Passagens sobre Singular

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Os homens parecem n√£o considerar os seus defeitos suficientes: aumentam-lhes ainda o n√ļmero atrav√©s de algumas qualidades singulares com as quais simulam enfeitar-se, e cultivam-nas com tanto desvelo que elas acabam por tomar-se defeitos naturais e j√° n√£o depende deles corrigi-los.

A Realidade e o Modo

N√£o basta a subst√Ęncia, requer-se tamb√©m a circunst√Ęncia. Um mau modo tudo estraga, at√© a justi√ßa e a raz√£o. O bom tudo supre; doura o n√£o, ado√ßa a verdade e enfeita at√© a velhice. √Č grande o papel do como nas coisas, e o bom jeito √© o essencial das coisas. O bel portar-se √© a gala do viver, desempe√ßo singular de todo o bom termo.

Prodígio!

Como o Rei Lear n√£o sentes a tormenta
Que te desaba na fatal cabeça!
(Que o c√©u d’estrelas todo resplande√ßa.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.

A Desventura mais sanguinolenta
Sobre os teus ombros impiedosa desça,
Seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em m√ļsicas rebenta.

Em m√ļsicas e em flores infinitas
De aromas e de formas esquisitas
E de um mist√©rio singular, nevoento…

Ah! só da Dor o alto farol supremo
Consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!

Espero Curar-me em Tua Intenção

O que me eleva, o que em mim perdurar√°, √© a felicidade de ser amado por ti. Veneza, o Grande Canal, a Piazzetta, a Pra√ßa de S. Marcos – um mundo desvanecido. Tudo se torna objectivo como uma obra de arte. Instalei-me num imenso pal√°cio debru√ßado para o Grande Canal, de que neste momento sou o √ļnico habitante. Salas enormes, espa√ßosas, onde vagueio √† minha vontade. Tendo a minha instala√ß√£o uma import√Ęncia grande no aspecto t√©cnico e material do meu trabalho, nela ponho todo o meu cuidado. Escrevi logo para que me mandem o ¬ęErard¬Ľ. Soar√° admiravelmente nos sal√Ķes do meu pal√°cio. O singular sil√™ncio do Canal conv√©m-me √†s mil maravilhas. S√≥ deixo a casa pelas cinco horas, para ir comer. Depois passeio pelo jardim p√ļblico; breve paragem na Pra√ßa de S. Marcos, de um t√£o teatral efeito, por entre uma multid√£o que me √© completamente estranha e apenas me distrai a imagina√ß√£o. Pelas nove horas regresso de g√īndola, encontro o candeeiro aceso, e leio um pouco antes de adormecer…

Esta solid√£o, √ļnico alvo que procuro e que aqui se torna agrad√°vel, anima-me. Sim, espero curar-me em tua inten√ß√£o. Conservar-me para ti significa consagrar-me √† minha arte. Tornar-me tua consola√ß√£o,

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Ambos

Vão pela estrada, à margem dos caminhos
Arenosos, compridos, salutares,
Por onde, a noite, os límpidos luares
Dão às verduras leves tons de arminhos.

Nuvens alegres como os alvos linhos
Cortam a doce comprid√£o dos ares,
Dentre as can√ß√Ķes e os tropos singulares
Dos inef√°veis, meigos passarinhos.

Do céu feliz na branda curvidade,
A luz expande a inteira alacridade,
O mais supremo e encantador afago.

E com o olhar vibrante de desejos
Vão decifrando os trêmulos arpejos,
E as reticências que produz o vago.

Redenção

I

Vozes do mar, das √°rvores, do vento!
Quando √†s vezes, n’um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento…

Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
N√£o ser√°s tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?

Um espírito habita a imensidade:
Uma √Ęnsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha…
Almas irm√£s da minha, almas cativas!

II

N√£o choreis, ventos, √°rvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares…

Da sombra das vis√Ķes crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
D’esse sonho e essas √Ęnsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares…

Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, j√° puro pensamento,

Vereis as Formas, filhas da Ilus√£o,
Cair desfeitas, como um sonho v√£o…
E acabar√° por fim vosso tormento.

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Este é o Papel Singular da Alegria

Este é o papel singular da alegria
a lei errante do país
é o maior dos silêncios.

Caminhei por entre rios pontos de √°gua
esta√ß√Ķes de novembro
pequena raz√£o dos ventos da manh√£.

N√£o trafiquei n√£o porque seja forte
mas porque falo da alegria do estar sobre vós
nestes pontos de √°gua
na acidez da flor
neste país frequentado

algumas coisas nunca mudar√£o. O rigor
da luz torna invulner√°vel o desejo de perder
esta pressa de ver√£o.

Algumas coisas ser√£o sempre as mesmas: manh√£
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello
longínquos.

(Profanamos a casa n√£o o corpo
esta forma desenhada ruga a ruga
esta cor amarela sobre a praia.)

Tal Mostra D√° De Si Vossa Figura

Tal mostra d√° de si vossa figura,
Sibela, clara luz da redondeza,
que as forças e o poder da natureza
com sua claridade mais apura.

Quem viu √ľa confian√ßa t√£o segura,
t√£o singular esmalte da beleza,
que não padeça mais, se ter defesa
contra vossa gentil vista procura?

Eu, pois, por escusar essa esquivança,
a raz√£o sujeitei ao pensamento,
que, rendida, os sentidos lhe entregaram.

