Passagens sobre Interior

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Frases sobre interior, poemas sobre interior e outras passagens sobre interior para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Hoje convido-vos a pensar um instante, em sil√™ncio, nisto: onde est√° a minha necrose interior? Onde est√° a parte morta da minha alma? Onde est√° o meu t√ļmulo? Pensai, um minutinho, todos em sil√™ncio.

Na vida de qualquer cristão há sempre a experiência do deserto, da purificação interior, da noite escura da alma.

Volto-me então para o meu rico nada interior. E grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa.

Uma Vida Exterior Simples e Modesta Só Pode Fazer Bem

Uma vida exterior simples e modesta s√≥ pode fazer bem, tanto ao corpo como ao esp√≠rito. N√£o creio de modo algum na liberdade do ser humano, no sentido filos√≥fico. Cada um age n√£o s√≥ sob press√£o exterior como tamb√©m de acordo com a sua necessidade interior. O pensamento de Schopenhauer: ¬ęO homem pode, na verdade, fazer o que quiser, mas n√£o pode querer o que quer¬Ľ, impressionou-me vivamente desde a juventude e tem sido para mim um consolo constante e uma fonte inesgot√°vel de toler√Ęncia. Esse conhecimento suaviza ben√©ficamente o sentimento de responsabilidade levemente inibit√≥rio e faz com que n√£o tomemos demasiado a s√©rio, para n√≥s e para os outros, uma concep√ß√£o de vida que justifica de modo especial a exist√™ncia do humor.
Do ponto de vista objectivo, pareceu-me sempre desprovido de senso querer-se indagar sobre o sentido ou a finalidade da própria existência ou da existência da criação. E, no entanto, cada homem tem certos ideais, que o orientam nos seus esforços e juízos. Neste sentido o bem-estar e a felicidade nunca me pareceram um fim em si (chamo a esta base ética o ideal da vara de porcos). Os ideais que me iluminavam e me encheram incessantemente de alegre coragem de viver foram sempre a bondade,

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Corremos Dentro dos Corpos

Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo.
Como sangue, somos l√°grimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras s√£o, tantas vezes, feitas daquilo que signiÔ¨Ācamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escurid√£o como o √ļnico objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as mem√≥rias, as ideias, a esperan√ßa e o desencanto.

Rumor dos Fogos

hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o drag√£o em celul√≥ide da inf√Ęncia
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a ins√≥nia dos meus trinta e cinco anos…

dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi h√° muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde
e as m√£os eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais

n√£o quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas n√£o estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar

ficou-me esta m√£o com sua sombra de terra
sobre o papel branco… como √© louca esta m√£o
tentando aparar a tristeza antiga das l√°grimas

A Luta pelo Teu Amor

H√° um ponto no qual n√£o posso concordar contigo, Marty. Tu dizes que agora somos muito sensatos e o quanto tolos fomos no passado a lidar um com o outro. Eu concordo alegremente que agora somos sensatos o suficiente para acreditar no nosso amor sem quaisquer d√ļvidas, mas n√£o ter√≠amos chegado a este ponto se n√£o fosse por tudo o que aconteceu entre n√≥s antes. Foi a intensidade do meu desgosto, trazido pela muitas horas de sofrimento que tu me causaste h√° dois anos, que me convenceu do meu amor por ti. Hoje em dia, com todo o meu trabalho, e a luta por dinheiro, posi√ß√£o, e reputa√ß√£o, que tudo junto mal me d√° tempo de sobra para te escrever uma carta afectuosa, j√° seria quase imposs√≠vel chegar a essa convic√ß√£o. N√£o desprezemos os tempos em que para mim um dia s√≥ teria sentido se recebesse uma carta de ti, quando uma decis√£o tua significava uma decis√£o entre vida e morte. Eu n√£o sei realmente que mais poderia ter feito nessa altura; foi um per√≠odo de luta muito dif√≠cil, e finalmente, de vit√≥ria, e s√≥ ap√≥s disso tudo ter terminado consegui encontrar a paz interior para trabalhar em torno do nosso futuro.

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Renunciar à Sede de Poder

Quem n√£o conheceu a tenta√ß√£o de ser o primeiro na cidade nada compreender√° do jogo pol√≠tico, da vontade de submeter os outros para deles fazer objectos, nem adivinhar√° os elementos de que √© composta a arte do desprezo. A sede de poder, raros s√£o os que n√£o a tenham num grau ou noutro experimentado: √©-nos natural, e contudo, se a considerarmos melhor, assume todos os car√°cteres de um estado m√≥rbido do qual apenas nos curamos por acidente ou ent√£o por meio de um amadurecimento interior, aparentado com o que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no topo da sua gl√≥ria, ensinou ao mundo que o excesso de cansa√ßo podia suscitar cenas t√£o admir√°veis como o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a ren√ļncia, desafio √†s nossas contantes, √† nossa identidade, sobrev√©m somente em momentos excepcionais, caso limite que satisfaz o fil√≥sofo e perturba profundamente o historiador.

