Passagens sobre Sucess√£o

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Frases sobre sucess√£o, poemas sobre sucess√£o e outras passagens sobre sucess√£o para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Destino, Acaso ou Coincidência

Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril.
E, contudo, n√£o faltar√° ao mesmo tempo quem negue a exist√™ncia daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que est√° feito, feito est√°, o que tem se ser tem muita for√ßa e por a√≠ fora. Por outras palavras, quer queiramos quer n√£o, a nossa exist√™ncia resume-se a uma sucess√£o de instantes passageiros aprisionados entre o ¬ętudo¬Ľ que ficou para tr√°s e o ¬ęnada¬Ľ que temos pela frente. Decididamente, neste mundo n√£o h√° lugar para as coincid√™ncias nem para as probabilidades.
Na verdade, por√©m, n√£o se pode dizer que entre esses dois pontos de vista exista uma grande diferen√ßa. O que se passa – como, de resto, em qualquer confronto de opini√Ķes – √© o mesmo que sucede com certos pratos culin√°rios: s√£o conhecidos por nomes diferentes mas, na pr√°tica, o resultado n√£o varia.

História não é só Cronologia

Um dos principais defeitos dos trabalhos históricos no nosso país parece-me ser a insulação de cada um dos aspectos sociais de qualquer época, que nunca se conhecerá, nem entenderá, enquanto a sociedade se não estudar em todas as suas formas de existir, enquanto se não contemplar em todos os seus caracteres.
Estas cartas, se merecerem a aprovação de V. Exas., poderão algum dia servir, no que tiverem de bom, se o tiverem, de esclarecimento e notas a uma parte da História Portuguesa, como eu concebo que ela se deveria escrever: história não tanto dos indivíduos como da Nação; história que não ponha à luz do presente o que se deve ver à luz do passado; história, enfim, que ligue os elementos diversos que constituem a existência de um povo em qualquer época, em vez de ligar um ou dois desses elementos, não com os outros que com ele coexistem, mas com os seus afins na sucessão dos tempos.
A hist√≥ria pode comparar-se a uma coluna pol√≠gona de m√°rmore. Quem quiser examin√°-la deve andar ao redor dela, contempl√°-la em todas as suas faces. O que entre n√≥s se tem feito, com honrosas excep√ß√Ķes, √© olhar para um dos lados,

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O Drama de Amar

O drama de amar √© n√£o haver suced√Ęneos.
E tudo o resto sabe a merda. Porque houve o teu abra√ßo, porque existe o teu cheiro. Amei-te para sempre mesmo que j√° n√£o te ame. Ficou em mim a tarde em que pela primeira vez o nosso corpo (o teu arfar a mostrar-me que l√≠ngua se fala no cńóu, a tua boca a mostrar-me o tamanho de um beijo), e a partir da√≠ fiquei √≥rf√£o de um corpo sempre que n√£o fosse o teu corpo. E quando chegou o dia da despedida eu soube que tinha chegado o dia de para sempre.
O drama de amar é não admitir a morte.
Há uma mulher a mais sempre que amo um corpo que não é o teu. E um homem a menos. Deito-me, aperto, espremo (o encaixe perfeito das tuas costas nos meus braços, o cheiro dos teus lábios no suor do meu pescoço). E até um orgasmo comprova a hipocrisia da carne. Despedi-me de orgasmos quando me despedi de ti. Já me deitei com tantas e é sempre o teu boa-noite que me adormece.
O drama de amar é só criar réplicas.
Tudo o que amo és tu.

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A Vida é um Hábito

O h√°bito √© o balastro que prende o c√£o ao seu v√≥mito. Respirar √© um h√°bito. A vida √© um h√°bito. Ou melhor, a vida √© uma sucess√£o de h√°bitos, porque o indiv√≠duo √© uma sucess√£o de indiv√≠duos […] ¬ęH√°bito¬Ľ √© pois o termo gen√©rico para os in√ļmeros contratos celebrados entre os in√ļmeros sujeitos que constituem o indiv√≠duo e os seus in√ļmeros objectos correlativos. Os per√≠odos de transi√ß√£o que separam as consecutivas adapta√ß√Ķes […] representam as zonas perigosas na vida do indiv√≠duo, perigosas, penosas, misteriosas e f√©rteis, em que, por um momento, o t√©dio de viver √© substitu√≠do pelo sofrimento de ser.

A forma e o conte√ļdo s√£o indissoci√°veis e a qualquer livro que n√£o tome isso em considera√ß√£o falta uma no√ß√£o fundamental da literatura. Se a forma n√£o servir o conte√ļdo n√£o me interessa, se por outro lado a forma for uma sucess√£o de malabarismos liter√°rios sem nenhum outro prop√≥sito tamb√©m n√£o me interessa.

Gostaria mesmo que você me visse e assistisse a minha vida sem eu saber, ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma.

Ame sem poder e verá o que lhe acontece; verá como a vida se vinga; o melhor que lhe poderá suceder é casar. Mas isso é um mal elementar.

