Textos sobre Imortalidade

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Textos de imortalidade escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Verdadeira Virtude

N√£o se pode pensar em virtude sem se pensar num estado e num impulso contr√°rios aos de virtude e num persistente esfor√ßo da vontade. Para me desenhar um homem virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele √© volunt√°rio; tenho de, talvez em esquema exagerado, lhe p√īr acima de tudo o que √© modelar e conter. Pela origem e pelo significado n√£o posso deixar de a ligar √†s fortes resolu√ß√Ķes e √† coragem civil. E um cont√≠nuo querer e uma cont√≠nua vigil√Ęncia, uma batalha perp√©tua dada aos elementos que, entendendo, classifiquei como maus; requer as n√≠tidas vis√Ķes e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal,

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O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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O Dilema do Conhecimento

Como todos sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas o excesso de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco. Um dos principais problemas da educação superior agora é conciliar as exigências da muita aprendizagem, que é essencialmente uma aprendizagem especializada, com as exigências da pouca aprendizagem, que é a abordagem mais ampla, mas menos profunda, dos problemas humanos em geral.
(…) O que precisamos fazer √© arranjar casamentos, ou melhor, trazer de volta ao seu estado original de casados os diversos departamentos do conhecimento e das emo√ß√Ķes, que foram arbitrariamente separados e levados a viver em isolamento nas suas celas mon√°sticas. Podemos parodiar a B√≠blia e dizer: “Que o homem n√£o separe o que a natureza juntou”; n√£o permitamos que a arbitr√°ria divis√£o acad√©mica em disciplinas rompa a teia densa da realidade, transformando-a em absurdo.
Mas aqui deparamo-nos com um problema muito grave: qualquer forma de conhecimento superior exige especializa√ß√£o. Precisamos de nos especializar para entrar mais profundamente em certos aspectos separados da realidade. Mas se a especializa√ß√£o √© absolutamente necess√°ria, pode ser absolutamente fatal, se levada longe demais. Por isso, precisamos de descobrir algum meio de tirar o maior proveito de ambos os mundos –

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A Alma Hipertrofiada

O rapaz que aos vinte anos se inscreve no partido comunista ou que, de espingarda na mão, se junta à guerrilha das montanhas, está fascinado pela sua própria imagem de revolucionário: é ela que o distingue de todos os outros, é ela que o faz transformar-se em si próprio. Na origem da sua luta encontra-se um amor exacerbado e insatisfeito pelo seu eu, ao qual ele deseja dar contornos bem nítidos, antes de o enviar (realizando o gesto do desejo de imortalidade, tal como o descrevi) para o grande palco da História sobre o qual convergem milhares de olhares: e nós sabemos já, pelo exemplo de Mychkine e de Nastassia Philippovna, que sob os olhares intensantemente assestados nela a alma não pára de crescer, de inchar, de ganhar volume, para finalmente levantar voo em direcção ao firmamento como um aeróstato magnificamente iluminado.
O que incita as pessoas a erguerem o punho, a pegarem numa espingarda, a defenderem juntas causas justas ou injustas, n√£o √© a raz√£o, mas a alma hipertrofiada. √Č este o carburante sem o qual o motor da Hist√≥ria n√£o poderia funcionar e √† falta do qual a Europa teria ficado deitada na relva, a olhar pregui√ßosamente as nuvens que pairam no c√©u.

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A Moral é Imperiosa e Injustificável

O comportamento moral implica sempre um juiz e a mem√≥ria nele desse nosso comportamento. Assim se admite a nossa responsabilidade perante outrem e a ideia de que nesse outrem perdurar√° a mem√≥ria de n√≥s pelos s√©culos. Ora o que √© que significa hoje o comportamento dos que viveram h√° cem anos? e h√° mil? Quando Deus se dava ao luxo de existir, ele garantiria a mem√≥ria do que fomos. Mas agora que ele desistiu? E todavia a ordem moral continua. O ¬ęse Deus n√£o existe tudo √© permitido¬Ľ de Dostoievski √© perfeitamente ilus√≥rio. N√≥s constru√≠mos a nossa moral como se ela existisse. Alguma coisa portanto deve persistir perante a qual nos comportamos.
Os homens c√©lebres compreende-se. Mas o comum dos mortais? Ser√° a ¬ęconsci√™ncia¬Ľ um h√°bito? Teremos n√≥s a voca√ß√£o da imortalidade para agirmos dentro dela? Perante quem nos comportar√≠amos numa ilha deserta com a certeza absoluta de que ningu√©m saberia dos nossos actos? Que √© que persiste de n√≥s ap√≥s a morte para nos julgarmos vivos ent√£o e podermos envergonhar-nos do mal que tiv√©ssemos praticado? Toda a nossa vida √© tecida de ilus√£o. E nada em n√≥s consente que a dissipemos. Mas o pr√≥prio animal tem um comportamento que pode prejudic√°-lo e de que n√£o abdica.

