Passagens sobre Cinzas

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Frases sobre cinzas, poemas sobre cinzas e outras passagens sobre cinzas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Exortação

Corpo crivado de sangrentas chagas,
Que atravessas o mundo soluçando,
Que as carnes vais ferindo e vais rasgando
Do fundo d’Ilus√Ķes velhas e vagas.

Grande isolado das terrestres plagas,
Que vives as Esferas contemplando,
Braços erguidos, olhos no ar, olhando
A etérea chama das Conquistas magas.

Se é de silêncio e sombra passageira,
De cinza, desengano e de poeira
Este mundo feroz que te condena,

Embora ansiosamente, amargamente
Revela tudo o que tu’alma sente
Para ela ent√£o poder ficar serena!

Paisagens De Inverno I

√ď meu cora√ß√£o, torna para tr√°s.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! – o sol! Volvei, noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido…
√ď meus olhos, cismai como os velhinhos.

Extintas primaveras evocai-as:
– J√° vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias.-

Sossegai, esfriai, olhos febris.
-E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas…Doces vozes senis…-

As Coisas Humanas São Efémeras E Sem Valor

Pensa de cont√≠nuo em quantos m√©dicos morreram, eles que tinham tanta vez carregado o sobrolho √† cabeceira dos seus doentes; quantos astr√≥logos que julgaram maravilhar os outros predizendo-lhes a morte; quantos fil√≥sofos ap√≥s uma infinidade de √°speras disputas sobre a morte e a imortalidade; quantos pr√≠ncipes depois de terem dado a morte a tanta gente; quantos tiranos que, como se fossem imortais, abusaram, com uma arrog√Ęncia nunca vista, do poder, a ponto de atentarem contra a vida humana. Quantas cidades, se assim podemos dizer, morreram de raiz: Heliqu√©, Pompeia, Herculano, e outras que n√£o t√™m conto! Enumera agora, um ap√≥s outro todos aqueles que conheceste. Este, depois de prestar os √ļltimos servi√ßos √†quele, foi posto de p√©s juntos no leito f√ļnebre por um terceiro a quem tamb√©m chegou a sua vez.
E em t√£o pouco espa√ßo de tempo! Em suma, as coisas humanas √© consider√°-las como ef√©meras e sem valor: ontem, um pouco de greda; amanh√£, m√ļmia e um punhado de cinzas. Esta min√ļscula dura√ß√£o vive-a a tom com a natureza e chega ao fim com a alma contente: como a azeitona madurinha que tombasse aben√ßoando a terra que a criou e dando gra√ßas √† √°rvore que a deixou crescer.

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A Lucidez da Velhice

A mocidade √© noivado, como a velhice √© viuvez. Um jovem, por mais marido que seja, √© noivo ainda; e um velho, embora casado, √© j√° vi√ļvo… um solit√°rio guardando as cinzas duma flor. Mas dessas cinzas o seu esp√≠rito se alimenta. Alimenta-se de pureza, pois a cinza √© o que resta dum inc√™ndio, essa purifica√ß√£o suprema. Por isso, a consci√™ncia √© um atributo da velhice, e tamb√©m a ci√™ncia. A consci√™ncia √© a ci√™ncia connosco, a ci√™ncia identificada ao nosso ser, que entra no pleno conhecimento de si mesmo, e do seu poder representativo do Universo. A velhice √© uma noite maravilhosa em que brilham as nossas ideias, uma atmosfera l√≠mpida ou varrida pelo z√©firo da morte, a √ļnica Deusa verdadeira.

Os Amantes n√£o Contam Nada de Novo uns aos Outros

A alma s√≥ acolhe o que lhe pertence; de certo modo, ela j√° sabe de antem√£o tudo aquilo por que vai passar. Os amantes n√£o contam nada de novo uns aos outros, e para eles tamb√©m n√£o existe reconhecimento. De facto, o amante n√£o reconhece no ser que ama nada a n√£o ser que √© transportado por ele, de modo indescrit√≠vel, para um estado de dinamismo interior. E reconhecer uma pessoa que n√£o ama significa para ele trazer o outro ao amor como uma parede cega sobre a qual cai a luz do Sol. E reconhecer uma coisa inerte n√£o significa identificar os seus atributos uns a seguir aos outros, mas sim que um v√©u cai ou uma fronteira se abre, e nenhum deles pertence ao mundo da percep√ß√£o. Tamb√©m o inanimado, desconhecido como √©, mas cheio de confian√ßa, entra no espa√ßo fraterno dos amantes. A natureza e o singular esp√≠rito dos amantes olham-se nos olhos, e s√£o as duas direc√ß√Ķes de um mesmo agir, um rio que corre em dois sentidos, um fogo que arde em dois extremos.
E então é impossível reconhecer uma pessoa ou uma coisa sem relação connosco próprios, pois o acto de tomar conhecimento toma das coisas qualquer coisa;

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Soneto das Metamorfoses

A Edmundo Morais

Carolina, a cansada, fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
N√£o por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que ent√£o era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
j√° cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.

Espelho (II)

Para fechar sem chave a minha sina
Clara invers√£o da jaula das palavras
As vestes da sintaxe que componho
De baixo para cima é que renovo.

Escancarando um solo transmutado
Para o sol da surpresa nas janelas
Ao mesmo pouso de ave renascida
Do fim regresso fera n√£o domada.