Compreendendo que o mundo exterior é uma projeção do mundo interior, não há mais necessidade de consultar profetas que falam sobre o mundo exterior.

Beethoven Surdo

Surdo, na universal indiferença, um dia,
Beethoven, levantando um desvairado apelo,
Sentiu a terra e o mar num mudo pesadelo.
E o seu mundo interior cantava e restrugia.

Torvo o gesto, perdido o olhar, hirto o cabelo,
Viu, sobre a orquestra√ß√£o que no seu cr√Ęnio havia,
Os astros em torpor na imensidade fria,
O ar e os ventos sem voz, a natureza em gelo.

Era o nada, a evers√£o do caos no cataclismo,
A síncope do som no páramo profundo,
O silêncio, a algidez, o vácuo, o horror no abismo.

E Beethoven, no seu supremo desconforto,
Velho e pobre, caiu, como um deus moribundo,
Lançando a maldição sobre o universo morto!

O Solit√°rio

O solit√°rio leva uma sociedade inteira dentro de si: o solit√°rio √© multid√£o. E daqui deriva a sua sociedade. Ningu√©m tem uma personalidade t√£o acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O g√©nio, foi dito e conv√©m repeti-lo frequentemente, √© uma multid√£o. √Č a multid√£o individualizada, e √© um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de pr√≥prio √©, no fundo, aquele que tem mais de todos, √© aquele em quem melhor se une e concentra o que √© dos outros.
(…) O que de melhor ocorre aos homens √© o que lhes ocorre quando est√£o sozinhos, aquilo que n√£o se atrevem a confessar, n√£o j√° ao pr√≥ximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando est√£o em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solit√°rio costuma atrever-se a express√°-lo, a deixar que isso flores√ßa, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando est√£o sozinhos, sem que ningu√©m se atreva a public√°-lo. O solit√°rio pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa,

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O Meu Car√°cter

Cumpre-me agora dizer que esp√©cie de homem sou. N√£o importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. √Č acerca do meu car√°cter que se imp√Ķe dizer algo.
Toda a constitui√ß√£o do meu esp√≠rito √© de hesita√ß√£o e d√ļvida. Para mim, nada √© nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim pr√≥prio. Tudo para mim √© incoer√™ncia e muta√ß√£o. Tudo √© mist√©rio, e tudo √© prenhe de significado. Todas as coisas s√£o ¬ędesconhecidas¬Ľ, s√≠mbolos do Desconhecido. O resultado √© horror, mist√©rio, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tend√™ncias naturais, pelas circunst√Ęncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influ√™ncia dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tend√™ncias) – por tudo isto o meu car√°cter √© do g√©nero interior, autoc√™ntrico, mudo, n√£o auto-suficiente mas perdido em si pr√≥prio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu car√°cter consiste no √≥dio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, f√≠sica e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decis√£o nascida do autodom√≠nio, jamais tra√≠ externamente uma vontade consciente. Os meus escritos,

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A Nossa Avidez Infinita

Todos n√≥s sofremos de uma avidez infinita. As nossas vidas s√£o-nos preciosas, estamos sempre alerta contra os desperd√≠cios. Ou talvez fosse melhor chamar a isso Sentido de Destino Pessoal. Sim. Creio que √© melhor do que avidez. Dever√° a minha vida perder um mil√©simo de polegada da sua plenitude? √Č uma coisa diferente avaliar-se a si pr√≥prio ou vangloriar-se loucamente. E h√° ent√£o os nossos planos, os nossos ideais. Tamb√©m eles s√£o perigosos. Podem consumir-nos como parasitas, comer-nos, sorver-nos e deixar-nos exangues e prostrados. E no entanto estamos constantemente a convidar os parasitas, como se estiv√©ssemos ansiosos por sermos sorvidos e comidos. Isto porque nos ensinaram que n√£o h√° limites para o que um homem pode ser.