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A Exacta Glória é a Póstuma

A exacta gl√≥ria √© a p√≥stuma, a que nenhum dente r√≥i, e que s√≥ desce sobre um nome depois da ressurrei√ß√£o intemporal do seu possuidor. Todos sabemos que a imortalidade do poeta lhe nasce das cinzas. Mas o artista enquanto vive √© homem. Rege-o tanto uma lei de cima como uma lei de baixo. E por isso, pela transit√≥ria fama entre meia d√ļzia de condicionados contempor√Ęneos, √© capaz de matar um irm√£o. Velhos e novos aprestam nesta triste luta as mesmas armas e as mesmas unhas. Os velhos querem guardar os loiros; os novos querem tirar-lhos das m√£os. E sem haver a mais pequena esperan√ßa de paz entre as duas for√ßas. √Č da pr√≥pria natureza dos contendores que nenhum ceda. A sofreguid√£o √© tanto da fisiologia senil, como da infantil…

A Imortalidade

Ser imortal √© coisa sem import√Ęncia. Excepto o homem, todas as criaturas o s√£o, porque ignoram a morte. O divino, o terr√≠vel, o incompreens√≠vel, √© considerar-se imortal. J√° notei que, embora desagrade √†s religi√Ķes, essa convic√ß√£o √© rar√≠ssima. Israelitas, crist√£os e mu√ßulmanos professam a imortalidade, mas a venera√ß√£o que dedicam ao primeiro s√©culo prova que apenas cr√™em nele, e destinam todos os outros, em n√ļmero infinito, para o premiar ou para o castigar.

Mais razo√°vel me parece o c√≠rculo descrito por certas religi√Ķes do Indost√£o. Nesse c√≠rculo, que n√£o tem princ√≠pio nem fim, cada vida √© uma consequ√™ncia da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto… Doutrinada por um exerc√≠cio de s√©culos, a rep√ļblica dos homens imortais tinha conseguido a perfei√ß√£o da toler√Ęncia e quase do desd√©m. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem √© credor de toda a bondade, mas tamb√©m de toda a trai√ß√£o pelas suas inf√Ęmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e √≠mpares permitem o equil√≠brio, assim tamb√©m se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.

(…) Ningu√©m √© algu√©m,

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A √önica Ideia Sublime

Nenhum homem nem nenhuma na√ß√£o podem existir sem uma ideia sublime. E no mundo existe uma √ļnica ideia sublime – nomeadamente, a ideia da imortalidade da alma do homem – pois todas as outras ideias ‘sublimes’ de vida, que d√£o vida ao homem, s√£o meras deriva√ß√Ķes desta √ļnica ideia.

Suicídio e Imortalidade

Est√° claro que o suic√≠dio, quando se perdeu a ideia da imortalidade, torna-se de uma imprescindibilidade absoluta e inevit√°vel para todo o homem que tenha alguma no√ß√£o da sua superioridade sobre os animais. Pelo contr√°rio, a imortalidade que nos promete uma vida eterna amarra o homem, por isso mesmo, mais fortemente √† Terra. Poder√° parecer que h√° aqui contradi√ß√£o; se h√° tanta vida, quer dizer, a imortal, al√©m da terrena, porque estimar tanto esta √ļltima? Acontece o contr√°rio; √© em virtude da sua f√© na imortalidade que o homem alcan√ßa o seu fim razo√°vel na Terra. Sem f√© na imortalidade quebram-se os la√ßos que prendem o homem √† Terra, tornando-se mais subtis, mais frouxos, e a perda do alto conceito da vida (ainda que se sinta apenas em forma de inconsciente pesar) leva, inevit√°velmente, ao suic√≠dio.
Quando t√£o indispens√°vel se torna a f√© na imortalidade para a vida do homem, que √© o estado normal da humanidade, e, sendo assim, ¬ęn√£o h√° d√ļvida de que existe tamb√©m a imortalidade da alma humana¬Ľ. Numa palavra: que a ideia da imortalidade √© a vida homem, que √© o estado normal da humanidade, e, sendo fonte da verdade e a verdade consci√™ncia para a humanidade.