O Homem Perfeito

A virtude subdivide-se em quatro aspectos: refrear os desejos, dominar o medo, tomar as decis√Ķes adequadas, dar a cada um o que lhe √© devido. Concebemos assim as no√ß√Ķes de temperan√ßa, de coragem, de prud√™ncia e de justi√ßa, cada qual comportando os seus deveres espec√≠ficos. A partir de qu√™, ent√£o, concebemos n√≥s a virtude? O que no-la revela √© a ordem por ela pr√≥pria estabelecida, o decoro, a firmeza de princ√≠pios, a total harmonia de todos os seus actos, a grandeza que a eleva acima de todas as conting√™ncias. A partir daqui concebemos o ideal de uma vida feliz, fluindo segundo um curso inalter√°vel, com total dom√≠nio sobre si mesma. E como √© que este ideal aparece aos nossos olhos? Vou dizer-te.
O homem perfeito, possuidor da virtude, nunca se queixa da fortuna, nunca aceita os acontecimentos de mau humor, pelo contr√°rio, convicto de ser um cidad√£o do universo, um soldado pronto a tudo, aceita as dificuldades como uma miss√£o que lhes √© confiada. N√£o se revolta ante as desgra√ßas como se elas fossem um mal originado pelo azar, mas como uma tarefa de que ele √© encarregado. ¬ęSuceda o que suceder¬Ľ, ‚ÄĒ diz ele ‚ÄĒ ¬ęo caso √© comigo;

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Nunca se sabe aquilo que basta. Talvez baste um poema, uma coisa m√≠nima, viva, nossa, uma coisa sub-rept√≠cia para empunhar diante do implac√°vel acordo das formas exteriores. Tamb√©m pode ser que nada baste. E nesse caso tanto faz escrever um romance ou cem poemas ou apenas um poema, ou ler ou emendar o c√©u astron√≥mico ou manter-se parado no meio de um jardim h√ļmido e silencioso, √† noite. At√© pode suceder que a morte n√£o seja bastante.

Este Livro Podia Acabar Aqui

Este livro podia acabar aqui. Sempre gostei de enredos circulares. E a forma que os escritores, pessoas do tamanho das outras, t√™m para sugerir eternidade. Se acaba conforme come√ßa √© porque n√£o acaba nunca. Mas tu, eu, os Flauberts, os Joyces, os Dostoievskis sabemos que, para n√≥s, acaba. Com um ligeiro desvio, os c√≠rculos transfor-mam-se em espirais e, depois, basta um ponto como este: . O bico de uma caneta espetada no papel. Um gesto a acertar na tecla entre , e -. Um movimento sobre um quadradinho de pl√°stico. Isto: . Repara como √© pequeno, insuficiente para espreitarmos atrav√©s dele, floco de cinza a planar, resto de formiga esmagada. Se o pud√©ssemos segurar entre os dedos, n√£o ser√≠amos capazes de senti-lo, gr√£o de areia. Mas tu ainda est√°s a√≠, ol√°, eu ainda estou aqui e n√£o poderia ir-me embora sem te agradecer. A√≠ e aqui ainda √© o mesmo lugar. Sinto-me grato por essa certeza simples. A paisagem, mundo de objectos, apenas ganhar√° realidade quando deixarmos estas palavras. At√© l√°, temos a cabe√ßa submersa neste tempo sem rel√≥gios, sem dias de calend√°rio, sem esta√ß√Ķes, sem idade, sem agosto, este tempo encadernado. As tuas m√£os seguram este livro e, no entanto,

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O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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O √öltimo N√ļmero

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A id√©ia estertorava-se… No fundo
Do meu entendimento moribundo
jazia o √ļltimo n√ļmero cansado.

Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucess√£o, estranho ao mundo,
Com o reflexo f√ļnebre do Increado:

Bradei: – Que fazes ainda no meu cr√Ęnio?
E o √ļltimo n√ļmero, atro e subterr√Ęneo,
Parecia dizer-me: “√Č tarde, amigo!

Pois que a minha ontogênica Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
N√£o te abandono mais! Morro contigo!”

Eu leio nos jornais que a sucess√£o vai ser decidida em 1978. A√≠, consulto minha folhinha e vejo que n√£o estamos em 1978, mas em novembro de 1977. A√≠ leio de novo o que voc√™s est√£o escrevendo (jornalistas), e percebo que se baseiam em ‚Äėconversas de jantares √≠ntimos‚Äô. Como eu n√£o ou√ßo conversas √≠ntimas, nem pesquiso atividades n√£o oficiais, n√£o posso nem confirmar, nem desmentir o que leio.

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças, pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.

N√£o Tenhas Medo do Passado

N√£o tenhas medo do passado. Se as pessoas te disserem que ele √© irrevog√°vel, n√£o acredites nelas. O passado, o presente e o futuro n√£o s√£o mais do que um momento na perspectiva de Deus, a perspectiva na qual dever√≠amos tentar viver. O tempo e o espa√ßo, a sucess√£o e a extens√£o, s√£o meras condi√ß√Ķes acidentais do pensamento. A imagina√ß√£o pode transcend√™-las, e mais, numa esfera livre de exist√™ncias ideais. Tamb√©m as coisas s√£o na sua ess√™ncia aquilo em que decidimos torn√°-las. Uma coisa √© segundo o modo como olhamos para ela.

Que Encanto é o Teu?

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. N√£o finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um c√Ęntico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante h√° que inventar de novo,

t√£o quase √© coisa ou sucess√£o que passa…
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

O Significado do Progresso

Que devemos entender por essa palavra? Se a definirmos como bons gramáticos, diremos que é um acréscimo de bem ou de mal, na medida em que possamos discernir entre o bem e o mal; e estaremos assim a representar o próprio avanço da humanidade. Mas se, como se faz nesta época em que não se sabe mais pensar nem falar, dissermos que o progresso é o movimento da humanidade que se aperfeiçoa sem cessar, estaremos a dizer uma coisa que não corresponde à realidade. Esse movimento não se observa na História, a qual só nos apresenta uma sucessão de catástrofes e de avanços seguidos de retrocessos.

H

Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

l√° longe numa fonte cheia de fogos-f√°tuos.