Na duração que escorre nessa arena
Lambendo vem a pressa em que me aposto.
Nessa voragem, vaga um mar de calma

Que me alimenta os ossos da memória.
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
O que sobrou de mim s√£o essas sombras

Só à noitinha

Tive-lhe amor
Gemi de dor
De dor violenta
Chorei sofri
E até por si
Fui ciumenta
Mas todo o mal
Tem um final
Passa depressa
E hoje você
Não sei porquê
J√° n√£o me interessa

Bendita a hora
Que eu esqueci
Por ser ingrato
E deitei fora
As cinzas do seu retrato
Desde esse dia
Sou feliz sinceramente
Tenho alegria
P’ra cantar e andar contente
Só à noitinha
Quando me chega a saudade
Choro sózinha
P’ra chorar mais √† vontade

Hora Mística

Noite caindo … C√©u de fogo e flores.
Voz de Crep√ļsculo exalando cores,
O céu vai cheio de Deus e de harmonia.
Sil√™ncio … Eis-me rezando aos fins do dia.

Névoa de luz criando imagens na água,
Nome das águas esculpindo os céus,
Tarde aos relevos h√ļmidos de fr√°gua,
Boca da noite, eis-me rezando a Deus.

Eis-me entoando, a voz de cinza e ouro,
‚ÄĒ Oh, cores na √°gua vindo √†s m√£os em branco! ‚ÄĒ
Minha √≥pera de Sol ao √ļltimo arranco.

E, oh! hora mística em que o olhar abraso,
‚ÄĒ Sol expirando aos P√≥rticos do Ocaso! ‚ÄĒ
Dobra em meu peito um oceano em coro.

Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas s√ļbitas est√°tuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam √†s origens ‚ÄĒ a realidade
Neles se fez, de subst√Ęncia, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da esp√©cie ‚ÄĒ tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas gal√°xias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o sil√™ncio…

Ausencia

L√ļgubre solid√£o! √ď noite triste!
Como sinto que falta a tua Imagem
A tudo quanto para mim existe!

Tua bemdita e efémera passagem
No mundo, deu ao mundo em que viveste,
√Ā nossa b√īa e maternal Paisagem,

Um espirito novo mais celeste;
Nova Forma a abra√ßou e nova C√īr
Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste!

E ei-la agora t√£o triste e sem verdor!
Depois da tua morte, regressou
Ao seu velhinho estado anterior.

E esta saudosa casa, onde brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Em negra, intima noite se occultou.

Quando chego √° janela, vejo o inverno;
E, √° luz da lua, as sombras do arvoredo
Lembram as sombras p√°lidas do Inferno.

Dos recantos escuros, em segredo,
Nascem Vis√Ķes saudosas, diluidos
Traços da tua Imagem, arremêdo

Que a Sombra faz, em gestos doloridos,
Do teu Vulto de sol a amanhecer…
A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos…

Mas eu que vejo? A luz escurecer;
O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa
A amargura de olhar e de n√£o v√™r…

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Eu ponho o amor no pilão com cinza e grão de roxo e soco. Macero ele, faço dele cataplasma e ponho sobre a ferida.

Nihil Novum

Na penumbra do pórtico encantado
De bruges, noutras eras, j√° vivi;
Vi os templos do Egipto com Loti;
Lancei flores, na √ćndia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao B√≥sforo errei, pensando em ti!…
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de n√°car e brocado…

Mordi as rosas brancas de Ispa√£
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca b√°rbara e deserta,

Triste, a florir, numa ansiedade v√£!
Sempre da vida — o mesmo estranho mal,
E o cora√ß√£o — a mesma chaga aberta!

Louvor bem entendido deve começar por nós, porque neste caso ele se torna uma verdadeira forma de caridade. Mal daqueles que, por humor sombrio ou desalento muito expansivo, se cobrem de cinza diante do mundo, porque o mundo imediatamente, por cima da cinza, os cobre de lama. A humildade só foi possível na Tebaida; e as próprias santas nunca se mostraram aos homens sem a pomposa auréola.

A Eterna Ausência

Eu aguardei com l√°grimas e o vento
suavizando o meu instinto aberto
no fumo do cigarro ou na alegria das aves
o surgimento anónimo
no grande cais da vida
desse navio nocturno
que me trazia aquela com l√°bios evidentes
e possuindo um perfil indubit√°vel,
mulher com dedos religiosos
e bra√ßos espirituais…

Aquela mulher-pir√Ęmide
com chamas pelo corpo
e gritos silenciosos nas pupilas.

Amante que n√£o veio como a noite prometera
numa suspensa nuvem acordar
meu cora√ß√£o de carne e alguma cinza…

Amante que ficou n√£o sei aonde
a castigar meus dias invol√ļveis
ou a afogar meu sexo na caveira
deste carnal desespero!…

Aquilo que te digo, transforma-se em cinza ainda antes de te tocar. Quando chega à página, quando sai dos meus lábios, quando termina de se formar dentro de mim, já é cinza. Ou ainda menos do que cinza. Ainda menos do que fumo. Nem sequer a sensação de fumo, o calor do fumo, o cheiro do fumo. Aquilo que tens é o pouco, o quase nada que sou capaz de te dar. Eu gostava. Desejava com todas as forças ser capaz de dar-te tudo, mas existe um muro de significados que não o permite.