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Literatura e Imortalidade

Que pensa dos nossos escritores do momento, prosadores, poetas e dramaturgos?
Citar √© ser injusto. Enumerar √© esquecer. N√£o quero esquecer ningu√©m de quem me n√£o lembre. Confio ao sil√™ncio a injusti√ßa. A √Ęnsia de ser completo leva ao desespero de o n√£o poder ser. N√£o citarei ningu√©m. Julgue-se citado quem se julgue com direito a s√™-lo. Ressalvo assim todos. Lavo as m√£os, como Pilatos; lavo-as, por√©m, inutilmente porque √© sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que ele √© j√° o futuro? Quem s√£o os meus contempor√Ęneos? S√≥ o futuro o poder√° dizer. Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo. Esses s√£o apenas os meus conterr√Ęneos no tempo; e eu n√£o quero ser bairrista em mat√©ria de imortalidade. Na d√ļvida, repito, n√£o citarei ningu√©m.

Em Louvor das Crianças

Se h√° na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino √© o da inf√Ęncia. A esse pa√≠s inocente, donde se √© expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados ‚ÄĒ a tais regressos se chama, √†s vezes, poesia. Essa esp√©cie de terra m√≠tica √© habitada por seres de uma t√£o grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi √†s crian√ßas, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Para√≠so.
A sedu√ß√£o das crian√ßas prov√©m, antes de mais, da sua proximidade com os animais ‚ÄĒ a sua rela√ß√£o com o mundo n√£o √© a da utilidade, mas a do prazer. Elas n√£o conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que s√£o, como disse Saint-Exup√©ry, o dinheiro e a vaidade. Estas fr√°geis criaturas, as √ļnicas desde a origem destinadas √† imortalidade, s√£o tamb√©m as mais vulner√°veis ‚ÄĒ elas t√™m o peito aberto √†s maravilhas do mundo, mas est√£o sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, n√£o diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que,

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As Coisas Humanas São Efémeras E Sem Valor

Pensa de cont√≠nuo em quantos m√©dicos morreram, eles que tinham tanta vez carregado o sobrolho √† cabeceira dos seus doentes; quantos astr√≥logos que julgaram maravilhar os outros predizendo-lhes a morte; quantos fil√≥sofos ap√≥s uma infinidade de √°speras disputas sobre a morte e a imortalidade; quantos pr√≠ncipes depois de terem dado a morte a tanta gente; quantos tiranos que, como se fossem imortais, abusaram, com uma arrog√Ęncia nunca vista, do poder, a ponto de atentarem contra a vida humana. Quantas cidades, se assim podemos dizer, morreram de raiz: Heliqu√©, Pompeia, Herculano, e outras que n√£o t√™m conto! Enumera agora, um ap√≥s outro todos aqueles que conheceste. Este, depois de prestar os √ļltimos servi√ßos √†quele, foi posto de p√©s juntos no leito f√ļnebre por um terceiro a quem tamb√©m chegou a sua vez.
E em t√£o pouco espa√ßo de tempo! Em suma, as coisas humanas √© consider√°-las como ef√©meras e sem valor: ontem, um pouco de greda; amanh√£, m√ļmia e um punhado de cinzas. Esta min√ļscula dura√ß√£o vive-a a tom com a natureza e chega ao fim com a alma contente: como a azeitona madurinha que tombasse aben√ßoando a terra que a criou e dando gra√ßas √† √°rvore que a deixou crescer.

