Citação de

O Mal Saltitante

A morte √© apenas uma consequ√™ncia da nossa maneira de viver. Vivemos de pensamento em pensamento, de sensa√ß√£o em sensa√ß√£o. Os nossos pensamentos e as nossas sensa√ß√Ķes n√£o correm tranquilamente como um rio, ¬ęocorrem-nos¬Ľ, caem em n√≥s como pedras. Se te observares bem, sentir√°s que a alma n√£o √© algo que vai mudando de cor em grada√ß√Ķes progressivas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos saindo de um buraco negro. Neste momento tens um pensamento ou uma sensa√ß√£o, e no seguinte aparece outro, diferente, como que sa√≠do do nada. Se deres aten√ß√£o, at√© podes sentir o instante entre dois pensamentos, quando tudo se torna negro. Esse instante, uma vez apreendido, √© para n√≥s o mesmo que a morte.
Pois a nossa vida resume-se a definir marcos e a saltar de um para o outro, diariamente, passando por milhares de instantes de morte. De certo modo, vivemos apenas nos pontos de repouso. √Č por isso que temos esse medo rid√≠culo da morte irrevers√≠vel, porque ela √©, em absoluto, o lugar sem marcos, o abismo insond√°vel em que ca√≠mos. Na verdade, ela √© a nega√ß√£o absoluta daquela maneira de viver.
Mas isto só é assim quando visto da perspectiva desta vida, apenas para aqueles que não aprenderam a sentir-se de outro modo, a não ser de instante em instante.
Chamo a isso o mal saltitante, e o segredo está apenas em superá-lo. Temos de despertar em nós a sensação de que a vida é algo que desliza tranquilamente. No momento em que isso acontecer, estamos tão próximos da morte como da vida.
J√° n√£o vivemos – √† luz dos nossos conceitos terrenos -, mas tamb√©m j√° n√£o podemos morrer, pois com a vida super√°mos tamb√©m a morte. √Č o momento da imortalidade, o momento em que a alma sai da estreiteza do nosso c√©rebro para entrar nos maravilhosos jardins da sua vida.