira-se no Clandestino

O amor inspira-se no clandestino, est√°vamos escondidos do mundo e abertos para n√≥s, olhei-te nos olhos e encontrei-te os meses que pass√°mos separados, a grande dor de n√£o te ter, a casa era desconhecida, desabitada, disseste-me tu, n√£o quero saber como tinhas a chave, ainda hoje n√£o quero, o mist√©rio √© um amor por descobrir, e quando se descobre pode n√£o ser amor nenhum ‚Äď

aguentar nesta vida é preservar mistérios, segredos que nunca podem deixar de o ser, espaços por preencher, lacunas que passamos o tempo a tentar ocupar, descodificar, tentar que não falte nada é a melhor receita para nunca faltar nada,
desde que continue sempre a faltar qualquer coisa.

Segurar a pequena mão dele, sentir os seus dedos pequenos a agarrarem a minha mão é uma justificação óbvia para tudo, para a vida. Vale a pena nascer, crescer, vale a pena a adolescência inteira, todos os sacrifícios, vale a pena a responsabilidade, vale a pena sair pelo desconhecido e estar preparado para o impossível, vale a pena ler obras completas, passar dias fechado apenas a ler, vale a pena comer sopa, aprender a fazer sopa, vale a pena lavar loiça para ter a oportunidade de segurar-lhe a mão.

As concep√ß√Ķes religiosas, est√©ticas e morais n√£o foram, por certo, numa qualquer √©poca desconhecida, sen√£o uma s√≥.

O Tipo de Homem que Eu Sou

Agora é necessário que eu deva dizer que tipo de homem sou. O meu nome não importa, nem qualquer outro pormenor exterior particular acerca de mim. Do meu carácter alguma coisa deve ser dita.

Toda a constitui√ß√£o do meu esp√≠rito √© de hesita√ß√£o e d√ļvida. Nada √© ou pode ser positivo para mim, todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, uma incerteza para mim pr√≥prio. Tudo para mim √© incoer√™ncia e mudan√ßa. Tudo √© mist√©rio e tudo √© significado. Todas as coisas s√£o ¬ędesconhecidos¬Ľ simb√≥licos do Desconhecido. Consequentemente horror, mist√©rio, medo supra-inteligente.

Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo enquadramento da minha juventude, pela influência dos estudos realizados sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isso eu sou das espécies internas de caráter, auto-centrado, mudo, não auto-suficiente mas auto-perdido. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror de, na incapacidade que permeia tudo o que me é, fisicamente e mentalmente, por actos decisivos, por pensamentos definidos. Eu nunca tive uma resolução nascida de uma auto-determinação, nunca uma traição externa de uma vontade consciente. Nenhum dos meus escritos foi terminado;

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O Amor como Factor Civilizador

As provas da psican√°lise demonstram que quase toda rela√ß√£o emocional √≠ntima entre duas pessoas que perdura por certo tempo ‚ÄĒ casamento, amizade, as rela√ß√Ķes entre pais e filhos ‚ÄĒ cont√©m um sedimento de sentimentos de avers√£o e hostilidade, o qual s√≥ escapa √† percep√ß√£o em consequ√™ncia da repress√£o. Isso acha-se menos disfar√ßado nas alterca√ß√Ķes comuns entre s√≥cios comerciais ou nos resmungos de um subordinado em rela√ß√£o ao seu superior. A mesma coisa acontece quando os homens se re√ļnem em unidades maiores. Cada vez que duas fam√≠lias se vinculam por matrim√≥nio, cada uma delas se julga superior ou de melhor nascimento do que a outra. De duas cidades vizinhas, cada uma √© a mais ciumenta rival da outra; cada pequeno cant√£o encara os outros com desprezo. Ra√ßas estreitamente aparentadas mant√™m-se a certa dist√Ęncia uma da outra: o alem√£o do sul n√£o pode suportar o alem√£o setentrional, o ingl√™s lan√ßa todo tipo de cal√ļnias sobre o escoc√™s, o espanhol despreza o portugu√™s. N√£o ficamos mais espantados que diferen√ßas maiores conduzam a uma repugn√Ęncia quase insuper√°vel, tal como a que o povo gaul√™s sente pelo alem√£o, o ariano pelo semita.
Quando essa hostilidade se dirige contra pessoas que de outra maneira s√£o amadas,

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Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que n√£o te fale
feito de resist√™ncias e amea√ßas ‚ÄĒ Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que j√° n√£o acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
‚ÄĒ constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos O√°sis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensid√£o da desordem
a que ter√£o de ser constantemente arrancadas
‚ÄĒ s√£o da m√°xima import√Ęncia as Velhas Concep√ß√Ķes pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar r√°pido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

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A inf√Ęncia s√≥ √© bonita e feliz quando lembramos dela em retrospecto: para a crian√ßa √© cheia de tristezas cujo significado √© desconhecido.