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O Desejo de Criar

Diotima: Qual √©, S√≥crates, na sua opini√£o, a causa deste amor, deste desejo? Voc√™ j√° observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando s√£o tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possu√≠dos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necess√°rio alimentar os filhos? (… ) Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do poss√≠vel, perpetuar-se e imortalizar-se. Apenas desse modo, por meio da procria√ß√£o, a natureza mortal √© capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [… ] Pois saiba, S√≥crates, que o mesmo vale para a ambi√ß√£o dos homens. Voc√™ ficar√° assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a n√£o ser que compreenda o que eu disse, e reflicta sobre o que se passa com eles quando s√£o tomados pela ambi√ß√£o e pelo desejo de gl√≥ria eterna. √Č pela fama, mais ainda que pelos seus filhos, que eles se disp√Ķem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e at√© mesmo sacrificar as suas vidas. [… ] Aqueles cujo instinto criador √© f√≠sico recorrem de prefer√™ncia √†s mulheres e revelam o seu amor dessa maneira,

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O Mal Saltitante

A morte √© apenas uma consequ√™ncia da nossa maneira de viver. Vivemos de pensamento em pensamento, de sensa√ß√£o em sensa√ß√£o. Os nossos pensamentos e as nossas sensa√ß√Ķes n√£o correm tranquilamente como um rio, ¬ęocorrem-nos¬Ľ, caem em n√≥s como pedras. Se te observares bem, sentir√°s que a alma n√£o √© algo que vai mudando de cor em grada√ß√Ķes progressivas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos saindo de um buraco negro. Neste momento tens um pensamento ou uma sensa√ß√£o, e no seguinte aparece outro, diferente, como que sa√≠do do nada. Se deres aten√ß√£o, at√© podes sentir o instante entre dois pensamentos, quando tudo se torna negro. Esse instante, uma vez apreendido, √© para n√≥s o mesmo que a morte.
Pois a nossa vida resume-se a definir marcos e a saltar de um para o outro, diariamente, passando por milhares de instantes de morte. De certo modo, vivemos apenas nos pontos de repouso. √Č por isso que temos esse medo rid√≠culo da morte irrevers√≠vel, porque ela √©, em absoluto, o lugar sem marcos, o abismo insond√°vel em que ca√≠mos. Na verdade, ela √© a nega√ß√£o absoluta daquela maneira de viver.
Mas isto só é assim quando visto da perspectiva desta vida,

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A Ilusão da Consistência da Obra do Escritor

O homem n√£o √© permanentemente igual a si mesmo. A velha concep√ß√£o dos car√°cteres rectil√≠neos e das mentalidades cristalizadas em sistemas imut√°veis abriu fal√™ncia. Tudo muda, no espa√ßo e no tempo. Para um organismo vivo, existir – mesmo no ponto de vista som√°tico – √© transformar-se. Quando come√ßamos cedo e envelhecemos na actividade das letras, n√£o h√° um n√≥s apenas um escritor; h√°, ou houve, escritores sucessivos, m√ļltiplos e diversos, representando estados de evolu√ß√£o da mesma mentalidade incessantemente renovada. Ao chegar a altura da vida em que a estabiliza√ß√£o se opera, olhamos para tr√°s, e muitas das nossas pr√≥prias obras parecem-nos escritas por um estranho, t√£o longe se encontram j√°, n√£o apenas dos nossos processos liter√°rios, mas do nosso esp√≠rito, das nossas tend√™ncias, da nossa orienta√ß√£o, dos nossos pontos de vista √©ticos e est√©ticos.
Nesse exame retrospectivo, por vezes doloroso, se de algumas coisas temos de louvar-nos Рobras a que a nossa mocidade comunicou a chama viva do entusiasmo e da paixão -, de outras somos forçados a reconhecer a pobreza da concepção, os vícios da linguagem, as carências da técnica, e tantas vezes (poenitet me!) as audácias, as incoerências, as injustiças, as demasias, a licença de certas pinturas de costumes e o erro de certas atitudes morais.