Se vos ofende o meu atrevimento,
inda podeis tomar nova vingança
nas relíquias da vida, que escaparam.

Metan√°utica

Deixa-te ser vi√°vel como um bosque
ou jardim ou pomar por onde possa
ir passando a pessoa pela sombra
ou pela flor ou pelo fruto ou pela
singular vocação ambulatória:
deixa-te ser vi√°vel como um rio
ou lago ou mar por onde possa ir
passando o navegante ou nadador
pelo af√£ de chegar ou pelo puro
sentir-se em ti flutuante ou imerso:
deixa-te ser vi√°vel como um ar
por onde possa ir passando a asa
que como tal se procure ou encontre
firme ou fr√°gil… Mas bosque ou jardim ou
pomar ou rio ou lago ou mar ou ar,
deixa em ti leccionar-se o transeunte
que viver s√£o inst√Ęncias de passar.

Douto, Prudente, Nobre, Humano, Af√°vel

Ao desembargador Belchior da Cunha Brochado, casado com uma filha de Sebastião Barbosa, Capitão de infantaria do III da Praça da Bahia.

Douto, prudente, nobre, humano, af√°vel.
Reto, ciente, benigno e aprazível.
Único, singular, raro, inflexível.
Magnífico, preclaro, incomparável.

Do mundo grave juiz. Inimit√°vel.
Admirado, gozais aplauso incrível,
Pois a trabalho tanto e tão terrível,
Dais pronto execução sempre incansável.

Vossa fama, senhor, seja notória
L√° no clima onde nunca chega o dia.
Onde do Erebo só se tem memória

Para que garbo tal, tanta energia!
Pois de toda esta terra é gentil glória,
Da mais remota seja uma alegria.

Amor

Tu acendeste-me o lume,
Naquela tarde de frio. E do jardim,
Solit√°rio e sombrio,
Vinha até mim
Um suave perfume
De goivos a morrer.

Sobre a cidade calma,
As nuvens, uma a uma,
Como flocos de espuma,
Passavam a correr.

Era uma tarde, das tardes mais frias!
E as coisas n√£o me sorriam.
Somente,
Doente,
Tu me sorrias.

Na vidraça, como gelo,
Soluçaram gotas de água.
Afaguei o teu cabelo,
Com alegria e com m√°goa.

Era uma tarde sombria,
De luz bem singular.
Tarde t√£o fria,
Até parecia
Que tudo ia gelar.

A Vantagem de Ter Pouca Memória

Não há outro homem a quem aventurar-se a falar de memória assente tão mal. Pois praticamente não reconheço em mim vestígio dela, e não creio que haja no mundo uma outra tão prodigiosa em insuficiência. Tenho banais e comuns todas as minhas outras qualidades. Mas nesta creio ser singular e muito raro, e digno de por ela ganhar nome e fama.
(…) Em certa medida, consolo-me. Em primeiro lugar porque esse √© um mal pelo qual encontrei principalmente o meio de corrigir um mal pior que poderia facilmente ter surgido em mim, ou seja, a ambi√ß√£o, pois √© uma falta (a falta de mem√≥ria) inadmiss√≠vel para quem se envolve nos neg√≥cios do mundo; e porque, como mostram v√°rios exemplos semelhantes do andamento da natureza, esta de bom grado fortaleceu em mim outras faculdades na medida em que aquela se enfraqueceu, e facilmente eu iria deitando e enlaguescendo o meu esp√≠rito e o meu discernimento sobre os rastros de outrem, como faz o mundo, sem exercer as suas pr√≥prias for√ßas, se as ideias e opini√Ķes alheias estivessem presentes em mim pelo benef√≠cio da mem√≥ria.
E porque as minhas falas são mais curtas, pois o armazém da memória costuma ser mais bem provido de matéria do que o da invenção;

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O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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A Arte de Viver, pela Fantasia

A fantasia é a mãe da satisfação, do humor, da arte de viver. Apenas floresce alicerçada num íntimo entendimento entre o ser humano e aquilo que objectivamente o rodeia. Esse ambiente envolvente não tem de ser belo, singular ou sequer encantador. Basta que tenhamos tempo para a ele nos habituarmos, e é sobretudo isso que hoje em dia nos falta.

Correspondências

A natureza é um templo augusto, singular,
Que a gente ouve exprimir em língua misteriosa;
Um bosque simbolista onde a √°rvore frondosa
Vê passar os mortais, e segue-os com o olhar.

Como distintos sons que ao longe v√£o perder-se,
Formando uma só voz, de uma rara unidade,
Tem vasta como a noite a claridade,
Sons, perfumes e cor logram corresponder-se

H√° perfumes subtis de carnes virginais,
Doces como o oboé, verdes como o alecrim,
E outros, de corrupção, ricos e triunfais

Como o √Ęmbar e o musgo, o incenso e o benjoim,
Entoando o louvor dos arroubos ideais,
Com a larga expans√£o das notas d’um clarim.

Tradução de Delfim Guimarães

Soneto Do Amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retalia√ß√Ķes, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

√Č bom sent√°-lo novamente ao lado
Com os olhos que contem o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual à mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida n√£o explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

Ent√£o… eu n√£o creio em Deus?! Quem te disse isto? Puseste-me na mesma roda dos singulares infelizes, que usam o ate√≠smo como usam de gravatas ‚ÄĒ por chic, e para se darem ares de s√°bios… N√£o.