Saber Estar em Sociedade

O homem que n√£o tem mais do que o pr√≥prio valor necessita de ser excelente em grande n√ļmero de virtudes, tal como a pedra que n√£o √© preciosa necessita de ser revestida de metal; mas comummente acontece com a reputa√ß√£o o mesmo que com o lucro, se √© verdadeiro o prov√©rbio que diz: que com leves ganhos se fazem pesadas bolsas, porque estes s√£o frequentes, enquanto os grandes s√≥ chegam de vez em quando; assim, tamb√©m √© verdade que pequenas coisas ganham grande recomenda√ß√£o, porque s√£o de uso e de observa√ß√£o corrente, enquanto a ocasi√£o de manifestar grandes virtudes s√≥ √© dada nos dias-santos. Para adquirir boas maneiras basta apenas n√£o as desdenhar, porque, habituando-nos a observ√°-las nos outros, deixamos confiadamente operar em n√≥s a imita√ß√£o; pois se cuidarmos de as exprimir, perdem logo a sua gra√ßa, a qual √© serem naturais e desafectadas. O comportamento de cada homem deve ser como um verso, no qual todas as s√≠labas s√£o medidas. Como pode um homem ocupar-se de grandes assuntos, se quebra demasiado o seu esp√≠rito com mesquinhas observa√ß√Ķes? N√£o usar completamente de cerim√≥nias √© ensinar aos outros que n√£o as usem tamb√©m, e assim diminuir o respeito pr√≥prio; especialmente, n√£o devem ser omitidas perante estrangeiros e pessoas desconhecidas.

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O Meu Car√°cter

Cumpre-me agora dizer que esp√©cie de homem sou. N√£o importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. √Č acerca do meu car√°cter que se imp√Ķe dizer algo.
Toda a constitui√ß√£o do meu esp√≠rito √© de hesita√ß√£o e d√ļvida. Para mim, nada √© nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim pr√≥prio. Tudo para mim √© incoer√™ncia e muta√ß√£o. Tudo √© mist√©rio, e tudo √© prenhe de significado. Todas as coisas s√£o ¬ędesconhecidas¬Ľ, s√≠mbolos do Desconhecido. O resultado √© horror, mist√©rio, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tend√™ncias naturais, pelas circunst√Ęncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influ√™ncia dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tend√™ncias) – por tudo isto o meu car√°cter √© do g√©nero interior, autoc√™ntrico, mudo, n√£o auto-suficiente mas perdido em si pr√≥prio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu car√°cter consiste no √≥dio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, f√≠sica e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decis√£o nascida do autodom√≠nio, jamais tra√≠ externamente uma vontade consciente. Os meus escritos,

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In Extremis

1

Só a criança conhece a Eternidade
Que é inocência do desconhecido.
E o que me d√° saudade
√Č hav√™-la em mim perdido.

Outra herança de tudo que não sou
Podeis levá-la! Faça-se a vontade:
Que a imortal, perene propriedade,
Perdeu-a o homem quando semeou.

Ah! como a onda do mar que é mais bravia
√Č que abra√ßa os escolhos,
Só terra de poesia
Foi na minh’alma dor, o luto dos meus olhos.

Entre o homem e o mundo h√° um novelo
De linha preta:
Meu acto de Fé é ser criança, e crê-lo,
Que é ser poeta.

2

O que levamos da terra
√Č o c√©u que possu√≠mos:
Esperança das sepulturas.

E à morte que damos vida
Todos os deuses se igualam
Ao mesmo Deus das Alturas.

Sê, ó Morte, o meu dia de Juízo
Se é fantasia o que penso
Sonho a terra que piso.

Mas quando o corpo, a natureza morta
Me for nas m√£os dos homens
Com suas luvas pretas,

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Um Cão é isto de Sermos Gente

Um c√£o
é isto de sermos gente.

Se temos só duas pernas
temos em contrapartida
uma complicação escura
dentro do peito.

Qualquer coisa como
os fundos desconhecidos
da √°gua
só conhecidos
dos n√°ufragos.

Para matar
é preciso uma arma
e para voar
como b√ļzios
precisamos papel e l√°pis
‚ÄĒ e assim viajamos
dentro de vegetais malas de viagens
procurando o destino sufocante
de todas as paragens.