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A Busca da Glória

Com que pensamento nas suas mentes supor√≠amos que esta tropa de homens ilustres perdeu a vida pelo bem p√ļblico? Seria para que o seu nome ficasse restrito aos limites estreitos de sua vida? Ningu√©m jamais se teria exposto √† morte pelo seu pa√≠s sem uma boa esperan√ßa de alcan√ßar a imortalidade. Tem√≠stocles poderia ter levado uma vida tranquila (…) e eu poderia ter feito o mesmo. Mas acontece que, de algum modo, foi implantado na mente dos homens um pressentimento profundamente arraigado sobre as eras futuras, e tal sentimento torna-se mais forte e mais patente nos homens dotados de g√©nio e esp√≠rito mais elevado. Retire-se tal sentimento, e quem seria louco de passar a vida em constante perigo e labuta? At√© aqui falei de estadistas, mas e os poetas? N√£o possuem eles algum desejo de fama ap√≥s a morte? (…) Mas porqu√™ parar nos poetas? Os artistas anseiam tornar-se famosos ap√≥s a morte.

Permitir-se algum Deslize

Que um descuido costuma ser às vezes a maior recomendação dos dotes. A inveja tem o seu ostracismo, tanto mais civil quanto mais criminoso; acusa o muito perfeito de pecar por não pecar, e, por ser perfeito em tudo, condena-o tudo. Faz-se Argos em busca de faltas no muito bom, para consolo ao menos. A censura, como o raio, fere o que mais se alça. Que Homero então às vezes dormite, e afecte algum descuido no engenho ou no valor, mas nunca na cordura, para sossegar a malevolência, que não rebente peçonhenta. Será como atirar a capa ao touro da inveja, para salvar a imortalidade.

Felicidade e Prazer

Devemos estudar os meios de alcan√ßar a felicidade, pois, quando a temos, possu√≠mos tudo e, quando n√£o a temos, fazemos tudo por alcan√ß√°-la. Respeita, portanto, e aplica os princ√≠pios que continuadamente te inculquei, convencendo-te de que eles s√£o os elementos necess√°rios para bem viver. Pensa primeiro que o deus √© um ser imortal e feliz, como o indica a no√ß√£o comum de divindade, e n√£o lhe atribuas jamais car√°cter algum oposto √† sua imortalidade e √† sua beatitude. Habitua-te, em segundo lugar, a pensar que a morte nada √©, pois o bem e o mal s√≥ existem na sensa√ß√£o. De onde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte nada ser nos permite fruir esta vida mortal, poupando-nos o acr√©scimo de uma ideia de dura√ß√£o eterna e a pena da imortalidade. Porque n√£o teme a vida quem compreende que n√£o h√° nada de tem√≠vel no facto de se n√£o viver mais. √Č, portanto, tolo quem declara ter medo da morte, n√£o porque seja tem√≠vel quando chega, mas porque √© tem√≠vel esperar por ela.
√Č tolice afligirmo-nos com a espera da morte, visto ser ela uma coisa que n√£o faz mal, uma vez chegada. Por conseguinte, o mais pavoroso de todos os males,

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A Felicidade Est√° Fora da Nossa Realidade

O amoroso apaixonado j√° n√£o vive em si, mas no que ama; quanto mais se afasta de si para se fundir no seu amor, mais feliz se sente. Assim, quando a alma sonha em fugir do corpo e renuncia a servir-se normalmente dos seus org√£os, podeis dizer com raz√£o que ele enlouquece. As express√Ķes correntes n√£o querem dizer outra coisa: ¬ęN√£o est√° em si… Volta a ti… Ele voltou a si.¬Ľ E quanto mais perfeito √© o amor, maior a loucura e mais feliz.
Quem ser√°, pois, essa vida no C√©u, √† qual aspiram t√£o ardentemente as almas piedosas? O esp√≠rito, mais forte e vitorioso, absorver√° o corpo; isto ser√° tanto mais f√°cil quanto mais purificado e extenuado tiver sido o corpo durante a vida. Por sua vez, o esp√≠rito ser√° absorvido pela suprema Intelig√™ncia, cujos poderes s√£o infinitos. Assim se encontrar√° fora de si mesmo o homem inteiro e a √ļnica raz√£o da sua felicidade ser√° de n√£o mais se pertencer, mas de submeter-se a este soberano inef√°vel, que tudo atrai a si.
Uma tal felicidade, é certo, só poderá ser perfeita no momento em que as almas, dotadas de imortalidade, retomem os antigos corpos. Mas, como a vida dos piedosos não é mais do que a meditação sobre a eternidade e como que a sombra dela,

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