Há seiscentos anos um homem era o que o seu nascimento demarcava para ele. Satanás e a Igreja, representante de Deus, lutavam por ele. Ele, pela sua escolha, decidia em parte qual seria o resultado. Mas quer fosse, depois da morte, para o céu ou para o inferno, o seu lugar entre os vivos estava marcado. Não podia ser contestado. Desde então o palco foi novamente arranjado e os seres humanos apenas passeiam nele e, sob este novo ponto de vista,

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As Opini√Ķes

Quando me manifestei com tanto ardor contra a opini√£o, estava ainda sob o seu jugo, sem me aperceber. Queremos ser estimados pelas pessoas que estimamos e, enquanto pude julgar favoravelmente os homens, ou pelo menos certos homens, os ju√≠zos que eles faziam a meu respeito n√£o me podiam ser indiferentes. Via que os ju√≠zos do p√ļblico s√£o muitas vezes justos; mas n√£o via que essa justi√ßa resultava do acaso, que as regras sobre as quais os homens fundamentam as suas opini√Ķes s√£o extra√≠das apenas das suas paix√Ķes ou dos seus preconceitos, que prov√™m deles, e que, mesmo quando ajuizam bem, √© frequente que esses bons ju√≠zos nas√ßam de um mau princ√≠pio, como acontece quando fingem honrar, a prop√≥sito de algum sucesso, o m√©rito de um homem, n√£o por esp√≠rito de justi√ßa, mas para se dar ares de imparcialidade, ao mesmo tempo que caluniam √† vontade esse homem relativamente a outros pontos.
Quando, por√©m, ap√≥s longas e v√£s pesquisas, vi que todos eles, sem excep√ß√£o, se mantinham dentro do sistema mais in√≠quio e absurdo que um esp√≠rito infernal pode inventar; quando vi que, a meu respeito, a raz√£o fora banida de todas as cabe√ßas e a justi√ßa de todos os cora√ß√Ķes;

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Quando se é perfeitamente feliz no nosso interior, suporta-se os aborrecimentos deste mundo com muito mais resignação.

Sou a Tua Casa

Sou a tua casa, a tua rua, a tua seguran√ßa, o teu destino. Sou a ma√ß√£ que comes e a roupa que vestes. Sou o degrau por onde sobes, o copo por onde bebes, o teu riso e o teu choro, o teu frio e a tua lareira. O pedinte que ajudas, o asilo que te quer acolher. Sou o teu pensamento, a tua recorda√ß√£o, a tua vontade. E tamb√©m o artes√£o que para ti trabalha, o medo que te perturba e o c√£o que te guia quando entras pela noite. Sou o s√≠tio onde descansas, a √°rvore que te d√° sombra, o vento que contigo se comove. Sou o teu corpo, o teu esp√≠rito, o teu brilho, a tua d√ļvida. Sou a tua m√£e, o teu amante, o marfim dos teus dentes. E sou, na luz do outono, o teu olhar. Sou a tua parteira e a tua l√°pide. Os teus vinte anos. O cora√ß√£o sepultado em ti. Sou as tuas asas, a tua liberdade, e tudo o que se move no teu interior. Sou a tua ressaca, o teu transtorno, o rel√≥gio que mede o tempo que te resta. Sou a tua mem√≥ria, a mem√≥ria da tua mem√≥ria,

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Até conseguirmos educar cada criança de uma forma fantástica, até que cada cidade interior esteja completamente limpa, não existem poucas coisas a fazer.

Existem certas alturas em que me sinto mais inspirado, preenchido com uma força brutal que me obriga a ouvir a minha voz interior, e é nessa altura que eu sinto mais que nunca a necessidade de um piano Pleyel.

Este Livro Podia Acabar Aqui

Este livro podia acabar aqui. Sempre gostei de enredos circulares. E a forma que os escritores, pessoas do tamanho das outras, t√™m para sugerir eternidade. Se acaba conforme come√ßa √© porque n√£o acaba nunca. Mas tu, eu, os Flauberts, os Joyces, os Dostoievskis sabemos que, para n√≥s, acaba. Com um ligeiro desvio, os c√≠rculos transfor-mam-se em espirais e, depois, basta um ponto como este: . O bico de uma caneta espetada no papel. Um gesto a acertar na tecla entre , e -. Um movimento sobre um quadradinho de pl√°stico. Isto: . Repara como √© pequeno, insuficiente para espreitarmos atrav√©s dele, floco de cinza a planar, resto de formiga esmagada. Se o pud√©ssemos segurar entre os dedos, n√£o ser√≠amos capazes de senti-lo, gr√£o de areia. Mas tu ainda est√°s a√≠, ol√°, eu ainda estou aqui e n√£o poderia ir-me embora sem te agradecer. A√≠ e aqui ainda √© o mesmo lugar. Sinto-me grato por essa certeza simples. A paisagem, mundo de objectos, apenas ganhar√° realidade quando deixarmos estas palavras. At√© l√°, temos a cabe√ßa submersa neste tempo sem rel√≥gios, sem dias de calend√°rio, sem esta√ß√Ķes, sem idade, sem agosto, este tempo encadernado. As tuas m√£os seguram este livro e, no entanto,

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