Um Mundo Melhor

Tal como existem muitas formas de vida, tamb√©m existem in√ļmeras formas de viver. A minha predileta e aquela onde, por incr√≠vel que pare√ßa, assento a minha paz, cont√©m o ingrediente que mais potencia as emo√ß√Ķes, o risco. O risco √© a gra√ßa da vida, √© aventura, √© o desconhecido, √© a busca e a mais valiosa oportunidade para cresceres e te desenvolveres como ser consciente.

Quando foi a √ļltima vez que arriscaste?
O que é que sentiste?
Percebeste que, correndo bem ou mal, o risco é a viagem e nunca o resultado?
Continuaste a arriscar nessa ou noutras √°reas da tua vida?
O risco est√° associado √† a√ß√£o, √† coragem, ao prazer, √† paix√£o pela vida, √† entrega no ¬ęAgora¬Ľ e implica o abandono do sof√°, da rotina doentia em que escolheste movimentar-te e dos padr√Ķes em que cresceste.

Chamam-me louco, eu respondo-lhes que vivem pouco. Sou um homem feliz, ainda que, como qualquer ser humano, viva com alguns preconceitos espont√Ęneos, medos s√ļbitos e frustra√ß√Ķes pontuais. Sou, tamb√©m, algu√©m com experi√™ncia em ajudar pessoas… humm, ajudar, n√£o! Dirigir soa melhor e √©, igualmente, mais real. Promovo-lhes, atrav√©s da minha experi√™ncia em coaching,

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A Inconst√Ęncia no Amor e na Amizade

N√£o pretendo justificar aqui a inconst√Ęncia em geral, e menos ainda a que vem s√≥ da ligeireza; mas n√£o √© justo imputar-lhe todas as transforma√ß√Ķes do amor. H√° um encanto e uma vivacidade iniciais no amor que passa insensivelmente, como os frutos; n√£o √© culpa de ningu√©m, √© culpa exclusiva do tempo. No in√≠cio, a figura √© agrad√°vel, os sentimentos relacionam-se, procuramos a do√ßura e o prazer, queremos agradar porque nos agradam, e tentamos demonstrar que sabemos atribuir um valor infinito √†quilo que amamos; mas, com o passar do tempo, deixamos de sentir o que pens√°vamos sentir ainda, o fogo desaparece, o prazer da novidade apaga-se, a beleza, que desempenha um papel t√£o importante no amor, diminui ou deixa de provocar a mesma impress√£o; a designa√ß√£o de amor permanece, mas j√° n√£o se trata das mesmas pessoas nem dos mesmos sentimentos; mant√™m-se os compromissos por honra, por h√°bito e por n√£o termos a certeza da nossa pr√≥pria mudan√ßa.
Que pessoas teriam começado a amar-se, se se vissem como se vêem passados uns anos? E que pessoas se poderiam separar se voltassem a ver-se como se viram a primeira vez? O orgulho, que é quase sempre senhor dos nossos gostos,

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Nunca, por Mais

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensa√ß√£o de arrepio, o medo do novo, a n√°usea ‚ÄĒ
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, tr√™s dias de viagem, tr√™s horas de viagem ‚ÄĒ
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.

O Solit√°rio

Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua p√°tria;
os dias cheios est√£o sobre as suas mesas
mas para mim a dist√Ęncia √© puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
t√£o desabitado talvez como uma lua;
mas eles n√£o deixam um √ļnico pensamento s√≥,
e todas as suas palavras s√£o habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas ‚ÄĒ:
na sua vasta p√°tria s√£o feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.

Tradução de Maria João Costa Pereira

A Mentira Perfeita

A mentira, a mentira perfeita, acerca das pessoas que conhecemos, sobre as rela√ß√Ķes que com elas tivemos, sobre o nosso m√≥bil em determinada ac√ß√£o formulado por n√≥s de uma forma completamente diferente, a mentira acerca do que somos, acerca do que amamos, acerca do que sentimos pela criatura que nos ama e que julga ter-nos tornado semelhante a ela porque passa o dia a beijar-nos, essa mentira √© das √ļnicas coisas no mundo que nos pode abrir perspectivas sobre algo de novo, de desconhecido, que pode abrir em n√≥s sentidos adormecidos para a contempla√ß√£o do universo que nunca ter√≠amos conhecido.

Era a segurança de se saber pioneira, vendo tudo e compreendendo tudo, não a sensação cega de estar sendo arrastada para o desconhecido por alguma força misteriosa a sua frente. Era a maior sensação da existência: não confiar, mas saber.